terça-feira, 26 de outubro de 2010

O primeiro campeonato baiano após a ditadura militar



A derrota da Emenda que restabelecia as eleições diretas para presidente sepultou a possibilidade de que o fim da ditadura no Brasil não fosse furto de negociações de cúpula. A oposição, hegemonizada pelos liberais, foi ao Colégio Eleitoral e elegeu Tancredo Neves de “balaiada” contra Paulo Maluf. A Bahia parecia prestigiada, num ministério onde Roberto Santos, Waldir Pires e ACM teriam posição, embora coubesse a este último o principal espaço, o Ministério das Comunicações.

Na época eu era militante do PT e agimos no sentido de combater aquela enganação. Não respaldamos o Colégio Eleitoral. Denunciamos o perdão aos crimes da ditadura. Combatemos a “Nova República” sarneysista. Eu participei de várias greves no período. Nem bem Sarney tomava posse e eu já estava na greve dos Correios.

Na Bahia havia mudado a conjuntura política. A entrada do governador João Durval na “Aliança Democrática” diminuiu (embora não evitasse) a repressão do governo possibilitando novos espaços para o movimento social na Bahia. De imediato intensificou-se a articulação dos movimentos de funcionários públicos. A Fundação Cultural, onde eu trabalhava, fez uma greve de “despedida” da diretora Olivia Barradas. Na ocasião, os funcionários trancaram a Biblioteca Central, saíram às ruas, sentaram no chão da Avenida sete parando por alguns minutos o transito.

Nesse ano o campeonato baiano estava muito enrolado e só começaria em agosto. Quase a metade dos clubes de Salvador passou a mandar seus jogos no interior, a ABB, em Lauro de Freitas, o Botafogo, em Dias Dávila, e o Leônico, em Ilhéus. O regulamento do campeonato era uma confusão só. Difícil de ser entendido pelo torcedor. Haveria dois turnos, quatro fases, e de quebra mais um turno se o mesmo clube não ganhasse as duas taças em disputa, a Cidade do Salvador e a do Estado da Bahia.

O quadro político nos estados convergia para as eleições de prefeito e governador. Em Salvador o PMDB manteve a candidatura de Mário Kertész, antigo integrante do grupo carlista, e havia um espaço entre os setores democráticos a ocupar. O PFL lançava o radialista França Teixeira, e ACM, então no PDS, lançaria (numa coligação com o PTB) o nome do tributarista afrodescendente Edivaldo Brito. Luís Pugas, do Partido Humanista, completava o elenco de candidatos. O PT lançaria Jorge Almeida após disputa interna.  

                                                                   
O campeonato baiano começou quando ia avançada a campanha salarial dos petroquímicos. Fui aos dois primeiros jogos do Vitória, vendo a goleada contra o Botafogo por 4 X 0(dois gols do nigeriano Ricky) e a vitória contra o Ypiranga por 3 X 1. Quando o time deu pra empatar eu só pude acompanhar pelo rádio, pois estava muito assoberbado pelas tarefas do movimento onde a grande greve do Polo exigiu nossa atenção até meados de setembro. Sofri assim com os empates com o Serrano, Fluminense e Catuense, deixando, pela primeira vez em muitos anos de assistir ao BA-VI com novo empate. Nessa fase o Vitória só ficou em primeiro lugar graças ao Ypiranga, que derrotou a ABB por 2 X 1!

Aí viajei para São Paulo onde iria ser realizado um evento importante, a fusão de três importantes organizações políticas que daria lugar ao Movimento Comunista Revolucionário que fiz parte. Nesta viagem e no retorno da campanha eleitoral, perdi a melhor fase do meu clube onde Ricky desandou a fazer gols que lhe levaria á artilharia do campeonato. Tive dificuldade de saber o resultado dos primeiros jogos em São Paulo, quando ganhamos do Ypiranga (1 X 0) e do Serrano (5 X 1). O restante foi um passeio, novo 4 X 0 contra o Botafogo, 1 X 0 no Fluminense, 0 X 0 com a Catuense, e, pra coroar o primeiro turno, 2 X 0 no Bahia (gols de Ricky e Zé Augusto).

Tudo isto tive que acompanhar pelo rádio, pois estava na maior trabalheira como coordenador da campanha do PT a prefeito de Salvador. Lembro que praticamente me mudei para a sede do partido, que era também sede da campanha, na medida em que não havia dinheiro para alugar dois locais. Passava o tempo elaborando programas, discutindo a intervenção do candidato junto á imprensa, animando os apoiadores, defendendo-nos na disputa interna, organizando panfletagens, pichações e outras atividades de campanha, e, finalmente, dando plantões na sede. Com se vê, pouca coisa!

O Vitória decidiria o turno contra a Catuense jogando por dois empates. Não deu outra coisa! Eu ainda consegui “fugir” das minhas atividades (é bom que ninguém saiba disto!) pra ver o segundo jogo onde Fernando fez o nosso gol contra o de Bobô, que na época jogava pelo time de Alagoinhas. Foi um jogão!

Enquanto isto a eleição solteira dificultava a mobilização para a campanha eleitoral. Mário Kertész (que liderava folgadamente as pesquisas de opinião) se negou a fazer debates, o que retirou das TVs esse importante instrumento de campanha, sendo que não foram feitas sequer entrevistas nas emissoras de rádio e televisão. Nossa campanha era de uma pobreza franciscana. Não tivemos jingle, adesivo ou bandeiras de candidato. Só no final, quando foram chegando os apoios, é que pudemos confeccionar a marca do programa de TV e adquirir camisetas para a boca de urna.

Nas proximidades do horário politico a Radio Educadora dispôs uma cabine no seu prédio para prepararmos os programas eleitorais. Nossa falta de estrutura era tão grande que sequer tivemos condições de preparar os primeiros programas, que só foram ao ar porque “picotamos” um programa anterior do PT, e onde o candidato a prefeito aparecia somente como presidente do partido. Mesmo assim, o candidato foi o único a colocar os movimentos sociais no ar e teve boa audiência a sua denúncia da sonegação de impostos por Mário Kertész.
                          
Mas continuava acompanhando o futebol. Para o Vitória bastava ganhar o segundo turno pra voltar a ser campeão do estado. Mas qual, o time desceu pela ladeira, após ganhar as quatro primeiras partidas, acabou sendo derrotado dentro da Fonte Nova pelo Itabuna e Leônico, deixando o título da primeira fase deste turno com o primeiro, e acabando em terceiro lugar.

