terça-feira, 31 de maio de 2011

Na galera do mal




Hoje eu vou falar um pouco da minha experiência com a “galera do mal” em 1965, quando tinha entre 16 e 17 anos. Abordo esse e outros assuntos no livro que estarei lançando, Camarada Júlio, no dia 17 de junho na Livraria LDM de Salvador.   

Mas, devo dizer que no meu tempo essas galeras não eram as de hoje. Eu tava mais pra Mary, interpretada por Jena Malone no filme Galera do mal. Fui de um tempo onde as turmas escolares não haviam ainda aderido as drogas. Pelo menos aquelas com quem eu passei a andar. Nesses tempos, minha condição de “rebelde sem causa” atingiu minha aparência pessoal.

Apesar de minha mãe ter me ensinado a cuidá-la com o tempo fui mostrando rebeldia em relação a estas questões, particularmente quando comecei a gostar de rock, a única coisa que concorria em minha vida com o futebol.

                                   Isso agente não fazia!


Deixei crescer o cabelo só o aparando mediante muita pressão familiar, que com o tempo diminuiu. Tentei criar a barba, mas me espetava os pelos na cara. Optei então por criar bigode e por uma costeleta enorme. O bigode ganhou melhor aceitação familiar, até pelo fato de meu pai também ter e minha avó, da parte de pai, dizer que “não gostava de homem sem bigode”. Mas o meu, era muito menos um bigode tradicional, mais parecendo com o de um samurai.

O bigode e a costeleta casaram muito bem quando eu conheci o pessoal da esquerda, verificando que praticamente todos usavam um deles ou a barba. Só os tirei nos anos 90, muito depois da ditadura.

Aquela aparência, no entanto, dava trabalho. Necessitava comparecer ao espelho quase que diariamente para passar o aparelho de barba no rosto de forma a tornar mais evidentes os limites entre o bigode e a costeleta, além de dar visibilidade ao rosto. Sempre considerei este trabalho uma perda de tempo. Alguns anos mais tarde vi uma entrevista de Fidel Castro discorrendo sobre o tempo que se gasta anualmente fazendo a barba.

          Olhem a galera no carnaval "soltando as frangas"!


O carnaval era a ocasião de extravasar. Lembro que muitas vezes, na farra, eu e meu irmão nos vestimos de mulher. Entrávamos furtivamente no quarto de nossa irmã “Lena” e pegávamos suas roupas para usar devidamente mascaradas.

No entanto nunca fomos de nos pintarmos. Saíamos sozinhos ou com alguns amigos imitando a voz feminina pela rua, particularmente quando surpreendamos pessoas conhecidas. Esse hábito acabou logo quando começamos a receber críticas mais serias das meninas que bulíamos. Lembro-me dos desfiles do rei Momo, e, mais tarde, de Os internacionais, Os corujas, e dos blocos Jacu e Barão.

O chique era possuir lança perfume, mas nunca conseguimos comprar nenhum tendo que levar pequenas garrafinhas de uísque na cintura. Aliás, eu nem gostava de uísque. Depois o lança perfume e as máscaras foram proibidas. Íamos ao Cruz Vermelha e ao Fantoches de penetras. Gostávamos especialmente das “batalhas de confete” onde haviam muitos jovens dançando com as orquestras Brazilian Boys, Stukas, Milionários, Fausto, Os Turunas e de Carlos Lacerda.


                                       Ah que saudade! 


Fora do carnaval também íamos a festas sem ser convidados. Lembro que numa destas ocasiões na Rua Banco do ingleses, fomos colocados pra fora por não saber quem havia nos convidado. Como não tínhamos dinheiro entrávamos com amigos nas que eram promovidas pelo SESC de Nazaré através de um expediente que criei.

Chegávamos mais cedo e eu levava uns LPs para passar pela portaria como se fossemos organizadores da festa. Era uma grande farra. Ao invés de namorar com as meninas ficávamos inventando traquinagens. Uma delas era deixar cair alguma coisa perto delas e caminhar em sua direção estendendo a mão. Quando elas levantavam pra dançar nos abaixávamos para pegar o que tínhamos deixado cair enquanto a menina tentava disfarçar o ”mico”.

Nem o cigarro nem a bebida me interessaram na época. O primeiro, por não ter conseguido tragar na minha primeira experiência. Quando comecei a tomar cerveja achei horrível, só continuando para ser sociável. Mas, o que me evitaria o vício foi mesmo um desastre com o Ron Bacardi em 1965.

                             Só me lembro de uma briga!


É que saí com os amigos em abril de 1965 pra “bebemorar” o título de campeão baiano do Vitória conseguido em cima do Bahia e enchi tanto a cara que o pessoal teve que me levar pra casa na única vez em que fiquei bêbado na vida.

O campeonato daquele ano começou em junho e o Vitória estreou ganhando do Guarani por um a zero, com um gol de Touro. A esta altura a crise “comia solto” no futebol e só telefonando para a sede do clube, ou andando pela Avenida Sete, é que sabíamos das partidas na Fonte Nova.

Na época fugia dos deveres escolares para “vadiar”. Dizíamos em casa que íamos á escola, mas ficávamos comendo pastel no Good Day (Rua Carlos Gomes), fazendo uma merenda no Ava Lanches (bairro do Canela), “traçando” uma lambreta no Mercado Modelo, indo ao Bar Brasil (Praça da Sé) ou ao Cacique (Praça Castro Alves).

                              Agente não conhecia o diabo!


Não haviam shoppings e nem tínhamos costume de ficar em barzinhos, e estar nos lugares da moda e ver alguma menina “certinha” era nos encontros marcados na Fundação Politécnica, na Sloper, ou em passeios no “Relógio”, Rua Chile ou Carlos Gomes.

De tarde valia pegar um cineminha no Excelsior ou Guarany, e, de noite, quando dava, assistir um show no Tabaris, no Cine Roma ou na Boite Cloc, o inferninho mais falado da cidade. Os três últimos, porém, exigiam recursos que eu não tinha.

Mas não foi por dinheiro que comecei a roubar livros e gudes e sim por farra. Tinha uma técnica aparentemente “infalível”. Chegava ao balcão, perguntava pelo livro tal, e ia colocando displicentemente os livros que levava sobre um “montão” dos que queria ler. Na sequência, perguntava alguma coisa sobre os livros expostos, e, uma vez comprovada a ausência do que desejava, recolhia os meus livros, já convenientemente engordados com os da livraria.

               Foi o ano que Bob Kennedy esteve em Salvador!


Parecia tão imbatível o modus operandi que resolvi testá-lo na famosa Lojas Brasileiras - LOBRAS, que já fechou há bom tempo e que funcionava ao lado do Mosteiro de São Bento na Avenida Sete. Ali surrupiei um bom número de gudes que ficavam expostas na seção de bijuterias.

