domingo, 7 de novembro de 2010

Faltou luz na decisão do campeonato!

                                                                Octávio Mangabeira 
O ex-governador da Bahia e presidente da UDN Octávio Mangabeira tinha razão. Acho que foi por causa dele que disse:
- Pense num absurdo. Na Bahia tem precedente!
Pois é. No estádio que leva o seu nome já aconteceu de tudo. Esta história é sobre um dia onde apareceu o fantasma de Octávio Mangabeira. Deeve ter sido caso único no mundo: faltar luz em decisão de campeonato. E foi a apenas vinte anos atrás.
Estávamos no último ano da década de 80, e este começaria com expectativas com o governo Collor. Esse, antes de assumir, viajava pela Europa pedindo apoio para as (péssimas) mudanças que faria no Brasil. Na época nos encheu de alegria a libertação de Nelson Mandela na África do Sul. Logo começam a ser feitos os contatos que o trariam a Salvador.

Foi neste cenário que começou o “campeonato relâmpago” de 1990. É que, em funções do calendário nacional, onde havia desde o ano anterior a Copa Brasil seguido do Campeonato Brasileiro, a FBF inventou um campeonato baiano de quatro meses. Penso que isto deu o golpe de morte em clubes tradicionais que ainda restavam na capital do estado.

Começou logo em janeiro, menos de três meses da decisão do anterior. Desta vez teve só dois turnos e acabaram com este negócio de ir pra final com “ponto zero”. O vencedor de cada turno levava dois pontos e o vice um ponto. O Vitória caiu no grupo “A”, junto com o Galícia, a Catuense, o Serrano e a Jacuipense, esta última promovida da segunda divisão. O custo de vida de Salvador alcança os 100% e o Vitória começa o ano na maior sonolência só se agigantando nas finais do campeonato.

Imaginem que por duas vezes o clube ficou em segundo lugar em seu grupo, fazendo campanhas fracas e deixando a liderança para o Galícia. No primeiro turno só conseguiu ganhar da novata Jacuipense (1 X 0), empatando os jogos contra Galícia (1 X 1), Catuense ((0 X 0) e Serrano (1 X 1)). No segundo turno, perderia logo de saída para o Fluminense (3 X 1) ganharia de Leônico (4 X 0) e, fora, do Itabuna (3 X 0), e empataria com o Atlético (1 X 1). Por causa desta colocação (2º lugar) pegaria “de cara” na semifinal do primeiro turno o Bahia, que levaria o título, sendo eliminado após dois jogos (0 X 0 e 0 X 2). 

                                                   Fernando Collor e sua esposa Rosane
                                           
A posse de Collor é antecedida por uma onda de remarcações que afetam mais tarde a fixação dos índices salários de seu plano prejudicando ainda mais os trabalhadores. Seu governo editaria aquilo que ficou conhecido como o Plano Collor I(Plano de Estabilização Brasil Novo) que estabiliza o cruzeiro, congela preços, depósitos bancários e os saques das cadernetas de poupança. Para isto fecha os bancos por três dias (sem contar o fim de semana) ocasionando uma verdadeira corrida aos caixas eletrônicos. A economia entra em recessão, aos gritos de combate á hiperinflação e ajustes na economia que visariam à modernização do país. As medidas, entretanto, levaram a oposição á defensiva.

Enquanto isto já estava no segundo turno, onde ainda bem que o tricolor também ficou em segundo no seu grupo, ganho pelo Fluminense de Feira de Santana. Mas nas semifinais não deu outra coisa! O Vitória ainda conseguiu eliminar o Fluminense, empatando os dois jogos a zero. O gol só saiu na prorrogação. Foi uma suadeira! Um dia depois de meu aniversário começou a decisão do segundo turno. Eu só queria este presente, mas não deu, tomamos de novo dois à zero. Quatro dias depois um empate a zero liquidava praticamente nossas esperanças no “bi”. Até os escores se repetiram. Parecia tudo liquidado e o “bi” do Vitória seria mais uma vez adiado. Mas neste ano o EC Bahia faria a façanha de perder o campeonato com dois turnos na mão.

Nesse período, eu estava no meio  da mobilização dos órgãos federais atingidos pelas privatizações, assim como dos funcionários demitidos pelo governo do estado. Havia 140.000 servidores julgados “disponíveis”, e só na Rede Ferroviária eram 16.000. Na Bahia eram mais de mil os incluídos na lista. Lembro-me do concorrido ato dos servidores na Praça da Piedade em abril de 1990.

Nesta época ocorre o “racha” da Frente Brasil Popular na Bahia com o fracasso dos entendimentos com a oposição para uma alternativa ao lançamento de ACM nas eleições para governador. O PT ficou com José Sérgio Gabrielli, o PMDB com o ex-governador biônico Roberto Santos, e o PCB, PCdoB e PSB com a “chapa das mulheres” Lídice da Mata, Salete Silva e Bete Wagner, respectivamente para governadora, vice e senadora.

                                                             José Sergio Gabrielli 

Em maio realizávamos mais um Dia Internacional dos Trabalhadores, que continuava no Campo Grande, sendo feito para os militantes de sempre e das categorias em greve. No outro dia é realizada a passeata conjunta das entidades de educação, que denunciam a situação do ensino também no Dia de Luta pela escola pública na Assembleia Legislativa, seguida de concentração na governadoria.

Foi nesta conjuntura que começou a fase final, em 3 de maio. Imaginem que o Bahia começava com quatro pontos, enquanto o Galícia e o Vitória tinham apenas um. Tinha radialista que fazia a conta que o tricolor só precisaria empatar seis vezes pra levar o caneco. Mas as coisas não ocorreriam bem assim!  Eu ainda compareceria á Plenária Nacional da CUT em São Paulo.
O BA-VI foi logo na primeira rodada e se perdêssemos daríamos adeus ao título. Mas o Vitória ganhou pela primeira vez neste ano, por um a zero, não me lembrando de quem foi o gol, pois tive que assisti-lo pelo rádio. No outro jogo o Fluminense detonou as esperanças do Galícia aplicando-lhe 2 X 1 em Feira de Santana. O Galícia, porém “empenaria” a nossa vida empatando a zero no segundo jogo enquanto o Bahia pedia de novo, agora em Feira por 2 X 1. Estava tudo empatado, só o Galícia estava com dois pontos e os outros com quatro. Qual Fênix havíamos voltado das cinzas.
O Bahia, entretanto, decidiu reagir, voltando á liderar sozinho com uma vitória sobre o Galícia por um a zero, enquanto conseguíamos um bom empate a zero em Feira de Santana. Dobraríamos o segundo turno das finais, entretanto, com outra fenomenal vitória contra o tricolor, novamente por um a zero, enquanto os “touros do sertão” ganhavam novamente o Galícia, pelo mesmo placar.
Estava desenhada a nossa disputa contra o Fluminense. E isto se consolidaria na penúltima rodada ao ganharmos o Galícia por um à zero enquanto em Feira os dois tricolores empataram por um a um. O nosso arquirrival assim, estava afastado da disputa do título. Estávamos com nove pontos e o Fluminense com oito, e jogaríamos contra este na Fonte Nova pra decidir o título.

A decisão foi no dia 27 de maio e eu havia me desvencilhado de todos os compromissos políticos pra ir. Foi um jogo “de estudos”, sem que ninguém se arriscasse no primeiro tempo. O Fluminense bem que tentou ir á frente, mas o Vitória administrava bem a vantagem. O primeiro tempo teve poucos lances de gol. As jogadas que pareciam mais perigosas foram bem neutralizadas pelas defesas. A torcida do Vitória neste dia era quase o estádio todo, 62.000 pessoas, e contava o tempo pro jogo acabar pra que pudéssemos obter o sonhado “bi”.
No entanto, uma grande surpresa estava reservada para todos no segundo tempo. Apagaram-se as luzes com o estádio ficando as escuras por vários minutos. Aí o inusitado aconteceu. O Fluminense de Feira resolveu “dar uma de esperto” e abandonou o campo esperando tirar vantagem no “tapetão”.