Na segunda fase melhorou, ganhando todas as partidas de seu grupo somente com um empate com o Itabuna. Mas havia deixado que o seu arquirrival se soerguesse e este acabou ganhando o segundo turno em duas partidas contra o Vitória (1 X 3 e 1 X 1). Eu, pelo menos, continuava invicto, não tendo visto nenhuma derrota até agora, pois a ainda estava na apuração dos votos.

Na véspera da eleição a greve dos gráficos provocaria um susto enorme em todos os candidatos, pois causou problemas para a saída dos materiais eleitorais. Como apoiávamos o movimento não pudemos “furá-lo” tendo que aceitar as dificuldades para a impressão de materiais, que só seria resolvida (para nosso alívio) poucos dias antes da eleição. Teríamos pelo menos farto material de boca de urna!

Intensificamos nos últimos quinze dias a campanha, a encerrando com uma carreata no último dia permitido. O governo estadual de última hora deu reajuste aos funcionários, mas não “colou”, pois apenas 10% teve INPC integral. Mário Kertész e Edivaldo Brito, encerraram as suas campanhas com comícios e nós só conseguimos fazer uma carreata. Mesmo assim, realizamos uma combativa boca de urna, que passou a ser uma marca do PT nas eleições assim como o era da esquerda desde a segunda parte dos anos 70.

Chegamos a 5,14% dos votos, o que eu e a organização consideramos uma vitória. Mário Kertész teria uma vitória esmagadora alcançando 56,41% dos votos validos. Logo abaixo ficaria Edivaldo Brito com 16,52%, França Teixeira com 11,62% e, abaixo de nós Luís Pugas com 1,88%. Nosso candidato Jorge Almeida declararia á imprensa que o partido iria “assumir a oposição ao novo prefeito” ao qual pretenderia cobrar as promessas de campanha. Disse ainda não acreditar em mudanças expressivas em virtude dos “compromissos assumidos por este com grandes grupos e setores reacionários e retrógados da política estadual”.

Agora era recuperar o leite derramado no campeonato. O Vitória havia deixado que o seu arquirrival se soerguesse e este acabou ganhando o segundo turno em duas partidas contra nós (1 X 3 e 1 X 1). Eu, pelo menos, continuava invicto, não tendo visto nenhuma derrota até agora, pois ainda estava na apuração dos votos.

Quase que pedia uma “licença política” pra ver as finais. Pro Vitória ganhar o título tinha que começar tudo de novo. Haveria um quadrangular decisivo com os dois campeões de turno contra dois clubes interioranos, o Serrano(de Vitória da Conquista)e a Catuense(de Alagoinhas). Tanto o Vitória como o Bahia já levariam dois pontos de bonificação neste turno extra.

A tabela agora ajudaria a que eu assistisse aos jogos. É que Vitória e Bahia jogaram no interior as primeiras rodadas, com o meu clube ganhando as duas (3 X 1 do Serrano e 3 X 2 da Catuense) e o Bahia empatando uma (1 X 1 com a catuense) e perdendo a outra (2 X 1 para o Serrano). Foi em meados de dezembro que ocorreu o BA-VI onde o título estaria quase ganho, se meu clube vencesse os dois clubes do interior empatassem.

Ah que decepção! Foi minha primeira derrota no campeonato, por um a zero. Nesse dia o Serrano ganhou a Catuense fazendo com que um suor frio escorresse por minhas costas. Dobrava o terceiro turno com Vitória e Serrano com quatro pontos, o Bahia tinha três e a Catuense um. Será que iríamos conseguir perder este título?

Vem à segunda fase do terceiro turno (faça força pra entender!) e, logo na primeira rodada o Vitória repõe a vantagem ganhando de quatro do Serrano enquanto o Bahia perde para a Catuense (2 X 1). A segunda rodada seria decisiva para meu clube, quando enfrentaríamos a Catuense. Se o Serrano empatasse a vitória nos daria o título. E eis que tudo nos sorri. No dia vinte de dezembro ganhamos de 2 X 1 da “laranja mecânica” (gols de Bigu e Ivan) enquanto o nosso rival nos faz o favor de derrotar o Serrano. Era o sonhado título. O Vitória com dez pontos já não podia ser alcançado pelo Bahia que só tinha sete pontos.

O jogo final foi pra receber o caneco e colocar as faixas de campeão baiano de 1985. Mas não é que o Bahia colocou agua no nosso Chopp? Teve gente na torcida que acusou os jogadores de fazerem “corpo mole”, pois o título já estava ganho, só se salvando Ricky pelo gol que fez, fazendo com que perdêssemos mais uma vez para nosso adversário, agora por 2 X 1. Mas aí faltavam três dias para o Natal e foi só comemorar!

O ano de 1985 se encerrou com outro pacote de Sarney. São reduzidos os gastos, privatizadas empresas estatais, unificados os índices de correção monetária e salarial. Quanto a nós continuaríamos lutando contra seu governo.


*  Agradeço ao blogs História do Futebol, pelas informações, e aos novahistorianet.blogspot.com,mariokertesz.jpg e rickycampeao.opg,pelas imagens.

domingo, 24 de outubro de 2010

O engenheiro cuja firma iluminou a ampliação da Fonte Nova

                  
Quando se deu a grande ampliação da Fonte Nova, coube a meu pai a responsabilidade pela parte elétrica e esgotamento. Como ele completa em dezembro 89 anos, aproveitei sua presença em minha casa ontem para pedir-lhe que recordasse aqueles tempos. Tenho a certeza que os meus leitores vão desculpar alguma omissão e falta de precisão na sua narrativa, que ainda reflete a admirável memória e lucidez de uma pessoa nesta idade em relação a fatos que sucederam há quarenta anos.
Permitam-me uma breve apresentação de “painho”. Técnico em engenharia, pela Escola de Eletromecânica da Bahia, venceu na profissão com admirável senso prático, que o fez atuar em praticamente todas as áreas da engenharia. Desde os anos 50 teve atuação constante nesse mercado no estado. Entre 1955 e 1973, trabalhou no antigo Departamento de Energia varou dezenas de municípios construindo subestações, seja cumprindo ordens públicas ou agindo mediante firmas que criou neste período.

Em 1969 meu pai, e seu irmão José Carvalho, criariam uma nova firma, a EMBACIL, que foi a que se encarregaria das obras de iluminação e esgotamento da construção do anel superior do Estádio da Fonte Nova. A empresa seria contatada pela Secretaria de Educação, e meu pai lembra que “o Norberto (Odebrecht) ficou com a construção civil norte, Nilton Simas ficou com a construção civil Sul, nó ficamos com a parte elétrica e esgoto e... não me lembro de quem ficou com o campo”.

