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quinta-feira, 26 de maio de 2011

O dia do diabo

  
                                                                     Como caíste do céu, ó Lúcifer,
                                                                     tu que ao ponto do dia parecias tão brilhante?
                                                                                                                           Isaías 14:12

Há muita divergência sobre se o diabo merece ou não um dia. O argumento dos demonistas de plantão, no entanto é convincente. Eles dizem que se a Igreja consagra a deus todos os dias porque o pobre não pode ter um diazinho? Lembram ainda que não podemos esquecer que Lúcifer era um anjo da horta do céu. 
Dizem que no início era um querubim da guarda de deus que queria se tornar igual a Ele, aí, e vocês sabem como é a política lá no céu, foi lançado fora do Paraíso. Mas Lúcifer tinha seguidores e a própria Bíblia diz que levou um terço dos anjos com ele, quer dizer esvaziou o céu. Ah miserável, é por isso que vivemos nesta “pendenga” danada neste vale de lágrimas. O inferno teria sido criado pra esses anjos maus. Seria uma espécie de partido que faria oposição a deus pra atentar contra a sua maior criação que seria o ser humano.
Mas Lúcifer e seus seguidores tem muita mágoa da bíblia. Dizem que foi ela que os consideraram espíritos do mal. O pessoal da linha oficial usou o nome de Lucifer em todas as coisas ruins do planeta.  Na Antiguidade foi conhecido como espírito causador de doenças, tragédias e guerras.  E foi na Grécia que lhe deram o apelido de demônio.  Não contentes com isto lhe chamaram de diabo, monaquite, satanás, e outros nomes impublicáveis.
                                                   Ora, o pessoal fica jogando praga!

O negócio já tem milhares de anos e chegou aos nossos dias. Há os que dividem as pessoas nas que são “do bem” e as que são “do mal”. Que consideram que o diabo penetra nas pessoas ruins ou possuídas e inventaram formas de exorcismo para tirá-lo dos corpos. Esse pessoal quis até fazer de Exu (um orixá mensageiro que leva o pedido das filhas de santo) a encarnação do demônio.
A concorrência entre deus e o diabo nos nossos dias é tão grande que a bíblia já lhe destinou três capítulos, o Isaías 14, Ezequiel 28:13-19 e Apocalipse 12:4-12.  Daqui a uns dias não vai falar de outra coisa. Nos dias de hoje Lúcifer pensa que é mais famoso do que deus. Outro dia fez uma gravação para You Tube dizendo que enquanto Hollywood só fez um filme pra Ele, A volta do todo poderoso, e, o de Glauber Rocha fez divide as honras, Deus e o diabo na terra do sol, ele tem centenas, tipo Os guerreiros do Armagedom, O diabo veste Prada, Cinderela, e até a série Supernatural.
                                             Vejam se Jader Barbalho não parece o diabo?

Isso sem contar as diversas sociedades e seitas que o cultuam. E avisa que não adianta taxar 666 de número da besta que já se apossou de outros números. Já tem, até uma cidade, Hell, nos EUA, onde se fazem festas em seu nome. Na Grécia até hoje se comemora o seu nome e são tantas datas que lhe dedicam que ele ainda não escolheu uma. Mas tem predileção pelo 13 de agosto.
                                              E ele ainda queria mandar tudo pro inferno!

Mas o artigo de hoje é para contar a vocês quando o diabo apareceu de público nos estádios baianos. Ele sempre deu preferencias aos “amistosos”, pois esse negócio de respeitar tabelas, jogos marcados com antecedência, para ele são coisas do governo do céu.
Assim, a primeira vez que apareceu foi em agosto de 1932. É que estava marcado um estranho jogo: EC Bahia X Guarda Velha pro dia treze. Ninguém tinha ouvido falar daquele time. Como não existia ainda o Aurélio os torcedores apelaram pros vade-mécum de plantão pra ver se sabiam de alguma coisa, mais nada!
E o pior é que caiu o maior “toró” nesses dias e houve raios e trovoadas. Se fosse só isso era fichinha, pois os baianos estão acostumados a chuva, alagamentos e deslizamentos. O problema é que os cães começaram a morder, e houve incêndios á beça. Parecia que o fogo estava chegando.

                                                    Maryl Streep é o diabo em pessoa!

Aí desconfiaram que pudesse ser armação com o clube tricolor que tinha sido fundado no ano anterior e anteciparam a partida de surpresa para três dias antes. E olha que era armação mesmo. Os anjos (ou demônios?) mandados por Lúcifer invadiram o gramado da Graça, enfiaram a maior goleada que o novo time havia tomado, seis a três, e, não contentes com isso, ainda levaram todos os torcedores presentes para o inferno. Eu só soube da história porque fui pesquisar nos livros secretos do diabo.
Salvador teve sete dias e sete noites de fogo e o diabo ainda incentivou a revolução constitucionalista daquele ano, mas seus seguidores não arranjariam nada sendo derrotados pelo governo do deus Getúlio. A Bahia continuou vivendo sua vidinha com um problema ou outro. Um Estado Novo pra cá, uma guerra pra lá, uns governantes miseráveis (que já estamos acostumados) até que chegou ao fatídico mês de agosto de 1948.
O governador Octávio Mangabeira anunciava a todo mundo que a Bahia iria participar da IV Copa do Mundo (que nenhum país quis, mas que o governo federal organizava pra dois anos depois) pois estava construindo o belo estádio da Fonte Nova. Foi por isso que agosto ficou conhecido como o mês das desgraças. Inadvertidamente, apareceu um time chamado Ypiranga, sem ser amarelo e preto.
                                                              Mas é feio de doer!

