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sexta-feira, 21 de janeiro de 2011

Quatro meses de blog

                                  
Hoje completo quatro meses que coloquei no ar este blog. No começo não foi nada fácil tendo que levar um bom tempo pra passar dos seis acessos-dia nas primeiras semanas pras 130 visitas de anteontem!  Já estava pensando que era mais uma furada na minha “carreira” de escritor. Considero que esta se divide em antes e depois deste blog. Peço permissão a vocês pra me justificar.
Fiz muita coisa na vida embora começasse a trabalhar tarde. É que durante minha juventude fui um “rebelde sem causa” e minha família chegou a pensar que eu “não daria pra nada”. Quem me salvou foi o forte movimento do rock dos anos 60, fazendo com que eu me interessasse pelo contrabaixo (só pra ser contra alguma coisa!). Com ele eu iria estudar na Escola de Música da UFBA depois de passar literalmente “no chute” no vestibular.

Integrei orquestras sinfônicas por duas décadas tocando com muita gente. Até então só tinha escrito versões de musica e composições de qualidade discutível. Foi quando cursava a universidade é que comecei a escrever. Já estava com 31 anos e fui recrutado pela AP, uma organização que lutava contra a ditadura e queria o socialismo. Como tinha que apresentar um relatório da situação da área de artes escrevi um documento que intitulei pomposamente de A questão artística, que nem os dirigentes leram.

                                                          Até o bolo!
                                       
Aquilo, porém, me estimulou a escrever, e não parei mais. Como bom burocrata passei a ser expert em relatórios, convocações e circulares. Logo depois, entretanto, a organização acabou e eu fiquei sozinho no altar, pois a noiva havia fugido. Mas não nos demos por rogado criando outra (mais baiana que outra coisa), tendo eu ajudado a escrever os seus documentos básicos. Como esta também durou pouco acho que ninguém reparou as bobagens que escrevi.

Continuei a escrever coisas intragáveis até o fim da ditadura militar. E isso pouco mudou na “Nova República” sarneysista quando tínhamos uma greve por semana pra fazer. Meus escritos somente melhoraram ao final dos anos 80. Naquela altura o socialismo burocrático fazia agua no Leste Europeu e o PT buscava controlar algumas correntes políticas internas. Foi aí que escrevi contribuições mais pretensiosas pra algumas dúzias de militantes.

Cheguei a escrever dois pequenos livros. No que investiguei o governo de Allende no Chile ultrapassei pela primeira vez a barreira das dezenas pra algumas centenas de leitores.  Mas, como o grupo estimulava muito estas iniciativas (para não dizer ao contrário) tive que contar com meus próprios recursos pra editar meus escritos. Minha glória foi quando vi o próprio Zé Dirceu comprar o livro na nossa barraquinha montada na porta do Colégio Dois de Julho em Salvador.


O segundo foi uma espécie de panfleto onde eu queria convencer os outros do “verdadeiro marxismo-leninismo”. Mesmo assim a pequena edição se esgotou rapidamente, acredito que comprada por concorrentes do grupo que eu criticava e alguns desavisados.

Como tinha me tornado exigente com o que escreviam enveredei pelo “caminho científico” passando a dar grande valor à pesquisa. Isto me levou a área de história, ao mestrado e doutorado, na década de 90. A guinada me levou somente a escrever chatos trabalhos acadêmicos, embora tenha quem goste de alguns.

Acreditem que levei quatro anos pra publicar meu próximo livro, fruto de dissertação de mestrado sobre os petroleiros! A “obra” se encontra hoje esgotada, embora ache que isso se deu mais pelo interesse da categoria e por ter muitos amigos. O livro despertou algumas polêmicas. Alguns dos antigos dirigentes do sindicato se sentiram ofendidos pela revelação de erros. De outro lado houve quem se sentisse decepcionado com a “projeção excessiva” dada a aqueles que consideravam pelegos. Foi a minha primeira experiência de ir a fundo nas coisas e comprovei que muitos não estavam preparados para ela.

Logo após me concentraria, durante mais quatro anos, num trabalho descomunal para o doutorado em Recife, o de reconstruir a história da organização que eu tinha participado. Foi um trabalho de doido! Tive que ler 800 documentos e 500 livros, produzindo ao final um documento de quase mil páginas, que tive de reduzir para que pudesse ser lido pelo meu orientador e pela banca examinadora. Até hoje não publiquei minha tese.


Quando acabei passei a gozar do título de doutor em história social empregando-me em várias faculdades privadas. Foi minha época de ganhar dinheiro e viajar pelo mundo que ninguém é de ferro! Não abandonei a “carreira” de escritor, mas agora produzia para publicações científicas “sérias” pra fazer pontos no CNPQ, e vez ou outra, escrevia artigos para os sites de política.