Perguntado quantas pessoas trabalharam no empreendimento, diz que empregou 600 operários, que no campo trabalhavam “algo em torno de cinquenta pessoas”, e acredita que aqueles dois empreiteiros utilizaram mais ou menos o mesmo número que utilizou. É claro que estas informações devem ser comparadas com a dos outros engenheiros, mas, pelo que meu pai lembra podem ter trabalhado regularmente na obra cerca de duas mil pessoas.

Pra poder pagar o pessoal teve que tomar um empréstimo no antigo Banco de Credito Real, que funcionava no Relógio da Piedade. Diz que naquela época “o banco abria na hora que agente precisava. Nos sábados agente pagava os operários, cheguei até a abrir o banco nesse dia de tarde”.


Instalar a iluminação e o esgotamento levou aproximadamente seis meses. Teve que modificar o projeto elétrico. A voltagem da Fonte Nova era de 220 volts, de forma que, para melhorar a tensão secundária mudou o sistema elétrico para 380 volts. Lembra ainda da solução técnica que adotou. “Tivemos que fazer duas ligações. Uma cuja entrada vinha pela Ladeira da Fonte Nova, e a outra, que passava pelo Dique do Tororó. No total foram construídas e acionadas sete subestações, uma para cada torre e uma geral”.  

Quanto a mim, lembro que no fim do governo Luiz Viana Filho lidei com a minha primeira greve, só que do lado patronal, o da firma dos irmãos Carvalho. Era fim de semana, quando os operários costumavam receber, e o banco estava muito cheio. Assim, meu tio acabou atrasando o horário do pagamento do pessoal.

Foi um sufoco para meu pai. Eu e meu irmão “Toinho”, tivemos de ir lá ajudar. Os operários foram para o escritório da empresa, que funcionava no próprio estádio, e fizeram um escarcéu, exigindo o pagamento. Ajudei a colocar um balcão pra separar a administração do pessoal em fúria. Tentamos contemporizar pedindo pra aguardar. Toda hora agente dizia que “Carvalho já estava vindo”. Naquele tempo não tinha celular então não podíamos saber quanto tempo ia demorar meu tio no banco. Quando o dinheiro chegou foi um alívio. Depois disso meu tio passou a ser um dos primeiros a chegar ao banco nos sábados.

Depois a empresa levou alguns meses pra receber os 280 milhões que tinha se saldo. Como é comum no Brasil o novo governo ficou remanchando pra pagar a obra autorizada no governo anterior. A empresa teve que fazer um mau acordo com o governador ACM pro dinheiro sair. Até hoje meu pai fala nisso. Afirma que “acabei chupando linguiça na Fonte Nova”.

Pra terminar o papo pedi a sua opinião sobre dois assuntos: a demolição do estádio e o projeto da arena para a Copa de 2014. Respondeu ao primeiro assim: “Desnecessária. Tem caráter eleitoreiro. É uma vergonha! (e completou convicto, mesmo sem gostar do “cabeça branca”) Com ACM vivo ele não derrubaria a Fonte Nova!”.  Quanto ao segundo, afirmou que “não conhecia o projeto, portanto não podia opinar”.  

Agradeço as imagens dos blogs mauasesporteclube.blogspot.com e novaimagem5.png.

sábado, 23 de outubro de 2010

Os Menudos na Fonte Nova

Galdino Antônio Ferreira da Silva
Financista, desportista e colaborador dos blogs História do Futebol e Futebol 80.

Quem não se lembra dos Menudos, um conjunto musical porto-riquenho que fez sucesso mundial nos anos 80? Criado em 1977 pelo produtor Edgardo Díaz, o conjunto teve diversas formações, onde tocaram mais de 30 integrantes. A de maior sucesso, no entanto, foi a que veio á Bahia e tocou na Fonte Nova. No auge do sucesso, o grupo Menudo incluiu Salvador na rota de sua primeira turnê no país, em março de 1985.
Foi uma loucura na cidade. Hospedados no Hotel da Bahia, eles ficaram cinco dias na cidade, levando milhares de adolescentes literalmente a histeria. A presença do quinteto de Porto Rico gerou o maior rebuliço e deu muito trabalho às autoridades para conter a multidão, que se aglomerava no entorno do hotel. Todos os quartos estavam ocupados por filhos e pais ansiosos em encontrar Roy, Ray, Rick, Charlie e Robby. 
Os Menudos foram recebidos pelo Governador João Durval Carneiro, navegaram pela Baia de todos os Santos, e fizeram uma apresentação vip no terraço do Shopping Itaigara, que foi a patrocinador da turnê. Para alguns abastados.
Mas o grande público da Menudo-mania foi mesmo o da Fonte Nova, levando uma multidão ao estádio naquela tarde-noite de dois de março daquele ano. Eu não tinha simpatia pelo grupo, mas estava trabalhando em uma obra que a Concreta realizava na Fonte Nova, assim fiquei lá até por volta das 17h00min. Pude então presenciar o rebuliço causado pelos garotos porto-riquenhos.
Parecia dia de jogão no estádio, só que o público era diferente. Ao invés dos marmanjos de sempre o que se via era um mundo de adolescentes e mulheres “saradas” muito afim de uma paquera com jovens. Não se via ninguém com camisa de clubes, mas com camisa de suas tribos ou grifes. Aliás, o estádio nesse dia era o dos sonhos dos machões, só se via meninas bonitas, de todas as classes sociais e de todos os lugares da Bahia. Veio caravanas de Feira de Santana, Ilhéus, Santo Antônio de Jesus, Valença, Itabuna, Camaçari, Alagoinhas e outras cidades próximas da capital.
Eu acabei sendo requisitado para dar uma força em um dos portões onde o fluxo de jovens era muito grande, apesar de não fazer parte do quadro da SUDESB. No entanto, quase me dei mal, pois os garotos, na ânsia de achar um local privilegiado para ver o conjunto musical da moda, fizeram uma correria desenfreada e ai quase morri pisoteado por tênis, sapatos de salto alto, sandálias melissa, e etc. e tal. Fiquei no meio da confusão e acabei levando trombadas de todo jeito. O pior é que não pude recuar tendo que seguir em frente para ajudar os desesperados porteiros e a segurança. A coisa só melhorou mesmo com  a chegada da policia!
Seus integrantes gravaram oito álbuns, venderam mais de 24 milhões de discos e emplacaram hits como If You’re Not Here e Não se Reprima. O Brasil foi um dos melhores mercados para o grupo. Tanto que Roy um de seus integrantes, depois que saiu do grupo, aos 17 anos, veio morar no Brasil.



