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segunda-feira, 11 de julho de 2011

Esperando passar a guerra

           
                                             
O ano em que se iniciou a Primeira Grande Guerra só foi ruim para os outros. Na Bahia, porém, tudo foi bem em matéria de futebol. Pois a guerra aqui havia sido dois anos antes quando os clubes grã-finos se afastaram da liga por não concordar com jogadores “de cor”, por haver no Campo da Pólvora uma torcida mais popular atraída pelo crescimento do esporte, pela existência de uma nova liga dos clubes pequenos, e pelo fato do Campo da Pólvora ser “muito aberto” e o Campo do Rio Vermelho ter acesso péssimo.
No terceiro campeonato baiano, realizado em 1907, os jogos foram transferidos para o segundo para que pudesse ser cobrado ingresso e “selecionar” o público. Criaram as cadeiras, as gerais, os cavaleiros e as carruagens. Embora não fosse brincadeira levar o pessoal para o bairro tendo em vista a precariedade dos transporte.
Dessa forma até que fosse construído o estádio da Graça em 1920 ficou essa pendencia sendo os jogos do Campo da Pólvora muito mais populares. Os clubes que saíram na leva de 1912, entre eles o SC Vitória, só voltaram na animação para a construção do estádio que permitiu unificar o fut6ebol baiano.
                                                    Andar era mesmo de bonde!

Mas em 1914 houve um renascimento de ânimos e foi fundada uma nova liga.  O Ypiranga se filiou à liga dos pequenos e o tradicional Internacional se refiliou, voltando ao convívio da mesma. Imaginem que de todos os lados surgiam clubes, da elite, dos trabalhadores, dos bairros populares e das escolas, sendo fundados os Yankees FC, a Associação Athlética da Bahia, o Caixeral SC, o tradicional Botafogo SC, o São Bento, o Primeiro de Novembro, o Tejo, o Guarany, o Néo-Grego (sic!), etç., etç.
Não dá pra entender pelo Almanaque Esportivo a razão de toda esta animação. Está claro que isto se deve ao crescimento do futebol, mas o que se diz ali foi que isto se deu em razão de uma temporada do navio escola Benjamin Constant (?), mas o que eu acho mesmo é que se deve á solução do conflito político entre o governador e o presidente da Assembleia Legislativa que acabou com a existência de dois governadores, a capital do estado sendo mudada pra Jequié e o bombardeio do Palácio do Governo na Rua Chile.
Vocês não sabem que baiano também briga? Quanto ao Benjamin Constant caiu de quatro para o mais querido, e não conseguiu ganhar nem na revanche que acabou empatada por um gol. Com tanta novidade o campeonato só começou perto do São João com o Fluminense ganhando do Brasileiro por dois a um.
                                        Era um tempo em que homem tinha que ter bigode!

Já o auri negro arrastou uma multidão ao Campo da Pólvora para ver a sua estreia que terminou sem gols contra o mesmo Fluminense. A primeira equipe do clube que tantas glórias deu á Bahia foi á campo com Astrolábio, Turíbio e Albertino; Lelé, Coelho e Spínola; Aloysio Bahia, Carvalho, Macaggi, Pinheiro e Arthur Silva. Mas nesse ano não arranjou nada a não ser no certame de Segundos Times.
O Internacional sagrou-se campeão invicto e levando apenas um gol, do Brasileiro, no jogo em que venceu por dois a um. Mas, nem se pode falar de absurda superioridade pois todas as suas partidas foram vencidas pelo escore mínimo. Seu time tinha como base Nova, Luiz França e Oscar Nova; Elpídio, Trigueiro e Constâncio Diogo; Dermeval Macedo Neves, Álvaro Tosta, José Soares, Pinheiro e Raul Bonfim.
Quanto a Liga Sportiva da Bahia sobreviveu dois anos, organizou campeonatos embora não tenham reconhecimento oficial até hoje! Quanto á animação terminou cedo. É que naquele tempo qualquer juiz ladrão, faltas em campo, ou vaias da torcida terminava em discussão na liga.
                                           Os grânfinos não queriam saber de porrada!