Parecia conformado com esta vidinha quando veio me salvar a Faculdade de Tecnologia e Ciências-FTC. Passei a ser coordenador de educação á distância e, por mais incrível que possa parecer, gerente de vendas! Na época aprendi a dar aula pra milhares de pessoas, mas comprovei também que não há santo que aguente trabalhar como administrador do capital! Não me surpreendi quando fui demitido. Afinal, que empresa pode suportar um cara de esquerda e ainda escritor como gerente?

Aproveitei a ocasião para lançar mais um “livro sério” no mercado, sobre o último vice-rei do Brasil, o oitavo Conde dos Arcos. No entanto, apesar do acesso desse a segmentos nunca sonhados, ainda tenho lá em casa cerca de trezentos exemplares esperando compradores. Vão convencer a Cybele que sou escritor quando a casa está abarrotada de livros não vendidos!

Bem, nesta altura do campeonato, minhas relações com a ciência foram estremecidas. Havia voltado pos linhas tortas a escrever pra poucos. Passei a achar que minhas “profundas pesquisas” e teses estavam muito longe dos leitores brasileiros. Cheguei a elaborar alguns projetos “mais amenos”, enviados pra editoras locais e do Sul, tentando realizar pesquisas que não interessam a ninguém. Essas iniciativas me renderam, quando muito, o agradecimento de alguns com a esfarrapada desculpa de que "em outra oportunidade" teriam a satisfação de analisar os meus originais.

                                     Será? Como gosto de Woody Allen...

Cheguei, por fim (depois de trinta e três anos) a conclusão de que devia escrever sobre assuntos que interessam a milhares e que eu tivesse a fim de tratar. Foi aí que comecei a recuperar a minha história política e cultural e percebi que uma parte dela era desportiva. A decisão final de criar um blog pra recuperar a memória da Fonte Nova foi influenciada por dois fatos: a minha aposentadoria da UFBA (concedida em junho do ano passado) e a implosão do estádio da Fonte Nova (acontecida em agosto).

O blog causou uma verdadeira revolução na minha insistência em escrever. Ao completar quatro meses no ar já alcançou mais pessoas do que consegui em mais de três décadas como “escritor”: 4.200. Nesse tempo não só pessoas do Brasil se interessaram por ele. Sou agradecido ao apoio que recebo de interessados dos Estados Unidos e do Reino Unido, que juntos somam 180 acessos. Assim como aos que se encontram em países que fazem parte da lista dos dez primeiros em número de visitantes, como Egito, Portugal, Argentina, Irlanda, Espanha, Eslovênia e Holanda.

Não posso deixar de agradecer aos nossos apoiadores em quase todas as regiões do globo. Recebo visitas da América (México, Canadá, Chile e Uruguai), da Ásia (Cingapura, Índia, Malásia e Japão), da Europa (Grécia, Itália, Alemanha, Dinamarca, Rússia, França, Croácia, Ucrânia e Moldávia) e da África (Angola). 


Não atribuo esta audiência a meus escassos talentos de escritor mas sim ao lugar que a Fonte Nova ocupa até hoje no imaginário coletivo. O grande escritor Eduardo Galeano, em seu livro El fútbol a sol y sombra, ao falar dos estádios diz que.

não há nada menos vazio que um estádio vazio. Não há nada menos mudo que as arquibancadas sem ninguém.

Afirma que o Estádio Centenário (onde foi disputada a Copa do Mundo de 1950) suspira de nostalgia pelas glorias do futebol uruguaio. Que o Maracanã segue chorando a derrota brasileira no mundial de 50. Que em Milão o fantasma de Giuseppe Meazza continua marcando gols que fazem vibrar o estádio que leva o seu nome. E que, a final do mundial de 74 ganho pela Alemanha, se joga dia e noite no Estádio Olímpico de Munich.

Desta forma não é nenhuma surpresa que a Fonte Nova tenha sobrevivido na memória dos que a conheceram como um dos maiores templos de esporte. E isto acontece ela se confunde com uma época inesquecível de nossas cidades, antes de serem degradadas pelo capitalismo, com sua violência, crescimento desordenado, indústria cultural e especulação imobiliária.

Neste dia de aniversário agradeço a todos vocês que, mais do que acessar um blog, fazem parte da resistência contra o esquecimento desta que foi fisicamente (o quanto hoje é espiritualmente) um dos maiores patrimônios modernistas da Bahia, e, porque não dizer, do Brasil. É este apoio que me estimula a continuar e a pensar em novos projetos, como a publicação de um livro e a organização de um museu sobre a Fonte Nova.