                                                                                       

sexta-feira, 22 de outubro de 2010

ANIVERSÁRIO DO BLOG


Hoje meu blog completa um mês.  Mesmo sendo ainda um bebê achei importante fazer uma avaliação pros meus leitores.  A ideia de um blog começou no início deste ano, quando comecei a escrever o meu quinto livro. Acostumado a escrever sobre história política, ao me aposentar da UFBA decidi escrever Camarada Júlio que contém a primeira parte da minha biografia política, que vai dos anos 60 ao final dos anos 80.
Durante este ano também foram acelerados os trabalhos da demolição da Fonte Nova, da sua piscina e do Ginásio Antônio Balbino, com vistas à criação de uma arena exclusiva para futebol para a Copa do Mundo de 2014.  Confesso que este processo me impactou. Havia confiado na atuação do Ministério Público e entidades civis que haviam se posicionado contra o fim desse complexo desportivo, não só por se tratar de um ícone da arquitetura modernista brasileira, como em virtude da nossa memória desportiva, e, ainda, pelo valor escorchante do projeto aprovado, em torno de um bilhão e seiscentos milhões de reais.
Assim, acompanhei os diversos posicionamentos em torno da obra, entregue as construtoras Odebrecht e OAS, cujo contrato prevê ainda uma draconiana indenização a ser paga pelo governo da Bahia durante vários anos, caso não seja alcançada um valor de rendimento anual que chega aos vinte e três milhões de reais.
As pressões da CBF e da FIFA, e a proximidade das eleições, certamente contribuíram para que houvesse um “acordo” (que estiveram longe de envolver todos os críticos do projeto) para tocar as obras de qualquer maneira. Cheguei a pensar em me deitar no campo do estádio. Amarrar-me a uma das pilastras, e outras opções grandiloquentes, pra não deixar que fosse por terra tantos sonhos e emoções que desfrutaram ali boa parte da população de Salvador durante pelo menos seis décadas.
Ao começar a revisão pessoal do meu livro, porém, encontrei ali muita coisa relacionada ao estádio e seu ginásio.  Percebi então que, como historiador, poderia dar uma contribuição ao velho complexo esportivo: a de preservar sua memória. A primeira atitude que tomei a partir desta decisão foi comparecer ao triste espetáculo da implosão. Realizado na véspera das eleições, e programado para atrair as atenções do país para a Bahia, não conseguiu, porém, suprimir a nostalgia e a tristeza de muitos.
Meu artigo “Presenciando a implosão da Fonte Nova” não foi publicado na imprensa empresarial.  Teve, no entanto, uma boa audiência em alguns blogs.  Este retorno só fez consolidar a minha decisão. Algum tempo depois o blog wwwmemoriasdafontenova. blogspot.com ia pro ar.
Como todo neófito passei por algumas dificuldades para viabilizá-lo. Nunca tinha feito um blog. E, logo no início, caí no “conto do blog”, onde se anuncia uma coisa de graça, e depois se cobra todos os acessórios. Desta maneira, entrei e saí de um provedor com meu blog. Logo depois, ao tomar melhores informações, cheguei ao blog spot, onde fui bem recebido e consegui entender alguma coisa da parafernália explicativa sobre como criar e manter um blog.
Blog no ar faltava dar-lhe forma e manutenção, o que foi conseguido graças à ajuda de Carolina Silva e Diogo Bacellar. Com a experiência do dia a dia pude levar nesses trinta dias. Sofreu, entretanto, a divulgação. Para vocês terem uma ideia limitei-me a enviar e-mails para amigos e a entrar em blogs sobre futebol solicitando a recomendação.
Os resultados me surpreenderam. Completamos esse primeiro aniversário mensal com aproximadamente quinhentos acessos. É claro que estamos muito distantes de Tiririca (4,3 milhões), mas já dá pro gasto. Também foi uma surpresa os acessos internacionais, que equivalem a 25% do total, e onde se conta países como o Egito e os EUA, Alemanha, Portugal, o Reino Unido, Portugal, Indonésia, índia e França. Uma satisfação ainda maior foi à aproximação de nosso blog com colaboradores, como Carlos Molinari e Galdino Ferreira, e com Davi Caires, sobrinho neto de Diógenes Rebouças.
Acredito que o blog tem preenchido até agora uma necessidade real, a de preservar viva a memória do complexo esportivo que marcou época na Bahia ao longo de quase sessenta anos. Esperamos continuar a merecer a confiança dos nossos acessantes, para a qual deve ter colaborado, além da seriedade dos artigos e crônicas, o humor, e as recordações que atualizamos todos os dias.

quinta-feira, 21 de outubro de 2010

O primeiro campeonato nacional disputado pelo EC Vitória

                            
No início de 1972 o Vitória montaria um time excepcional que seria mais tarde campeão baiano. Não esquecerei tão cedo daquele time. Tinha um ataque formado por Osny, Gibira, André “Catimba” e Mário Sérgio, que infernizava as defesas.

O E.C.Bahia, já participava do Torneio Roberto Gomes Pedrosa, apelidado de “Robertão”, e havia pressões desde o ano anterior para incluir outros clubes do estado no certame. Habilitavam-se para a escolha o Vitória, o Leônico, o Fluminense de Feira, o Galícia, e até o Ipiranga. Estávamos numa época onde a crise havia voltado ao futebol abalando o tradicional esquema existente na Federação Baiana de Futebol-FBF, embora não houvesse o mesmo na Confederação Brasileira de Desportos- a CBD, depois dedicada somente ao futebol.

Considero que a decisão de garantir a Bahia e Vitória o monopólio da representação do estado, ao lado do esvaziamento dos clubes de Salvador, soterrou definitivamente a pluralidade de nosso futebol. Havia presenciado nos anos 60 diversos clubes se tornarem campeões: Bahia (cinco vezes), Vitória e Fluminense de Feira de Santana (duas vezes), Leônico, Galícia (uma vez).

Os próximos anos veriam o desaparecimento progressivo de times tradicionais como o Ipiranga, o Botafogo, Guarany e Galícia, assim como também do Leônico, Redenção, ABB, Estrela de Março, Monte Líbano e São Cristóvão, deixando a capital do estado apenas com dois clubes e com todos os títulos. Na década de 70 que estávamos entrando apenas dois clubes seriam campeões, o Bahia oito vezes e o Vitória duas.