Foi logo marcando jogos com os melhores times da época. Os baianos antigamente recebiam os visitantes na maior generosidade. Não é á toa que ficamos conhecidos como a boa terra.  Hoje o capitalismo estragou muito essa maneira de ser mas muita gente continua procedendo assim. Mas voltemos ao tal Ypiranga que disse que era de São Paulo.
E o pior é que ninguém tinha cara de paulista e que começavam os cachorros a uivar e os raios a cair. Até as aguas da baía de todos os santos começaram a se agitar de tal maneira que naqueles dias ninguém saiu pra pescar. Naquele tempo nem tinha celular pra conferir e naquele trambolhão preto demorava muito a informação. Os caras acabaram estreando contra o Vitória e perdendo de três a um.

                                                          Será que o Lucifer posou?

Pronto, aí acabaram as suspeitas! Os baianos pensaram que tinham pegado “o seu”. Era claro que não eram paulistas pra jogar daquela maneira e, quando o tal do Ypiranga pediu revanche ao Vitória, foi motivo de riso nas rodas da Avenida Sete. Mas o que aconteceu naqueles dias foi de arrepiar. Não vi pois só tinha quatro meses de idade, mas minha mãe trancou todas as portas pra proteger a mim e a minha irmã dos trovões e dos seres estranhos que batiam á porta. Mas pouco adiantou pois surgiam monaquites de baixo da cama para puxar nossos pés.

                                                Não era fácil a vida da gente antigamente!

A terra se abriu naqueles dias e engoliu carros na Avenida Vasco da Gama, embora isso não seja novidade em função dos buracos. E surgiram monstros no Dique do Tororó assustando os passageiros dos bondes que passavam por ali. O rubro negro baiano perdeu dos tais paulistas pelo mesmo escore e graças a deus que meu pai não foi ao jogo. Só soubemos do resultado pelo radialista Pérfido Lino Neto mas não sobrou um só torcedor pra contar a história.
                                                                  E tome filme!

Salvador viveria mais nove dias de inferno. O fogo ardia nas ruas, e fazia renascer os vendedores de agua. Até o próprio Quartel do Bombeiros da Baixa dos Sapateiros incendiou. E isso no dia em que o Ypiranga dito paulista ganhou de seu homônimo local pelo extravagante escore de sete a três.
Ninguém mais queria ir aos jogos que ameaçavam acabar com a torcida baiana toda recrutada para os quintos do inferno. As famílias baianas contavam os dias pra eles irem embora. Mas isso aconteceu somente no último dia do mês quando os “paulistas” enfrentaram o EC Bahia. Ninguém foi ao estádio da Graça. Só a Rádio Sociedade, chamada pelos íntimos de PRA-4, colocou um repórter numa casa vizinha que viu as verdadeiras atrocidades que ocorreram por lá.
                                  Botaram Lucifer e seus seguidores pra fora do trio elétrico!

O primeiro atacante do Bahia que ameaçou chutar em gol foi tragado por um buraco que se abriu em campo e que fechou miraculosamente depois. O mesmo destino teve o goleiro que se atreveu a defender uma bola chutada pelos estranhos visitantes. O resultado não podia ser outro do que uma goleada: cinco a zero pro time de Lúcifer. Após a partida Octávio Mangabeira, que não era besta, baixou um decreto exigindo que se colocasse a cruz em todas as portas da cidade, colocando todos os materiais inflamáveis num depósito e chegou ao ponto de proibir o uso de expressões que lembrassem o inferno. Não se pode nem usar mais “que diabo”!
Isso fez com que o diabo demorasse de voltar a aparecer na Bahia. Foi o paraíso para as religiões que esculhambaram o diabo a vontade. Ninguém mais queria ser seguidor de Lúcifer. Até eu, nos anos 60, preferi chamar o conjunto musical que tinha de Os anjos, ao invés de Os demônios.
Mas um dia o próprio sentiu as orelhas coçando de tanto falarem mal dele. E aí surgiu novamente. E olha que desta vez foram os baianos que provocaram. Imaginem que em 1986 foram fazer um jogo logo no dia 13 de agosto, dia consagrado ao diabo! A partida era chinfrim, entre Bahia e Catuense mas antes de ser realizada voltaram aquelas coisas que os antigos conheciam.

                                   Deus e o diabo acertando as coisas da poítica brasileira!

Ainda bem que o diabo só apareceu no dia do jogo da Fonte Nova. Naquele dia as aguas se abriram e o pessoal teve que ir á pé pra ilha de Itaparica. Ainda bem que o governador João Durval mandou trancar os materiais inflamáveis.  Mas não deu certo pois ele mesmo estava inflamado pois Waldir Pires era o favorito na eleição.
O pessoal se precaveu e deixou o estádio ás moscas. O Bahia ganhou de dois a um, mas nunca mais se ouviu falar de seus jogadores ou dos da laranja mecânica, e muito menos das moscas que se arrependeram mortalmente por azucrinarem os diabos na Fonte Nova.
Depois daí só se ouviria falar do diabo na Bahia em 2007, quando o Bahia estava na Terceirona e o Vitória na Segundona. É que não houve quem conseguisse que jogassem no dia 13. A CBF bem que tentou pois não havia conseguido nem uma grana do diabo, mas o tricolor acabou jogando no dia doze e o rubro negro no dia quatorze, foi por isso que os dois ganharam, o Atlético Cajazeirense (alguém conhece?),na Paraíba, por três a zero, e o Gama, no Barradão, por três a um.
O diabo não saiu da toca, e tomara que fique por lá, vade retro!

