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segunda-feira, 9 de maio de 2011

Nos tempos da brilhantina

                                    
                
                                             Mas como ficava bonitinho... o cabelo!

Nos anos cinquenta houve muita gente que usou brilhantina pra fixar os cabelos. Era uma pomada que, além de outros ingredientes, levava parafina. Funcionava como um gel, mas oleoso, deixando os cabelos brilhantes e compostos sem precisar ficar penteando. Eu nunca usei, mas muita gente não saía sem ela nesta década, que foi o auge da moda de sua utilização.
Lembro-me de que cantores do rock como Elvis Presley faziam topetes nos cabelos que eram muito imitados. O produto marcou tanto o visual daqueles anos que se passou a adotar o seu nome para lembrar-se da década, como os ”tempos da brilhantina”.
A relação entre clube baianos e pernambucanos se desenvolveu exatamente nesses tempos. É claro que já tinham existido jogos anteriores. Aliás, desses os anos vinte isso começou a acontecer. Alguns times pernambucanos posteriormente passaram pelo campo da Graça, mas, a primeira excursão mais significativa ocorreu no final dos anos trinta.  
                                                          Olhem o cabelo do Juvenal!

Estávamos no Estado Novo quando a Bahia foi governada por interventores e a guerra começava na Europa. Foi nessa época que o Sport desembarcou em Salvador pela primeira vez. Mas se deu muito mal. No dia três de setembro de 1939 apanhou feio do Vitória por seis a dois. E, cinco dias depois, caía perante o Ypiranga por cinco a um. Só conseguiu um empate com o Galícia (1 X 1) pelo fato dos granadeiros estarem vivendo uma má fase tão grande que faria com que perdesse para o mais querido, no mês anterior, por nove a um!
Depois dele vieram o Náutico, o Santa Cruz e o América pernambucanos, mas o Sport só voltaria de novo nos tempos da brilhantina. Ele abriu a década numa Salvador que se despedia do velho campo da Graça. Veio em março de 1950 e teve altos e baixos. Começou com os baixos, exatamente contra seu último adversário de onze anos antes, o clube da colônia espanhola, quando caiu no dia 19 por quatro a zero.
Os poucos dirigentes da época imaginaram então que a equipe iria repetir a vergonha do passado, mas eram novos tempos, e o Sport mostrou isso ao vencer o Vitória (23 de março) por três a um, e ao empatar com o então tetracampeão EC Bahia (2 de abril) em dois gols. A delegação rubro negra pernambucana saiu da Bahia com o maior topete.
                                                             Se lembram do twist?

Foi nos tempos da brilhantina que se realizaram os torneios Bahia - Pernambuco. Em 1952 realizou-se a segunda Copa dos Campeões do Norte e Nordeste em Recife. A primeira havia ocorrido em 1948 e o Bahia havia se sagrado campeão derrotando o Santa Cruz no estado vizinho pelo escore mínimo. Mas nessa segunda, o Ypiranga foi eliminado nas quartas de final pelo Tuna Luso (PA) que não resistiu ao Náutico na final apanhando por cinco a um.
Em 1956, porém, teria um torneio restrito a Bahia e Pernambuco que foi ganho pelo Santa Cruz, que se desforrou do Bahia deixando-o desta vez com o vice. Na ocasião foram realizados inúmeros jogos entre os clubes dos dois estados que, se aprofundaram a rivalidade regional, por outro, desenvolveram importante intercâmbio entre os dois estados, o maior visto até então, e que ocorreu nos tempos da brilhantina.
O processo iria se aprofundar a partir de 1959 quando uma Taça Brasil dividida por chaves regionais deu margem a existência de campeões do grupo Nordeste da Zona Norte do certame. E, quando esta terminou em 1968, criaram o Torneio Norte-Nordeste que também tinha campeões do grupo Nordeste. Tudo isso era motivo para jogarem baianos e pernambucanos na época de maior intercâmbio de sua história esportiva. Mas em 1970 esta clivagem acabou substituída pelo nascente campeonato brasileiro.
                                                                Até Juscelino passava!