O estádio estava muito belo com isqueiros, fogueiras e lanternas acesas. Até a luz voltar agente não sabia do estratagema feirense. Nesta hora passamos por momentos de tensão e hilariedade. Acho que a torcida vaiava e xingava o pessoal do Fluminense(chamando-os de fujões) porque não tinha certeza do que ia ocorrer. O campo encheu de radialistas, dirigentes e policiais.

Isso se arrastou até que o juiz paulista Edmundo Lima Filho, passou a contar os quinze minutos regulamentares esperando o Fluminense voltar a campo pra continuar o jogo. Aí a torcida contou o tempo junto. O juiz, no fim da contagem, encerrou o jogo e fez constar na súmula o abandono.

O Vitória conquistava o seu segundo “bi” na Fonte Nova, um quarto de século depois do início do golpe de 64. Entre os novos campeões havia o goleiro Ronaldo, o meia Hugo, e os atacantes André Carpes e Roberto Gaúcho.

Até aquele tempo ainda se permitia a comemoração de alguns torcedores dentro do campo. Lembro-me da vibração com a “volta olímpica” dos jogadores, mas nunca pensei que aquela seria a última vez que vibraria com um título na Fonte Nova. Naquele tempo já havíamos começado a comparecer ao Barradão.  Anos antes este tinha sido inaugurado num jogo contra um time estrangeiro, e recentemente um jogo contra o Santos inaugurou a iluminação. No ano que vem começaríamos a fazer alguns jogos do campeonato ali embora demorasse mais algum tempo pra lá ser o nosso mando de campo.
Quanto a mim no outro dia já me inseria nos preparativos da Greve Nacional das categorias em luta, que reunia a CUT, a CGT e a recém-fundada Central Geral dos Trabalhadores. Mas isso é assunto pra outro dia!
* Agradeço as imagens ao site wwwb.click21.mypage.com.br, e aos blogs fgretro.com.br, poncheverde.blogspot.com e mrquerino.bogspot.com.

sábado, 6 de novembro de 2010

O ano que o Vitória passou o Ypiranga em títulos



Quando éramos jovens, eu meu irmão “Toinho” subíamos muitas vezes a Ladeira da Fonte Nova de “cabeça inchada”.  Morávamos ali perto e economizávamos o dinheiro do transporte. Ao chegar a casa dizíamos de má vontade o resultado a nosso pai. Sempre tivemos vontade de lhe perguntar por que tinha nos feito torcer pro EC Vitória. Mas nunca tivemos coragem!
Hoje dá gosto ver o nosso estádio, o Barradão, os dezenas de campeonatos baianos e do Nordeste que o rubro negro conquistou, as participações gloriosas em certames nacionais, e a sua grande e exigente torcida que cresce a cada dia. Naquele tempo, porém, era dose! Quando me entendi como gente o Vitória era o “leão da Barra”, mas não tinha este nome porque “papava” títulos. E sim por motivo de um barco do clube ido do Porto da Barra aos Tainheiros no início do século passado, e depois fazer de sua sede o histórico bairro aonde chegaram e saíram os portugueses, em 1549 pra fundar a cidade, e em 1823 no nosso Dois de julho.
Durante 80 anos, o meu rubro negro não era mais que um clube que só ganhava no bairro de Nazaré, em torno do qual se localizaram o antigo campo da Pólvora e a Fonte Nova. No primeiro ganhou um bicampeonato, em 1908/1909. Quando o certame passou a ser disputado no Rio Vermelho e, mais tarde, na Graça, o Vitória sumiu. Detém o Record negativo de passar 44 anos sem ser campeão. Nem o Corinthians conseguiu isto! È claro que estou falando aqui da raiva que sentia naquelas ocasiões. Só muito depois é que fui saber que o clube saiu por duas vezes do campeonato e que durante muito tempo não aceitou de verdade o profissionalismo.
Mas voltando as minhas decepções.  Meu pai casou com minha mãe e essa me teve sem que ele visse seu clube do coração ser campeão. Só os espíritos explicam como ele foi parar no Vitória, onde praticou remo, basquete e jogou futebol! Tem muito rubro negro que diz que a Fonte Nova é “a casa do Bahia”, mas não sabe que foi quando esta surgiu que o clube acabou seu jejum de títulos. Na era de Martins Catharino organizaria um “timaço”, onde pontificavam Quarentinha, Tombinho, Teotônio, Pinguela, Nadinho e outros, que nos daria o título por três vezes alternadas, em 1953, 1955 e 1957. Mas isso não me consolava na época, pois tinha ocorrido quando eu era criança, mesmo que meu pai me levasse pra entrar com o time em campo!
Embora eu e meu irmão fôssemos ao estádio desde 1961 só íamos acompanhados do “velho”. Só três anos depois é que iriamos sós, naturalmente com o patrocínio de “painho”. Quando este estava viajando minha saudosa mãe Helena tirava dinheiro da despesa pra gente poder ir aos jogos.  E não é que o Vitória escolheu exatamente o ano do golpe pra ser campeão repetindo o feito no ano seguinte!
Naquele tempo éramos como “seu sete”, passando pelo menos sete anos para colocar a mão na taça. Depois de 1957, e do “bi” em 1964/1965, a próxima só ocorreria em 1972 e, daí, esperamos 1980. As coisas só mudariam na nova década. Pra quem entrou na ditadura militar ganhando, foi exatamente o fim desta que permitiu o alavancamento do Vitória. Voltamos a ganhar o título no mesmo ano em que os generais se despediram. Chegamos então a nossa história de hoje, o nosso título de 1989. Até aquela época só tínhamos dez títulos de campeão baiano estando empatados com o Ypiranga em segundo lugar.

Naquele tempo eu era militante político “de carteirinha” e levava uma vida muito atribulada. Além disto, a esquerda da época tinha muitos preconceitos contra o futebol, reputando-lhe como o “ópio do povo”. Assim, eu tinha muitas brigas para evitar certas reuniões e ir aos jogos. 1989 foi um dos anos mais importantes para o Brasil. Eu o considero o nosso "68”. Ali aconteceu de tudo. Entre outras coisas, os brasileiros iriam votar pra presidente após 29 anos, o muro de Berlim cairia, e Waldir Pires renunciaria ao governo da Bahia.
O ano começou com os jogos finais da Copa União do ano anterior. O EC Bahia tinha chegado ás finais para a histórica decisão onde ganhou aqui (2 X 1) e empatou em Porto Alegre a zero com o Internacional. Após o certame, porém, o tricolor foi perdendo peças importantes atraídos pela dinheirama do Sul. Bobô, por exemplo, iria para o São Paulo, vendido pela bagatela de cerca de um milhão de dólares.

No carnaval já pudemos sentir o interesse pelas eleições, e eu já me engajava na campanha de Luís Inácio da Silva, o “Lula”. Neste ano foi organizado o bloco carnavalesco do Partido dos Trabalhadores - PT, iniciativa que, mesmo que tenha perdurado apenas por alguns anos, permitiu estender a ação do partido a nossa maior festa, ao tempo em que promovia a divulgação dos nossos signos e do agora candidato a presidente.