Foi por causa disso que o Guarany abandonou o certame no meio do ano seguinte e o próprio Ypiranga quando terminou o campeonato que o Fluminense conquistou. Seguramente isso se deve as partidas decisivas do mês de setembro quando o auri negro perdeu por dois a zero de seu principal concorrente, e, como os “índios” haviam saído, estes acabaram levando a taça de lambuja.
O campeonato de 1916 foi mais pobre, contando com apenas cinco clubes e sem a presença de Ypiranga e Guarany. Pra complicar a Intendência Municipal proibiu a realização de jogos no lugar de maior afluência de público, o Campo da Pólvora, sob a desculpa de que iria ajardiná-lo. Assim, o jeito foi a liga parar o certame e fazer um contrato com o proprietário do terreno do Rio Vermelho.
O público diminuiu em 90%, em função da dificuldade do transporte e da cobrança de ingressos. No retorno o Botafogo ganhou do Sul América por seis a um com o campo ás moscas. Foi o único título baiano que o República conquistou em sua história, e invicto, com quatro vitórias e quatro empates, graças a ser reforçado com atletas do co-irmão Ypiranga que se omitiu em participar.
                                          Pô, sacanagem bombardear o Palácio Rio Branco!

O Ypiranga, como time popular, só voltaria á liga no ano da revolução russa. O auri negro passou no fio todos os adversários, saindo também invicto e tomando um único gol, do alvi rubro na vitória por três a um, levando a taça oferecida pela Casa Condor. Este ano apresentou como novidade a formação do selecionado baiano. Foi durante as festas de aniversário da cidade de Aracajú, capital do vizinho estado de Sergipe que já fez parte da Capitania da Bahia.
Primeiro foi o República que foi jogar no vizinho estado perdendo pelo escore mínimo daquele selecionado. E, no dia da morte de Tiradentes, os sergipanos vem bater por aqui pra fazerem uma guerra interna contra os baianos. Tiveram uma recepção de primeira. Um trem foi espera-los em Periperi, teve filarmônica tocando, corbeille de flores, sessão solene na embaixada e tudo. Mas na hora do jogo o República não teve dó nem piedade vencendo por sete a zero.
Aí os sergipanos resolveram pedir revanche. A derrota havia sido muito humilhante, mesmo que significasse uma vitória para cada lado. E quem foi enfrenta-los no outro dia foi a própria seleção baiana. Como já tinha apanhado de sete a assistência não foi das melhores. Uma pena não assistir a primeira exibição de nosso selecionado, que venceu por seis a um.

                                               Naquele tempo nem havia Lady Gaga!

Nossa seleção jogou com João Nova, Carapicu e Péricles; Anysio, Artur Coelho e Elpidio; Carlito, Tosta, Oscar Nova, Pernambuco e Franco. Enquanto os sergipanos formaram com Victor, Cravo e Lauro; Jonas, Leite e Dudu; Carneiro, Clóvis, Godofredo, Umberto e Waldemar. O futebol dos vizinhos havia sido desmoralizado, tanto que nem quiseram mais saber de jogos com os baianos por algum tempo.
O último ano da guerra mundial viu continuar as guerrinhas baianas. O campeão República se afastou antes do início do campeonato, ajudando a exculhambar o certame, e o Fluminense quase se retira também alegando “maus costumes” dos torcedores. Mais tarde um jogo entre Ypiranga e Botafogo, ganho pelo primeiro por um a zero, e onde o alvirrubro fez um gol em impedimento, foi absurdamente anulado pela liga que passou por cima de tudo pra ajudar os diabos rubros.
A indisciplina campeava no Rio Vermelho cujas “arquibancadas” estavam de fazer dó. Do arame que cercava o campo do Rio Vermelho nem sinal. Da grama quase nada mais restava, e até a garagem onde os jogadores mudavam a roupa estava pra cair. Os atletas ameaçavam vestir a roupa em campo na vista dos assistentes, inclusive senhoras, que horror!
                           Foi nesta época que se começou a construir o metrô de Salvador!

Culpava-se os juízes por tudo, os jogadores jogavam faltando peças do uniforme, e a porrada rolava solta fazendo inclusive com que os times terminassem os jogos com menos jogadores. A fase sem estádio do futebol baiano vivia seus últimos dias e perdia jogadores até pra Sergipe.
Neste ano bem que se tentou trazer o famoso Palestra Itália pra jogar no estádio. Conversou-se muito, anunciou-se e...nada. Os paulistas nem deram bola pros baianos. Foi se formando um consenso que as coisas não podiam ficar assim. A liga se movimentou realizando um festival pra arrecadação de fundos pra melhorar as condições da prática do futebol.
Este, entretanto, se foi um fracasso financeiro, pelo menos serviu pra alertar a sociedade de que aquele que estava se tornando seu principal esporte poderia ir “pras cucuias”. Neste ano o Ypiranga se sagrou campeão aos “trancos e barrancos” e se começou a pensar em construir um estádio para o futebol da Bahia. Mas isso só viria em 1920, após terminar a guerra na Europa.