O Vitória sairia vencedor desta batalha onde não faltou a política. Que diferença entre a condição entre a pequena representação que contava há 40 anos e a grandeza atual. Possuía na ocasião uma pequena, mas combativa torcida que ocupava o lado esquerdo das cabinas de rádio do Estádio da Fonte Nova. Embora fosse a segunda torcida do estado estava muito longe do nosso arquirrival. Tinha, entretanto, figuras proeminentes no jornalismo e em certos cargos do Estado, e uma diretoria com iniciativa, onde se destacavam Raimundo Rocha Pires (o “Pirinho”), Benedito Dourado da Luz e Alexi Portela (pai).

Em 1971 a CBD havia se mostrado inflexível mantendo apenas nosso rival. O primeiro campeonato, porém, levou a grande desmoralização da entidade. Os esquemas que de há muito era notados ganharam dimensão nacional. Esta organizou o campeonato em duas chaves utilizando um duplo critério de classificação para a fase final, o nível técnico e a renda! O processo levou a inúmeras maracutaias quando os clubes compraram renda para subir na colocação, causando grande escarcéu o jogo no Maracanã entre Vasco da Gama e Palmeiras, cuja renda correspondia ao dobro do público presente.

                                       Escudo da extinta CBD                                

O povo baiano respondeu positivamente ao primeiro campeonato levando a este grandes rendas fazendo com que nosso rival ficasse entre os cinco melhores colocados no critério imoral. As baixas rendas de uma série de clubes do Sul, o novo estádio, o interesse da realização de uma Mini Copa e o ano eleitoral de 1972 fizeram o resto garantindo a entrada de dois clubes da Bahia (entre os quais o Vitória), acompanhados, entretanto, de vários representantes de estados com menos tradição no futebol brasileiro.

Alavancada pelo “milagre econômico” a ditadura investe na centralização nacional que teria sua versão no futebol. Mas esse passo se daria no nosso esporte mais popular à custa de uma verdadeira esculhambação. Até o fim da década mais de noventa clubes seriam inseridos no nosso “campeonato nacional” merecendo criticas dos chamados "grandes clubes". Época em que a desmoralizada CBD se transformaria na CBF após 60 anos de existência. 

Mas, voltemos ao certame de 1972, onde entraram quase trinta clubes divididos em quatro chaves. O Vitória caiu na chave D. Lembro que na época fiquei feliz, pois havíamos ficado junto com o Sergipe e esperava que este não deixasse que ficássemos na lanterna no primeiro ano de nossa participação.

Mesmo possuindo um bom time o Vitória se reforçou contratando jogadores experientes como Zé Eduardo (ex-Bahia) e trazendo o técnico Jorge Vieira. Assisti a praticamente todas as partidas realizadas em Salvador. Começamos muito mal empatando com o Clube do Remo em zero a zero. Depois um desastre, na primeira partida contra um time “do Sul” quando fomos derrotados pelo Palmeiras por três a zero. Quando parecia que faríamos uma campanha vergonhosa veio a primeira vitória, obtida contra o Santos (que não era mais o da minha adolescência), por um a zero.

Cedo, porém fui entendendo que o clube ainda não estava preparado para disputar títulos nacionais. Apesar de ter vários títulos estaduais, ter chegado a possuir grandes jogadores, e ter tido grandes vitórias em amistosos, inclusive no exterior, o Vitória era ainda um clube regional, devendo investir em longo prazo para ocupar um papel de destaque no cenário futebolístico nacional, o que só começaria a ocorrer duas décadas depois.

O fator preponderante para esta consciência foi os poucos gols que o time fazia o fato de não ganhar fora de casa (ganhar do Sergipe não valia!) e, principalmente as vergonhosas derrotas seguidas que sofremos em Belo Horizonte, para o Cruzeiro e o Atlético Mineiro, respectivamente, por cinco a zero e quatro a zero. Uma verdadeira participação ficaria para a próxima. Somente vinte e um anos depois o clube chegaria numa decisão, após amargar um tempo na segunda divisão.

*   Agradeço as imagens dos blogs pt.wikipedia.org e produto.mercadolivre.com.br.

quarta-feira, 20 de outubro de 2010

Rock e futebol nos anos 60: parte II


   
Foi depois do golpe de 64 que o EC Vitória voltou ás cabeças aproveitando a desestruturação política do futebol baiano para tornar-se bicampeão baiano após sete anos sem títulos. O primeiro título só seria decidido em maio do ano seguinte com a tradicional “melhor de quatro pontos”. Nesse tempo a vitória ainda valia dois pontos e a tabela de classificação constava de pontos perdidos.

Assisti aos três jogos. O Vitória ganhou de dois a um o primeiro. Aí comparecemos na quarta feira de noite pra “fechar o caixão” do título. Quando Didico, o “diabo louro”, abriu o placar tudo parecia sacramentado. Mas não é que o Bahia viraria o jogo? O jogo decisivo seria no domingo, quando foi à vez do Vitória ganhar de 2 X 1 de virada, com dois gols de Itamar.

Era o título tão esperado. Entrei na farra da comemoração, comprando um litro de Ron Bacardi (até hoje no posso nem ver a garrafa!) indo com amigos a um bar onde tomamos com coca cola todas as que tínhamos direito. Foi a primeira e única vez que me embriaguei na vida, tendo um dos amigos me levado pra casa de madrugada, encostado na porta e batido, pra surpresa de minha mãe que me viu desabar no chão.

Estávamos numa época de manifestações musicais jovens e acompanhava como podia os grupos estrangeiros de sucesso. Além de ser fan incondicional dos Beatles vibrava com artistas como os Rolling’s Stones, Elvis Presley, Little Richard, The Animals, Dave Clark Five, The Byrd’s, os Beach Boys, The Mamas The Papas, The Monkeys, os Bee Gees, Rita Pavone, Peter, Paul and Mary, Sonny and  Cher, The Supremes, Simon Garfunkel, dentre outros.

                           
O rock nacional era um rebatimento do que se fazia nos EUA e Inglaterra. O comportamento dos artistas “de fora” influenciou toda a nossa geração, inclusive no modo de vestir e encarar o mundo. Queríamos ser como eles, usar calças apertadas e com boca larga, botinha, deixar crescer bigodes, costeletas e cabelos, cortando-os se possível na testa á maneira dos Beatles. Durante muitos anos só vesti calça Lee.