Depois da festa começou o campeonato onde, apesar dos compromissos políticos, eu acompanhava com atenção os jogos, seja pelos jornais, seja pela rádio. O certame tinha nesta época um regulamento complicadíssimo. Era pra ninguém entender mesmo!  Além disto, se arrastaria por quase todo o ano em função do novo calendário, onde havia agora dois torneios nacionais, a Copa Brasil (iniciada este ano) e Campeonato Brasileiro. Além disto, o EC Bahia iria disputar a Taça Libertadores. Os clubes tiveram de participar de quatro turnos e ainda houve “jogos finais”, onde participaram os campeões dos turnos que ficavam com apenas um ponto. Inventaram que os dois clubes melhores colocados no computo geral deveriam ir para estas finais, mesmo sem pontos!  Cada time jogava dois turnos dentro de seus grupos e dois em outros grupos. O Vitória caiu inicialmente no grupo “B”.
Nesse ano estávamos muito preocupados com o EC Bahia. Se havia sido campeão nacional imagine o que faria no campeonato baiano! De qualquer forma o tricolor começou o campeonato baiano perdendo logo “de cara” pro Galícia por uma zero. O resultado nos animaria se não houvéssemos também perdido em Feira de Santana para o Fluminense (0 X 2).
Depois, porém, o rubro negro engrenou. Ganhamos do Botafogo (3 X 0), do Serrano fora de casa (1 X 0), e do próprio Bahia (2 X 1). O Fluminense ganhou o outro grupo. Mas também se classificaram os clubes que ficaram em segundo lugar. O quadrangular final foi muito difícil. O Vitória só ganhou da Catuense (1 X 0), empatando com o Bahia (1 X 1) e o Fluminense (0 X 0). Teve, assim, que decidir o turno numa disputa extra com este último onde ganhou pelo escore mínimo.  Nesse turno eu assisti no máximo uns dois jogos, e me lembro de ter ido á decisão, embora só tenha lembranças políticas na ocasião. Lembro-me que nosso rival ficou em último no quadrangular.
                                                      O ex-governador Waldir Pires

O segundo turno começou em maio. Eu apresentei o tradicional ato do Dia dos Trabalhadores, que foi realizado no Campo Grande promovido pela CUT e CSC e que reuniu umas mil pessoas. O PT comemorou dez anos na ocasião. Dois dias depois, quando começava o novo turno, repete-se o ocorrido do ano anterior. Nilo Coelho, substituindo o governador Waldir Pires, assinaria o decreto 2392, verdadeiro “presente de grego” para os servidores estaduais, rescindindo todos os contratos assinados após cinco de outubro de 1983. Duas semanas depois meu primo Waldir renunciaria ao governo da Bahia decepcionando milhões de eleitores. Na mesma época eu perderia meu colega de orquestra, o compositor, regente e instrumentista Lindemberg Cardoso.

Mas voltemos pra confusão do nosso futebol. No segundo turno o Vitória passou pro grupo “A”. Durma-se com um barulho destes! Mas seria de novo o primeiro no grupo. Para isto ganharia do Galícia (2 X 1) e do Itabuna (2 X 0), não dando sorte apenas com os times de Alagoinhas, empatando com o Atlético (2 X 2) e perdendo pra Catuense (0 X 2). O outro grupo quem ganharia seria o Bahia. Serrano e Galícia vieram, na condição de vices, disputar o quadrangular final.
Em maio estava no maior sufoco da militância, não havendo desculpa que “colasse” para ir ao estádio. Mas, pra escândalo dos meus companheiros, eu levava pas reuniões um “radinho”, e o pior é que não era pequeno. É claro que não ficava ligado, mas toda hora eu “ia ao sanitário” pra ver como estava o jogo. Eu esperava o mesmo comportamento do Vitória no primeiro turno, mas fomos um desastre! Ficamos em último lugar, perdendo pra Serrano (0 X 1) e Bahia (0 x 2), só conseguindo um empate, a duras penas, com o Galícia (3 X 3). Pra piorar a situação nosso arquirrival ficaria com o turno.
O jeito era esperar o terceiro turno. Estávamos em época de São João. As demissões de servidores estaduais continuavam, e milhares de colegas eram incluídos nas listas. Ao mesmo tempo Luiz Arthur de Carvalho era convidado para voltar a Secretaria de Segurança na cota do grupo robertista. Ele trazia tristes lembranças pra mim, que fui preso duas vezes quando ele ocupou este cargo. Nilo Coelho havia se reaproximado de ACM e do governo Sarney, quando este último aproveitou pra alterar a sua posição de má vontade para com a Bahia. Salvador batia o Record de carestia no Brasil. Eu ficaria muito sentido com a morte de três grandes músicos, Luiz Gonzaga, Herbert Von Karajan e Raul Seixas, grandiosos interpretes dos universos sertanejos e bethoveniano e da rebeldia da minha juventude.         
Enquanto isto acontecia o Vitória voltava pro grupo “A” e continuava dando vexame! Começou ganhando do Galícia (2 X 1), mas depois teve duas incríveis derrotas, caindo de 3 X 1 para o Bahia e de 5 X 3(!) para a Catuense. Quando ouvi esta última pelo rádio mal acreditei no que acontecia. Até o pessoal da militância fez gozações com a minha cara!  Parecia que estávamos nos despedindo do campeonato, onde mais uma vez o Vitória começava bem e acabava mal. O time depois reagiu, surpreendentemente, ganhando fora de casa do Itabuna (4 X 0) e do Atlético (1 X 0), mas não se classificou para o quadrangular decisivo. E, neste, houve mais uma vitória do Bahia. Agora o tricolor levava dois pontos, e nós, apenas um para as finais.
Mas havia turnos á vontade num campeonato que se arrastou durante sete meses. No quarto turno (vão contando) o Vitória ficaria só em segundo na sua chave, sendo superado por um Leônico que subia de produção. O rubro negro ganhou três, Serrano (2 X 0), Fluminense (3 X 1) e Botafogo (1 X 0), mas sentimos um suor frio lembrando-se da perda do “tri” em 1966 quando perdemos para o time grená por um a zero. O Bahia, em boa fase, ganhava o seu grupo.
                                                   Brizola e Lula em campanha em 1989
Neste período tive que viajar ao 6º Encontro Nacional do PT, ocorrido num colégio de São Paulo, de maneira que não assisti nenhum jogo da fase classificatória. Mas a reunião era importante. Nela a campanha da Frente Brasil Popular dava a arrancada final, e aprovaria as diretrizes para o programa e o plano de ação do nosso “futuro governo”.  No entanto, havia verificado que tínhamos formulações ambíguas. Eu mesmo fiz críticas a certas teses dos economistas do partido. A reunião acabou convocando um Encontro Nacional Extraordinário para discutir a tática do partido para o 2º turno, onde poucos esperavam estarmos presentes.

Bem, mas vamos voltar para o decisivo quarto turno. O Bahia não podia ganhar de forma nenhuma senão levaria três pontos para as finais! O quadrangular ocorreu em agosto, quando esquentava a campanha presidencial. Fernando Collor estava disparado e Brizola e Lula disputavam palmo a palmo quem iria pro segundo turno. Quem saiu na frente foi o Galícia, ao vencer o Leônico por um a zero, enquanto Bahia e Vitória empatavam (1 X 1) com a minha presença no estádio.
Depois desta partida o rubro negro ignoraria os demais adversários, vencendo bem o Leônico (3 X 1) e o Galícia (2 X 0). Acompanhei as duas partidas pelo rádio e vibrei com o resultado. Agora estava tudo empatado! Mas, para quem se preparava pra decidir com o Bahia, o regulamento era uma bruta tapeação. Lembro-me que tive de explicar para várias pessoas como funcionava.  Imagine que depois de darem duro pra ganhar dois turnos cada um o Bahia e o Vitória disputariam as finais com apenas dois pontos, enquanto a Catuense e o Leônico entravam “de mão beijada” por terem ficado “no computo geral” em terceiro e quarto lugares! 
Esta incoerência logo seria cobrada, pois a Catuense se agigantou nas finais enquanto o Leônico não deu nem “pra melar”. Na primeira rodada o Bahia passou fácil pelo “moleque travesso” (3 X 0) enquanto o Vitória sofreria para enfiar um a zero na “laranja mecânica”. Esta, entretanto, só perderia este jogo. Logo arrancaria um empate a zero com o tricolor enquanto penávamos de novo, agora pra ganhar do Leônico, novamente pelo escore mínimo. O primeiro turno da fase final (conseguiram entender?) se completaria com um empate a zero no BA-VI, ao qual eu compareci a muque, enquanto a Catuense ganhava do Leônico com folga por 3 X 1. O Vitória dobrava a fase na liderança, com 5 pontos, enquanto o Bahia tinha quatro e a Catuense três. Já o Leônico havia perdido todas.
Enquanto ocorriam as finais a política estava muito agitada. Havia mais uma tentativa de Sarney de promover um pacto social ao tempo em que anuncia o enxugamento da máquina administrativa. Chega-se a falar-se em antecipação da posse do novo presidente para frear a inflação. O movimento da Praça da Paz Celestial na China é pesadamente reprimido e se aprofunda o debacle dos regimes burocráticos do Leste Europeu em meio a grande alarde da mídia. 