·         Agradeço ao Almanaque do Futebol Brasileiro e aos sites público. pt, Bola na área, Wikipédia e Futipédia, e aos blogs setimodia.worpress.com,  historiadocinemabrasileiro.com.br e castanheirabarros.homesteqad.com.

segunda-feira, 4 de abril de 2011

Tragédias a mil

                   

1988 começou muito mal para nossa família, sobre a qual se abateu a tragédia da perda do meu jovem cunhado, o contador Elias Bacellar. O sofrimento de Cybele e da família tornar-se-iam uma prioridade para mim nos próximos meses, fazendo inclusive com que eu não aparecesse no carnaval, limitando-me a tomar parte das negociações do sindicato na festa. 

Não deixei, porém, de saber as coisas. Desde o ano anterior Sarney manobrava indicando conservadores para uma série de órgãos, entre os quais o obscuro reitor Rogério Vargens desprezando o voto da comunidade da UFBA em eleições.

Na Bahia os funcionários estaduais iniciam o ano no “turnão”, medida de contenção encontrada por Waldir para reduzir as despesas com pessoal, colocando servidores para trabalhar em um só turno. Enquanto fazíamos campanha pra eleições pra presidente as eleições municipais seriam realizadas naquele ano.


O campeonato baiano deste ano começou logo após o carnaval. O Bahia estava no grupo A e o Vitória no B. O tricolor tentando o “tri” e o rubro negro buscando voltar a ganhar o título o que não fazia desde 1985. Esse ano foi um daqueles que o regulamento foi a maior confusão. Havia dois turnos e quatro fases, e o campeão de cada uma delas juntava-se com um ou dois times de melhor campanha pra jogar um quadrangular decisivo. Durma-se com um barulho desses!

Na primeira rodada o Bahia ganharia do Botafogo por três a zero na Fonte Nova e o Vitória derrotaria o Fluminense por dois a zero em Feira de Santana. O BA-VI seria logo na terceira rodada e os times ainda empatariam em um gol em uma rodada dupla onde o Vitória jogou contra o Serrano e o Bahia contra a Catuense. Mas o clássico ficaria empatado em um gol. O Vitória ganharia as duas últimas partidas (contra Atlético e Atlanta) e o Bahia venceria o Itabuna, mas perderia do Leônico (1 X 2). Mas os dois seriam os primeiros em seus grupos.

Enquanto se desenrolava a primeira fase do primeiro turno nós adquiríamos uma pequena gráfica tendo em vista o enorme número de candidatos a vereador que apoiávamos nos municípios da Bahia. A campanha de Salvador foi a da professora Geracina Aguiar.

                                      Isso aí é na Barra?

As finais da primeira fase foram no fim de março e a dupla BA-VI só ganharia na primeira rodada, o Bahia vencendo a Catuense (2 X 0) e o Vitória o Serrano (1 X 0). Depois empataram com os adversários trocados e ficariam no zero no clássico. Acabaria havendo uma partida extra que “me virei” pra assistir onde, pra minha decepção perdemos pelo escore mínimo.

Em abril o governo Sarney baixa novo pacote buscando obedecer às diretrizes do FMI e embatem-se “centrão” e “esquerda” no congresso e na Constituinte. As decisões de Sarney acabavam por ser seguidas, indiferentemente, pelos governos apoiadores ou críticos do seu governo. O governo Waldir é um destes, pois, mesmo defendendo publicamente a tese de rompimento do PMDB com o presidente, declara não poder pagar a URP. No período começa a luta dos servidores estaduais pelo Plano de Cargos e Salários –PCS.

A segunda fase do primeiro turno começava alvissareira. É que o Vitória ganharia do Botafogo por três a um e o Bahia perderia em Jequié do Atlanta por dois a um. Nesse turno o tricolor teria altos e baixos. Despacharia uma goleada no Atlético de Alagoinhas e, logo depois perdia para o Fluminense. Mas mesmo assim se classificaria em segundo no grupo pelo saldo de gols. O Vitória terminaria novamente invicto seu grupo.

                              Quer maior tragédia do que essa?

O quadrangular final começou no dia do meu aniversário de 40 anos, 24 de abril, mas não tive este presente saindo da Fonte Nova com o gosto amargo de um clássico sem gols. Mas aconteceria o mesmo com Fluminense e catuense. Na segunda rodada, porém, veio à glória, o rubro negro ganharia da laranja mecânica (2 X 1) e o Bahia perderia para os touros do sertão em Feira (0 X 1).

No mês de maio voltamos a celebrar o Dia dos Trabalhadores no Campo Grande. Vivi neste dia uma grande indecisão. É que o ato coincidiu com a final Da segunda fase do primeiro turno do campeonato baiano entre Vitória e Fluminense. A solução foi levar um rádio para acompanhar mais uma vitória do meu clube, desta vez por um a zero. Dois dias depois houve a greve das estatais e funcionalismo federal que aqui produziu uma concorrida manifestação no Campo Grande pelo “fora Sarney”.  

Começava o segundo turno invertendo as coisas. A dupla BA-VI jogava fora de casa, mas era o Bahia quem ganhava (dois a zero contra o Atlético) e o Vitória quem perdia (um a zero contra o Itabuna). O time parecia que tinha desaprendido. Empatou com o Botafogo em dois gols e depois perdeu de três a um para nosso arquirrival. Sequer se classificaria para o quadrangular pois empataria com a Catuense (1 X 1) ganhando apenas do Leônico (3 X 2).Enquanto isto o tricolor ganhava quase todas. E continuaria assim nas finais desequilibrando de novo o certame a seu favor.