·        Agradeço ao Almanaque Esportivo da Bahia (1944) e aos blogs outroladodanoticias.com e cetesquerda.blogspot.com.  

sexta-feira, 20 de maio de 2011

Os últimos samurais

                                     

Os samurais eram nobres guerreiros que viveram no Japão durante mil anos, desaparecendo por ocasião da modernização capitalista do país na chamada Restauração Meiji em meados do Século XIX. No início trabalharam como servidores civis do império e disciplinadores dos camponeses, atuando até como coletores de impostos. Por volta do Século X adquiriam novas funções, inclusive a militar, adestrando-se nas artes marciais e adquirindo reputação que os levou a ser contratados pelos senhores feudais e chegaram a se constituir numa casta e o samurai passou a ser um título passado de pai pra filho.
Vestiam uma armadora e carregavam um par de espadas sendo exímios no arco e flecha, foice e bastão. Tinham um código de honra não escrito, o bushidô e não podiam demonstrar medo ou covardia em qualquer situação. Deviam também vingar aqueles que perseguiam ou assassinavam membros de seu clã.  Eram orgulhosos e não admitiam de forma nenhuma a desonra preferindo tirar a própria vida a morrer sem honra.  A morte era um modo de perpetuar a sua existência.
Nestas ocasiões praticavam o haraquiri ou seppuku que consistia em sentar-se no chão e fincar uma pequena espada do lado esquerdo do abdômen cortando a região central do corpo terminando por puxar a lâmina para cima, numa cerimônia que causava uma morte dolorosa que poderia durar várias horas. Para evitar que o samurai fraquejasse durante esta última tarefa chamavam um assistente, geralmente uma pessoa da família, que lhe cortaria a cabeça perante o menor sinal de hesitação.

                                            Samurai baiano que se preza dá tapa mesmo!

As enciclopédias que tratam dos samurais, porém, não sabem que o samurai também existiu no Brasil. Tanto que até se comemora em São Paulo o dia do samurai. E o que muita gente não sabe, mas desconfia, é que o belo filme O último samurai, de Edward Zwick, interpretado pelos atores Tom Cruise e Ken Watanabe, é na verdade uma homenagem aos samurais baianos Galícia e Ypiranga.
O futebol baiano é um dos mais antigos do país do futebol. Foi na Salvador de 1901 que foi jogado o primeiro amistoso internacional do país entre Vitória e um combinado de marinheiros de navios ingleses estacionados na baía de todos os santos numa cidade que produziu o primeiro clube com maioria de sócios brasileiros, o EC Vitória.
O campeonato baiano começou desde 1905 e teve pelo menos três grandes períodos, aquele até 1921, onde era jogado nos campos da Pólvora e do Rio Vermelho; entre 1922 e 1950, quando as partidas eram realizadas no antigo Estádio da Graça de arquibancadas de madeira; e o da nossa histórica Fonte Nova, a partir de 1951.
                                   Vejam o Galícia como era altaneiro lá no Parque Santiago!

Em cada uma dessas épocas lutaram destemidamente os nossos samurais enfrentando todas as adversidades. Foi na primeira época que jogaram o Rio Vermelho Team, o Clube de Natação e Regatas São Salvador e o Sport Club Santos Dumont, este último até antes do inventor da aviação ser famoso. Todos, entretanto, se suicidariam por não aguentar tantas maracutaias da Liga Bahiana de Desportos Terrestres.
Mas outros samurais vieram substituí-los aguentando os difíceis anos de guerra. O glorioso República resistiu até 1917, o CR Itapagipe, Santa Cruz FC e Internacional até 1920, o Sport Club Sul América até 1921, e até o São Bento, mesmo com o apoio estranho da Igreja Católica, existiu em nosso vale de lágrimas até 1921.
O Crack da Bolsa de Nova Iorque faz um grande estrago na economia mundial. O cenário dificultou a manutenção das políticas em benefício dos cafeicultores, cujos representantes políticos governavam o Brasil com aliança com os pecuaristas mineiros. O processo político brasileiro vai culminar na Revolução de 1930, quando, dissidentes do regime aliados a civis e oficiais modernistas derrotados nas eleições fraudadas, põem abaixo o governo de Washington Luís.
                                           A turma do Vitória não quis nem ver o haraquiri!