Minha “carreira” só terminou quando me machuquei na Livraria Progresso que antigamente funcionava na Praça da Sé alugando o prédio da Santa Casa da Misericórdia. Desta vez, os livros da loja estavam espalhados pelo chão, mas, confiando na minha técnica, fui chegando, conversando, e colocando meus livros também no chão, em cima de um pilha de livros da livraria.

Após uma conversa sem graça, recolhi os livros e me preparei para sair quando o vendedor percebeu a maracutaia. Saí na loja com o rosto vermelho de vergonha. Nunca mais tentei o golpe. Mas confesso que nos anos seguintes, quando contava isso a amigos, reparava que outros também tinham realizado essa atividade quando adolescente. O próprio Pinras da Livraria Grandes Autores me disse que tinha inclusive, problemas com “gente boa” que continuava roubando em seu estabelecimento.

                                    O "rei" tinha esta cara!


O rubro negro ficaria um tempo sem jogar só voltando ao estádio em agosto quando perdeu de três a zero pro forte time do Botafogo com Cabinho, Lapão e Cia. Aquilo pegou mal. Será que o time não conseguiria o “bi”?  E não amenizou as nossas preocupações ganhar do São Cristóvão por três a dois, pois era obrigação.

A musica seria para mim o principal sucedâneo do estudo e do futebol. Havia tido uma relação com ela desde cedo, pois minha mãe Helena havia estudado piano como parte de suas prendas domésticas. Largou o instrumento quando casou como era de costume naquele tempo.

As dificuldades que encontrei no Colegial coincidem com a minha entrada de cabeça no mundo do rock. Foi uma época de ápice das manifestações musicais jovens onde acompanhávamos os grupos de sucesso estrangeiros. Era fâ incondicional dos Beatles e vibrava com as musicas dos conjuntos estrangeiros.


                               E o pau já "comia solto"! 


“Rolavam” na época também ritmos como o twist e o hully gully embora fossem difíceis de dançar nas festas. Lembro de ter assistido por várias vezes os filmes Os reis do iê-iê-iê (A hard days night) e Help, ambos no Cine Guarany, e a comprar todos os discos dos Beatles que chegaram a Bahia.

O comportamento daqueles artistas influenciaram toda uma geração, inclusive no modo de vestir e encarar o mundo. Queríamos ser como eles, usar calças apertadas e com boca larga, botinha, deixar crescer bigodes, costeletas e cabelos, cortando-os se possível na testa á maneira dos Beatles. Durante muitos anos só vesti calça Lee.

Mas até aí se insinuava as minhas travessuras. Numa destas sessões de cinema, a qual compareci com meu irmão “Toínho” e alguns amigos, fingi desmaiar sendo carregado por eles por todo o cinema. Parou o filme, acenderam as luzes, foi um escândalo! Deve ter sido um dos primeiros “desmaios” de fãs do rock na Bahia, embora no exterior eles fossem feitos por mulheres.

                                   Pô, não é essa galera!


O rock nacional, no entanto não “fazia a minha cabeça”. Era uma cópia do que se fazia lá fora. Herdei deles apenas o hábito de fazer versões.  Não gostava também dos estilos muito agressivos tipo Rollings Stones e punkies. Talvez seja por isso que o movimento hippie não tenha me sensibilizado e, junto com ele, as drogas e a liberação sexual.

Entrei na Era do rock com o mesmo romantismo do início de minha adolescência absorvendo deste apenas o comportamento transgressor. Neste período participei de grupos de rock, fiz versões de musicas estrangeiras de sucesso, e penetrei no universo que deu ao Brasil nomes como os de Raul Seixas, Tildo Gama, Valdir Serrão, e outros, com quem tive a oportunidade de tocar nos grandes eventos na Concha Acústica e no “Balbininho”.

As coisas no futebol melhorariam com as vitórias rubro negras contra o Ypiranga (2 X 0) e Leônico (3 X 1), mas tropeçaríamos no Galícia e Fluminense, pelo mesmo placar, um a zero. Terminaríamos o turno num melancólico empate com o Bahia por um gol. O resultado colocaria meu time em quarto lugar, tendo que nos consolar em ver a decisão do turno extra entre Botafogo, Fluminense e Ypiranga, ganha pelo primeiro.

                         Agente corria da palavra trabalho!


Eu era um aluno tão relapso que não havia um ano em que não ficasse na temida “segunda época”. Mas nesse ano consegui escapar dela evitando que fizesse a mesma loucura do ano anterior quando joguei um coquetel molotov na porta do colégio que me reprovara. Essa foi uma das poucas maldades que me permiti fazer no período. O resto eram traquinagens podendo evitar coisa pior graças á influência materna que contribuiu para fosse muito ligado á “maínha”.

Minha entrada no colegial nos anos 60 foi um desastre, aprofundando as suspeitas familiares de que eu não queria nada com o estudo. Foi pra ver se eu passava de ano que me colocaram em uma “fabrica”, o Colégio Ypiranga, situado no Sodré, onde se preocupassem com o pagamento do aluno.

Mas meu pai ainda acalentava o sonho de que eu pudesse seguir a sua carreira de engenheiro técnico. Assim, fui matriculado na Escola de Engenharia Eletromecânica onde passei a pertencer a galera do mal. Esta, entretanto, estava longe e ter o perfil de hoje. Não me lembro de nenhum de meus colegas bagunceiros fumarem maconha, agredirem fisicamente pessoas ou andarem com bebedeiras.

                   O leão rubro negro na época rugia forte!


Ficávamos o dia todo na porta da escola, onde há um ponto de ônibus até hoje. A diversão era “pegar um lance” das meninas ao subir nos ônibus, bater papo e fazer traquinagens. Três delas ainda estão em minha memória: o dia em que pegamos todas as cadeiras da sala e empilhamos, quando jogamos uma bomba de efeito (mal cheirosa) dentro e um ônibus após fechar as portas, e quando colocamos uma tachinha na cadeira do professor. Esse último, mesmo sentindo o golpe, não piou nem se fez de rogado, iniciando mesmo assim a aula.

Na época perdi duas vezes o primeiro ano, sendo matriculado na Escola Visconde de Cairú pra ver se compensava. No entanto, a passagem por esta foi meteórica, pois ali já tinha uma turma formada desde o primeiro ano, onde não consegui me inserir. Voltei a sofrer o apelido que infernizou a minha adolescência, o de me chamarem de “alemão”, só superado quando me aconselharam a não ligar.

Numa destas provocações, porém, a situação foi às vias de fato com um gordo chamado Couto. Até então nunca havia brigado, ainda mais na rua. Sabia da turma de “Berereco” que infernizava o Campo da Pólvora, provocando brigas, mas, influenciado pela generosidade de minha mãe nunca maltratei ninguém, e, se isso ocorresse por alguma atitude minha logo recuava me desculpando da travessura.

                                 Boate se chamava assim!