                                                            O presidente José Sarney

Desde o primeiro turno todo tipo de boato era divulgado para buscar aumentar a rejeição de Lula e Brizola junto á população. Era evidente a atuação das elites do país para domesticar um provável segundo turno. De última hora ainda surgiu à candidatura do animador Silvio Santos que acabou cassada porque iria desmoralizar inteiramente o processo político. Às vésperas da eleição a mídia deu grande destaque a atos de saque e depredação.
 
Em Salvador, os estudantes secundaristas realizam enorme protesto de dois dias. Vinha de taxi neste dia e quando o carro entrou na Avenida Joana Angélica fiquei emocionado! Milhares de jovens das escolas dos bairros de Nazaré e Barbalho vinham em direção á Praça da Piedade. Não dava pra passar, e nem eu queria! Saltei então e segui, inebriado, a passeata que lotou a praça e seus arredores, e, após certo tempo, se dirigiu para a Praça Municipal. Mas só quando cheguei em casa é que soube da pesada repressão da polícia. A repercussão negativa deu lugar um novo ato no dia posterior com os estudantes desta vez tomando contra da praça.

Bem, mas voltemos a “fase final das finais”, que começou apertando tudo! O Bahia ganhou novamente do Leônico (1 X 0) enquanto Vitória e Catuense empatavam (1 X 1). Agora a dupla BA-VI tinha 6 pontos e o time de Alagoinhas apertava os seus calcanhares. Mas de grão em grão o Vitória “encheria o papo”. Seis dias após a data comemorativa da independência do país o rubro negro ganharia de novo do Leônico por um a zero enquanto o Bahia caía de quatro a dois para a Catuense!  Nesse dia fui umas vinte vezes no sanitário pra ouvir o andamento do jogo! Agora só bastava um empate, e o próximo jogo era contra o Bahia. Não havia motivo que pudesse me tirar desse jogo, mesmo o fato de ocorrer a apenas duas semanas do primeiro turno das eleições.
Lembro que levei uns panfletos e fiquei sozinho divulgando a campanha na Ladeira da Fonte Nova. Mas, como o estádio estava enchendo rapidamente, não fiquei muito tempo nesta tarefa, indo logo pro meu lugar no lado esquerdo das cabines de rádio. Arranjei lugar com dificuldade, pois estava cheio. Tive que sentar nos degraus. Lembro-me que foi um jogo muito preso. O Bahia não se arriscou muito no primeiro tempo. Parecia que ambos os times estavam com medo do outro. Mas o Vitória “administrava”.  Promoveu alguns ataques pelas pontas. Bigu estava explêndido, marcando o bom meio de campo do tricolor. Sofremos com os ataques tricolores. Mas, ao final, foi só chutar bolas pra todos os lados pra garantir o resultado. Nesse dia demorei pra sair da Fonte Nova em meio á comemoração.
Uma semana depois Collor e Lula realizam comícios em Salvador, o primeiro no Farol da Barra e o segundo na Praça Castro Alves. Eu ainda estava comemorando o título e queria comemorar também a eleição de Lula. O ato reuniu, como o de Collor, em torno de 50.000 pessoas, e contou com a presença do vice José Bisol (senador do PSB), assim como os presidentes nacionais dos partidos da Frente Brasil Popular, diversos parlamentares, e artistas como Sivuca, Roberto Mendes, Bereba e Jorge Portugal.

Três dias depois foi à vez de Ulysses Guimarães fazer comício no Largo do Tanque. Estiveram presentes Waldir, Roberto Santos, a chapa majoritária, Nilo Coelho, prefeitos e secretários. No mesmo dia Roberto Freire, candidato do PCB, faz comício no Largo da Mariquita. No outro dia o Instituto Data Folha apresenta a última pesquisa eleitoral, que dá 27% de intenções de voto para Collor, 15% pra Lula, 14% pra Brizola, 11% para Covas, 9% pra Maluf, 5,5% pra Afif, 4% pra Ulysses e 2% para Roberto Freire.

Pronto! Eu tinha tido duas alegrias este ano, ver o Vitória voltar a ser campeão e ir ao segundo turno pra disputar a presidência da república! Mas depois foi só decepção. Perdemos a eleição pra Collor e o Vitória (mas também o Bahia) me enganaria. Ficaria em 17º lugar no Campeonato Brasileiro tendo que participar do Torneio “da morte” para ver quem desceria para a segunda divisão, só conseguindo escapar graças aos gols salvadores de Hugo. Mas aí é outra história. 

*  Agradeço pelas imagens aos blogs sisalnotícias.com, tudook.com, marioflaviolima.blogspot.com, cameraviajante.com e joaodacaixa.blogspot.com. 



sexta-feira, 5 de novembro de 2010

A Fonte Nova está viva!


Homenagem aos jogadores que pisaram o gramado do nosso histórico estádio, e que são os principais atores daquele palco.