A modernização capitalista encetada pela revolução de 1930 foi um verdadeiro massacre obrigando ao suicídio em massa dos samurais baianos. Foi assim que se despediram da vida o Royal (1931), Antárctica (1932),o Sport Club Brasil (1936), o Fluminense Football Club (1937) e o Yankees FC (1938), a situação foi tão braba que nem o Democrata FC sobreviveu, sendo enterrada a democracia pela chamada revolução em 1932.
Só restaram poucos samurais que resistiram heroicamente, com suas espadas e bastões a introdução do carro, nos anos 40, aos condomínios na Pituba e a chegada da PETROBRAS, nos anos 50. Iniciava-se no Brasil um ciclo de lideranças populistas para as quais os samurais passaram a trabalhar. Mas novamente se deram mal com o golpe de 64 aposentando provisoriamente suas espadas e foices. Perderam até o FGTS.
Quando veio a industrialização dos anos 60 e 70 o país consolidou uma indústria cultural quando as emissoras de televisão alcançaram o monopólio nacional e a Fonte Nova se ampliou limitando os espaços dos clubes tradicionais. O foco agora eram as grandes torcidas e houve a tendência a reduzir a representação de Salvador á dupla BA-VI.
                                             Pôxa, que ataque do Ypiranga em Cajazeiras!

A situação dos samurais passou a ser muito grave e eles passaram a frequentar as ruas e a Fonte Nova com suas armaduras que antes tinham abandonado. Ficaram desempregados e os do Botafogo, Galícia e Ypiranga a toda hora eram assaltados. Chegou aos jornais o caso do samurai do São Cristóvão ter sua espada roubada no terminal da Barroquinha em pleno dia. No período os clubes de Salvador iniciam uma debacle que se aprofunda com a reestruturação econômica que começa a ocorrer ao final da ditadura.
Assim foram caindo um a um. O Guarany já havia praticado haraquiri em 1966, o São Cristóvão e o Monte Líbano logo depois. Posteriormente foi a vez do Palestra. Nos anos 80 morre misteriosamente o samurai Redenção em 1985, e o ABB no ano seguinte. Quanto ao Botafogo e Leônico, resistem desesperadamente até 1989 e 1992.  
Não havia lugar para os samurais esportivos num país que a cada dia se submetia ao American way off life e numa Salvador onde a cada dia se agravavam os problemas urbanos. Os dois últimos resistentes, Galícia e Ypiranga, não podiam mais sair de carro de casa, tendo que ir treinar suas artes marciais de taxi.  
                                              Na época o suicídio saiu até no Fantástico!

Haviam acabado as fantasias no carnaval, de modo que, para brincar na festa, tinha que ficar nas arquibancadas da prefeitura ou trabalhar como cordeiro. Ninguém mais queria contratar samurais e, pior, a profissão nem havia sido reconhecida pelo nosso sério Congresso Nacional. Os samurais baianos tiveram de vender as suas espadas, os seus bastões e foices, empenhar as suas armaduras na Caixa Econômica Federal, mudar-se da Pituba para Sussuarana, e conseguiram resistir até o fim dos desgraçados anos 90.
Foi em 1999 que praticaram o suicídio nossos últimos samurais, e o filme O último samurai é uma representação do seu fim. Nele, o Ypiranga é representado pelo capitão Algreen (Tom Cruise) e o Galícia, time de colônia estrangeira, por Katsumoto (Ken Watanabe).
Naquele ano a FBF agiu com malvadeza colocando os dois clubes para abrir o certame em 23 de janeiro, quando Katsumoto ganhou por um a zero. Cedo, porém, os dois começariam a ser derrotados, terminando em penúltimo lugar em seus grupos. No segundo turno começaram empatando mas desceram a ladeira da Agua Brusca e foram parar no último lugar, sem ganhar qualquer partida.

                                 E esses técnicos que não querem morrer quando o time perde!

No dia 25 de abril de 1999 o samurai azulino faria a sua última partida e com o Vitória. A situação de Katsumoto, digo do Galícia, era desesperadora, e até seus rivais choravam. No intervalo da partida sem gols chegaram os familiares e o antigo demolidor de campeões deu a honra a um primo para ser o assistente. Só restariam 45 minutos do clube na Primeira Divisão.
E, logo que o juiz apitou o fim da partida, os torcedores rubro negros foram brindados com um espetáculo desolador, o suicídio dos jogadores do samurai. Do goleiro ao ponta esquerda não sobrou um para contar a história, eu só soube por que estava presente.
E, no dia 2 de maio deu-se a despedida do capitão Aldreen, o nosso Ypiranga. Vocês se lembram de que o filme fica em dúvida sobre o que aconteceu com ele mas o que me disseram é que morreu mesmo devido aos ferimentos e não aquela “papagaiada” de voltar para ficar com a mulher do samurai que havia matado. Isso é coisa de americano!
                Teve quem achasse a espada dramático e preferisse se jogar no Dique do Tororó!