Os primeiros clubes pernambucanos a pisarem na Fonte Nova foram o Sport e o América num torneio que aqui se jogou em julho de 1953. Não sei até onde pesou no seu convite o desastre de quatro meses antes quando a dupla BA-VI foi arrasada pela dupla Flamengo e Internacional. Assim, a coisa ficou mesmo pela região.
O certame foi comemorativo á data magna da independência na Bahia e teve Bahia X América e Vitória X Sport. Ambos os jogos seriam muito disputados, acabando o do tricolor em um empate por três gols, enquanto o rubro negro baiano ganhava do pernambucano por dois a zero.
Três dias depois voltaram a campo de novo, ficando desta vez o Vitória empatado com o América (1 X 1) enquanto o tricolor impunha ao Sport mais uma derrota, agora pelo largo escore de quatro a um. Foram para a última rodada com todos tendo chances de levar a taça. Mas, na preliminar o América perdeu a chance, ao obter o seu terceiro empate, desta vez com o Sport, por dois gols.
                                 Saramago deixou anotações de um livro sobre a brilhantina! 

O torneio, que antecipou o Bahia-Pernambuco, seria então decidido pela dupla BA-VI. E honraram a responsabilidade. Foi um grande jogo, com ambos colocando o que de melhor tinham em campo. Ao final, o Bahia sairia com mais uma taça, a segunda obtida num torneio interestadual, ao derrotar o seu arquirrival por três a dois.
Em 1956 ocorreria a maior concentração de jogos entre clubes dos dois estados. O certame desenrolou-se entre janeiro e março e foi uma articulação de dirigente da federação pernambucana. Diferentemente do que ocorreu em 1948 e 1952 as partidas ocorreriam simultaneamente nas duas capitais. A abertura ocorreu no dia seis de janeiro com uma vitória sensacional do Botafogo baiano contra o América (PE) por cinco a zero dando a nítida impressão de superioridade baiana. Mas o engano iria ser reparado dois dias depois com o empate do mesmo clube com o Bahia em dois gols.
No dia quinze de janeiro houve uma rodada dupla na Fonte Nova. Na preliminar Bahia e Botafogo jogaram o famoso “clássico do pote” vencido pelo primeiro por dois a um, enquanto os leões da barra eram abatidos pelo leão da Ilha por três a dois. Aí ficou claro que os baianos tinham cortado o “baralho errado”.
                                                           Ave Maria, que topete!

Novas rodadas duplas se seguiriam. A do dia 22 colocaram frente a frente Bahia X Galícia e o Botafogo contra o Náutico, apresentando nova vitória do tricolor (3 X 1) e um resultado convincente do alvi rubro baiano por quatro a dois. No domingo seguinte foi a vez de do Botafogo colher outro resultado auspicioso contra o Vitória (4 X 2) enquanto o Galícia perdia para o Santa Cruz pelo escore mínimo.
Segue-se no dia 19 de fevereiro a vitória dos granadeiros contra o Sport (3 X 1) na preliminar do maior clássico baiano ganho pelo Vitória por um a zero. E, na véspera do carnaval, o azulino continuaria se recuperando ganhando do Botafogo (3 X 1) enquanto empatariam Vitória e Náutico (1 X 1).
O certame continuaria após a maior festa da Bahia com nova rodada dupla, onde o tricolor empataria com o Náutico (2 X 2) e o Galícia derrotaria o América (3 X 2). Depois disto começaria o returno com o Bahia se desforrando do seu arquirrival vencendo-o, em jogo isolado, por três a dois. Os jogos finais se desenvolveriam em Recife e onde o Santa Cruz asseguraria o título da competição, ficando o tricolor baiano em segundo.
                                           Que é isso? Quer passar também brilhantina?

No ano seguinte o Sport voltaria por duas vezes à Bahia jogando com a dupla BA-VI. A primeira foi em 16 de agosto, quando derrotou o tricolor por dois a um. Já a segunda se deu em 26 de novembro, resultando em empate em um gol entre rubro negros baiano e pernambucano. Já eram comum os enfrentamentos entre os dois estados.
Na mesma época, no dia dos finados de 1958 o Sport aportou aqui para jogar contra o tricolor baiano. Nesse dia teve de tudo, correntes, alma penadas, assombrações, e as equipes não conseguiriam tirar o zero do placar. Pegou tão mal que resolveram marcar uma revanche pra dez dias depois, quando o tricolor, que voltaria a conquistar o título baiano, venceria por dois a zero.
Mas dois meses e o leão da Ilha do retiro estaria de novo na Fonte Nova. Era um ano de ouro para o futebol pernambucano aonde chegaria a final do campeonato brasileiro de seleções quando ficaria com o vice após perder para uma endemoninhada seleção paulista que aplicaria sete a um nos baianos no estádio do Pacaembu.
                                                                  Ah que saudade!

