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quinta-feira, 7 de abril de 2011

A era do gelo no futebol

      
A “república” no Brasil afirmou que acabou com a monarquia. Mas isso não aconteceu no futebol que, desde que foi criado, os clubes do eixo Rio - São Paulo reivindicaram o “direito de nascença” na região. Assim, os clubes das demais regiões viveram por muito tempo uma verdadeira Era do gelo até que fossem aceitos no circulo fechado da elite do futebol brasileiro. A Bahia sofreu com isto mesmo que o futebol fosse aqui introduzido na mesma época em que surgiu no Rio-São Paulo.
Muitas coisa mostram isso com clareza. Durante certo tempo a seleção “brasileira” só jogou em São Paulo. Só com muita reclamação dos cariocas é que dividiram o bolo, indo jogar também no Rio de Janeiro.  Passariam décadas até que fosse convocado um jogador fora deste eixo, Mica do Botafogo baiano em 1923. Nosso estado contaria com a honra de ser o primeiro que a seleção visitou, em 1934, vinte anos depois de começar a existir.
Isto também pode ser observado no intercâmbio desigual entre os clubes das regiões. A primeira visita de equipes do Sul á Bahia só ocorreu após a Primeira Grande Guerra, quando o Botafogo carioca arrasou a seleção baiana no antigo campo do bairro do Rio Vermelho por sete a um!
                                                      Veja a desproporção com os baianos!
Nos anos vinte esses clubes só vieram “passear” em Salvador. O Comercial(SP) derrotaria a nossa seleção(2 X 1) e junho de 1920. Um ano depois seria a vez do América carioca e do Vila Isabel(!), que juntos jogaram nove partidas ganhando sete, empatando uma(Seleção baiana 1 X 1 América) e perdendo uma (Combinado Henrique Dias 4 X 1 Vila Isabel).
Em abril de 1923 o Fluminense seria o primeiro clube carioca a jogar no recém construído estádio da Graça. Mica foi convocado porque sua equipe, o Botafogo, conseguiria vencer o pó de arroz(assim como um combinado baiano em que ele jogou)por dois a um. Quanto ao resto foi tombando um a um, os famosos Associação Atlética(3 X 1) e Baiano de Tênis(2 X 0), e o próprio Botafogo(2 X 0), conseguindo o Vitória um  empate em um gol.
Quatro anos depois o São Cristóvão nos visitaria. Continuavamos na geladeira, vendo nossos melhores times serem batidos, Ypiranga(2 X 1), Vitória(4 X 1), Combinado de Salvador|(3 X 0), conseguindo á muito custo o Baiano de Tênis obter um empate em três gols.Antes de terminar a década, em maio de 1929 viria o Santos, para ganhar de “Deus e o mundo”. Daria goleadas humilhantes na Associação(8 X 1)  e Ypiranga(5 X 2) e venceria o Baiano(4 X 2).
Se daria ao luxo de escalar o time misto pra derrotar o combinado Fluminense-Guarany(5 X 3) e empatar com a seleção baiana em dois gols. Até esta época os baianos tinham jogado vinte e sete partidas contra as equipes do Sul, perdendo vinte, ganhando apenas três e obtido quatro empates.
                                                     A agua não estava pra peixe!

A Era do gelo durou por toda a década de trinta. Vieram aqui o Bangu(1930), o Vasco da Gama(1931), o Flamengo(1932), o Andaraí(!), São Cristóvão e o Bandeirantes(!)(1933), a seleção paulista e a seleção brasileira (1934),o Brasil(1935), de novo o São Cristóvão e Botafogo, e o Espanha(1935), voltaram por aqui o Santos e o Vasco(1936), o Corinthians(1936), Madureira, São Paulo Athlétic, Palestra Itália, e mais uma vez o São Cristóvão(1937), mais uma vez Corinthians e Flamengo(1938), e, por último outra vez América e Santos(1939).
A estatística da década é enganadora. Se olharmos os números frios perceberemos uma ampla vantagens dos sulistas, com os baianos sofrendo 59 derrotas, 35 vitórias e quatorze empates.  No entanto a coisa é bem pior se tirarmos os inexpressivos Andaraí, São Paulo Athlétic, Madureira, Bandeirantes e Hespanha, da conta, o que reduz as vitórias para apenas 18.
A Era do gelo invadiu os anos quarenta dando a impressão que duraria milhões de anos como sua congênere famosa fez com o planeta. A “sorte” dos baianos é que houve uma guerra que reduziria bastante o intercâmbio. Desta forma só apareceram por aqui Vasco e Bonsucesso(1941)(, Botafogo(1942), o sempre presente São Cristóvão(1944), e, logo que acabou a guerra Corinthians, Fluminense e Internacional(1945), Bangu(1948) e Olaria(1949).
                                                      Não dava nem pra se equilibrar!