A morte do mais querido foi ainda mais dramática, e se deu num jogo contra o Bahia. Desta vez teve tudo o que tinha direito. Toda a televisão estava presente e até o Google. Negociaram inclusive com a FBF para a transmissão se dar depois do horário da novela, assim se o samurai teria que dormir tarde. A turma do deixa disso nem teve vez pois os torcedores tricolores queriam ver sangue. Tanto assim que aquele campeonato nem terminou, e foi, mais tarde, dividido entra a dupla BA-VI.
O samurai Ypiranga fez o que pode, lutando para não ser derrotado. A partida esteve empatada por duas vezes até quando o terceiro gol do Bahia selaria as esperanças dos nobres heróis. Nada mais restava a fazer do que chamar a família pra presenciar o seu fim. Mas antes houve a necessidade de se resolver alguns problemas.
Primeiro foi onde achar uma espada pois, como informei, os samurais haviam vendido tudo. A solução, no entanto, foi rapidamente encontrada porque os vendedores de coco do estádio entregaram os seus facões para a cerimonia. Outro problema era quem executaria o ato solene. É que o jornal A Tarde havia reclamado no suicídio dos jogadores do Galícia que os dirigentes também não deviam ser poupadas. O que vimos no haraquiri do Ypiranga honraria qualquer família de samurais do Japão.

                            Que vendedores de coco sacanas esses que emprestaram o facão!

Desceram os vinte e sete torcedores presentes, os 14 dirigentes, os jogadores, os reservas, o médico e o massagista para a autoimolação no gramado.   O técnico, Wanderléia Luxemburga quis regatear dizendo que nem era baiano, mas, um assistente cortou-lhe a cabeça com uma facãozada só que caiu como um coco.
Não dava mesmo pra desistir nem se quisesse. É que ajoelhou tem que rezar, e quem entrou naquela hora no campo teve que sentar pra “passar o facão”. Foi triste mesmo, mas confesso que assisti pelo rádio pois naquele ano só estava indo ao Barradão. Passaram o vídeo uma semana na televisão. Aliás, só assim que a Bahia saiu no Jornal Nacional.
Mas, lembram-se que o título do samurai passa de pai pra filho? Quem pensa que a história terminou aí se engana. Os filhos dos samurais não morreram e vem crescendo na Segunda Divisão do campeonato baiano. Quem sabe se eles voltam de novo e vamos ter um filme sobre os novos samurais?

·          Agradeço aos sites RSSSF Brasil e Wikipédia, e aos blogs crazyandfunnydays.blogspot.com e tvtelinha.com.

terça-feira, 29 de março de 2011

Elizabeth Taylor, o Palmeiras e meus quinze anos

  
Desde a semana passada fiquei incucado com a morte de Elizabeth Taylor, uma das atrizes que povoou os meus sonhos eróticos da adolescência. Aí me lembrei do que aconteceu no meu inesquecível aniversário de quinze anos em 1963! Nesse ano o Santos foi bicampeão mundial interclubes e o Brasil “bi” de basquete. E estreou seu filme Cleópatra (com a direção de Joseph Mankiewicz) onde ela trabalhou e contracenou com Richard Burton e Rex Harrison.
Foi uma época de grandes sucessos do cinema, havendo entre outros, América, América, de Elia Kazan, e Il Gattopardo, de Luchino Visconti, com Burt Lancaster, Alain Delon e Claudia Cardinale, e Irma La Dulce, de Billy Wilder, com Jack Lemmon e Shirley MacLaine.
Os Beatles estouraram com Please Please me e Love me do. Eram lançados álbuns antológicos como Joan Baez in concert, parte 2, Live at the Apollo (James Brown), e Ella Fitzgerald e Count Basie, assim como João Gilberto e Stan Getz iniciavam imorredouras parcerias.  Antônio Carlos Jobim lançava nos EUA O compositor de Desafinado.
                                                                Será que ela era tão feia?