O futebol baiano vivia uma nova crise política com um coronel á frente da federação. Na ocasião, o Sport passaria uma semana em Salvador. Estreou em 16 de janeiro batendo o vice-campeão local, o EC Vitória, por dois a zero, e depois jogou duas partidas contra o Bahia, empatando duas vezes, por dois e por um gol.
Mas o último grande jogo entre os dois estados nos tempos da brilhantina aconteceria neste ano pela recém-criada Taça Brasil quando o Bahia encontraria o Sport em seu caminho e, embora perdendo de inesquecíveis seis a zero na Ilha, passaria com duas vitórias e chegaria ao título.
Os anos da brilhantina começavam a se esfumar. O pessoal ainda continuaria usando a pomada no cabelo, pelo menos até os anos setenta, mas assim como o hábito foi aos poucos caindo de moda, foi se reduzindo o intercâmbio entre baianos e pernambucanos. Em 1960 viriam aqui o Náutico e o Sport, em 1961 os três grandes, mas, no ano seguinte, só o Sport, chegando a uma situação de não haver jogos entre os dois estados na Fonte Nova nos anos de 1963 e 1964.
                                                                 Dava um trabalho...

O Vitória só encontraria o Náutico em 1965 tropeçando perante a máquina mortífera que tinha um ataque formado por Nado, Bita, Nino e Lala. O clube timbu jogaria também contra o tricolor baiano. No ano seguinte, em nova crise do futebol baiano, Sport e Náutico aqui comparecem e triunfam contra o esquadrão de aço. E, o segundo chegaria a conquistar um torneio em Salvador em maio de 1967.
Depois disto rareariam. O próprio Náutico viria no ano seguinte, e só voltaria em 1971, 1972, 1974 e 1985, quando nem se falava mais em brilhantina. Quanto ao clube coral apareceria em 1969 e, depois, em 1972. O Sport jogaria na Graça em 1970 para só retornar em 1976 e em 1985.

                                    Elvis e Ann Margret procurando brincadeira na Praça da Sé!

Como dissemos, estávamos vivendo uma época de jogos oficiais. Tinham ficado definitivamente para trás os grandes torneios e jogos amistosos envolvendo baianos e pernambucanos, que coincidiu com os tempos da brilhantina.

·        Agradeço ao Almanaque do Futebol Brasileiro, o site RSSSF Brasil, estacao1.blogspot.com,3jpcult.blogspot.com,minhapaixaoporfilmess.blogspot.com e cinema10.com.br.

quarta-feira, 6 de abril de 2011

O dia do lobisomem na Bahia

                                                         Esse é o meu barbeiro!     

Já falei neste blog sobre o Dia de São Valentim que serviu de base, para que os comerciantes brasileiros criassem, em junho, o Dia dos Namorados. Mas o que muita gente não sabe é que nem sempre este dia foi dedicado a São Valentim. ! Aliás, essas datas são adaptações da Igreja Católica de diferentes ritos e festivais pagãos.
Na antiga Grécia, esse dia era utilizado para a iniciação das crianças em rituais dos caçadores primitivos. As tribos tinham o seu “encantador de lobos” que era responsável pra fazer com que as bestas-feras não atacassem o rebanho. Se eles quisessem podiam também se transformar em lobos.
Na Roma antiga houve a Lupercália, dedicada ao deus Lupercus, onde os filhos eram batizados com sague de cabra e de cachorro (protetor dos rebanhos) quando os homens se comportavam como lobos. Apesar de esta celebração ter mudado de caráter ao longo do tempo há quem diga que a Igreja acabou se apropriando da data consagrando-a a São Valentim que, juram que nunca existiu!
                                                         Esse realmente é "taca"!

Bem, em briga de branco em não me meto. Só contei essas coisas porque tem gente que não sabe que tudo isto repercute no futebol. Na Bahia, desde que souberam desta polêmica, passaram a começar o campeonato entre abril e junho, pra não criar polêmica com os lobisomens. A coisa era seguida tão á risca que, quando construíram o Estádio da Graça, o campeonato chegou a terminar quatro dias antes, em 10 de fevereiro, cancelando-se ainda três jogos! O pessoal não queria conta com a besta!
Dois anos depois a Associação Atlética não permitiria que seu jogo contra o Ypiranga fosse programado neste dia pedindo a sua colocação para o dia seguinte. Foi por isso é que empatou e faturou o campeonato. Aliás, o mesmo fez o Baiano de Tênis em 1927, que antecipou o jogo e ganhou de quatro a dois do Fluminense levando a taça pro clube.
A tradição continuou por muitos anos. Tanto é que a literatura de terror não registra nenhum lobisomem na Bahia neste tempo, não é mesmo? Nos anos trinta o campeonato terminava antes do fatídico dia, chegando ao ponto de em 1937 deixarem de ser jogadas duas partidas. Nesse ano, porém, o tricolor resolvei desafiar a proibição programando amistoso contra o São Cristóvão. Mas não deu em nada, o Bahia ganhou de três a zero e o lobisomem deixou pra lá, pois não gostava de times da Igreja. No ano seguinte, quando foram jogados dois campeonatos, pularam o quatorze de fevereiro pra não terem ainda mais problemas.
                    