                                      Nossa, essa foi dura!  
                         
Em meados do ano o bloco independente do PMDB “racha” com o partido criando o PSDB. Foi aí que começou a última fase do certame a também a última chance de igualarmos a situação. Devido á militância só pode assistir aos jogos pelo rádio. O Vitória ganhou quase todas e o Bahia acabou perdendo uma para a Catuense. Fomos novamente para as finais com o rubro negro em primeiro e o tricolor em segundo nos grupos.

Nesta época as manifestações no cortejo do Dois de Julho haviam se consolidado e os candidatos do partido teriam destaque, havendo polarização com a comitiva do prefeito Mário Kertész e vereadores aliados. O episodio suscitaria incidente na Praça Municipal, inédito até então, com os seguranças da prefeitura, quando vaias impediram o discurso do presidente da Câmara, vereador Ednaldo Santos.

No entanto, minha alegria pelo desfile se transformou numa profunda tristeza logo no outro dia quando fomos vergonhosamente goleados pelo nosso arquirrival por impensáveis quatro a zero! Uma verdadeira desgraça tomou conta da equipe rubro negra que ainda conseguiu perder do Serrano (0 X 1) antes de ganhar a última para o Botafogo (5 X 3).

                      Nesse ano vinha fogo não se sabe de onde!

As finais do certame foram na semana anterior do III Congresso Nacional da CUT em Belo Horizonte. Eu assistiria as duas primeiras rodadas onde o meu rubro negro ganhou do Fluminense (1 X 0) e empatou com a Catuense (1 X 1) tendo que tirar a diferença de dois turnos no jogo contra o Bahia.

Mas aí eu já estava viajando. E, no domingo, enquanto Jair Meneghelli era conduzido pela terceira vez á presidência da central, eu rodava pelo salão em busca de notícias do BA-VI. Só de noite é que eu saberia que o meu rubro negro “pulou esta fogueira” vencendo pelo escore mínimo. Estava tudo empatado de novo, mas, desta vez, só faltavam três jogos.

Foi o maior de todos os congressos que já compareci registrando a presença de mais de seis mil delegados. As mudanças que ali seriam aprovadas impactariam no futuro da central. As propostas de alteração nos estatutos contaram com a oposição de muita gente, sendo aprovado o combate ao pacto social proposto por Sarney que envolveria então, empresários e a CGT.

                                  Ah, isso aí é de todo dia!

A primeira rodada das finais foi na semana em que chegamos do congresso. Na primeira rodada a dupla BA_VI ganhou fora de casa, o Vitória do Fluminense (1 X 0) e o Bahia do Catuense (3 X 0). Mas na rodada dupla seguinte sentimos um frio na espinha pois, enquanto suamos pra ganhar da Catuense pelo escore mínimo o nosso rival goleava o Fluminense por quatro a zero.

Naquele dia sete de agosto de 1988 eu fiquei louco para que alguma tarefa me afastasse do estádio. Mas não apareceu nenhuma. O resultado deixou desconsolados os rubro negros. O Bahia praticamente passeou em campo. Eu aguentei até os dois a zero e depois fui assistir lá da boca da arquibancada.  Quando veio o terceiro desci rapidamente as escadas e me encaminhei para os portões antes que a inchada tricolor viesse com as gozações. O Bahia levava o “tri” e o Vitória ficava sem nada.

Agora só o campeonato brasileiro e as eleições me animavam. Mas eu não sabia o que ainda iria passar em matéria de futebol este ano. A CBF havia inventado tal disputa de pênaltis quando o jogo terminava empatado. No início pareceu bom pois tanto Vitória como Bahia venceriam nos pênaltis os cariocas América e Bangu em rodada dupla na Fonte Nova no dia 2 de setembro.

                     Vije,cruz credo, isso não é pra Bahia não!

Logo depois o rubro negro perdeu novamente pro tricolor, desta vez pelo escore mínimo. O leão da Barra terminaria em oitavo e o esquadrão de aço em terceiro. Mas só classificavam dois pras finais.

Perto das eleições o governo Sarney continua a cantilena do “pacto social”. Nesta época nosso presidente Jair Meneghelli compareceria ao Colégio Dois de Julho para prestigiar o I Congresso Estadual dos Trabalhadores de Educação. Na ocasião daria entrevista á imprensa despertando risos de todos nós quando declarou “já estar cheio desta história de pacto”.

Nossa campanha eleitoral foi muito ajudada pelas greves. A agenda da nossa candidata era cheia. Os servidores municipais fazem greve para receber a URP, sendo seguidos pelos policiais civis, previdenciários, médicos, Justiça, BANEB, assim como pela Escola de Agronomia da UFBA. Havia movimentos dos professores da rede particular, da rede municipal de ensino, petroleiros, petroquímicos, Banco do Brasil, DRT, LIMPURB, CAR, e do Ferry-boat.

                                     Que diabo é isto?

Waldir anuncia reajuste para quem não recebia URP na vésperas das eleições mas seu candidato à prefeitura de Salvador Virgildásio Sena não consegue “decolar”. Até a eleição ainda dá tempo pro Exército invadir a CSN matando 3 operários e ferindo diversos outros durante a greve dos metalúrgicos de Volta Redonda-RJ.