·   Agradeço a inspiração de Eduardo Galeano e as imagens dos blogs:     percapeso-ganhefelicidade.blogspot.com,claudiagironblog.terra.com.br,arteacucar.blogspot.com e arcadenoe.sapo.pt.

sexta-feira, 22 de outubro de 2010

ANIVERSÁRIO DO BLOG


Hoje meu blog completa um mês.  Mesmo sendo ainda um bebê achei importante fazer uma avaliação pros meus leitores.  A ideia de um blog começou no início deste ano, quando comecei a escrever o meu quinto livro. Acostumado a escrever sobre história política, ao me aposentar da UFBA decidi escrever Camarada Júlio que contém a primeira parte da minha biografia política, que vai dos anos 60 ao final dos anos 80.
Durante este ano também foram acelerados os trabalhos da demolição da Fonte Nova, da sua piscina e do Ginásio Antônio Balbino, com vistas à criação de uma arena exclusiva para futebol para a Copa do Mundo de 2014.  Confesso que este processo me impactou. Havia confiado na atuação do Ministério Público e entidades civis que haviam se posicionado contra o fim desse complexo desportivo, não só por se tratar de um ícone da arquitetura modernista brasileira, como em virtude da nossa memória desportiva, e, ainda, pelo valor escorchante do projeto aprovado, em torno de um bilhão e seiscentos milhões de reais.
Assim, acompanhei os diversos posicionamentos em torno da obra, entregue as construtoras Odebrecht e OAS, cujo contrato prevê ainda uma draconiana indenização a ser paga pelo governo da Bahia durante vários anos, caso não seja alcançada um valor de rendimento anual que chega aos vinte e três milhões de reais.
As pressões da CBF e da FIFA, e a proximidade das eleições, certamente contribuíram para que houvesse um “acordo” (que estiveram longe de envolver todos os críticos do projeto) para tocar as obras de qualquer maneira. Cheguei a pensar em me deitar no campo do estádio. Amarrar-me a uma das pilastras, e outras opções grandiloquentes, pra não deixar que fosse por terra tantos sonhos e emoções que desfrutaram ali boa parte da população de Salvador durante pelo menos seis décadas.
Ao começar a revisão pessoal do meu livro, porém, encontrei ali muita coisa relacionada ao estádio e seu ginásio.  Percebi então que, como historiador, poderia dar uma contribuição ao velho complexo esportivo: a de preservar sua memória. A primeira atitude que tomei a partir desta decisão foi comparecer ao triste espetáculo da implosão. Realizado na véspera das eleições, e programado para atrair as atenções do país para a Bahia, não conseguiu, porém, suprimir a nostalgia e a tristeza de muitos.
Meu artigo “Presenciando a implosão da Fonte Nova” não foi publicado na imprensa empresarial.  Teve, no entanto, uma boa audiência em alguns blogs.  Este retorno só fez consolidar a minha decisão. Algum tempo depois o blog wwwmemoriasdafontenova. blogspot.com ia pro ar.
Como todo neófito passei por algumas dificuldades para viabilizá-lo. Nunca tinha feito um blog. E, logo no início, caí no “conto do blog”, onde se anuncia uma coisa de graça, e depois se cobra todos os acessórios. Desta maneira, entrei e saí de um provedor com meu blog. Logo depois, ao tomar melhores informações, cheguei ao blog spot, onde fui bem recebido e consegui entender alguma coisa da parafernália explicativa sobre como criar e manter um blog.
Blog no ar faltava dar-lhe forma e manutenção, o que foi conseguido graças à ajuda de Carolina Silva e Diogo Bacellar. Com a experiência do dia a dia pude levar nesses trinta dias. Sofreu, entretanto, a divulgação. Para vocês terem uma ideia limitei-me a enviar e-mails para amigos e a entrar em blogs sobre futebol solicitando a recomendação.
Os resultados me surpreenderam. Completamos esse primeiro aniversário mensal com aproximadamente quinhentos acessos. É claro que estamos muito distantes de Tiririca (4,3 milhões), mas já dá pro gasto. Também foi uma surpresa os acessos internacionais, que equivalem a 25% do total, e onde se conta países como o Egito e os EUA, Alemanha, Portugal, o Reino Unido, Portugal, Indonésia, índia e França. Uma satisfação ainda maior foi à aproximação de nosso blog com colaboradores, como Carlos Molinari e Galdino Ferreira, e com Davi Caires, sobrinho neto de Diógenes Rebouças.
Acredito que o blog tem preenchido até agora uma necessidade real, a de preservar viva a memória do complexo esportivo que marcou época na Bahia ao longo de quase sessenta anos. Esperamos continuar a merecer a confiança dos nossos acessantes, para a qual deve ter colaborado, além da seriedade dos artigos e crônicas, o humor, e as recordações que atualizamos todos os dias.