Esta semana eu resolvi divulgar o blog. Assim, enviei e-mails para a SUDESB, o SINDAPE, o SINBAF e a AGAP. Mas vamos antes traduzir este rosário de siglas. A primeira é a superintendência dos esportes do estado a qual, por muitos anos, ficou afeta a Fonte Nova. Depois vêm os sindicatos de atletas e de árbitros. Por último a Associação para Garantia do Atleta Profissional.
Os contatos com a primeira e a última já tiveram retorno e estou esperando a resposta das mensagens que enviei para os demais. O diretor Aécio Pamponet ficou de fazer um levantamento do material existente na instituição pra ver como poderia ajudar o trabalho de memória que estamos fazendo. Quanto a AGAP a gentileza do superintendente Hugo Aparecido Matos de Oliveira ultrapassou minhas expectativas. É que ele, após me ouvir atentamente, lembrou que havia ontem o “baba” do pessoal e que eu iria encontrar lá muita gente que poderia falar da antiga Fonte Nova.
Agradeci-lhe a indicação, e, após minha sessão de fisioterapia, ignorei as dores que estou sentindo, devido a uma provável hérnia de disco, e rumei pra sede da Associação Atlética do Banco do Brasil-AABB no bairro de Piatã. Depois de sofrermos para encontrar o endereço vi o campo onde havia um disputado e ainda diversas pessoas assistindo. Apresentei-me então ao doublé de professor e técnico Sr. Bismarck que estava á beira do campo. Este gritou pro pessoal que estava nas cadeiras quem eu era e me pediu pra conversar com eles enquanto terminava o “baba”.
Sentei logo ao lado de uma pessoa que me conhecia e que tinha jogado “botão” comigo na antiga Liga de Luís Anselmo. Confesso que já fui entrevistando ex-jogadores ali mesmo. Quando terminou o “baba” veio o Hugo, com quem tinha falado ao telefone. E qual não foi minha surpresa quando vi que era o meu ídolo Hugo, que havia praticamente sozinho evitado que o EC Vitória descesse para a segunda divisão quando disputamos o “Torneio da Morte” em 1989. Na época ganhamos de três a zero do EC Bahia, com três gols dele. Foi uma emoção revê-lo!
Fomos depois até o bar do clube onde o pessoal se reúne pra “tomar uma” depois do “baba”. Continuei conversando com o goleiro Gelson, conseguindo tirar o rancor que sentia dele desde o dia a decisão do campeonato de 1979 contra o EC Bahia na Fonte Nova. Fiquei conversando no bar com o veterano Sapatão, a quem considerava nos anos 70 um “inimigo”. Uma conversa muito proveitosa e cortês que promete desdobramentos. Fui ainda apresentado a outros jogadores e desportistas amigos da moçada.  
Algum tempo depois o professor Bismarck me apresentou a toda à “galera”. Nesse momento havia mais de trinta presentes. Ao falar com o pessoal senti uma emoção parecida quando eu comparecia á Fonte Nova. Eles me deram muita atenção. Disse-lhes que tinha sido praticamente “criado” no estádio, onde tinha recordações desde criança quando meu pai me levava pra entrar em campo com o time do EC Vitória. Que ali assisti dezenas de campeonatos baianos, amistosos e torneios oficiais, copas, taças e campeonatos brasileiros. Que a firma de meu pai foi que colocou a iluminação do estádio quando da ampliação do anel superior.
Depois falei do nosso blog que já chegou a 700 acessos em pouco mais de quarenta dias e que, inclusive, tem visitantes da Eslovênia e Egito. Foi aí que lhes disse que isso não seria possível se a Fonte Nova não tivesse viva, no coração e nas mentes das pessoas. Confesso que nesta hora senti um olhar de muito orgulho do pessoal! Disse-lhes ainda que eu era apenas um desportista com algum talento pra pesquisador, mas que os verdadeiros atores eram eles. E que a Fonte Nova não poderia ter a sua memória resgatada sem as suas participações.
Terminei dando o endereço do blog e passando um papel para recolher os e-mails do pessoal. Apesar de uns não terem endereço virtual vários fizeram questão de me passar o contato e se colocar a disposição para dar depoimentos. E, mal eu tinha acabado esta tarefa, alguns já começaram a contar seus casos na Fonte Nova. Eu devia ter levado um gravador!
Saí de Piatâ com o sentimento do dever cumprido. Na verdade tinha “revisto” uma parcela da Fonte Nova que muita gente pensa que implodiu. Nem desconfiam que o estádio permanece vivo nas recordações de jogadores como Hugo e Sivaldo (ex-Vitória), de Emo (ex-Redenção e Bahia), de Ferreira (ex- Galícia), de Gelson (ex-Vitória e Flamengo e atual técnico de futebol e empresário) de Sapatão (ex-Bahia e Fluminense de Feira e atual técnico), de Aliomar (ex-Ypiranga e Leônico), de Carlinhos, de Biluca, de Mica, de Carlinhos Maracás, do professor Bismarck, do dentista Edésio Góes, do psicanalista Genaldo Vargas, e tantos outros!
* Agradeço a AGAP, a Hugo, a Bismarck e a todos pela acolhida, e a imagem do site http://www.noticiasonline2010.blogspot.com/.

quarta-feira, 3 de novembro de 2010

Saudades do “Balbininho” II

                               O histórico ginásio demolido por causa de um estacionamento
Franklin de Carvalho Oliveira é um desportista. Integrou times de “aspirantes”, profissionais e do remo do EC Vitória. Foi jogador de vôlei e basquete. Neste esporte teria sido um dos melhores juízes do Brasil, atuando ainda por onze anos como dirigente da federação, assim como nos times da FUBE, do Olímpico e do 19º Batalhão de Caçadores. Como remador ele e seu irmão Zé Carvalho conquistaram títulos nas raias dos Tainheiros. Como jogador de basquete conseguiu um vice-campeonato brasileiro e um terceiro lugar. Foi ainda técnico do Olímpico e da seleção baiana de basquete.
Já postei outro artigo sobre esta ilustre figura que, além de ser desportista e engenheiro, é ainda meu pai.  Ontem fui a seu apartamento no bairro de Brotas, fazer outra entrevista, agora sobre suas recordações do Ginásio Antônio Balbino, o “Balbininho”.
Devo dizer que meu pai completará no ano que vem 90 anos. Desta maneira, mesmo estando ainda bastante lúcido é natural que tenha dificuldade em se lembrar de detalhes das coisas, e confunda datas e pessoas. No entanto, não há quem não fique admirado da sua impressionante memória, que tenho explorado para a preservação da memória do complexo esportivo e educacional que marcou a Fonte Nova.
A vida de jogador de meu pai está concentrada entre o final das décadas de 30, (quando veio morar com seu irmão José Carvalho numa pensão no Gravatá) e 40 (quando já estava casado com minha mãe e tinha iniciado a sua atuação como engenheiro). Nos anos 50 cumpriria seus últimos anos como dirigente da federação, embora intensificasse sua atuação enquanto técnico e juiz .
Como aperitivo pedi-lhe para relembrar a primeira década.  A entrevista concentrou-se no basquete, pois seria este quem marcaria suas lembranças do ginásio.  Lembrou que antes do “Balbininho” só havia praticamente três quadras pra se jogar, a do Baiano de Tênis, a da Associação Atlética, e a do Instituto Central de Educação Isaías Alves - ICEIA. Lembra que uns oito times disputavam o campeonato estadual, entre eles, o Olímpico, a Associação, o Itapagipe e o Brasil.
O Brasil possuía grandes times de basquete e muitos vieram jogar aqui. No Rio de Janeiro todos os grandes clubes mantinham boas equipes de basquete, o Flamengo, o Fluminense, o Vasco da Gama e o Botafogo. Já em São Paulo a maioria dos clubes de hoje ainda não existiam ou não mantinham boas equipes. Lembra-se do Paulistano (atual São Paulo), do Syrio Libanês, da Portuguesa e do Palestra Itália.
Nesta época meu pai teve grandes momentos no Olímpico, no 19º BC e na Federação Baiana Universitária de Esportes – FUBE, aonde chegou a levantar diversos campeonatos estaduais, militares e, na área universitária, foi vice-campeão (perdendo só pra São Paulo) e terceiro lugar no campeonato brasileiro (em Minas Gerais). “Naquele tempo tinha vários campeonatos. O colegial, o do interior, o estadual, o militar, e o brasileiro.”

Afirma que houve um tempo que “não dava nem graça” disputar os dois primeiros. No campeonato militar, “o Exército só tomava “surra, o que chateava o capitão (ou tenente?)Leitão que dizia que agente tinha sorte”!”.  Viajava todo ano com a FUBE, lembrando que, apesar de não ganhar, disputavam sempre o torneio por ter bom times. Além de obter campeonatos estaduais o Olímpico fez grandes jogos contra equipes “do Sul”. Lembra que “nós perdemos de surra do Flamengo”.  É que o rubro negro carioca tinha um pivô genial e colocaram logo seu irmão José Carvalho para marca-lo.
“Zeca” disse pra gente
 - Pode deixar!
- O cara deu um show em Carvalho, que “comeu” o maior suor!”
Continua suas lembranças.
Descontamos no campeão carioca, o Botafogo. O jogo foi no ICEIA, e na nossa torcida só tinha mulher (inclusive minha saudosa mãe Helena). Demos uma surra! Nunca esquecerei. Eles tinham Álvaro e Ademo na zaga.
Era ainda constantemente convocado pro “escrete” baiano junto de astros como “Àrabe” e do futuro empreiteiro Nilton Simas.  Ressalta ainda a presença nesses momentos dos irmãos Gilberto e Nilton Moura Costa e “Zezé” e “Betinho” Catharino. O penúltimo seria, alguns anos mais tarde, presidente dos “anos de ouro” do EC Vitória na década de cinquenta. Aponta também o zagueiro Umbelino, Heber, “Índio”, “Lulu” e Angelim, que morreu tragicamente afogado na Praia de Armação durante estágio no 19º BC. Naquela época a federação baiana de basquete tinha meu pai, como diretor-técnico, Hélio Jacques na presidência e Álvaro Soares na tesouraria.
Franklin se lembra da inauguração do Ginásio Antônio Balbino. Afirma que foi feita com um jogo de basquete entre a seleção baiana e uma do Sul, não se lembrando se do Rio ou de São Paulo. Lefebvre, o melhor árbitro da época, foi o juiz. Na época meu pai ainda apitava, sendo inclusive constantemente convidado a jogos no Rio, “embora só ganhasse hospedagem e comida”.
Eu tenho a maior dor desse dia e lhe perguntei de chofre:
- Porque você não levou a gente?
- Era um perigo levar! Tava entupido! Senão eu não fazia nada! Ou ficava com vocês ou com os outros (o pessoal do basquete! Maria Helena (minha irmã mais velha) queria ir mas não foi possível!Eu tinha medo de virar porrada!
Se realmente foi nesse dia, eu, minha mãe, minha irmã, e meu irmão “Toinho”, perdemos a inauguração do ginásio Antônio Balbino.
As informações posteriores sobre o ginásio foram muito rarefeitas. Lembra que foi uma nova época para o basquete e muitos esportes. “A maioria dos jogos (de vôlei e basquete) passaram pro “Balbino”! Não pode precisar o número de jogos onde trabalhou ali como juiz. A muito custo lembrou de alguns de clubes do Rio contra os baianos: do Botafogo contra o Itapagipe e a Associação Atlética, e do Flamengo contra esta última e o Baiano de Tênis. Lembra que nesses anos o rubro negro carioca “tinha um time f.d.p.”.