As eleições foram responsáveis pela minha única satisfação nesse ano. O partido ganhou em uma série de cidades importantes, entre as quais São Paulo, com Luiza Erundina. Na Bahia, porém, apenas duas prefeituras, Amélia Rodrigues e Jaguaquara. Além disto tivemos Geracina Aguiar como a sétima vereadora mais votada de Salvador. Mas a maioria dos nossos candidatos “quase” se elegeram. O sucessor do prefeito Mario Kertész seria Fernando José, funcionário de Pedro Irujo, empresário de comunicação espanhol naturalizado brasileiro ficando Zezéu Ribeiro (PT) em quarto com 4,6% dos votos. Pra completar George Bush pai se elegeu pra presidência dos EUA.



A segunda fase do campeonato brasileiro começaria depois das eleições com o Vitória sofrendo um desastre apanhando de seis a um do Goiás no estádio de Serra Dourada. Depois disto “cairia pelas tabelas” só voltando a ganhar, e em pleno Maracanã, do Flamengo pelo escore mínimo. Mas foi “fogo de palha” pois voltaria a sua via crucis e terminaria agora em penúltimo lugar.

Já o Bahia continuaria surpreendendo ganhando diversas partidas (no tempo de jogo e nos pênaltis) e terminaria em quarto lugar. Aí, como o Vasco se classificou nas duas fases, o tricolor ficaria com uma vaga e participaria da terceira fase pelo somatório geral dos pontos. Não adiantou torcer contra o Vasco.

Outras tragédias se aproximavam pra quem gostava de política e era rubro negro. Primeiro foi o assassinato de Chico Mendes, militante do PT e presidente do STR de Xapuri no Acre, e depois foi aguentar as gozações dos tricolores pela conquista do campeonato brasileiro pouco tempo depois.



·        Agradeço as informações dos sites RSSSF Brasil e Bola na Área e do Almanaque do Futebol Brasileiro. Sou grato ainda as imagens dos sites da abril,uol,desastres áereos.net e dw-wordl.

domingo, 20 de março de 2011

O recorde do urubu

                 
O CR Flamengo é honra e glória do futebol brasileiro. Possui quase todos os títulos, sendo campeão carioca, do Rio-São Paulo, brasileiro, americano e mundial. São tantos que nem os sites ligados ao clube sabem. Um deles eu vou informar agora. O Flamengo é o clube que mais jogou na Bahia. Custariam meses de pesquisa pra descobrir todas as partidas que o urubu jogou por aqui onde, além de Salvador, atuou em outras doze cidades do interior baiano, Ilhéus, Itabuna, Feira de Santana, Jequié, Vitória da Conquista, Juazeiro, Alagoinhas, Itapetinga, Jacobina, Ipiaú, Conceição de Almeida e Pedro Mangabeira.
Entre meus amigos da Academia há gente que acha que pesquisa sobre futebol não é assunto sério.  Pois tenho a dizer a eles que dá o mesmo trabalho de qualquer outra mais “nobre”. O site Flamengo estatísticas.com e o Almanaque do Futebol Brasileiro entram em várias contradições. Verifiquei apenas até 1960 observando que o primeiro ignora a excursão que o clube fez em março de 1946 na Bahia e o segundo omite algumas partidas da excursão de 1938.
Apresentam resultados diferentes na partida realizada contra o EC Bahia em Ilhéus. Afinal quem foi que ganhou por três a zero, o tricolor ou o rubro negro? E, por último, mas não por fim, o site rubro negro omite uma vitória do clube contra o tricolor baiano por quatro a zero (na excursão de abril de 1957) e uma derrota para o Bahia por três a um (na de maio de 1958), e o Almanaque esquece a temporada do urubu em dezembro de 1960 em Salvador e Itabuna. Chegam, assim, a números diferentes em relação às partidas do Flamengo. Podemos dizer, entretanto, sem sombra de dúvidas, que o clube é o de fora do estado que mais jogou nas praças esportivas da Fonte Nova, de Salvador e da Bahia.

No próximo ano faz oitenta anos que o urubu chegou aqui pela primeira vez, em novembro de 1932, no ano em que o país foi agitado pela chamada Revolução Constitucionalista. Na oportunidade deu em todo mundo, ganhando de Vitória (7 X 2), Botafogo (4 X1), Ypiranga (1 X 0), Bahia (3 X 2) e Seleção Baiana (3 X 1), só perdendo a última partida em função de dar revanche ao mais querido (2 X 3). Voltaria ao estado em pleno Estado Novo, quando a Bahia era governada por interventores, com resultados ainda mais arrasadores, pelejando contra Botafogo (7 X 1 e 2 X 1), Bahia (5 X 2 e 7 X 2), Galícia ((4 2), Vitória (4 X 1), porém perdendo mais uma vez para o Ypiranga (1 X 3).
Depois disto só quando terminou a ditadura Vargas e já se construía o Estádio Octávio Mangabeira (apelidado de Fonte Nova). Ganharia as três partidas que faria em junho de 1947, contra Vitória (5 X 2), Guarany (2 X 1) e Bahia (2 X 1); venceria o clássico contra o Fluminense carioca em janeiro de 1949 por cinco a zero; e excursionaria pela região do cacau e em Salvador em junho de 1950, onde se despediria do velho campo da Graça.
A Fonte Nova seria um grande mercado para os urubus. Suas primeiras partidas se dariam no Torneio Régis Pacheco, de triste memória para os baianos. Na oportunidade ganharia de oito a dois do Vitória, de dois a um do Bahia e ficaria em segundo lugar ao empatar com o Internacional (RS) em dois gols.
                                                  As vezes se confunde com a nação!