                                                Como é que o pessoal ainda insistia!

Nos anos quarenta aconteceram dois problemas. O Galícia conseguiu adiar por dois dias a excursão do Bonsucesso em 1941, conseguindo pelo menos em sua estreia empatar em dois gols com os cariocas. O mesmo fez o tricolor baiano ao antecipar uma partida já agendada do América de Recife em Salvador. Os pernambucanos tiveram que cancelar compromissos e acabaram perdendo por quatro a dois.
Em 1958 o próprio Corinthians seria prejudicado por aceitar que marcassem sua partida no dia da besta. Ainda bem que o pós de arroz não aceitou. A partida foi realizada dois dias antes e o alvinegro paulista levaria três a zero dos cariocas em terras baianas. Nem com a proximidade da ditadura militar quiseram mexer com isso, fazendo com que o pessoal suspendesse o certame no dia nove de fevereiro e só voltasse em 28 de março, exatamente quando já vinham outros lobisomens de farda pra assustar a população brasileira. Mas no ano seguinte o Guarany resolveu afrontar pela primeira vez o mito, pedindo pra jogar esse dia por falta de datas. O Fluminense de Feira, entretanto, não quis de jeito nenhum, conseguindo jogar na véspera. Resultado, os “índios” tomaram de quatro a zero e ainda foram lanternas do campeonato!
No grande ano de “68” o tricolor pensava que estava coberto pelas manifestações estudantis, mas se deu mal apanhando pro Cruzeiro (sem saber se era velho ou novo) por dois a zero. O lobisomem foi tão mal que nem aceitou que o esquadrão de aço arranjasse alguma coisa na revanche, a qual perdeu de novo, agora por três a dois.
                                                   Ora esse é apenas um cara peludo!

Levariam onze anos antes de desobedecer de novo a mitologia. Foi na época de Paulo Maracajá e, como o Bahia iria conquistar este ano o inédito heptacampeonato, a glória “subiu á cabeça”. Assim topou enfrentar o velho Leônico, e mesmo assim empatou em um gol. Três anos depois, no entanto, o tricolor ganharia do Misto (MT) fora de casa no campeonato brasileiro pelo escore mínimo. Nesse dia foram a casa do lobisomem e deram uma série de desculpas. O jogo foi marcado pela nova CBF (que nem conhecia essas coisas do além) e o misto era um alienígena, metade homem e metade bicho, portanto, um colega da fera. Aí ficou “o feito pelo não feito”.
Nos anos noventa, porém, houve problemas e o lobisomem teve que tomar providencias contra os baianos. O Bahia aceitaria jogar pela Copa Brasil em Volta Redonda no dia fatídico e “se lenhou” feio, empataria a partida e, mesmo eliminando o “Voltaço” nos pênaltis, daria o azar de pegar e cair pro Cruzeiro. Mas não aprenderia a lição. No ano seguinte nova escalação nesse certame entre Gama e Bahia. Na ocasião o esquadrão de aço até que ganharia fora (1 X 0), mas, de novo, não passaria pelo Curitiba.
Em 1997, com uma nova geração de dirigentes “profissionais” o problema foi relegado marcando-se toda uma rodada no dia 14 de fevereiro. Uma verdadeira provocação ao lobisomem. Na ocasião só o tricolor se recusaria a jogar na data. Dizem que a besta apareceu em todos os estádios onde houve partidas infernizando os torcedores que sequer assistiram aos jogos até o final. O Vitória só não perderia o título este ano porque estava “o bicho” ganhando todas as fases do certame, e, aliás, decidindo com o Poções.
                                                     Não adianta rezar meu amigo!