Logo no início do ano o Brasil realizava um plebiscito que reconduziria o país ao presidencialismo. No entanto, quando o presidente Jango recuperou os poderes do cargo passou a tentar buscar aliados nos EUA e na direita brasileira, o que acabaria por lhe custar muito caro.
Em fevereiro o presidente John Kennedy aprovaria o embargo comercial com Cuba. No outro dia ocorre o primeiro voo do Boeing 727. E logo depois, em março, um golpe depõe o presidente do Equador.
O mês de abril começa com o pouso na Lua da sonda espacial soviética Luna IV. E é quando começa a nossa história esportiva. Dois dias depois o Bahia busca acertar seu time para a campanha onde iria buscar um inédito hexacampeonato. Na oportunidade faz um jogo-treino na Fonte Nova com o Grêmio de Alagoinhas (!) que termina, surpreendentemente, sem gols.
                                          Ah Jango, porque voçe não resolveu enfrentar?

Mas, para os dirigentes, a ocasião havia servidor pra acertar o time. Assim, se acha em condições de trazer equipes do Sul onde juntaria o útil ao agradável, entenda-se um bom dinheiro pros cofres do clube. Depois de contatar com várias equipes a escolha recai sobre a Sociedade Esportiva Palmeiras de São Paulo.
Esse clube tinha uma curta história no estado, onde apareceu pela primeira vez, com o nome de Palestra Itália, em setembro de 1937. Na oportunidade, apesar de encontrar facilidades com o Bahia (o qual derrotou por quatro a zero), empatou com Botafogo (3 X 3) e Ypiranga (2 X 2), e derrotou o Galícia “demolidor de campeões", por suados quatro a três. Cinco anos depois as circunstâncias da Segunda Grande Guerra que levaram á perseguição de italianos e japoneses fez com que mudasse de nome para SE Palmeiras.
Seis anos depois voltaria a nos visitar, quando perderia para o Ypiranga (2 X 3) e venceria novamente com facilidade o tricolor baiano por quatro a um e três a zero. Muitos clubes paulista frequentariam a Fonte Nova desde a sua inauguração em 1951, mas o Palmeiras só jogaria no estádio quinze anos depois da sua última apresentação. Já havia vencido a II Taça Brasil (1960) e contava com grandes jogadores como o goleiro Valdir, o defensor Waldemar Carabina, o formidável meia Ademir da Guia, o ponteiro Vavá, o meia Chinesinho e o centro avante Vavá.

Foi esse time, algo modificado, que aportou por aqui para comemorar a data da morte de Tiradentes. O jogo contra o tricolor baiano foi muito respeitoso. Com os dois times se estudante mutuamente. E o placar refletiu esses “estudos”, terminando com um gol de cada lado.
No entanto, como o Bahia estava acertando o time acabou propondo ao Palmeiras uma revanche. Já que já estava aqui mesmo, o tricolor não pagaria as passagens, só tendo gastos mesmo com hotel e alimentação. Assim, a cota do Palmeiras pode ficar bem mais em conta. Não posso deixar de me lembrar desse jogo, que ocorreu três dias depois do jogo comemorativo e exatamente no dia do meu aniversário de quinze anos.
Era uma idade importante que eu comemorava e pude verificar isto á noite, quando meu pai me comunicou, solenemente, que eu já poderia chegar em casa ás nove da noite. É claro que passei a esquecer o relógio em casa e fazer outros expediente pra que pudesse ganhar, pelo menos, mais uma hora. Mas pude perceber que já tinha mais responsabilidades, pois estava me tornando um “homem”.
                                                                  Que saudade!
Mas, nem o bolo nem a festa, nem mesmo os parabéns, fizeram com que eu desligasse o rádio onde jogavam de novo o nosso arquirrival com o porco paulista. Posso dizer que foi um aniversário com “cabelo e barba”, pois, entre os presentes que recebi um deles veio da Fonte Nova. É que nesse dia Zé Athayde cansou de gritar os gols do Palmeiras, que só parou quando estava em cinco à zero.
Como havia pedido a minha família que me desse dinheiro meu prazer (mostrando que ainda tinha muito tempo pela frente pra amadurecer) foi comprar todas as revistas que gostava na banca da esquina. Lembro-me que o proprietário até se assustou quando eu pedi tanta coisa pra levar. Mas quando cheguei em casa minha mãe Helena não gostou da extravagância. Só quando fiquei triste é que ela deixou de me “zuar” aceitando a demonstração de felicidade!

·         Agradeço as informações do Almanaque do Futebol Brasileiro e do site Wikipédia. Sou grato também as imagens dos blogs coletivoinstalacao.blogspot.com e instante.com.