A partir de 1955, por sete anos seguidos, visitaria o estado, onde, entre outras partidas, jogaria a última vez com o Ypiranga em abril de 1955(2 X 1), ganharia da Seleção de Itabuna (7 X 1) e do Fluminense de Feira de Santana (5 X 0), e perderia para a Seleção baiana (0 X 2). Nos anos 60 jogaria por quinze vezes na Bahia, a maioria delas no interior do estado. Nesta época o intercâmbio esportivo faz com que haja um equilíbrio nas disputas mantidas, especialmente, com os clubes de Salvador, registrando cinco derrotas para o tricolor baiano, perdendo para o São Paulo pelo escore mínimo (agosto de 1965), mas vencendo o clássico carioca contra o Vasco da Gama em novembro de 1966 em Vitória da Conquista (2 X 1).  
Os certames nacionais se iniciam ao final dos anos cinquenta com a Taça Brasil, mas o Flamengo só vai enfrentar clubes baianos ao fim da próxima década no “Robertão”. A estadia do clube no estado só ganharia regularidade com a criação do Campeonato Brasileiro no início dos anos setenta. Em todos os anos da década viria à Bahia, onde bateria o recorde jogando 33 partidas. Nos primeiros jogos por torneios nacionais, perderia (0 X 1), ganharia (3 X 1) e empataria (1 X 1) com o Bahia; enfrentaria o Vitória por duas vezes em 1973, registrando-se empates sem gols; golearia Itabuna (5 X 0) e Fluminense de Feira de Santana (6 X 0), e, mesmo ocorrendo vários empates, o urubu perderia apenas quatro partidas, três para o tricolor e uma para o rubro negro baiano.
A Era dos certames nacionais teria apenas alguns anos de ausência do Flamengo na Bahia, ditada geralmente pela queda de algum (uns) de seus clubes da Primeira Divisão. O fato apenas ocorreu em 1982, 1983, 2005,2006, e 2007, registrando-se na época o recorde de vinte e um anos seguidos da presença do Flamengo na Bahia.  Os baianos se recordam em especial das vitórias da Catuense (2 X 1) e do Itabuna (1 X 0) sobre o urubu em 1988; das visitas deste a cidade do frio ganhando do Serrano por duas vezes (4 X 1 e 3 X 1) no mês de julho de 1989 e 1990; dos jogos sensacionais com o Vitória, cinco a zero para os visitantes na Fonte Nova e cinco a zero para os leões da Barra no Barradão (com diferença de apenas nove meses entre 1997/1998) e de nova goleada carioca (5 X 1) em maio de 2004.

A última partida do urubu na Fonte Nova foi em seis de abril de 2003, e, pra quem gosta de superstições, sete anos antes da sua implosão. Naquele dia compareceram, 50.426 torcedores para ver Bahia e Flamengo, que formaram assim. O time de Nelsinho Batista atuou com Júlio Cesar, Fabio Baiano, André Bahia, Fernando e Athirson; André Gomes, Fabinho e Felipe; Andrezinho, Jean (Felipe Melo) e Zé Carlos (Fernando Baiano).
O tricolor de Bobô formou com Márcio, Guto, Marcelo Souza, Valdomiro e Lino; Jair, Otacílio (Nilson Sergipano), Paulo Sérgio (Marcelo Nicácio) e Preto Casa Grande; Cláudio. Jogaram ainda Luiz Alberto e Adriano. Na ocasião todos os gols foram marcados por flamenguistas, Fernando Baiano e Felipe a favor e Fabinho contra, terminando em dois a um para os cariocas.  Não podia dar outro resultado, afinal tinham muitos baianos na equipe e, no mês anterior, o urubu completara cinquenta anos da sua primeira partida na Fonte Nova.
                                                              Ih, com esse aí sujou!

·   Agradeço as informações dos sites Flamengoestatísticas.com, do oficial do clube, do Futipédia e do Almanaque do Futebol Brasileiro. Sou grato as iomagens dos blogs eusouflamengo.com,magiarubronegra.worpress.com,taiapuramagia.blogspot.com,oglobo.globo.com,ligerinhonoesporte,blogspot.com,zoacaofc.com e alcilenecavalcanti.com.br.

sexta-feira, 18 de março de 2011

O mês do cachorro louco!

            
                                                                                Mês terrível funesto mês de agosto,
                                                                                Mês de desgostos, mês trágico e fatal.
                                                                                                                  (modinha Popular)
Dizem que agosto é o mês da desgraça e das infelicidades. Os argentinos até tem um ditado que não se deve lavar a cabeça nesse mês, pois atrai a morte. E o mais curioso é que os romanos deram este nome ao oitavo mês do ano para homenagear a seu imperador Octávio Augusto em função de suas conquistas. Mas depois passaram a não gostar do mês onde se dizia que passeavam dragões.
O folclorista Pereira da Costa afirma que é mês de desgosto, sendo de mau agouro para casamentos, mudança de casa e empreendimentos. Diz que no dia 24 de agosto, dedicado a São Bartolomeu, os diabos se soltam do inferno. Leonardo Mota chega a dizer que é o mês desmancha-prazeres da humanidade. João Alfredo de Freitas fala de um dia de agosto onde se soltam as almas. No Brasil há um ditado popular que diz que “casar em agosto traz desgosto”. Na crendice popular, as assombrações, almas penadas, costumam aparecer nesse mês. Mas a superstição em torno disto é internacional.
Gastaríamos horas falando das misérias que ocorreram em agosto. Lembramos apenas algumas. As duas maiores guerras da história do planeta começaram em agosto. Uma no dia primeiro de agosto de 1914. E a outra, em agosto de 1939. E foi também em agosto, nos dias 6 e 9, que soltaram bombas atômicas nas cidades de Hiroshima e Nagasaki em 1945. Foi no dia 24 de agosto de 1572 que Catarina de Médici ordenou o chamado massacre de São Bartolomeu matando milhares de pessoas. A Revolta dos poloneses contra os russos em Varsóvia ocorreu em 14 de agosto de 1831 com milhares de mortos.