Dois anos depois a dupla BA-VI não protestou contra nova rodada marcada pro 14 de fevereiro. Só de última hora os medrosos conseguiram alterá-la colocando-a pro domingo seguinte. Naquele dia os torcedores ficariam sem futebol, mas o campeonato não terminaria este ano, tendo que ser decidido pelo tribunal que, de forma salomônica, dividiu a taça entre os dois clubes.
Em 2004 incorreriam na falta de respeito aos lobisomens agendando Catuense e Camaçari na data. O BA-VI foi no outro dia. Mas a laranja mecânica pagaria caro pela ousadia, conseguindo chegar as semifinais do certame quando seria arrasada por cinco a zero pelo rubro negro campeão. Em 2006 houve muita discussão se a rodada seria em 14 ou 15 de fevereiro. Na ocasião o Colo Colo resolveu escalar um time misto perdendo pro Atlético de Alagoínhas por um a zero. A rodada acabou sendo no dia quinze, mas não adiantou pro lobisomem, que decidiu castigar os clubes dando o título, de maneira inédita, ao Colo Colo.
A última vez que os dirigentes esportivos escalaram jogos no dia 14 de fevereiro foi exatamente em 2007. Na ocasião pensou que a situação não podia piorar afinal a dupla BA-VI estava na terceira divisão. O que podia ser pior do que isto? Marcaram, para a Fonte Nova, Bahia e Catuense pelo campeonato baiano e, no Barradão, Vitória e Baraúnas pela Copa Brasil. O tricolor daria de cinco a um no time da terra da laranja e o Vitória empataria em um gol no Rio Grande do Norte.
                                                   Só os cegos é que não acreditavam!

Mas a vingança do lobisomem seria cruel. A Catuense seria rebaixada esse ano pra Segunda Divisão, o Bahia não conseguiria subir pra Segunda do Campeonato Brasileiro, o Vitória só passaria por este esquisito time nos pênaltis tropeçando no Atlético Paranaense logo depois, e a própria Fonte Nova seria interditada após o desastre memorável de 25 de novembro onde caiu um trecho do estádio matando sete torcedores.


·          Agradeço as informações de dougspedotto, dos sites O esquema, Cansei de ser cowboy, Futipédia, RSSF Brasil e do Almanaque do Futebol Brasileiro. Sou grato ainda as imagens dos blogs regociodojapao.com.br,blog.tj.net,devilout.unbrode.com.br,miniweb.com.br e folclore-lobisomem.blogspot.com. 