Na ocasião saiu a turma toda pra ver a briga nos Barris. Eu era magro e alto e ele gordo e alto também. Começou a me agarrar e eu também o agarrei. E ficamos os dois assim um tentando agarrar o outro (creio que pra derrubar). Aí ele começou a me socar na cintura. Eu fiz o mesmo com ele. Depois de certo tempo, porém, ficamos cansados pelo esforço e a turma do “deixa disso” (só agora aparecendo) nos separou. Creio que em virtude do espetáculo monótono para a assistência.

Quanto a mim, fiquei tão chateado que inventei em casa que não tinha gostado do curso, nada contado a briga que tinha tido. A desculpa colou, pois o pessoal já estava acostumado com tentativas de me fazer estudar. Pra meu pai eu estava na casa dos “se jeito”. Só minha mãe acreditava em mim. Migrava de estabelecimento em estabelecimento, sendo rejeitado pelo sistema escolar integrando a “galera do mal”, e com uma sombria perspectiva de futuro profissional e escolar. O que fazer para que eu tirasse pelo menos um curso?

Em novembro Bob Kennedy esteve em Salvador numa visita relâmpago.Ele chegou de manhã e Castelo Branco de tarde pra disfarçar. Passaríamos o fim do ano na dúvida do destino do Vitória naquele ano. O segundo turno só começaria em janeiro e foi aí que o meu time começou a crescer. Levaria o turno numa decisão com o Galícia onde ganhou as duas.

                         A "thurma" não era brincadeira!


E foi aí que começaram as difíceis decisões contra o Botafogo. Eram dois times tão iguais que só saiu um gol em três partidas, de Tinho de pênalti na última. Depois do gol do Vitória o Botafogo deu sufoco obrigando ao nosso goleiro Ouri a ser o melhor em campo. Depois foi só comemorar o título numa época onde agente podia entrar em campo e dar a volta olímpica com os jogadores.

Mais tarde, eu voltei para outro colégio do saudoso Hugo Baltazar da Silveira, o chamado de Instituto Valença situado no Campo da Pólvora. Ali eu consegui a façanha de, mesmo tendo notas sofríveis, conseguir um diploma e, finalmente, encerrar o colegial em 1969 com vinte e um anos.

E foi aí que eu conheci Cybele com quem vivo até hoje. O sentimento da família era de alivio. Já tinha um diploma, gostava de música e de uma mulher. Eu e todos pensavam que nunca mais voltaria a estudar. Essa satisfação virou a glória quando arranjei um emprego na COELBA, naturalmente graças a um “pistolão” de meu pai.

                Esse negócio de se agarrar não era com a gente!


Quando em 2000, defendi a minha tese no doutorado em historia, a primeira pessoa que eu fui mostrar o certificado foi minha mãe, lembrando de seu esforço para que eu estudasse. Ela sempre se recusou a me perder. Sou grato á vida por ela ter conseguido sobreviver para ver isso falecendo seis meses depois da minha formatura em Recife.


·        Agradeço ao site RSSF Brasil e aos blogs submarino.com.br, 3-b-S.eu, fotolog.com e videolog.com.

segunda-feira, 30 de maio de 2011

O Guarani


Gente, quem tiver interesse em minhas “abalizadas” análises do desempenho dos baianos no Brasileirão pode acessar ao site Bahia Econômica todo início da semana. O endereço é www.bahiaeconomica.com.br. Mas falando em abalizada não tem como deixar de falar hoje sobre o casuísmo desta FIFA de araque que suspendeu dois dirigentes de federações por “roubarem pouco” deixando o público e notório corrupto Ricardo Teixeira sem punição. Mas vamos pros nossos artigos que é melhor.
Hoje voltaremos a literatura. Vocês sabem o preconceito de muitos intelectuais com o futebol. Eu já contei neste blog que, quando eu era militante clandestino, tinha que esconder o dia dos jogos pra poder comparecer á Fonte Nova. Mas muita “gente boa” já escreveu sobre o futebol, inclusive antes de ele aparecer.
Um deles foi José de Alencar que ao contrário do que muita gente acha não é o vice presidente que morreu recentemente. Tem gente que não sabe que O Guarani foi feito pra homenagear o clube que muitos anos depois iria ser criado na Bahia. E olha que partiu de um dos maiores escritores da língua portuguesa, que é reconhecido até pelos vestibulares da vida. Alencar era parecido com o Guarani, enquanto um queria abrasileirar a literatura brasileira o outro queria baianizar o nosso futebol que só ficava olhando pros clubes do Sul.

                Hoje os índios aculturados como Peri estão trabalhando por aí nas cidades!

Dizem até que a Associação Desportiva Guarani surgiu pra homenagear o romântico escritor que foi um dos expoentes do movimento indigenista na literatura. Imaginem que disputou pela primeira vez um campeonato baiano em 1915 no cinquentenário da publicação do romance Iracema que mostra um homem branco convivendo num meio indígena.
Os personagens de um e outro são, no entanto diferentes. Enquanto um fala de Diva, da Viuvinha, de Lucíola, o outro prefere Roliço, Lamarone, Mila, Bacamarte e Camerino. Outro dia eu li um ranking de escritores(tem de tudo nos dias de hoje!) que colocava o José de Alencar mais baixo do que o Guarani, que no futebol baiano ostenta a condição de décima equipe em número de participações na Primeira Divisão, mesmo tendo disputado há 45 anos o certame pela última vez. 
Assim como nosso “Zé” teve uma vida com altos e baixos o Guarani também teve. Na sua estreia no certame baiano ficou na lanterna, voltou a Primeira Divisão nos últimos anos da década de vinte e nos anos trinta. Enquanto isso nosso herói literário vinha de Fortaleza pro Rio de Janeiro, onde marcou passo e só publicaria um romance em 1856.
                                                           Ah, ainda tem desses!

E nesse terreno o   Guarani baiano é até melhor pois ganhou o título de campeão da Segunda Divisão em 1939 enquanto setenta anos antes Dom Pedro II faria uma falseta com o Zé vetando sua candidatura a senador. Pois é, essas coisas já haviam desde aquele tempo! O Guará se manteria 24 anos, 1942 a 1966,  entre os maiores clubes do futebol da boa terra, só estando ausente por duas vezes, 1954 e 1957. Três anos mais do que o Zé Alencar que morreria de tuberculose antes.
É certo que nem tudo foram flores durante a participação do Guarani pois foi lanterna do certame oito vezes, sendo inclusive “tri lanterna” (se é que isto existe!) quando o Galícia obteve o seu tricampeonato.

Mas, assim como a grande época de Alencar foi nos anos 70, quando até o compositor Carlos Gomes transformou seu romance O guarani em ópera, a do índio baiano foi setenta anos depois, durante a construção da Fonte Nova. Foi nesta fase que conquistou de forma espetacular o Campeonato Baiano de 1946 enfrentando em “melhor de quatro” a grande equipe do Ypiranga. E esta façanha foi pra comemorar o centenário de outro grande feito, a entrada de José Alencar na Faculdade de Direito do Rio de Janeiro.