Em Salvador assistíamos ao programa Jovem Guarda na TV Itapoá, comandado por Roberto Carlos nas tardes de domingo, e ouvíamos programas de rock na rádio. Vibrávamos com Roberto Carlos, Erasmo, Vanderléa, Leno e Lilian, Rosemary, Jerry Adriani, Eduardo Araújo, Silvinha e Roni Cord. “Rolavam” na época também ritmos como o twist e o hully gully embora fossem difíceis de dançar nas festas.

Lembro-me de ter assistido por várias vezes os filmes Os reis do iê-iê-iê (A hard days night) e Help, ambos no Cine Guarany, e a comprar todos os discos dos Beatles que chegaram Á Bahia. Em relação aos seus imitadores no Brasil, - tipo Brazilian Beatles, The Fevers, Os incríveis e Renato o seus Blue Caps, herdei apenas o hábito de fazer versões musicais.

Mas até aí se insinuava as minhas traquinagens. Numa destas sessões de cinema, a qual compareci com meu irmão “Toínho” e alguns amigos, fingi desmaiar sendo carregado por eles por todo o cinema. Parou o filme, acenderam as luzes, foi um escândalo! Deve ter sido um dos primeiros “desmaios” de fãs do rock na Bahia, embora no exterior eles fossem feitos por mulheres.
                       
Nessa época dei até pra ir aos treinos do Vitória no estádio da Graça. Num dia, porém, um pequeno laivo de consciência político-desportiva me levou a desentendimento com o zagueiro campeão Tinho, conhecido pela sua atuação viril. É que não havia engolido a derrota do Vitória no segundo jogo da decisão, e me chamavam a atenção coisas estranhas num futebol cheio de dirigentes “escolados”.  

Naquele tempo, “por coincidência”, haviam sempre três jogos na decisão, não importando a boa fase do clube. Alheio ás tramas do futebol me perguntava por que nenhum clube ganhava as duas primeiras partidas e liquidava o campeonato? Outra questão que me intrigava era porque nenhum clube ganhava os dois turnos evitando jogar uma decisão?

Não pensem que é desculpa (no mínimo é coincidência), mas a ditadura pioraria o meu rendimento escolar. Na Escola de Eletro Mecânica em Nazaré, amargaria duas reprovações seguidas, só conseguindo ser aprovado em 1967 quando já achava que o Colegial era muito complicado pra mim.

O movimento do rock em Salvador era muito ativo e me levou de roldão. Havia The Gentlemen (de Pepeu), The Brazilian Crickets (de Jeff Cesar), Eles Quatro (de Plínio), Os Jetsons (de Perinho Santana), Os Sombras (de Augusto e Sérgio), além de outros que se apresentavam em festas como os Jormans, Os Desafinados, o Brasa Bossa, Os Mustangs e o The Lords.

Na oportunidade outros estilos de bandas de rock já apareciam por aqui, merecendo apenas a minha atenção parcial por considera-los agressivos e com pouca melodia. Achava inusitada a turma que começou a quebrar guitarras no palco, mas tendia a não gostar deles. Os Rolling Stones eram os principais agressivos, embora eu tenha apreciado Satisfaction. Na época ouvia Jimmy Hendrix sem entender o mundo de sons que saía de sua guitarra e tinha dificuldade de me concentrar no que Janis Joplin cantava. Que dizer então dos punkies, os mais politizados entre esses grupos?


O artista que permitia sintetizar um trabalho de fácil compreensão, com o rock country norte-americano e o protesto era o admirável Bob Dylan. Talvez seja por estas restrições que o movimento hippie não tenha me sensibilizado e, junto com ele, as drogas e a liberação sexual. É que entrei na Era do rock com o mesmo romantismo do início de minha adolescência absorvendo deste apenas o comportamento transgressor.

Neste período alternei o comparecimento ao futebol com a participação em grupos de rock. Nesse último, fiz versões de musicas estrangeiras de sucesso e penetrei no universo que deu ao Brasil nomes como os de Raul Seixas, Tildo Gama, Valdir Serrão, e outros, com quem tive a oportunidade de tocar nos grandes eventos na Concha Acústica e no “Balbininho”.

Enquanto sucediam-se movimentos políticos no Brasil, no Vietnam, na França, na China, nos EUA, eu iniciava como crooner de bandas, começando com Os homens maus (isso mesmo!), depois participando de Os anjos, e, por último, tocando com Roosevelt e seus relâmpagos.


O meu crescimento no instrumento foi meteórico, adotando como modelo o contrabaixista Plinio, do grupo Raulzito e seus panteras (de Raul Seixas), chamando a atenção do meu ídolo durante um encontro de bandas no “Balbininho”. Lembro que após o evento ele veio conversar comigo elogiando o meu desempenho no contrabaixo e me perguntou:

- Rapaz, porque você não estuda musica?
- Aquilo ficou em minha cabeça e, certamente, influiu em minha decisão posterior.

Meus amigos de futebol e do iê-iê-iê passaram a ser minhas turmas. Eu andava sempre por Nazaré e pelo Centro. A Fonte Nova era logo ali, a duzentos metros do Campo da Pólvora. Os integrantes dos Anjos (Dílson, Ubajara e Soeiro), moravam em Nazaré, no Sodré e nos Barris. De modo que era tudo ali perto.

Eu frequentava ainda locais de ensaios na Avenida Carlos Gomes e no Garcia, onde passei a tocar e me relacionar com vários roqueiros da época, entre os quais Tildo Eládio (guitarrista de Raul), Márcio (um contrabaixista que tocava em várias bandas), entre outros. O amor pela musica eliminou a necessidade de minha mãe me acordar todas as manhãs para estudar. A televisão ia aos poucos substituindo o rádio. Enquanto a ditadura campeava parecíamos querer mandar tudo pro inferno.

O pessoal de Raul tinha sua área de operação no Campo Grande/Canela. Raul estudava nos Maristas, e os apartamentos de Eládio e “Carleba” eram, respectivamente, num prédio da esquina da Rua Araújo Pinho, e no Edifício Marigomes, situado ao lado do TCA, esquina com a Rua Leovigildo Filgueiras.

Nos próximos anos a imprensa local boicotaria o futebol. A desculpa foi à agressão sofrida pelo jornalista Cléo Meirelles e uma invasão que teria sofrido o jornal A Tarde. Os acusados eram diretores do Vitória como Raimundo Rocha Pires, o “Pirinho”. Pra saber das noticias você tinha que ir ao estádio ou ler o Esporte jornal. O Vitória fez uma difícil e histórica decisão contra o Botafogo.

