quarta-feira, 29 de setembro de 2010

A Fonte Nova e minha militância política



No ano que vem completarei cinquenta anos como apreciador de futebol. Como não me lembro de nada no tempo em que meu pai, que era jogador e remava no EC Vitória, me levava pra entrar na Fonte Nova com o clube nos jogos, tenho que contar do primeiro jogo que assisti das arquibancadas, quando o EC Bahia decidiu com o Santos a terceira Taça Brasil.

No entanto, apaixonado por futebol, fui surpreendido pelo absoluto desprezo com que os militantes das organizações políticas que participei tratavam o futebol. Quando passei a orbitar em torno da política estudantil já era assim. E aí não dava pra ficar calado quando marcavam reuniões exatamente na hora dos jogos. Neste momento os demais, mesmo com suas simpatias clubísticas, me deixavam sozinho nesta questão.  

-Mas porque não pode ser em outra hora ou um dia depois?

-Aí se arranjava as desculpas mais esfarrapadas pra fazer a reunião coincidir com o jogo com a nítida intenção de me colocar perante um impasse afim de que fosse “testado” o meu nível ideológico.

Hoje a realidade dos grupos de esquerda é outra em relação a esse tempo. Os militantes são capazes de preservarem seus clubes e encontro alguns deles quando compareço ao Barradão. Recentemente, o saudoso amigo Paulo Colombiano, diretor do Sindicato dos Rodoviários e militante do PCdoB, foi enterrado envolto na bandeira do Vitória. Aliás, aproveito a ocasião para exigir que a SSP-Bahia acelere as investigações sobre as circunstâncias de seu covarde assassinato.

Mas até atingir a cidadania esportiva foi um parto. Tive que enfrentar toda sorte de incompreensão dos dirigentes da APML, OCDP e MCR para comparecer aos jogos de meu clube na Fonte Nova. Convivi com esses trogloditas esportivos, chegando a abrir mão de certos jogos (quase sempre quando não haviam decisões importantes). Tendo que omitir o dia e horário deles sempre que podia, inclusive para que pudesse faltar a algumas reuniões e não sofrer chacotas e reprimendas.  

Ao longo de minha atuação politica nesses anos acompanhei como pude os campeonatos ganhos pelo meu clube. Como naquela época foram poucos (1972, 1980, 1985, 1989 e 1990) deu pra “conciliar” com a militância política e cultural.  

Posteriormente, tive oportunidade de entender que essas atitudes provinham de um profundo distanciamento das “massas”, que se expressava na discriminação do principal esporte popular, o futebol. Recentemente, ajudou as minhas reflexões sobre o fenômeno, a leitura da dissertação “O descobrimento do futebol”, de autoria de Bernardo Borges Buarque de Holanda, defendida no Programa de Pós-Graduação de História Social da Cultura da PUC-RJ.

No trabalho o autor examina o aparecimento do tema na obra dos chamados modernistas da literatura brasileira. Informa-nos que nos anos vinte esses consideraram o esporte como “subproduto da importação” que era transplantada por uma elite política anglófila e francófila movida por novidades e pelo exotismo. Caracterizaria a dependência cultural brasileira. O saudoso Mario de Andrade, apesar de observar o entusiasmo com que o esporte era percebido, chega a classifica-la de uma “moda fútil”, entre as inúmeras que aqui aportaram vindas da Europa. O escritor Antônio de Alcântara Machado teria sido o primeiro a observar em 1927 o futebol de outro ângulo em seu conto Corinthians 2 versus Palestra 1.

Nos anos 30 o futebol tomaria outra dimensão. São realizadas três copas do mundo e realizados torneios sul-americanos. Craques como Friendenreich e Domingos da Guia criam dificuldades para ignorar a recepção do esporte em nosso país, embora a participação brasileira nestes torneios ainda fosse precária.  

No entanto, uma visão diferente só iria se disseminar na década seguinte. Surgem grandes times, entre eles o Flamengo que obtém o seu primeiro tricampeonato. O esporte é usado ostensivamente pelo Estado Novo em grandes eventos, aos quais comparecia o próprio presidente Getúlio Vargas que utilizaria inclusive em seu governo intelectuais modernistas.

O debate, entretanto, seria retomado por “regionalistas” como o sociólogo Gilberto Freyre e o escritor Jose Lins do Rêgo, o primeiro preocupado em assinalar a importância da mestiçagem brasileira na adoção do esporte, e o segundo, salientando o tema em sua literatura e tornando-se dirigente de ligas da época. O ápice desta tendência se registra na obra do jornalista Mário Filho (que depois daria o nome do Maracanã) e que escreveria quatro livros sob a temática do futebol, entre eles uma História do Flamengo (1945). O futebol ajuda inclusive a desenvolver o gênero das crônicas desportivas.

A adesão ao futebol por vários intelectuais não afasta a incompreensão que se registra na própria obra de homens como Osvald de Andrade que na época, na contramão do esforço de compreensão do fenômeno futebolístico, publica um manifesto contra o futebol taxando-o de “novo ópio” do povo. 

Se meus camaradas de esquerda da época tivessem se preocupado em ler tais coisas talvez tivessem tido um comportamento menos sintonizado com o elitismo de tais representações futebolísticas, aliás, já abandonado por setores mais esclarecidos.  

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