Os clubes da Bahia só ganharam quatro partidas, perdendo dezenove e empatando dez. O último ano em que só o campo da Graça existia teve ainda por aqui o Atlético Paranaense, o Grêmio, e os cariocas Madureira e Flamengo possibilitando resultados melhores.
A primeira década do novo estádio da Fonte Nova coincidiria com a última da Era do gelo. Novamente o primeiro visitante seria o Fluminense, seguido pelos cariocas América, Bangu, Flamengo, Botafogo, Vasco, Olaria e Madureira, alguns mais de uma vez. Os paulistas do Palmeiras, Santos, Portuguesa, Corinthians, São Paulo e Taubaté. E ainda alguns mais na véspera da inauguração da Fonte Nova. São 37 derrotas, vinte vitórias e vinte empates.
                                                        O torcedor ficava gelado!

O seu finzinho foi o início de uma nova condição, possibilitada com o “degelo” que representaram as excursões da dupla BA-VI á Europa e a aderência definitiva ao profissionalismo. O frio do Sul nunca mais assustaria os baianos. Acabara definitivamente a época dos passeios na Fonte Nova, que havia levado quarenta anos, muito menos do que a verdadeira era do gelo.

·          Agradeço as informações do Almanaque do Futebol Brasileiro e do Setor de Periódicos Raros da BCE. Sou grato ainda as imagens dos blogs fica-dica.com,tipojosewilker.blogspot.com,downloads.openygroup.com e donodaverdade.com.br.

domingo, 27 de março de 2011

Os visitantes noturnos

                 
                                          Nesses noventa minutos
                                          de amor e alegria
                                          esqueço a casa e o trabalho
                                          a vida fica lá fora

                          Milton Nascimento e Fernando Brandt


Há um filme chamado O visitante noturno que conta a história de um interno de um hospicio que tem a ideia fixa de escapar  para se vingar das pessoas que considera responsáveis por sua situação. O filme, dirigido por Laslo Benedict, tem um elenco de primeira grandeza com Max Von Sydow, Liv Ullmann e Trevor Howard, e cai bem no que passei em 1967.

Neste ano dividi minha atenção entre a musica e o futebol. Ouvia ás noites o álbum dos Beatles, Sargent Peppers Lonely Hearts Club Band, que, para mim, parecia ser o máximo em matéria musical. O campeonato baiano do ano anterior havia se iniciado na véspera do Natal e se prolongado até o mês de março. O Leônico conquistaria o título no mês seguinte em três partidas contra os leões da Barra.

Mesmo com o calendário apertado não deixou de haver jogos amistosos, tanto de times locais como com visitantes. Eles tinham uma curiosidade, eram realizados nas noites da Fonte Nova. Na época o tricolor baiano estava com uma equipe tão ruim na época que conseguiu perder todas as partidas. Seja as que fez contra times do Sul, Bangu e Comercial (SP) (0 X 1 e 1 X 2), seja as jogadas contra times locais, Leônico e Ypiranga (2 X 3 e 3 X 5).

                             Esse era fogo!

Logo após as decisões recomeçaram os amistosos, trazendo o XIII de Campinas. Os paraibanos jogaram contra Vitória e Galícia, perdendo as duas, por quatro a zero e dois a um. Antes de começar o novo campeonato seriam organizados dois torneios na Fonte Nova. O primeiro seria no fim de abril, com a participação da dupla BA-VI, do campeão Leônico, e do Clube do Remo do Pará, o primeiro visitante noturno. Um dia destes daremos mais detalhes da vitória paraense.

O segundo veio a seguir, em maio. Os baianos foram os mesmos, mas o convidado foi o Náutico de Recife, outro visitante noturno. Alguns dias antes do certame rubro negros e tricolores acham de fazer um jogo amistoso, que terminou empatado em dois gols. E, no dia sete de maio de 1967 jogam na preliminar Náutico e Leônico e, no jogo de fundo, mais um BA-VI. A rodada, entretanto, deixou tudo no mesmo. O clube timbu ainda empatou em um gol, mas o clássico terminou sem gols.

 Três dias depois foi realizada uma nova rodada. O Bahia fez a preliminar vencendo o campeão, os moleques travessos, por dois a um. Mas, na principal, o Vitória caiu perante os pernambucanos pelo mesmo placar. A decisão ficaria para a última rodada, quando, inclusive, podia dar uma zebra total, um empate de todos os clubes com três pontos.

                 Tsunami em Salvador não vale!