Como a cidade tinha poucos grandes espaços o ginásio acabou sendo usado pra muitas outras atividades. Meu pai ainda apitou alguns campeonatos ali mas os anos 60 foram de muito trabalho pra ele. Mesmo assim, lembra que quando os Globe-trotters vieram em Salvador enfrentaram no “Balbininho” a seleção baiana (numa sexta feira) e a brasileira (no domingo.
Os jogos foram de exibição mas a equipe americana deu uma “surra””! O primeiro jogo foi apitado pelo Mário Cruz, mas o segundo, o principal, o foi por mim e por Carvalho (seu irmão também juiz).
Na ocasião meu pai já era um empreiteiro de “mão cheia” e pegava obras importantes. Como ele diz: “não tinha tempo, vivia no interior”! Tio “Zeca” também o acompanharia nesta área mantendo os irmãos uma sociedade na Empresa Baiana de Construção Civil Ltda. – EMBACIL, que seria uma das que estariam presentes na obra de ampliação da Fonte Nova.
Nos anos 70 meu pai nos levou pra ver a luta onde Eder Jofre manteria o título mundial contra um mexicano, e, mais tarde, a uma luta livre que não me lembro quem participava. A última vez que entrou no ginásio, porém, foi sozinho, nos anos 90, em um jogo de vôlei feminino onde jogaram as meninas da seleção brasileira.
Encerrei a entrevista perguntando-lhe o que achou da demolição do Ginásio Antônio Balbino pra fazer um estacionamento para a arena da Copa de 2014. Ao que ele respondeu:
- Não havia necessidade! O “Balbininho” estava bem, integral, estava funcionando perfeitamente bem. Podia estar precisando de limpeza, mas isso sempre teve, manutenção. Foi o que não ocorreu na Fonte Nova! O que ocorre é que este moço (o governador Wagner) veio do Rio e precisou mostrar serviço. Aí derrubou o “Balbininho” e a Fonte Nova. Quem construiu (os governadores Octávio Mangabeira e Antônio Balbino) já morreu. Ele (ACM), apesar de ser um bom f.d.p., não deixaria derrubar, mas também já morreu! Ele (Wagner) ficou solto! Além disso ele é Bahia, e está protegendo o Bahia!”
Nesse instante meu pai lembra de todas as dificuldades que passou durante as obras do anel superior do estádio quando sua pequena firma demorava a receber o pagamento do governo do estado e teve que fazer desconto pra receber. Sabe que a obra agora está a cargo de grandes empresas como a OAS e a Odebrecht (esta desde a obra anterior), mas no entanto, faz um alerta aos seus antigos colegas:
Eu só quero ver quando chegar a hora das faturas, do pagamento das empreiteiras, pra ver se eles vão ficar como eu ficava. E aí os homens diziam que “não tinha dinheiro”. Agente tinha que correr pro banco. Nilton Simas morreu do coração pois estava devendo no BANEB. Foi a ACM pedir o pagamento da sua empresa, a Companhia Construtora Nacional, e lhe mandaram passar no caixa. Quando ele chegou lá embaixo o chefe de gabinete mostrou os títulos todos protestados.
Diz que chegou a conversar com o próprio governador Luiz Viana Filho na época. A audiência teve o acompanhamento de Artur Ferreira (membro da comissão de construção e engenheiro do Departamento de Educação do estado) e de Genar (diretor da COELBA e presidente da comissão de construção). Na ocasião o governador lhe perguntou se “sua firma aguenta tombo”. “Eu não sabia o que era isto, e disse: “Depende sua excelência”! Quando saí perguntei a Genar o que ele queria dizer com aquilo e este me disse que era “falta de pagamento”. Conclui que, na situação em que estava e com a raiva que sentia, “se eu soubesse disso, teria dito: Tombo quem aguenta é sua mãe!”
* Agradeço aos blogs atarde.com.br, semprebahia.com e 435eventos.com.

terça-feira, 2 de novembro de 2010

O segundo maior “frango” da Fonte Nova




Galdino Antônio Ferreira da Silva
Financista, desportista e colaborador dos blogs História do Futebol, Futebol 80 e Memórias da Fonte Nova.                                                                                       

Há alguns dias atrás escrevi para este blog um artigo sobre o maior “frango” da Fonte Nova. Agora escrevo sobre o segundo maior “perú” do nosso inesquecível estádio, o tomado pelo goleiro "Azeitona" do Botafogo SC.
Era uma noite chuvosa de quarta-feira em Salvador em vinte de julho de 1977. Foi por isto que não fui ao estádio preferindo ouvir os jogos pela rádio. Havia uma “rodada dupla” pelo campeonato baiano onde jogariam na preliminar Galícia X Atlético de Alagoinhas, e na principal, o EC Bahia enfrentaria o Botafogo EC no famoso “clássico do pote”. A atenção ao jogo havia crescido em função do alvi rubro ter em março “quebrado o tabu” de vinte e um anos sem vencer o tricolor.
No primeiro jogo o azulino venceu, sem maiores dificuldades, a “laranja mecânica” por dois a zero. Mas o que interessava mesmo era o jogo de fundo, um tira teima, pois neste ano tinha ocorrido uma vitória para cada lado e um empate. O Bahia entra em campo com sua força máxima incluindo um linha de frente espetacular com Fito, Douglas, Jorge Campos, Miltão e Jesum.
Já o alvi rubro contava com Zé Amaro, Luciano, Hilton e Sivaldo. No entanto, no gol, o clube teve que escalar o seu terceiro goleiro. Neste dia Zé Ivan não pode jogar por estar contundido, estando seu reserva Norival também lesionado. Deram lugar assim, ao jovem goleiro Azeitona, de 22 anos, formado pelas categorias de base do Botafogo. Mas que melhor chance de mostrar suas qualidades que num clássico contra o Bahia?
O jogo começou da forma que eu imaginava. O Bahia atacando e o Botafogo se defendendo e explorando os contra ataques. A primeira boa investida do jogo foi do Botafogo com Luciano cobrando uma falta e o goleiro Luís Antônio espalmando para escanteio. Logo depois o Bahia tomou conta do jogo e o jovem goleiro do Botafogo começa a aparecer. Uma cabeçada de Miltão e um bom chute de Jesum são salvos por Azeitona.
A chuva corria copiosamente e torna o jogo ainda mais dramático. O gramado encharcado dificulta as ações dos dois clubes, mas principalmente do Bahia que dominava. No final do primeiro tempo o tricolor aperta e Douglas obriga Azeitona a fazer uma defesa sensacional num chute “a queima roupa”. Na cobrança do escanteio Fito acerta a trave e, no rebote, Miltão chuta para nova defesa de Azeitona colocando para escanteio. .
De repente, Luciano (Botafogo) adianta a bola e comete uma falta violenta numa dividida com Baiaco (Bahia) sendo expulso. O primeiro tempo termina em zero a zero, com o Botafogo acuado, sem conseguir sair do sufoco, mas o gol não saía por causa de Azeitona, o grande destaque do jogo. No intervalo só dava ele nas entrevistas das rádios.