quarta-feira, 2 de março de 2011

O Oscar dos visitantes da Fonte Nova

                                      A vencedora Natalie Portman sendo cumprimentada

A televisão veio pra Bahia no final de 1960. Alguns anos depois começou a transmitir a cerimônia do Oscar do cinema.  Desde essa época fiquei fã. Não perdia uma! Até depois de me casar, nos anos setenta, confesso que íamos dormir lá pras três da manhã pra ver nossos artistas preferidos aparecerem na telinha. Mas naquela época era muito diferente de hoje. Lembro que Bibi Ferreira ia pra Los Angeles transmitir o prêmio pra TV Tupi. É que, apesar da indústria do cinema ter sido sempre comercial, eram indicados realmente os melhores filmes, os grandes artistas, as espetaculares trilhas sonoras, e que marcaram época.
Há alguns dias demos aqui em casa uma sessão nostalgia nos agendando pra assistir o Oscar 2011. Foi uma decepção. Primeiro nos esquecemos do horário ligando a TV quando já havia começado. Segundo, é que virou um programa de televisão. Um espetáculo onde vale tudo pra prender os espectadores na cadeira. Dos concorrentes selecionados pela Academia, então, nem se fala. Com raras exceções, são filmes de segunda, e até de terceira, categoria, os indicados, geralmente por interesses comerciais e pra ajudar a sua divulgação. Como diz um dos críticos: qual é a graça de se abrir um envelope quando agente já sabe quem será premiado?
Aliás, vários dos vencedores ou indicados estão entre os filmes com maior arrecadação nas bilheterias. Toy story 3 já arrecadou um bilhão de dólares. A origem 824 milhões. Rede social 221 milhões. Bravura indômita 175 milhões, e Cisne negro 172 “mi”.
                                                            Que diferença de antigamente!
Esse ano a audiência do prêmio caiu em dez por cento. Até a crítica norte-americana “caiu de pau”. Falou mal dos apresentadores e disse que a “safra” de filmes não foi boa. No tradicional jornal O “Estadão” saiu coluna denominando-o “o chato do Oscar”. E usou a mesma expressão o artigo que saiu não Globo.com. Com exceção dos cinéfilos e desinformados salta aos olhos que a indústria do cinema norte-americano é parte ativa da crise do império há muitos anos.
É claro que há exceções que confirmam a regra. Um documentário denúncia á crise financeira premiado (Trabalho interno) e a escolha razoável de Natalie Portman (se bem com fraco filme Cisne negro) levando o título de melhor atriz. Em compensação um regular ator inglês Colin Firth abiscoitou o prêmio de melhor ator, e um filme ainda pior, O discurso do rei, ficaria como o melhor filme e, de lambuja, o melhor diretor (Tom Hooper). A melhor atriz coadjuvante (na verdade protagonista do filme O vencedor) teve que espalhar out doors em Hollywood fazendo sua auto propaganda pra ganhar a estatueta cada vez menos valorizada.
Mas deixemos pra lá essas coisas. O que nos interessa mesmo é o “Oscar” da Fonte Nova. Em outros artigos colocados neste blog já informei os sete primeiros clubes a jogar na Fonte Nova. Todos baianos e no mesmo dia da inauguração. Os primeiros foram Botafogo e Guarani. Depois vieram Ypiranga e São Cristóvão. Depois Vitória e Galícia, e, em sétimo, o Bahia. Destes, só estão em atividade profissional, o Ypiranga (que passa a ser o primeiro), Vitória e Galícia, e Bahia (que passou a ser o quarto).
                                                       Se lembram da Marilyn?
O artigo de hoje, entretanto, é voltado para os visitantes. O primeiro clube de fora de Salvador que jogou na Fonte Nova foi o Fluminense (RJ), exatamente na data magna baiana que celebra a chamada independência. Aliás, este foi um dos argumentos para a liberação do estádio na época. É que desde o dia da inauguração o estádio, que havia sido aprontado de qualquer jeito, foi interditado para obras. Nesta ocasião o Fluminense fazia excursão á Bahia e “mexeu os pauzinhos” pra jogar pelo menos uma partida na Fonte Nova. Aliás, foi a única que ganhou (dois a zero no Bahia), perdendo pro Galícia (dois a zero) e empatando com Ypiranga (1 X 1) e Vitória (0 X 0) no campo da Graça.
O segundo clube, e primeiro paulista, seria a Portuguesa de Desportos. Seria vitoriosa em um torneio disputado no estádio este mês com a participação de Ypiranga, Vitória e Bahia. Na estreia o primeiro cairia perante os visitantes por seis a um. Depois daí foi muito mais duro programar jogos no estádio pela resistência de encarregados da obra como Nilton Simas. Mas em novembro fariam outro torneio onde seriam convidados o Vila Nova (MG) e o Vitória (ES), respectivamente, primeiro clube mineiro e primeiro capixaba a jogar no nosso histórico estádio. A rodada dupla que marcou suas estreias ocorreu em 11 de novembro e foi entre eles mesmos terminando com o empate em um gol, enquanto o Bahia derrotava o Ypiranga pelo escore mínimo, num torneio ganho pelos mineiros.
O quinto clube, e o primeiro gaúcho, seria o Internacional que enfrentaria em abril de 1952 por duas vezes a seleção baiana, que se preparava para o campeonato brasileiro de seleções, derrotando-a por um a zero e dois a um. Até então o estádio ainda não estava liberado para os jogos, tanto é assim que a própria decisão do certame baiano do ano anterior, entre Vitória e Ypiranga, se realizaria no velho estádio da Graça.  
                                 A indústria segurando os premios pra não haver surpresas!
O sexto clube, e o primeiro de Pernambuco, chegam já em outra situação, quando o estádio já está liberado para os jogos do campeonato estadual como exigiram os clubes. É o América que perde um amistoso para o Bahia por dois a um. Neste ano organizam outro torneio com a participação de Vitória, Bahia e Ypiranga, e convidam o sétimo clube, o Curitiba, que estreia ganhando do Vitória pelo escore mínimo, pra depois perder pro Ypiranga e Bahia pelo mesmo escore de dois a um.
A lista dos “dez mais” só seria completa em 1953. No fatídico torneio Regis Pacheco realizado em março, onde os baianos foram arrasados na primeira rodada, apresentam-se Internacional (RS) e Flamengo contra a dupla BA-VI. Assim o Flamengo torna-se o oitavo visitante e o segundo clube carioca, derrotando o Vitória por 8 X 2, o Bahia por dois a um e empatando com o Internacional em dois gols.
                                       E olhem que Obama torce pra um dos dez visitantes!
Em abril seria a vez do simpático São Cristóvão (RJ), o nono visitante e o terceiro carioca, que viria fazer um amistoso contra o Vitória onde perderia por três a um. E, por último, em junho, chega o Atlético Mineiro, o décimo visitante e o segundo mineiro, pra atuar contra o Bahia, perdendo por dois a um.