Foi no dia 6 de agosto de 1890 que o primeiro condenado a morte foi executado em Nova Iorque na cadeira elétrica. Foi com a morte de Hindenburg em dois de agosto de 1932 que Hitler assumiu o governo da Alemanha. Foi no dia 13 de agosto de 1961 que se iniciou a construção do Muro da Vergonha em Berlim e em 21 de agosto de 1968 que o Exercito Vermelho invadiu a Tchecoslováquia para sufocar uma revolução popular. O Brasil entra nesta triste estatística com vários fatos, dos quais só vamos lembrar o suicídio de Getúlio em agosto de 1954 e a renúncia de Jânio Quadros em agosto de 1962.
O mês de agosto também aparece na história do futebol baiano com a ocorrência de coisas muito estranhas.  Pelas minhas pesquisas verifiquei que as coisas começaram em 1932 quando houve um mês estranhíssimo! As coisas começaram com amistosos do tricolor baiano. Parece que influenciado pela chamada Revolução Constitucionalista o Bahia resolveu agradar os militares aceitando jogar no dia 10 de agosto para um time chamado de Guarda Velha (vocês já ouviram falar?) para o qual perdeu por seis a três!  Mas três dias depois arranjaram uma revanche e o tricolor ganhou por quatro a dois.
Logo depois, agora pelo campeonato, foi à vez do Vitória jogar com o time da Companhia de Bebidas Antárctica que seria a única vez que participaria do campeonato. Apesar dos jogadores “tomarem uma” o rubro negro conseguiu ganhar por três a dois.  Quatro dias depois o Botafogo enfiaria sem dó nem piedade sete a um no Guarany que seria mais uma vez lanterna este ano.

No ano seguinte o São Cristóvão (RJ) seria convidado para mais uma excursão na Bahia, e aconteceria exatamente em agosto. Foi uma desgraceira no caminho da feira. Os visitantes só perderam pro Vitória aproveitando o cansaço de viagem (1 X 2). Daí por diante derrotou o 2 de julho (3 X 2), esmagou o Galícia (8 X1), e o Botafogo (5 X 0), ganhou do Ypiranga (3 X 2) e empatou na despedida com o Bahia (1 X 1).
O mês de agosto de 1934 seria outra tragédia, desta vez do Vitória no certame baiano. A equipe estava ganhando todas, mas quando chegou o aziago mês as coisas começaram a degringolar. Tudo começou quando o negro tomou de quatro a um do Galícia. Duas semanas depois seria a vez de o Ypiranga golear os leões por seis a dois. Por último, até o lanterna Fluminense tiraria uma “lasquinha” ao ganhar por um escore de “baba”, cinco a quatro. Nesse ano ficaria em terceiro lugar, a dois pontos de diferença do EC Bahia, e só perderia uma partida em outro mês. Mas o Vitória aprendeu a lição. Quando chegou a agosto do ano seguinte preparou-se e ganhou todas as partidas. O problema é que se esqueceu dos outros meses ficando em terceiro de novo quando o Botafogo abiscoitou o título.
Em 1938 o futebol baiano faria sua primeira decisão de campeonato em agosto. Nas partidas, porém, aconteceu uma coisa estranha. É que o Botafogo, que estava ganhando de todo mundo, não conseguiria vencer o Ypiranga nas finais empatando por duas vezes em três gols. A vingança das almas penadas foi tal que foi o único ano que houve dois campeonatos estaduais, arranjando-se logo outro ganho pelo Bahia, quando o alvi rubro só ganharia uma única partida! Nos próximos dois anos duas goleadas memoráveis em clássicos realizados em agosto. O Ypiranga arrasaria o poderoso Galícia por nove a um (1939) e o Botafogo tomaria do Bahia uma goleada memorável de sete a um (1940).
                                                                 Só se foi em agôsto!
Quatro anos depois o Bahia resolveu arriscar marcando o seu clássico com o Ypiranga pra 27 de agosto. E. não aconteceu nada vencendo por três a um os canários e sagrando-se este ano bicampeão baiano. Mas é que o tricolor estava vacinado contra almas penadas. E estas tiveram medo dos estranhos nomes dos jogadores Ioiô (goleiro), Prazeres (médio), e de Pipiu e Cacetão (atacantes).
Em 1948 os dirigentes esportivos trouxeram de novo um visitante pra jogar em agosto, o “famoso” Ypiranga de São Paulo. Mesmo assim foi um escândalo! O habitual cansaço fez os paulistas perderem na estreia contra o Vitória (1 X 3), mas logo depois se recuperaram contra o próprio rubro negro devolvendo o placar, e arrasaram Ypiranga (7 X 3) e Bahia (5 X 0).
Demoraria muitos anos pra marcarem novos jogos importantes em agosto. Times de fora nem pensar! Mas uma vez na Fonte Nova, dez anos depois, o Vitória resolveu fazer um amistoso contra o Bahia em finais de julho, vencendo por dois a um. O Bahia então pediu revanche. O rubro negro pensou, pensou e decidiu aceitar, mesmo porque a nova diretoria de José Catharino não simpatizava com essas crendices.
                                                 O negócio é entrar numa destas!
No dia três de agosto a dupla entrou novamente em campo, mas não aconteceu nenhuma tragédia, havendo empate em dois gols. Como o público estava agradando, o tricolor resolveu pedir nova revanche. Dois é bom, mas três é demais. Mas o Vitória parece que tinha esquecido este simples ditado popular. Resultado foi massacrado por cinco a um pelo tricolor, além de ficar sete anos longe do título estadual.
Em 1966 o rubro negro resolveu desprezar de novo o mês de agosto, aceitando que marcassem neste mês suas últimas partidas do turno. O Vitória ganharia a primeira etapa do certame no campo da Graça, empatando com o Ypiranga em um gol e vencendo o Botafogo pelo escore mínimo. Mas perderia o campeonato pro Leônico. Uma vingança dos demônios e almas penadas!
Nos anos setenta foi à vez do tricolor passar por cima das superstições. Como ganhava de Deus e o mundo, estando na melhor fase de sua vida, achou que poderia desafiar estas coisas. Mas, no entanto, mandou Lourinho, seu chefe de torcida, passar nos terreiros para que “fechassem o corpo” dos jogadores. Aí não deu pras almas. O tricolor jogou em 1975 e 1976 em agosto e se deu bem ganhando por duas vezes as decisões contra o seu arquirrival rubro negro em agosto. Já os leões da Barra esqueceram-se de fazer este trabalho e ficaram na pior!
                                           Cruz credo, o que os torcedores aguentam!