                                            Pô, é o verdadeiro espírito de Zé de Alencar!


Esse feito histórico foi conseguido por Menezes, Bolívar e Bacamarte; Manu, Berto e Sabino; Camerino, Mundinho, Elísio, Tuta e Aurélio. Na ocasião ficou com a vice (Elísio) e o quarto lugar(Camerino) na tabela de artilheiros. Ou seja tudo nome de índio, tais como os romances que marcaram a vida do Zé, Ubirajara, Iracema e O guarani.

O Guarani estaria ainda “na crista da onda” em 1947 e 1949 obtendo o terceiro lugar nos certames, embora, no ano seguinte, voltasse para a lanterna. A Era da Fonte Nova, porém, seria a tuberculose que mataria os índios baianos.  O futebol foi profissionalizado, passaram a ser cobradas altas taxas no estádio, e o leilão dos melhores jogadores trouxe dificuldades para o clube.  A infraestrutura necessária para a prática do esporte exigiu uma gestão cada vez mais complexa.

Nos anos 1870 nosso Zé ainda publicou vários romances, Guerra dos mascates, Til, A pata da gazela, O tronco do ipê, Senhora, O gaúcho, mas eram Sonhos de ouro. Na Bahia, noventa anos depois, chegaria a Era da Televisão e das grandes audiências. A introdução dos certames nacionais e o calendário que prioriza a participação dos principais clubes dos estados.  

                                        As Cecis baianas não queriam nada com o Guarani!


O golpe mortal no Guarany foi dado pela crise que assolou o futebol baiano. Não foi o clube que a provocara, nem sequer contribuíra pra ela, mas as restrições da federação e do CND e o boicote da imprensa ao Vitória atingiria decisivamente o Guarany.

O ano de 1966 foi o segundo da crise do futebol baiano. O Guarani não podia viajar pra Europa pra curar as suas feridas como fez Alencar, e por isso ainda durou mais de um ano. O início do certame baiano acentuou a crise, particularmente em função de Fluminense, Bahia, Galícia e Leônico se somarem ao boicote  com a desculpa de não jogarem no campo da Graça.

O regulamento aprovado preocupou o Guarany pois previa o descenso dos três últimos colocados na soma geral dos pontos. Estreou no dia nove de junho perdendo pro Botafogo por três a zero. Nove dias depois enfrentaria um clube do “seu tope”, o da empresa de transportes SMTC e candidato ao rebaixamento. Mas os “índios”  foram abatidos por quatro a um! A nova derrota inaugurou um clima de pessimismo no clube que o levou a perder seguidamente pro Ypíranga(0 X 3) e para o bicampeão Vitória(0 X 4).

                                                                    Foi pro ralo!


Como o Vitória já tinha faturado o turno a FBF resolve cancelar os jogos restantes, inclusive o jogo Guarany X Estrela de Março. Este último seria o lanterninha do certame e tomaria pelo menos duas goleadas astronômicas, 10 X 0 do Vitória e 9 X 0 do Fluminense de Feira de Santana.

Mas pra azar do Guarani a crise foi resolvida após quatro meses de interrupção do campeonato. O futebol baiano estava “pacificado” mas quem estava mal ficou pior. A estreia no segundo turno durante o Natal até que valeu, com uma vitória contra o Botafogo por três a um, mas logo enfrentariam o futuro campeão Leônico, perdendo por quatro a um. A goleada abalaria o time que perderia três vezes seguidas, para Galícia, Vitória e Ypiranga. No dia 29 de janeiro a tuberculose do Guarani piorou de vez em feira de Santana ao perder do Fluminense por seis a um.

A equipe de Peri ainda consegue ganhar do SMTC por quatro a dois, e até surpreender o mundo ao empatar heroicamente com o EC Bahia em um gol. Mas pra se manter na Primeira Divisão teria que derrotar os fracos Estrela de Março e São Cristóvão. Mas a doença tinha debilitado os índios.

                                                           Ói o pai da AD Guarani!


Veio então aquele mês fatídico de março de 1967. Conseguiram até passar pelo Estrela de Março conhecido por todo índio que se preza que se orienta pelo céu por um a zero. Mas a sina de Tupã estava marcada. E foi a sua inimiga igreja desde o tempo da Conquista portuguesa que colocou a pá de cal, o São Cristóvão vencendo de dois a um os índios.

O final do romance do futebol é que foi mais de acordo com a realidade. É que enquanto na vida os índios brasileiros sofreram um cruel extermínio no romance de Zé Peri foge com Ceci da guerra e da enchente, transformando uma árvore em  canoa. Uma metáfora da miscigenação entre índios e portugueses que teria dado início á população brasileira. Mas o Guarani não achou nem um barco na corrente da insensatez que é o futebol baiano. Foi pelo esgoto a sua primeira morte por tuberculose.

                                                  Outro dia eu vi Ceci morando no RU!

Ainda tentaria em vão voltar  á Primeira Divisão mas acabaria se licenciando. Em 1975, no centenário do aparecimento da tuberculose do Zé, voltaria o seu azar ficando em segundo lugar num certame em que só subiu o primeiro, o Redenção. A decepção levaria a nova licença que só terminaria na década de 80 quando tentou por seis vezes o Ascenso, e, por fim, em 1990, houve a sua segunda morte, passado a peixeira mesmo como convém a um nordestino.


·    Agradeço as informações dos sites Futebol mundial, Wikipédia, vidaslusofonas.pt e RSSSF Brasil. Sou grato também as imagens dos blogs catadedelino.blogspot.com e santacultura.blogspot.com.

domingo, 29 de maio de 2011

Os serial killers


Os assassinos em série são um típico produto da sociedade capitalista moderna quando se estabelece uma sociedade hiper individualista, onde tudo que antes era humano se transforma em mercadoria e a vida cede o lugar ao lucro. Trata-se de um psicopata, que comete crimes com certa frequência, e tem um modo de agir que lhe assegura identidade. Apesar de muitos deles parecerem plenamente integrados na sociedade desfrutando por vezes de respeitabilidade tem temperamento anti social.
Os serial killers não perdem tempo com classificações de sadomasoquismo, perversão, antropofagia, e outros preconceitos, em tempos de mídia integrada onde tudo vale por uma boa notícia, continuam deixando vítimas na nossa sociedade “civilizada” onde cabe perseguir e até eliminar adversários, porém tudo conforme a lei e as convenções. Só há uma diferença, enquanto a maioria dos assassinos em série são pegos em Hollywood os assassinos do dinheiro público continuam por aí até hoje.
Desde o mais famoso, Jack o estripador, espalharam-se as ocorrências em todo o mundo, merecendo destaque a Meca dos serial killers, os Estados Unidos. O Brasil, onde as classes dominantes imitam em tudo o American way off life, já vem fazendo muitos progressos nesta área onde promete virar também país de primeiro mundo. Basta lembrarmos-nos de casos como do bandido da luz vermelha, do maníaco da lanterna e de Wellington, o criminoso de Realengo.
                                                                  Um dos assassinos!