Foi em função desta perspectiva que fui á Fonte Nova. Mas, na preliminar, o Leônico, mais uma vez, acabou com nossas ilusões, vencendo o rubro negro por dois a um, o mesmo escore da trágica decisão de 26 dias antes.

 Quase não fico pro jogo de fundo entre Bahia e Náutico. Tudo parecia conspirar para que o tricolor ganhasse seu primeiro torneio neste ano. Mas o jogo surpreendeu os torcedores do Vitória. Os timbus jogaram ainda mais do que tinham feito antes, enfrentando o Bahia “pau a pau” fazendo com que o jogo tivesse alternâncias no placar. No final, não deu outra, comemoramos os três a dois para os pernambucanos.

Pouco depois começava o campeonato daquele ano. Um dos maiores de toda a história com a participação de quatorze clubes. Foi a primeira vez que o interior suplantou a capital, participando oito equipes.

Esse visitante morreu num estranho desastre neste ano

Foi durante o seu desenrolar que eu assisti as noites pela televisão ao Festival Internacional da Canção – FIC. Na ocasião a música Travessia, de Milton Nascimento e Fernando Brandt, ficaria apenas em segundo lugar, perdendo para Gutemberg Guarabira. Chico Buarque obteria um modesto terceiro lugar com Carolina, consagrando a postura de ficar na janela vendo o tempo passar.

Mas a sensação em matéria de musica seriam os festivais da Record que desbancariam o da TV Excelsior passando a ser o principal palco de disputa dos artistas. Eles preencheram as minhas noites de 1967. Foi á noite que chorei durante a interpretação de Roda viva pelo autor Chico Buarque e o MPB-4, música que deveria ter ganhado o festival, e também de noite que vi a vaia que “armaram” pra apresentação de Roberto Carlos.

Chegavamos em casa, jantávamos e ligavamos a TV pra ver Gilberto Gil fazer sua melhor apresentação nos festivais apresentando com o conjunto Os Mutantes sua música Domingo no parque. Mas a noite da sensação foi a do gesto de Sérgio Ricardo que atirou o violão no público durante as vaias da apresentação de sua musica Beto bom de bola. Gostei ainda da noite de Cantador, de Dori Caimmy e Nelson Motta, interpretada por Elis Regina, apesar de não lograr classificação.


 Foi neste tempo que as coisas começaram a se polarizar na chamada musica popular brasileira que lutava com dificuldade para ter seu espaço contra a chamada “música jovem”. E é durante esta disputa que surge o tropicalismo.

Confesso que tive simpatia pelo movimento pela presença de baianos. No entanto, logo pude notar o talento dos arranjadores, compositores e interpretes do grupo. Este apareceu para mim como uma síntese entre os dois gêneros com os quais me debatia ao fim dos anos 60: o rock das guitarras e as harmonias elaboradas da Bossa Nova. Repercussão especial me causaram músicas como Lunik 9, Onde Andarás Lindonéia e Baby, não por coincidência, todas relacionando letra e harmonia elaboradas em ricas e românticas melodias. 

Na busca do novo público que então ascendia ao consumo cultural, os tropicalistas traziam uma versão mais elaborada de música jovem, incorporando a realidade ao seu discurso musical, seja a que se expressava na vanguarda do rock internacional, seja a da participação política da juventude brasileira, exprimida, em boa parte dos casos, pelo tratamento inovador dado por arranjadores e compositores como Rogério Duprat, Júlio Medaglia e Damiano Cozzela.

                      Também teve isto em 67

E foi numa noite que Caetano aproveitou as vaias pra mostrar a intolerância reinante, aproveitando a ocasião para propagandear um discurso estético e político que serviu de referência do movimento que participava. Seu gesto de virar as costas para o público e o deste, ao proceder da mesma forma, se tornou antológico. Também na música não havia mais espaço para o intermediário. Era “calça de veludo ou bunda de fora”. Assim, a revolução cultural proposta por Caetano de derrubar as prateleiras, as estantes, as estátuas, as vidraças, louças e livros não encontraram eco.

O Galícia levaria o primeiro turno. Mas durante este daria tempo pra novo torneio,onde havia, além da dupla BA-VI, Galícia e Flamengo. Eram mais visitantes noturnos, mas só que, desta vez, o Vitória faturaria a taça. Ufa!



·          Agradeço as informações do Almanaque do Futebol Brasileiro e do site do RSSSF Brasil. Sou grato ainda as imagens do site cineplayers.com e dos blogs virtual.epm.br, hypercontraste.blogspot.com,epensenti.blogspot.com,forum.paodemuseu.com.br e metalclube.com.