Esse clube tinha montado o seu melhor time depois de décadas e o título só saiu com um gol de pênalti cobrado por Tinho, depois de dois empates de zero a zero.  Nem a Taça Brasil amainou a posição da imprensa. Tivemos que ouvir os jogos do Vitória contra Campinense e Náutico pelas emissoras de outros estados. O Vitória passaria por um (duas vitórias), mas perderia duas vezes para o excepcional ataque pernambucano, formado por Nado, Bita Nino e Lala.
 
Depois foi o desastre do “tri” frustrado, quando demos o azar de pegar o melhor time da história do Leônico. Na decisão perdemos a primeira (2 X0) e ganhamos à segunda (2 X 1). Na final, entretanto, o meia Armandinho só faltou fazer chover. Não adiantou o gol de Bassu contra os dois do avante Zé Reis e a reza do goleiro Gomes do Leônico. Foi uma tristeza de dar dó a nossa saída, presenciando a “muquequínha” do nosso adversário “inchada” pela torcida tricolor.

Havia passado a boa fase do Vitória, mas o Bahia só voltaria a engrenar no fim da década, embora obtivesse o campeonato em 1967 graças a um deslize do Galícia. Os azulinos haviam ganhado o primeiro turno e estavam prestes a ganhar o segundo. No entanto Osorio Vilas Boas acabou convencendo os dirigentes do clube a pensar mais no dinheiro que no título.

O time da colônia espanhola conseguiu a façanha de perder quatro vezes para o Bahia em duas decisões. Lembro que fui à última, sentando na “geral” de noite pra ver o Bahia ganhar o título por 1 X 0 e o juiz Armando Marques não dar um pênalti escandaloso no fim do jogo a favor do Galícia. Saímos rapidamente pra não ver a comemoração dos arquirrivais, mas ainda a tempo de ouvir o juiz declarar no rádio que não iria atrapalhar os festejos.



No fim da década o homem chegaria á Lua, chegaria também ao fim a tentativa de trazer novos ares políticos na Tchecoslováquia, e morreria ícones de uma geração como Che Guevara, Jimi Hendrix e Janis Joplin. No Brasil entrávamos no “milagre econômico” e no endurecimento político. Ocorre uma reforma universitária de araque e uma crescente militarização do Estado. A oposição armada reagia como podia.

Mas nesse tempo eu já vivia agora outro tipo de musica, o sonho dos festivais de musica e do tropicalismo como a antevéspera da indústria cultural. Não lembro quem teve a ideia de me colocar em outra fabrica, onde se preocupasse com o pagamento do aluno. O que funcionou mesmo foi o retorno a outro colégio do saudoso Hugo Baltazar da Silveira, o chamado de Instituto Valença situado no Campo da Pólvora. Ali, onde consegui a façanha de ter notas sofríveis, recebi meu diploma e, finalmente, encerrei o colegial em 1969 aos vinte e um anos.

Por coincidência, foi nesta época que encontrei Cybele, a mulher com quem passaria o resto dos meus dias. O sentimento da família era de alivio. Eu e todos pensavam que não voltaria mais a estudar. Algum conforto encontravam na minha comunicação solene de que, ao invés da escola, iria dedicar-me a musica. Quando em 2000, defendi a minha tese no doutorado em historia, a primeira pessoa que eu fui mostrar o certificado foi minha mãe, lembrando-se de seu esforço para que eu estudasse. Ela sempre se recusou a me perder. Sou grato á vida por ela ter conseguido sobreviver para ver isso falecendo seis meses depois da formatura coletiva dos mestres e doutores no ginásio do Campus da UFPE em Recife.


*   Agradeço pelas imagens aos blogs ai5.jpg, arcannes.net, bandarubbersoul.blogspot.com, emule.com.br e cearanews.blogspot.com

terça-feira, 19 de outubro de 2010

Rock e futebol nos anos 60: parte I

                                            Os Beatles

Tem gente que fala muito mal dos anos 60. Dizem que foi um tempo de confusão e ditadura. Que esculhamba a “guerra fria” e jura que o Brasil entrou na contramão. Eu sei que eles tem muita razão, mas acontece que não foi só isso que aconteceu. Mesmo correndo o risco de parecer alienado devo dizer que passei nesse período alguns dos melhores anos de minha vida!

São tempos que não voltam mais. Eu era um garoto, que ainda não tinha descoberto o namoro e o mercado de trabalho e era muito apegado a família no bairro de Nazaré onde morávamos e Salvador. Nossa situação familiar não nos permitia frequentar os bons lugares da cidade. Assim, nossos principais divertimentos eram ir com “maínha” a um dos cinemas da Baixa dos Sapateiros, e assistir com “painho” os jogos, pelo rádio ou na Fonte Nova. Essa “vidinha” iria ser mudada com a chegada da TV Itapoá na Bahia em fins de 1960.

Apesar de meu pai me levar pequenino pra Fonte Nova, onde entrava com o time do Vitória no campo, meu primeiro encontro com o estádio se deu com 13 anos no jogo de decisão da II Taça Brasil onde torcemos pro Santos FC no empate de um a um com o EC Bahia. Uma semana depois conseguiríamos nosso intento ouvindo pelo rádio a goleada de 5 X 1 sofrida pelo tricolor baiano.

                                          O agente 007                           

Estávamos no Brasil numa tardia Era de ouro de Hollywood. E apreciávamos os filmes de Frank Sinatra, Bing Crosby, Gene Kelly, Charles Chaplin, Cary Grant, James Garner, Fred Astaire, Marilyn Monroe, Audrey Hepburn, Romy Schneider e do agente 007. Contraditoriamente assistíamos também as “chanchadas” brasileiras, produzidas por companhias como a Atlântida, Maristela e Vera Cruz e que lotavam os cinemas com suas estrelas Anselmo Duarte, Ankito, Oscarito, Eliana e outros.  Nesse clima de glamour não perdíamos as edições do Miss Bahia no “Balbininho”. Não peguei Martha Rocha, mas assisti Maria Olívia Rebouças e Marta Vasconcelos ganharem o certame.  

Recentemente, me bateu uma profunda tristeza ao ver o Ginásio Antônio Balbino ir ao chão para dar lugar a um estacionamento da arena da Copa do Mundo de 2014. Lembro que ali tive momentos saborosos da minha adolescência e juventude. Assisti a grandes jogos de basquete e de voleibol. Ao Harlem Globe-trotters e Holiday on ice. A luta de Eder Jofre contra um mexicano pela manutenção do título mundial. E, já atuando pelo conjunto Os anjos, cheguei a participar de uma maratona de grupos de rock que inclua a própria banda de Raul Seixas.