·         Agradeço as informações e imagens dos sites coluna.epocanegocios.globo.com, globo.com,de Artur Xexéo, do Almanaque do Futebol Brasileiro e do blog pipocacombo.com.

terça-feira, 22 de fevereiro de 2011

Recordações da Casa Amarela

                                      A Casa Amarela do bairro do mesmo nome em Recife 

O América FC de Pernambuco já foi um dos grandes clubes do Nordeste. Não surgiu com este nome, mas sim com a denominação de João de Barros FC em função da rua onde se instalava. Precisou uma visita do próprio zagueiro Belfort Duarte, em 1915, para que mudasse de nome, adotando o que ganhou o reconhecimento da aristocracia pernambucana.
Nas duas primeiras décadas de sua existência o novo clube brilhou bem alto. Também não é pra menos. O “mequinha” faturaria dois bicampeonatos, em 1918 e 1919 e em 1921 e 1922, e o certame de 1927, sem contar com os vices de 1923, 1924 e 1930. Mas o maior feito mesmo seria o título do primeiro campeonato nordestino realizado em 1923 que, entre outros clubes, teve a participação do EC Vitória e do Botafogo da Bahia.
Nesta época passou a contar com as simpatias da colônia portuguesa do estado e atingiu outros bairros de classe média e até populares, além do da Casa Amarela. Os clubes de Pernambuco, porém, só começaram a jogar na Bahia no final dos anos trinta. Veio o Santa Cruz, o Náutico, o Sport, mas o ameriquinha só chegaria por aqui perto do fim da Segunda Grande Guerra, após no ano anterior ter voltado a conquistar o título estadual.
                                                      O filme de João César Monteiro
Será que sua diretoria era pacifista? Seja como for passaria uma semana em Salvador pisando no campo da Graça no dia histórico de onze de março de 1945 quando o exército de Hitler já estava encurralado em Berlim e poucas cidades. O ditador nazista se suicidaria no fim do mês seguinte, mas a equipe americana não estava “nem aí”, tanto que estrearia ganhando do Galícia, que tinha faturado o inédito “tri” baiano, por dois a um. A boa impressão dos baianos não diminuiria nem com a derrota para o Bahia por três a zero quando dormiu nos louros do triunfo. Neste ano ficaria com o vice no certame pernambucano.
O “mequinha” voltaria ainda por duas vezes nesta década. A Bahia vivia uma nova situação política. Haviam acabado os interventores e prosperava o nacional-desenvolvimentismo que iria dar os primeiros frutos com as construções do Hotel da Bahia, a CHESF, a Refinaria Landulfo Alves – RLAM e a Fonte Nova. Em 1946 faria duas partidas contra o tricolor, em fevereiro e em setembro no campinho da Graça. A primeira, nas proximidades do carnaval e com os jogadores de banzo com a admirável folia pernambucana, resultou em nova derrota, quatro a dois. Mas a segunda um dia após a data magna da chamada independência do Brasil, se desforraria vencendo por três a dois.
O verdão seria “bi vice” nos dois anos seguintes, e pisaria de novo as terras baianas em julho de 1949 jogando com a dupla BA-VI.  O Vitória não resistiria a sua boa equipe na ocasião, caindo por dois à zero. No entanto, o tricolor, continuaria atravessado na sua garganta, experimentando nova derrota por quatro a dois. Sua despedida do velho estádio da Graça de arquibancadas de madeira seria em primeiro de setembro de 1950. Era véspera de eleições e as obras do novo estádio da Fonte Nova já estavam bem adiantadas. Estava terminando uma época esportiva na Bahia e quem pagou foi o “mequinha” à custa de uma goleada de cinco a um para o mesmo esquadrão de aço.
                                           João Cabral de Melo Neto, um americano "roxo"
O América seria um dos primeiros clubes do Brasil a jogar na Fonte Nova, apenas quatro dias depois da celebração da data magana dos baianos o Dois de julho de 1952. A resistência dos pernambucanos foi grande, mas o tricolor acabou ganhando por dois a um. Doravante a sua presença se daria durante as comemorações da independência.
O América brilharia no ano seguinte. Sua temporada lembrou os heróis pernambucanos que deram uma contribuição decisiva para a vitória baiana e brasileira na Batalha de Pirajá elogiados pelo próprio General Labatut. No próprio dia dois de julho empataria heroicamente em três gols. Três dias depois obteria novo empate contra o Vitória, deste vez em um gol. E se despediria com novo empate, com o seu conterrâneo Sport, por dois gols.
O América não ganharia mais títulos estaduais, mas dois anos depois venceria o torneio início daquele certame, voltando a Bahia no início do ano de 1956. Já não tinha a mesma boa equipe de três anos atrás e este irreconhecível na estreia perdendo para a grande equipe do Botafogo por cinco a zero. A reabilitação veio dois dias depois contra o mesmo Bahia que era uma pedra em seu sapato, empate em dois gols. O tricolor, porém, pediu revanche e o “mequinha” acabou concedendo. Veio assim a Salvador, três semanas depois, exclusivamente para fazer este jogo onde foi derrotado por dois a zero. Dois meses depois voltaria a Fonte Nova, desta vez pra enfrentar o Galícia, antigo “demolidor de campeões”, sendo novamente derrotado, agora por três a dois.