Desculpem-me, mas não posso deixar de destacar a nossa Bahia. Afinal, não foi aqui que Dom João de Portugal mandou esquartejar e espalhar pela cidade os pedaços de participantes da Conjuração baiana? E o que dizer dos crimes do famoso Delegado Quadros nos anos setenta e do aniquilamento da família Souto Maia no bairro da Graça? Há aqui até uma associação de serial killers que vai me processar se eu esquecer que Matheus, que metralhou os espectadores de um cinema de São Paulo, também era baiano.
Mas uma das maiores injustiças que se pode fazer é esquecer a contribuição da Bahia nesta matéria desde a introdução do futebol. Foi aqui que foram perpetrados os maiores assassinatos esportivos que se tem notícia. E os casos não tiveram solução até hoje, o que quer dizer que ficaram por isso mesmo.
Vamos dar apenas alguns exemplos. No início do ano de 1927, muito antes de Marcelino Souto Maia, começaram a ocorrer estranhos assassinatos no bairro da Graça com um intervalo de três a quatro dias entre um e outro. O primeiro ocorreu no dia 30 de janeiro sendo a vítima a equipe do Ypiranga degolada por dois a um. Três dias depois, não tiveram nem pena do decano dos esportes, o Vitória, que foi trucidado por quatro a um. Seguiram-se depois o retalhamento do Botafogo (1 X 3) e, por fim, o corte em fatias de um selecionado de Salvador (0 X 3).
                                                          Nossa, esse é o de Psicose!

Na época uma investigação apontou várias pistas. O criminoso se vestia de branco, era carioca, levava suas vítimas para o gramado do estádio da Graça, e ainda gostava de ser chamado de “São” Cristóvão. Mas como já existia um time com esse nome na Bahia que não ganhava de ninguém ficou o dito por não dito nada sendo apurado
Mas dois anos depois voltaram a ocorrer crimes em Salvador, e no mesmo bairro. Foi em maio de 1929 e tiveram o abandono de suas vitimas no campo de futebol. Desta vez as vítimas foram ilustres, os próprios clubes da elite baiana Baiano de Tênis e Associação Atlética, e o assassino preferiu a arma branca esfaqueando o primeiro quatro vezes e oito ao segundo. Depois vieram o Ypiranga e o combinado Fluminense-Guarany, que tomaram cinco facadas.
Assassinos!

Foi um horror, afinal bastava uma facada pra matar. Na Graça as pessoas ficaram até com medo de sair de casa. Houve até quem debitasse os crimes á Liga Bahiana de Desportos Terrestres por ter permitido que clubes populares como o Botafogo e Ypiranga participassem do campeonato. Quanto á Polícia só conseguiu saber que o assassino tinha sotaque do interior paulista e atendia pelo apelido de “peixe”.
                                             Sacanagem, esquartejaram até a estátua de Pelé!

Os serial killers pararam de matar. Quatro anos depois a matança voltou, agora na Vitória. Era o mês de agosto das tragédias e os assassinatos comeram solto. Desta vez cortou pescoços, da comunidade espanhola (atingindo o Galícia por oito a um), dos diabos rubros (5 X 0) e do mais querido (3 X 2). Não poupou sequer a data magna dos baianos, guilhotinando o Dois de Julho (2 X 3).
Só depois de muita investigação que se lembraram de que a Vitória fica perto da Graça onde tinham ocorrido os crimes anteriores. Mas desta vez chegaram bem perto do assassino descobrindo seu modus operandi pois duas quase vítimas conseguiram escapar pra contar a história. O Vitória (que ganhou de dois a um) e o Bahia (que empatou em um gol) disseram que o assassino era o mesmo de 1927, pois falava o idioma carioca, e agia em grupo, de preferencia com onze asseclas, e que tinha ainda massagista e dirigente.  Chegaram perto mas não deu pra pegar.
E acreditem que, dois anos depois, em maio de 1937, o maníaco carioca atacou mais uma vez aterrorizando desta vez a Barra Avenida. No dia 16 matou o Ypiranga na Oito de dezembro por seis a um, três dias depois foi a vez de o Galícia ser estripado em plena Euclides da Cunha por cinco a um. E, em seguida, assassinou covardemente a machadadas Bahia (2 X 0), Botafogo (4 X 3) e Vitória (7 X 2) na própria Rua da Graça.
                                                    Tava russo o negócio por aqui!

Era demais. “Estava na cara” que era o mesmo criminoso de 1927 e 1933 mas a Polícia não podia com ele. Chegou até a mandar investigadores para Nova York pra ver se aprendiam com os americanos.  Enquanto isso um verdadeiro terror tomou conta da elite que naquele tempo habitava naquele bairro.
Mas em abril de 1939 os assassinos atacaram de novo. Em poucos dias esfaquearam Bahia e Ypiranga três vezes. Os crimes aconteciam desta vez no Porto da Barra e deixavam as pessoas de cabelo em pé. Mas desta vez haviam escapado  Galícia(1 X 2 e 3 X 3) e Botafogo(3 X 3) e a Polícia confirmou o sotaque do interior paulista e as facadas e até descobriu o sobrenome do criminoso “Santos”.
Como a Polícia suspeitou que a coisa tivesse a ver com a localização da Barra, que ficava nas proximidades do estádio, chegaram a pensar em transferir este de lugar. Foi aí que alguém teve a ideia de construir um novo estádio. Já que não podiam com os serial killers que pelo menos eles fossem matar o povo de outros lugares tipo Nazaré, Brotas, Federação e Barris, onde mora gente de classes sociais mais baixas e seria localizada na próxima década a Fonte Nova.
                                         Esse negócio de tiro é pra serial killer americano!

Antes do fim da guerra, logo depois do carnaval de 1944 o assassino carioca voltou a cometer crimes, desta vez no Canela, outro bairro próximo do estádio da Graça. Mas desta vez só matou o Bahia por quatro a dois. Tentou, infrutiferamente degolar a Vitória e Galícia mas estes já estavam preparados usando um colete de ferro deste modo empataram em um gol com o tal criminoso que se fazia de santo. Sumiu tão misteriosamente como apareceu não dando nem tempo a Polícia para as habituais tapeações da população.
Os grandes criminosos levaram anos sumidos da Bahia quando voltaram as eleições. Ficamos entregues aos pequenos criminosos do dia a dia. Uma carteira batida aqui, uma bebedeira ali, uma corrupção acolá e assim ia se levando. Até que chegou o governo de Regis Pacheco quando aconteceria um dia de assassinatos em massa. Os baianos nunca vão esquecer esse dia quinze de março de 1953.
Foi uma verdadeira tragédia, o Ypiranga foi enterrado vivo pelo Vasco da Gama(oito a um), o Bahia tomaria sete tiros do Internacional(RS) e o Vitória seria afogado oito vezes pelo Flamengo na própria Baía de Todos os Santos. A coisa foi tão surpreendente fugindo do modus operandis dos santos criminosos de antigamente que a Polícia nada descobriu.
                     Basta ver Amor e revolução pra saber como os serial killers fizeram mescola!