Foi na virada para os anos 60 que comecei a superar meu romantismo e a Fonte Nova participou de todos os momentos. Para minha evolução contribuiu as mudanças que ocorriam na própria indústria do cinema lá fora. Os filmes “agua com açúcar” estavam sendo substituídos por um entretenimento voltado para a juventude. Surgiam novos astros e diretores, novas temáticas, e novos produtos. Dessa pauta constavam a igualdade racial, o feminismo, o sexo, as drogas e a reforma educacional.

O Brasil também experimentava mudanças. Juscelino havia deixado o Estado esgotado e Jânio renunciaria a presidência em pouco tempo abrindo uma profunda crise institucional. Ao invés de participar de uma geração que apostava no desenvolvimentismo eu ouvia Elvis Presley e seria logo “um garoto que amava os Beatles e (bem menos) os Rollings Stones”.

Na Bahia o futebol havia se tornado muito chato, pois havia acabado aquele equilíbrio dos anos 50, onde o Vitória ganhava um ano e o Bahia ganhava outro. Penso que foi isso que também ajudou a rivalidade entre esses clubes. Agora era o Bahia que emendava um título atrás do outro. Acho que meu pai começou a selecionar muito os jogos que íamos quem sabe pra que eu não sofresse “más influências”? 

Apesar da importância da família para a minha socialização, devo dizer que esta ocorreu em meio ao rígido sistema educacional da época. Na época imperava o recurso a formas autoritárias e violentas para reproduzir um ensino chato, de interesse das classes dominantes e da posição “sacrossanta” do professor.  Tive problemas em vários colégios e me tornei um verdadeiro “rebelde sem causa”.

                              

Nesta época o antigo Centro de Salvador viveria nos anos 60 seus últimos dias. Só pode saber quem viveu este período, onde a Avenida Sete, as ruas Carlos Gomes e Chile, as praças da Sé e Castro Alves eram o ponto de encontro sindical, político, literário, do namoro ou da boêmia da cidade.

Em Salvador um programa bacana era comer pastel no Good Day (Rua Carlos Gomes), fazer uma merenda no Ava Lanches (bairro do Canela), traçar uma lambreta no Mercado Modelo, ou ir para o Bar Brasil (Praça da Sé) e ao Cacique (Praça Castro Alves). Valia pegar um cinema nos cines Excelsior e Guarany ou assistir um show no Tabaris, no Cine Roma ou na Boite Cloc, o inferninho mais falado da cidade. Nesta época não haviam shoppings e nem tínhamos costume de ficar em barzinhos, o negócio era então estar nos lugares da moda e ver alguma menina “certinha” nos encontros marcados na porta da Fundação Politécnica, da Sloper, ou nos passeios por esta região.

O carnaval era a ocasião de extravasar. Lembro dos desfiles do rei Momo, e, mais tarde, de Os internacionais, Os corujas, e dos blocos Jacu e Barão. Na época o chique mesmo era possuir lança perfume, mas nunca tínhamos dinheiro pra comprar tendo que nos contentar em levar amostras grátis de uísque na cintura. Aliás, eu nem gostava de uísque. Depois o lança perfume e as máscaras foram proibidas. Íamos ao Cruz Vermelha e ao Fantoches de penetras. Gostávamos especialmente das “batalhas de confete” onde haviam muitos jovens. As orquestras eram a Brazilian Boys, Stukas, Milionários, Fausto, Os Turunas, e Carlos Lacerda.


Neste tempo continuava apreciando cantores como Frank Sinatra, Bing Crosby e Nat King Cole, agora, no entanto temperados com as fusões rítmicas promovidas por Ray Charles e Stevie Wonder. A indústria do cinema contava com produções cada vez mais internacionais e surgia o “cinema de arte”, surgindo atores como Sidney Potier, Gina Lollobrigida, Marilyn Monroe, Brigitte Bardot, Sofia Loren e Marcello Mastroianni. No Brasil surgia a bossa nova, disputando espaços com o bolero e o samba canção, mas durante anos não seria muito aficionado ao gênero. De Miltinho, Cauby Peixoto, Agnaldo Rayol e Ângela Maria passei para os irmãos Cely e Tony Campelo.

Neste ano assistimos pela primeira vez na televisão a Copa do Mundo de 1962 no Chile, onde a seleção brasileira obteve o bicampeonato, e pelo rádio o título carioca obtido pelo Botafogo, time que meu pai torcia. Ao lado disto, para satisfazer nosso pai acompanhámos os clubes do Rio e São Paulo, o Botafogo de Garrincha, Quarentinha, Jair, Amarildo, Manga e Nilton Santos, e o Santos de Pelé, Zito, Gilmar, Pepe e Coutinho, acompanhando suas partidas através de narradores e comentaristas como os inesquecíveis Valdir Amaral, Fiori Giuliotti e o irascível Mário Vianna.

Do golpe de 64 ficou pouca coisa em minha memória. Da véspera só me lembro de ter acompanhado a excursão dos The Beatles aos Estados Unidos, do lançamento de I want to hold your hand, do futebol e do carnaval. Como ia na escola aos “trancos e barrancos”, meus pais tinham me colocado no Colégio Ypiranga, tido como fábrica, cujo diretor era Ângelo Lírio. Não é que consegui passar?

Nesse tempo compareci à finalíssima do campeonato baiano, onde vi com satisfação no Estádio da Fonte Nova, o EC Bahia perder o hexacampeonato para o Fluminense de Feira por 2 x 1, com dois gols de Renato, após duas partidas onde houveram empates de 0 X 0 e 1 x 1, respectivamente, em Salvador e Feira de Santana.



No dia 31 de março foi festa em minha casa! Teve bolo e tudo. Mas, para que não se tenha a impressão de que éramos um bando de reacionários devo dizer que isso acontecia em virtude de ser aniversário de minha irmã “Lena”, que completava 18 anos. Mas meu pai e minha mãe pareciam mais sérios que de costume. É que nesse dia o rádio estava ligado para acompanhar o deslocamento de tropas do general Mourão Filho de Juiz de Fora para o Rio de Janeiro. Eu não atinava as coisas.

Assisti ainda no dia dois de abril pela TV Itapoá o pronunciamento do governador Lomanto Jr., aliado do presidente Jango, de apoio aos golpistas. Lembro de ter observado militares nas ruas e visto, da Ladeira de São Bento, a marcha em defesa da família, tradição e propriedade dos vitoriosos passando pela Praça Castro Alves.


 * Agradeço as imagens aos blogs quebarato.com.br, tvpeloespectador.blogspot.com,vieguardei.blogspot.com e portalcinema.blogspot.com.