Começa o segundo tempo com o Bahia de novo “em cima” do Botafogo. O ponta esquerda Jesum estava em noite inspirada e dribla como quer o lateral Anildo e o volante Aliomar passando a bola para Miltão que chuta na trave. No rebote é a vez de Jorge Campos perder um gol feito. O publico nas arquibancadas sente que o gol está próximo.
Mas ai acontece um contra ataque rápido do Botafogo e Sivaldo cruza a bola pra Hilton que é derrubado por Zé Augusto. É pênalti e, pra piorar, ele e Romero são expulsos na confusão que se segue á marcação do arbitro Anivaldo Magalhães. Hilton do Botafogo bate o pênalti e Luís Antônio defende. Mas no rebote o atacante acerta o olho esquerdo do goleiro gerando um “sururu” maior ainda que fez os jogadores saírem no tapa. No final da confusão é a vez de Hilton ser expulso igualando o número dos jogadores dos times em campo: agora, nove de cada lado.
O Bahia substitui o goleiro contundido Luís Antônio por Jair e, com a diminuição da chuva, volta a tomar conta da partida. Neste momento, é Douglas quem comanda o time enquanto o avante Miltão segue dando trabalho a defesa do Botafogo. Fito cobra falta “na gaveta”, o grito de gol quase saiu, mas Azeitona de mão trocada manda a bola para escanteio. Jorge Campos invade pela direita dá um “corte” em Vavá e manda “no ângulo”, mas aparece novamente Azeitona espalmando.
Já estamos aos 21 minutos da etapa final quando entra Zé Neto no lugar de Fito do Bahia que coloca mais um atacante para forçar a defesa adversária. Em sua primeira jogada esse jogador que veio do Goytacaz (e estreou num BA-VI com um gol de cabeça) quase faz o gol, mas outra vez Azeitona defende. Faltam quinze minutos para o jogo acabar e nada do placar sair do zero.
Eu, meu pai e meu primo Anacleto ouvíamos o radio com minha mãe insistindo para que eu dormisse, pois no outro dia haveria aula. Foi ai que Jesum desce pela milésima vez pela esquerda, passa fácil pelo zagueiro e centra para Miltão que sobe e é empurrado por Roberto Oliveira. É pênalti agora para o Bahia e Douglas ajeita a bola com carinho para a locução do radialista José Athayde da Radio Clube da Bahia: “Correu Douglas para a bola, atenção, bateuuuuuuuu, e... defendeu Azeitona”. Não é que o miserável do Azeitona voou espetacularmente e defendeu? É realmente parecia que os gols naquele dia estavam “rezados”. Tudo levava a crer que o jogo terminaria em 0 a 0.
Para complicar a situação, novo expulso do Bahia, Jorge Campos, por agredir Aliomar do Botafogo. Agora o Bahia tinha apenas oito jogadores em campo. O alvi rubro então, percebendo que a noite não era tricolor, passa a apertar o Bahia nos minutos finais. Faltando quatro minutos ocorre o lance capital do jogo. O meia do Botafogo Queirós perde uma bola na entrada da grande área para Baiaco, e este passa para Douglas que resolve abrir o jogo pra Zé Neto.

Este cai pela direita e na linha lateral domina e bola e penetra no campo do Botafogo. Leléu então sai em seu combate fazendo com que o atacante do Bahia perca o domínio da bola. No entanto, este, ainda em cima da linha lateral levanta a cabeça e, vendo Miltão na grande área, tenta o lançamento pra ele. A bola, porém, erra o alvo, subindo muito e indo até o goleiro Azeitona que a espera com as mãos estiradas para a defesa mais fácil do jogo.
No entanto, a bola tem e sua trajetória mudada pelo vento - como num chute estilo “folha seca” notabilizado por Didi – e cai dentro do gol. O narrador, depois de breves segundos de surpresa, canta o gol para a alegria da galera lá de casa. Imaginei durante anos a cara de Azeitona, de herói a vilão. Uma falha lamentável do jovem arqueiro que era a maior figura do jogo. É gol do Bahia Zé Neto, um gol espírita na Fonte Nova pra delírio da ala tricolor que deixava 13.532 pagantes na Fonte Nova!
Os jogadores do Botafogo deixaram transparecer o seu desespero nas entrevistas. Zé Athayde falou que levaram as mãos ás cabeças, e que o diretor do clube Miguel Carneiro não cria no que via. No entanto, não deixaram de consolar o desolado Azeitona que saiu de campo aos prantos. Era o seu primeiro jogo no time profissional e cometia uma falha destas! Mas a gente agora podia dormir!
Os times formaram naquela noite assim:
O Botafogo com Azeitona; Anildo, Roberto Oliveira, Vavá e Leléu; Ademilton, Aliomar (Queirós) e Luciano; Chiquinho (Zé Amaro), Hilton e Sivaldo. Já o Bahia formou com Luís Antônio (Jair); Toninho, Zé Augusto, Sapatão e Romero; Baiaco, Fito (Zé Neto) e Douglas; Jorge Campos, Miltão e Jesum.·.
Depois deste jogo Azeitona ainda defendeu o Botafogo em outras partidas. Atuou ainda no Jequié, Humaitá, Serrano, todos da Bahia, e no CSE de Alagoas. Eu o conheci pessoalmente em 1990 quando disputava um campeonato amador na liga de futebol do bairro de Luís Anselmo no Largo dos Paranhos em Salvador. Ao conversar com ele toquei no assunto da partida e aí me disse que “teve vergonha de sair na rua do bairro onde morava em Cosme de Farias no outro dia, e que ficou três noites sem dormir”. Falou ainda que “aquele frango só foi esquecido por todos em 1979 quando Gelson falhou na final do campeonato de 79 pelo Vitória contra o Bahia”.
Com este artigo encerro minhas narrativas sobre os “frangos” da Fonte Nova. Já contei o de Gelson e o de Azeitona. Só faltando o do goleiro Rui do Ypiranga em 1952 numa cabeçada despretensiosa de Carlitos. E o engraçado é que todos os três beneficiaram o EC Bahia.  
A vida de goleiro é realmente muito difícil. Azeitona me disse, que.
Estou lembrado para sempre pelo frango que tomei naquela noite, e não pelas defesas sensacionais que fiz naquela partida. Até pênalti do maior jogador do Bahia na época eu defendi bolas a queima roupa, petardos indefensáveis de Jesum, cabeçadas de Miltão, Zé Augusto, faltas de Fito. Mas de nada adiantou. O único gol do jogo foi por minha culpa, minha falha! Pelo menos ainda sou lembrado, que ironia!
Ele sorri e frisou “pelo menos não fui acusado de ter me vendido como fizeram com o Gelson”. Falhas acontecem, mas ainda bem que era um jogo de fase de classificação e não uma final como foi com Rui e Gelson. Como diz Azeitona: "ainda bem, ainda bem”. Ufa!
* Agradecemos pelas imagens aos blogs dogoleiro.com, quebarato.com e andrefidusi.com.