O serial killer carioca ficou tão estimulado com o arrastão criminoso que resolveu voltar. E o diabo é que havia escolhido a Bahia pra matar. Chegou em outubro de 1954 e foi logo matando um espanhol, o Galícia por dois a um. Aí quis imitar o ano anterior e se machucou. Até então ninguém havia notado a sua presença o que só se deu quando ele começou a recrutar os pequenos assaltantes da praça pro maior evento criminoso da história. Escolheu o dia de finados pra isso onde haveria crimes de Brotas e Itapoá e da Fazenda Grande à Itapagipe.
Mas os ladrõezinhos baianos não estavam com nada. Não estavam acostumados a manejar uma guilhotina e sequer sabiam tirar um coração ou um fígado como um cirurgião. Foi um fracasso total não morrendo ninguém e o nosso assassino carioca ainda perdeu pro Bahia por dois a um. E, finalmente foi apanhado, 27 anos depois, no dia seis de novembro ao ser massacrado pelos tricolores e pelas famílias dos que ele matou por cinco a zero em pleno estádio da Fonte Nova.
A população baiana estava vingada fazendo justiça com as próprias mãos. O assassino carioca foi preso e identificado, chamava-se São Cristóvão da Silva e foi levado imediatamente pra Delegacia que ficava na Feira do Curtume na Cidade Baixa. Mas pegou só 14 anos. Estávamos numa época de justiça e o criminoso conhecido como “peixe” cairia dois anos depois. Foi no dia 25 de março de 1956, quando este chegou de São Paulo pra cometer um crime em Brotas e o Bahia que o pegou(3 X 1) e levou pra Polícia.
                                                        Jason junto deles era fichinha!

Parecia acabada a boa vida dos serial killers na Bahia mas haviam se esquecido da nossa impoluta “Justiça”. É que os dois pegaram trinta anos mas, como tinham “atenuantes”, podiam sair pra estudar e trabalhar. De modo que o peixeiro saiu por 48 horas no mês de agosto do ano seguinte e vingou-se esfaqueando por duas vezes o Bahia que quase morre. O absurdo mostrou que “peixe” estava longe de ter se recuperado e foi engaiolado mais uma vez passando a ter bom comportamento. E foi esse serial killer já trabalhado pelas assistentes sociais e psicólogos de plantão que perderia as finais da I Taça Brasil para o tricolor.
Em 1968 ao acabar a pena Cristóvão da Silva voltou para as ruas. Foi trabalhar como feirante em São Joaquim. Não se atreveu nem a passar na porta da Fonte Nova quando jogavam os grandes clubes da Bahia. Mas, um dia seu homônimo baiano foi guilhotinado por quatro a zero, e despertou suspeitas das autoridades. Ele foi detido para averiguações mas negou peremptoriamente que tivesse alguma coisa a ver com a derrota do simpático time alvi negro. Por vias das dúvidas foi preso novamente.
                                    E quem mandou retalhar Tiradentes não era serial killer?

O “seu” Santos, criminoso inveterado, sairia da prisão por bom comportamento nos anos setenta onde atazanaria a dupla BA-VI. A situação chegou ao ponto de assassinar vários clubes brasileiros que vieram á Bahia jogar o Torneio Cidade de Salvador em 1975 ficando com o título. Distribuiu tantas facadas que foi trancafiado novamente. Mas como tinha bons advogados saiu novamente. Quanto ao serial killer carioca que era feirante está preso até hoje.

·          Agradeço ao Almanaque do Futebol Brasileiro, ao site Wikipédia e aos blogs alltopmovies.com,spun.com e indiatalkies.com.

sábado, 28 de maio de 2011

No começo eram os deuses

                                           Veio o Zeus em pessoa pra Bahia em 1934!

O historiador francês Jean Bottero acaba de lançar o interessante livro No começo eram os deuses examinando sociedades antigas como a da Mesopotâmia. O trabalho se beneficia do atual estágio das pesquisas sobre a Antiguidade onde o autor supera as tradicionais abordagens econômicas e geográficas observando sua vida social e refazendo o caminho dos deuses.
Há no entanto uma séria incorreção no livro. É que não revela que sua inspiração partiu da Bahia. Não há melhor lugar para refazer o caminho dos deuses do futebol que na Bahia. E olhem que não é implicância de minha parte.
Já observei neste blog que os clubes e o futebol baiano estiveram entre os primeiros do país do futebol. Que aqui foi realizado o primeiro jogo internacional e começou um dos primeiros campeonatos do país. Mas falei pouco do futebol do Sul que começou na mesma época e rapidamente ganharia fama. A própria seleção brasileira que se formaria em 1914 só era convocada entre os craques do Olimpo, digo Rio e São Paulo.
                                                             Olha aí o livro do cara!

Todo mundo sabe que os deuses do monte Olimpo na Grécia só obtiveram sua supremacia sobre os demais deuses após a vitória na guerra contra os titâs. Aí só deu Zeus que ficou impossível. No brasil essa guerra foi travada entre os anos dez e trinta, embora os deuses regionais só fossem reconhecidos no final dos anos cinquenta.
O tratamento que o eixo Rio-São Paulo  dispensava em relação aos demais estados era o mesmo que vigorava desde a república de araque que foi aqui implantada em 1889.  Levou nove anos pra seleção “brasileira” admitir um jogador que atuava em outro estado fora do eixo Rio-São Paulo, e vinte anos pra aceitar jogar fora daquela região, o que só ocorreria em função da chamada revolução de 30.
Os cariocas e paulistas “se achavam”. Eram verdadeiros deuses intocáveis. Além do próprio Zeus, tinham Posidon, Apolo, Hefesto, e depois ainda surgiram Jupiter, Neptuno, Mercúrio e Baco. A primeira vez que um time do Sul se dignou a jogar por aqui foi depois da Primeira Grande Guerra, perto do carnaval de 1919. Na época não tínhamos nem um estádio de futebol e Apolo, quero dizer o Botafogo FR, jogou ali mesmo no campinho do Rio Vermelho arrasando a seleção baiana por sete a um.
                                              Trouxeram Mercurio cromo para as feridas!