Logo depois nesse mês em 1975, porém, o tricolor não ganharia uma no certame brasileiro, empatando com o Flamengo sem gols, e perdendo pra Portuguesa de Desportos (1 X 2) e o Santos (0 X 2) fora de casa. E não foi nesta época que o rubro negro foi arrasado pelo Internacional por cinco a zero em plena Fonte Nova?
Nos anos 80 continuaram as tragédias de agosto. Em 1980 o Galícia ganhou o turno neste mês e, por conta disto, acabou por perder aquele que seria seu último campeonato depois de muitos anos. E, três anos depois, aconteceria o mesmo com a Catuense. Ambos em benefício do Bahia. Aí o Vitória resolveu tomar uma providência pedindo a federação pra começar o campeonato em agosto evitando qualquer jogo importante durante o mês. E não é que funcionou? Deu Vitória na cabeça voltando a ganhar o título depois de cinco anos.
Em 1989 o esquadrão de aço seria eliminado pelo Grêmio na primeira Copa Brasil ao perder dentro da Fonte Nova por dois a zero, completada por nova derrota em Porto Alegre, agora pelo escore mínimo. Mas o tricolor continuava sob a proteção dos orixás, enquanto Lourinho não foi morar no Piauí. E dois anos depois se arriscou a decidir o título em agosto contra a Catuense e ganhou as duas partidas, lá e cá. O Vitória teve que continuar fazendo expediente. E, em 1990, adiou em cima da hora a data do jogo decisivo contra o Bahia para primeiro de setembro, empatando em um gol e ganhando o título.
                                                      Mais um que se foi em agôsto!

O Bahia descontou quatro anos depois com o famoso gol de Raudnei no finzinho do jogo decisivo de agosto contra o Vitória naquele ano empatando o jogo e levando o campeonato perante 94 mil pessoas. Aliás, nas pesquisas de opinião, este é o jogo mais lembrado pelos tricolores.
Depois deste jogo o Vitória nunca mais permitiria jogos em agosto pelo campeonato. Aquele havia sido o último. No ano seguinte voltou a mudar a data do jogo final contra o Galícia vencendo por um a zero e ficando com o segundo turno e o campeonato em 30 de julho. No campeonato brasileiro a dupla BA-VI passaria apertos por duas vezes no mês de agosto.  Em 2002 aconteceu com o Bahia e em 2004 com o Vitória.
No primeiro o tricolor só ganharia do Gama perdendo pro Atlético Paranaense (0 X 4) e do Cruzeiro (1 X 2), e empatando com o Goiás (1 X 1) fora de casa, e, na Fonte Nova, sendo derrotado por Curitiba e Figueirense pelo escore de dois a um. Já o rubro negro em 2004 só conseguiu ganhar do Cruzeiro, perdendo de quatro do Paraná no Pinheirão, e do São Caetano em pleno Barradão (1 X 2). Recentemente, já com mais amizade com o pessoal do candomblé, ganharia do Vasco da Gama, em agosto de 2008, por cinco a zero!
                                                          Ói as almas penadas!
Nem a Fonte Nova nem seu amigo Barradão veriam certames com jogos no mês fatídico. Dizem que foi por causa das tabelas da CBF, porém, eu prefiro acreditar que foi por medo das almas.

·       Agradeço as informações de Luís da Câmara Cascudo, Pereira da Costa, Leonardo Mota e João Alfredo de Freitas e dos sites Jangada Brasil, RSSF Brasil e Wikipédia. Sou grato ainda as imagens dos blogs flickr.com,forgetthefew.blogspot.com,restreiodecozinha.blogspot.com,osinimigosdorei.blogspot.com,curiosidadesdaana.com.br,vilamulher.terra.com.br,portaldocrente.com,jornale.com.br e pagina20.uol.com.br.