segunda-feira, 1 de novembro de 2010

O time da empresa de transportes SMTC


Não há nenhuma novidade na existência de times de futebol ligados a empresas. Isto sempre houve desde o início do esporte. Teve time ligado a fábricas, ao comércio e a empresas urbanas. Por isso não é nada de extraordinário que eles surgissem na Bahia. Aqui no estado até hoje funciona a Catuense e, na capital, teve o da Antártica, o Auto Bahia, o Circular e o da SMTC. 
O transporte público moderno tem sua origem na França do Século XVII quando o matemático Blaise Pascal obteve concessão para explorar carruagens. Na Bahia, chegou um pouco depois... duzentos anos, quando se estabeleceu a criação de companhias de ônibus ou gondolas. A adoção da palavra “ônibus” para designar este tipo de transporte surgiu perto desta época na cidade de Nantes. Conta-se que ali havia um sistema de diligências públicas. Para chamar a atenção do público usuário, um dono de loja colocou um letreiro com o trocadilho Omnês onibus. A primeira palavra correspondendo a seu nome e a segunda a palavra latina “para todos”. Olhe que naquela época ainda não se falava de jogo do bicho. Aí a expressão pegou.
Na Bahia também houve disputa para a concessão de linhas, onde parece que o negociante mais sério era mesmo Antônio Francisco de Lacerda. Tanto que acabou também implantando um elevador para ligar as duas partes da cidade que, enquanto não mudarem o seu nome para um político de ocasião, vai continuar se chamando de Elevador Lacerda.
A energia elétrica dinamizaria os transportes urbanos. Em Salvador, no finzinho do século XIX durante a República, seria inaugurada a primeira linha de bondes elétricos. No início do novo século o espólio da antiga Companhia de Transportes Urbanos e da empresa Lacerda & Irmãos passaria para o patrimônio da Linha Circular Carris da Bahia.
Já vi publicações falando muito bem desta empresa e das inovações que promoveu no transporte público em Salvador. No entanto, se fosse assim porque teria ocorrido o “quebra-bonde” de 1930? Só “insuflado” pela revolução daquele ano? Embora eu não seja estudioso do assunto o que posso dizer é que os bondes prestavam um serviço útil, mas discutível e acabariam sendo substituídos aos poucos, principalmente entre os anos 50 e 60.
Quando eu me entendi por gente já era esta época. Peguei ainda os bondes, mas não mais no tempo em que eles eram uma sensação e os estudantes iam para os pontos pra ver o “lance” do tornozelo das meninas subindo neles. No meu tempo já estavam tirando os trilhos e os fios que conduziram os bondes por muito tempo. Peguei assim os anos da SMTC.

Esta foi o Serviço Municipal de Transportes Coletivos criado por lei do prefeito Hélio Machado de 1955, que encampou a Linha Circular passando o seu patrimônio para a nova empresa. Esta já começou “por cima” e atuou em muita coisa na cidade, inclusive no nosso futebol. O time da SMTC teve uma passagem relâmpago na primeira divisão, em 1966. Eu me lembro dele. Embora eu o tenha visto jogar apenas uma vez contra o EC Vitória.
Naquele tempo tinha completado 18 anos e meu clube estava disputando um campeonato em busca de seu primeiro “tri” que acabou não vindo. É que foi o único ano em que o Leônico (lembram-se?) armou um timaço onde pontificavam Armandinho, Zé Reis, Gajé, Biguá e outros, e nos derrotou nas finais. Mas deixem isto pra lá, vamos voltar a Associação Atlética SMTC!
O time só subiu para a primeira divisão porque voltaram a fazer o certame de acesso no ano anterior. Mesmo assim acho que ficou em segundo ou terceiro lugar. Como não poderia deixar de ser fez uma campanha vexatória ficando reduzido a uma carroceria de ônibus.  O campeonato ocorreu em meio a uma crise. O primeiro turno foi disputado no campo da Graça, e por causa disto clubes como o Bahia, Leônico, Galícia e Fluminense não aceitaram participar. Isso favoreceu o SMTC que até que não foi tão mal nas quatro partidas que disputou. Estreou perdendo pro Ypiranga por dois a zero. Logo depois outra derrota, agora contra o Botafogo, por 2 X 1, com Meruca fazendo o primeiro gol da empresa, digo, do clube. Alguns dias depois obteria uma história vitória contra o finado Guarany, e de goleada (4 X 1), num dia que merece ser lembrado, 18 de junho de 1966. O time se lambuzou com tantos gols. Joelsinho fez dois. Edinho um e o “goleador” Meruca completou o placar. Pra azar (ou sorte?) do SMTC dois de seus jogos foram cancelados, contra o São Cristóvão e o Estrela de Março, em consideração ao futebol. O time ficou em quinto lugar, graças às desistências, ficando só abaixo dele o Guarany e o Estrela de Março.
Até então jogava naquele campo acanhado de arquibancadas de madeira e contra poucos clubes. No entanto, no segundo semestre tudo mudou com a passagem do certame para a Fonte Nova.  Aí o SMTC pegou um baralho errado. Seus jogadores pisaram pela primeira vez aquele gigantesco estádio contra o Galícia. No entanto, o nervosismo dos jogadores pode ser contornado, pois não havia praticamente ninguém pra ver sua derrota por um à zero.  A falta de gente se repetiria também no próximo jogo onde empataria com o Botafogo a zero.
À medida que o público ia crescendo aumentava o vexame do time do transporte, como por exemplo, quando tomou de quatro a dois do Ypiranga. Ai, porém “brilharia” Jackson não deixando que o time morresse de zero. A solidão no estádio o ajudaria a enfrentar ao todo poderoso Leônico conseguindo perder somente por um a zero. Logo depois o SMTC desandaria, caindo de quatro perante o Fluminense e de seis para o Bahia e, até o Guarany, que havia conseguido ganhar no primeiro turno, lhe aplicaria 4 X 2. Salvou-se na ocasião os jogadores Floriano e Edinho que anotaram os gols.
A empresa não aceitaria esta situação, apertando o time. O que será que foi tratado na ocasião? Será que todos seriam empregados como cobradores e motoristas? Iriam dar manutenção nos veículos? A ameaça surtiria efeito embora não salvasse o time da guilhotina. Nas proximidades do carnaval, assisti o SMTC perder do Vitória na Fonte Nova por dois a um. Foi um dos maiores públicos para o qual o time do transporte jogou. Na oportunidade Itamar, que havia decidido o título em 1964 contra o Bahia faria nossos dois gols, contra um de Gil (quem era?).
Logo depois conseguiria um heroico empate contra o São Cristóvão a zero, e, se despediria da primeira divisão num dia histórico. Nove meses após a vitória contra o Guarany no campo da Graça, esmagaria o “poderoso” Estrela de Março por 4 X 1 no dia 19 de março de 1967. Jackson seria comentado em todas as garagens e pontos de ônibus. É que ele fez três gols, completando o score o “famoso” Gil. É claro que a façanha não entrou no Guiness, particularmente porque o Vitória havia dado de dez e o Fluminense de nove neste adversário no campeonato.
No segundo turno ficaria em penúltimo lugar. Só o Estrela de Março o salvaria de segurar a lanterna. Quando divulgaram a colocação final do campeonato lá estava o SMTC em décimo lugar com apenas seis pontos ganhos. Na sua única participação no campeonato havia conseguido duas vitórias, dois empates e dez derrotas. Fez 14 gols e tomou 30. Se desta conta retirarmos os jogos contra os times fraquíssimos do Estrela de Março, São Cristóvão e Guarany, seu ataque se reduziria a apenas quatro gols, um contra o Botafogo, dois contra o Ypiranga e um... exatamente contra o meu EC Vitória.
                                                  Leônico, campeão baiano de 1966                            
Neste ano, a federação ficou com pena do torcedor, fazendo descer três para a segunda divisão. Há polêmicas sobre a participação posterior da empresa no acesso. Há quem diga que estaria presente nos próximos dois anos e quem o ache só em 1968. O certo é que sumiu! Nunca mais voltaria. A empresa acabou em 1979 transferindo seu patrimônio para a recém-criada TRANSUR. O seu final evitaria a tragédia de vermos de novo o time da SMTC.
·          Agradeço as informações e imagens aos sites classicalbuses.fotopages.com, seutransporte.com. br, infoescola.com, www2. dbd.puc-rio.br,  gersanweb.com, set. salvador. ba. gov.br,granadeiros.com e ao blog adleonico.com.br.