Depois disso levaria dois anos sem outro “deus” jogar na Bahia. O próximo seria Posidon em pessoa, (depois seria desmoralizado com o filme sobre seu barco que afundou)que se apresentava como o América carioca, e não deixaria pedra sobre pedra em Salvador. Estrearia vencendo um combinado dos grandes times do Baiano de Tênis e Botafogo por quatro a dois e logo cairiam a Associação Atlética (4 X 3), o Ypiranga (3 X 0) e o Vitória (2 X 1). Só a seleção baiana foi capaz de segurar um empate com os diabos rubros detendo o seu verdadeiro passeio na boa terra.
No ano seguinte começou o campeonato brasileiro de seleções que coincidiu com a inauguração do estádio da Graça. É certo que havia maracutaias. Imaginem que havia eliminatórias zonais onde os classificados tinham que jogar tal “fase final” no Olimpo, quero dizer em São Paulo, o que depois foi alternado entre o Rio e São Paulo.
No primeiro ano a Bahia passou por Pernambuco (que desistiu de disputar) e viajou pra perder dos paulistas por três a zero. Os baianos reclamaram tanto de terem cruzado com os deuses paulistas que no ano seguinte trocaram pelos deuses cariocas. Aí passaram pelo Pará e chegaram ao Sul onde perderam de pouco, apenas um a zero.
                                                 E Neptuno com essa mania de tridente!

Mas aproveitaram pra mandar mais um deus, Baco, o tal do vinho, que atendia pelo apelido de Fluminense, o primeiro visitante do estádio da Graça. Estreou no dia primeiro de abril, mas não foi piada, ganhando da forte Associação Atlética por três a um. Quatro dias depois, porém pararia na equipe do Vitória (1 X 1). O deus vivo pó de arroz retomaria o caminho do triunfo ao vencer um dos maiores times da época o Baiano de Tênis por dois a zero.
E foi aí que chegou o dia histórico de doze de abril de 1923 quatro anos depois que os deuses começaram a vir á Bahia, ou que a Bahia fosse ao Sul, o que era a mesma coisa pois perdia do mesmo jeito. Colocaram um pessoal para sair com o deus mostrando a cidade. Foram no Pelourinho, em Itapagipe e na Orla e “encheram a cara” do deus de vinho e cachaça. Quando foi na hora do jogo o deus deu vexame sendo surpreendentemente derrotado pelo Botafogo por dois a um que também tinha um deus, o zagueiro Mica, que acabou sendo levado para o Olimpo da seleção brasileira.
O deus chiou, reclamou de todo jeito e pediu revanche, que acabou concedida. Mas colocaram pra jogar com Ele a própria seleção baiana que, mesmo com Mica e raios caindo do céu (ora isso é canja na Bahia!) acabou ganhando por cinco a quatro. O deus Fluminense ficou irado, pediu a Zeus que arrasasse a Bahia mas não achou apoio na assembleia do céu tendo que ruminar sua vingança.
                                     Os deuses de hoje são mais light tipo Lanterna verde!

Esta veio a cavalo no ano seguinte, no campeonato brasileiro de seleções, a Bahia viajou pra tal fase final no Rio de Janeiro. Os baianos desta vez pensavam estar melhor. Afinal, haviam passado pelo Ceará e Pernambuco, que na época praticavam um futebol ainda mais sofrível. Aí os deus cariocas não tiveram contemplação, foi sete a dois, sem tirar nem por. Quem mandou se atrever a desafiar o deus Fluminense?
A Bahia atravessou um período difícil. Deus nenhum queria vir jogar na Bahia, já que os baianos eram incrédulos e não tementes a deus. A vingança dos deuses unidos cariocas continuou no ano seguinte no campeonato das seleções, com a nova derrota baiana na fase final por dois a zero. E atingiu as raias (e os raios) do paroxismo com a exculhambação total da nossa seleção que caiu em São Paulo para os paulistas pelo extravagante escore de treze a um!
Aí os deuses acharam que tivessem domesticado os baianos e dado - lhes uma lição em regra. Foi então permitido que um auxiliar de deus, o São Cristóvão, visitasse o estado. Esse anjo de segunda categoria chegou aqui no início de 1927 e, mesmo assim, fez um estrago. Venceu o mais querido por dois a um, goleou o Vitória (4 x 1) e derrotou o Botafogo (3 X 1), só sendo contido pelo forte Baiano de Tênis que obteve um empate em três gols. Mas depois derrotariam uma seleção de Salvador por três a zero. Enquanto isso os deuses titulares voltavam a massacrar a Bahia na fase final daquele ano, sete a um.
                                                Toda hora esse cara ameaçava a Bahia!

Parecia resolvida a pendenga entre os deuses e os baianos. E já era tempo pois o mundo estava entrando numa crise desgraçada que iria culminar com o Crack da Bolsa de Nova York. No próximo ano a Bahia passou por Alagoas e Sergipe e viajou para o Rio pra perder de novo pros cariocas, mas agora só pelo escore mínimo. Imaginem que só por isso houve deus que se chateasse fazendo voltar as retaliações.
No campeonato de seleções daquele ano a Bahia passou por Sergipe e Espírito Santo mas foi massacrada pelos paulistas por sete a um e, logo após, veio um deus em pessoa dar uma lição nos baianos. Esse era pouco conhecido, pois era do interior do Olimpo, o Hermes, que em São Paulo se chamava Santos. Chegou em maio que pros baianos deixou definitivamente de ser o mês dos casamentos.
Afinal, não tinha nada a ver com um deus arrogante que em suas três primeiras partidas foi logo arrasando o que os baianos tinham de melhor, Baiano de Tênis (4 X 2), Associação Atlética (8 X 1) e Ypiranga (5 X 2). Tendo garantido a sua retaliação o deus esnobou colocando em campo os reservas pra enfrentarem, e ganharem, um combinado entre Fluminense FC e Guarany (5 X 3). Só a seleção baiana conseguiu arrancar um empate em dois gols antes que o deus fosse embora.
                                               Esse se zangou com os camelôs do templo!

No ano seguinte o mundo já estava em crise quando um assessor de deus, o Bangu, apareceu em janeiro na Bahia. Foi logo destroçando a Associação Atlética (5 X 2) e o Fluminense FC (10 X 1). Aí pensou que estava “com a bola toda” e que repetiria o feito dos deuses. Mas assessor não é deus e pagaria caro sendo surpreendido pelo Botafogo (2 X 4) e Ypiranga (1 X 3), conseguindo porém se recuperar nas partidas com a seleção baiana (4 X 2) e na revanche contra o mais querido (6 X 4).
Logo que voltou ao Olimpo o assessor foi reclamar ao próprio Zeus exigindo providências pois, afinal, os baianos não haviam aprendido a lição de quem mandava no universo. Aí, até que enfim, Zeus deu o ar de sua graça. Foi por causa dos baianos que houve uma revolução naquele ano onde derrubaram Washington Luiz e, aproveitando que a Bahia apoiou o governo, expulsaram o estado do campeonato brasileiro de seleções.
Aí foi a vez dos baianos se aborrecerem. Não bastava a tal “fase final” e ainda vinha isso? Apelaram pra todos os terreiros da cidade e os orixás aconselharam que a relação com os deuses devesse passar a ser olho por olho, dente por dente.
                   Eles eram astronautas. Desembarcaram depois assim no aeroporto de Ipitanga!