Os anos de ouro do futebol brasileiro deixariam á margem o América. O time perde a condição de terceira torcida do estado para o Náutico e tem campanhas pouco honrosas no certame pernambucano, a exceção da conquista de dois torneios inícios em 1967 e 1970. Os convites para excursões que sempre recebia passam a rarear. Até os ingratos dirigentes esportivos baianos se esqueceram do América.
Mas, quando inauguraram seu anel superior em 1971 foi a própria Fonte Nova que exigiu o retorno do América. Ela se lembrava daquele time valente e leal que desde cedo tinha frequentado os seus gramados. Foi por isto que trouxeram de novo o “mequinha” nos início dos anos setenta. A discriminação era ainda mais odiosa, pois o time participava da Segunda Divisão em 1972 e os times baianos jogariam com o Sport, Náutico e Santa Cruz no certame da Primeira.  
Mas não adiantou as intrigas da oposição. No dia cinco de maio de 1973 os pernambucanos voltavam ao nosso histórico estádio para enfrentar o EC Vitória. Foi um embate difícil, assim como a maioria daqueles que o América representou Pernambuco em terras baianas, ao final um a zero para o rubro negro. Um ano depois viria a despedida da Fonte Nova. Foi um jogo contra o Botafogo em 26 de maio. Quem foi ao estádio naquele dia não imaginou que seria a última vez que veriam os bravos pernambucanos que demonstraram isto em campo obtendo um empate sem gols.
Mas depois não teve choro nem vela. Nunca mais trouxeram o ameriquinha. Demos o azar de nas quatro vezes que o verdão disputou a Segunda, e no ano em que disputou a Terceira, não encontrou clubes baianos por lá. O Vitória construiu seu próprio estádio, o “Barradão”, e largou a fonte do futebol. Nesta época, pra piorar as coisas, o América foi rebaixado para a Segunda Divisão do campeonato pernambucano.
Desde então o Bahia ficou jogando sozinho na Fonte Nova. Esta, porém, entrou o novo milênio com saudades do ameriquinha. Sempre que havia na programação um América ela se excitava toda. Mas o que vinha era o de Minas, o do Rio de Janeiro, e até o de Manaus. Mas, se é dado a alguém “morrer satisfeito” isto ocorreu com a Fonte Nova. No ano em que ocorreu sua morte matada, através de implosão, ela soube que o América tinha voltado a Primeira Divisão do estado irmão.
Há certo tempo o cineasta português João César Monteiro fez um filme, Recordações da Casa Amarela, que lembra a história do América. Na obra o personagem central, João de Deus, passa por doenças, vicissitudes, chega a ser internado em um hospício, mas não perde o gosto das belas coisas. Ao fim do filme continuamos vendo um ser humano cheio de planos. O América voltou ao lugar onde nunca deveria ter saído. A Fonte Nova não existe mais, mas os baianos esperam que o verdão volte aos seus grande dias!

·         Agradeço as informações dos sites do América (PE), do blog do mequinha, Wikipédia e Futipédia.Sou grato as imagens dos blogs lenaeocinema.blogspot.com,recife.pe.gov.br,yellowhouse.news.blogspot.com e revista.agulha.nom.ba.