Os baianos então derrotaram o deus Neptuno que gostava de enfiar seu tridente na agua, tanto que o chamavam de Vasco da Gama o almirante, (5 X 6) através de sua seleção. Esta, entretanto, foi imediatamente retaliada na fase final do campeonato brasileiro pelos cariocas que vingariam o deus almirante esmagando os baianos por seis a zero. E ainda cancelaram o certame do próximo ano.
Mas pra compensar mandaram o deus Mercúrio, que assim como o mercúrio cromo era vermelho e denominado Flamengo. Veio em novembro neste ano e amenizou as coisas com os terreiros. O deus urubu porém não queria brincadeiras. Esmagou o Vitória por sete a dois, e depois foi levando todos os clubes baianos de roldão, ao Botafogo (4 X 1), Ypiranga (1 X 0), Bahia (3 X 2) e a própria seleção baiana (3 X 1). Na despedida, porém, o deus, “crente que estava abafando”, resolveu se entupir de acarajé no Rio Vermelho, e o resultado foi apanhar de três a dois do Ypiranga.
Isso azedou novamente as relações com o Olimpo. Não era possível, já haviam sido advertidos, desobedecer duas vezes em 13 anos? Quem é que pensavam ser esses baianos? Choveu um ano na Bahia por causa disso. O “toró” chegou a fazer com que todo mundo se mudasse todos para a Cidade Alta. Aí os baianos acharam demais e então se recusaram a aderir ao profissionalismo e se retiraram do campeonato brasileiro de 1933.
                                 "Rolou" na época até cavalo de Tróia na Praça Castro Alves!

Foi a primeira vez que meu pai viu os candomblés e as igrejas se unirem e a crise ficou feia. Ainda mais que estava havendo uma verdadeira revolta contra o céu do futebol. Diversos deuses menores se recusavam a aderir ao profissionalismo e a ceder jogadores para a seleção brasileira, que iria jogar no ano seguinte a Copa do Mundo na Europa.
O jeito foi conciliar. Zeus então mandou o sobrinho de um assessor, o Andaraí, jogar na Bahia. Ele chegou aqui em janeiro mas o cara era uma droga e nem saia quem era Zeus. Em campo conseguiu perder pra todo mundo fazendo Zeus virar piada. Aí este se zangou e mandou o mesmo assessor de confiança de tempos atrás, o São Cristóvão.
Ele chegou sondando os baianos. Tanto que perdeu pro Vitória de dois a um. Mas depois decidiu acabar com a política de boas relações e foi derrotando os baianos, caindo sucessivamente o Dois de julho (3 X 2), o Galícia (8 X 1), o Botafogo (5 X 0) e o Ypiranga (3 X 2).Só o Bahia conseguiria um empate em um gol.
                                                   Mas foi aí que os orixás reagiram!

A excursão tapeou Zeus, que fingiu não ver o desafio do boicote baiano ao seu certame de seleções. Aí resolveu fazer uma grande concessão aos seus opositores no Olimpo. Organizou esse ano dois campeonatos de seleções, um amador e outro profissional, contentando a todo mundo, e fez o amador na Bahia.
Isso reconciliou de novo os baianos com os céus. Só o fato de não pegar aqueles navios desgraçados pra fase final já fazia as honras da firma do Olimpo. Mas uma coisa incrível aconteceu naquele ano, mostrando que os baianos tem artes que o próprio Zeus duvida. É que este fez uma maracutaia colocando os deuses paulistas pra jogar nos dois certames. Aí os deuses tiveram que se dividir. Foi Posidon, Apolo, Hefesto, Jupiter e Neptuno para um lado e Zeus, Baco, Marte e Dioniso para o outro.  Aqueles que eram profissionais “passaram o rodo” nas demais seleções ganhando este certame.
E aqueles que eram amadores chegaram em março na Bahia para disputar a fase final que era jogada agora no campo da Graça. Como era ano de eleições para a Assembleia Constituinte Zeus compareceu pessoalmente pra entregar a taça aos deuses paulistas. Pelo menos esperava isso, embora ficasse preocupado quando viu os bons jogos dos baianos que passaram por Sergipe (8 X 0) e Rio Grande do Norte (5 X 3), enquanto isso os deuses paulistas passavam pelo Espírito Santo (4 X 2) e por uma estranha “seleção” composta pela quinta geração de parentes de assessores de Zeus, a Liga de Sports da Marinha (3 X 2).
                              Ah não!Esse aí não tem nada que se meter nas divergências do céu!

Zeus não gostou nada do que aconteceu naquele dia quatro de março de 1934 quando começaram as finais entre Bahia e São Paulo. O zagueiro Popó se revelou um verdadeiro deus, superando em muito os deuses paulistas, fazendo dois gols num jogo que os baianos venceram por quatro a dois.
O todo poderoso ficou p. da vida mas não pode dizer nada pois era um ano eleitoral, engolindo em seco a derrota do céu. Envio o próprio Marte pra criar o “bicho” que mais tarde se espalharia pelo mundo. Colocou um dinheiro no Banco Econômico, pois ainda não existia Ângelo Calmon de Sá pra gastar, pagáveis no outro dia, e os deuses paulistas ganharam a segunda partida por três a dois.
No dia onze foi jogada a partida final. Zeus fez de tudo pra evitar nova surpresa. Inundou a cidade, lançou seus raios em toda as direções, de Itapoá á Ribeira. Mas, como ele não era baiano, não sabia que essas coisas nós tiramos de letra, pois todo ano neste período tem chuva feia e alaga mesmo tudo.

                          Os baianos pediram a São Jorge e a Djavan pra emprestar o dragão!

Não conseguindo evitar que os jogadores e torcedores comparecessem a Graça teve que fazer surgir o sol na hora do jogo. O suficiente pra que nossos santos Popó, Pelágio, Romeu e Cia, todos jogando com fitinhas do Senhor do Bonfim e conchas dos orixás vencessem por dois a zero.
Zeus voltou para o céu disposto a retirar a Bahia do mapa. Mas não podia pois aqui tinha muitos eleitores. O que fazer então? Tinha que se vingar no futebol e aí mandou a própria seleção brasileira arrasar com os baianos. E não é que foi verdade? Os deuses do eixo Rio – São Paulo deram de dez no Galícia, de oito no Bahia e outro bichos.
Mas estava definitivamente acabada a Era dos deuses. A Bahia só voltaria a brigar com Zeus em 1959, 1988,1993 e 2010, com o Bahia e o Vitória chegando as finais de campeonatos nacionais, mas até aí deu empate ganhando duas e perdendo duas. Haviam novos deuses na constelação do céu. Teotonio, Nadinho, Alencar, Bobô, Alex Alves, Dida, Viáfara e Ramon.  

·          Agradeço ao Almanaque do Futebol Brasileiro e aos sites Skomb, RSSSF Brasil e aos blogs witchblue2009.blogspot.com, debunjr.worpress.com e avivamontoieq.com.br.