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domingo, 24 de julho de 2011

Coitadinha da Amy Winehouse!

                           
                                   
                                                        Tentaram me mandar para a reabilitação.
                                                         Eu disse “não, não, não”.
                                                         É, eu estive meio caída, mas quando eu voltar
                                                         Vocês vão saber (...)
                                                         Não posso ficar 70 dias internada
                                                          Porque não há nada
                                                          Não há nada que possam me ensinar lá
                                                                                                            Amy Winehouse (Rehab)             

Fiquei chocado com a morte de Amy Winehouse. Afinal, era uma dos nomes mais criativos num cenário musical onde os artistas são muito previsíveis.  Fica difícil até classificar o seu estilo. Afinal de contas era uma cantora de jazz, soul, rhythm and blues? Brigou como pode com a indústria musical e da comunicação que procurava mantê-la em evidencia muito menos por seu talento e muito mais pelos escândalos falsos e verdadeiros que era um verdadeiro “prato cheio” para a mídia sensacionalista.
E agora, quem é que vai substituí-la? Já não há mais Michael Jackson e a Lady Gaga não passa de uma invenção grosseira e sem talento que não vai durar muito tempo. A quem é que vão acusar de estar bêbadas nos concertos quando todo mundo sabe que muitos artistas “tomam uma” (ou muitas) antes, durante e depois das apresentações?
                                                Amy se aborrecia muito com o Vitória!

Mas o que muita gente não sabe é que Amy gostava muito de futebol. E como era diferente não ia assistir ao Chelsea, Manchester United e outros bichos do Reino Unido. Era vidrada no futebol baiano! A imprensa do Sul nunca conseguiu apurar o que ela fazia quando se trancava no hotel, mas ela alugou um avião só pra vir à Bahia.
Só acompanhava a terrinha por ouvir falar. Tinha gente que mandava pra ela tudo o que acontecia por aqui. Aliás, foi assim que adquiriu sua criatividade, e aprendeu a se atrasar para os shows. Afinal de contas em que lugar os shows começam mais atrasados do que a Bahia?
Ela nasceu um dia depois de começar as quartas de final do terceiro turno do campeonato baiano de 1983. Já criancinha perguntava como é que os baianos faziam tantos turnos pra decidir quem era o campeão. E olhem que ainda teve o quarto turno e os jogos finais onde os times levavam pontos, e...deixa pra lá. Foi assim que aprendeu a fazer coisas que ninguém entendia!
                                                    Ela fez tatuagens no Pelourinho!

Foi no ano que criou a sua primeira banda, a Sweet in Sour, que o Vitória voltou á Primeira Divisão. Foi um dos principais acontecimentos do planeta naquele ano, e o rubro negro estava na mídia mundial pois chegou a final contra o Palmeiras obtendo mais um vice. Aquilo chamou a atenção de Amy que se entusiasmou com a criatividade dos brasileiros. Na verdade o regulamento do campeonato brasileiro competia com a invencionice dos baianos. Havia duas “séries”, uma com os clubes famosos e outra com os “sem mídia”. Classificavam-se três times em uma e cinco em outra e no final começavam um quadrangular do zero.
Quando começou a tocar guitarra, três anos depois, o leão já estava emendando seu primeiro “tri” na Bahia. Mas, os baianos chamariam de novo a sua atenção em 1999 quando completava dezesseis anos e começava a sua carreira como cantora em Londres. Aquele foi mais um ano de fama da Bahia. É que nas finais do campeonato entre a dupla BA-VI o tricolor, depois de vencer a primeira partida na Fonte Nova recusou-se a jogar no Barradão usando como testa de ferro o Clube de Regatas Itapagipe, que entrou com uma reclamação na federação alegando que o estádio “não teria condições de sediar uma final de campeonato”.
             A criatividade de Amy se deve a Bahia. Quem tem um metrô que nunca termina?

Naquele dia, mais uma vez de forma criativa, as duas torcidas foram a Fonte Nova e ao Barradão comemorar o título. Houve festa dos dois lados. O abacaxi, porém ficou para a STJD que levou dois anos enrolando pra dar o resultado que todo mundo sabia, a divisão do título.
Vou aproveitar pra revelar um segredo. O ano que Amy gravou seu primeiro álbum, Frank, ela estava muito triste pois o Bahia caiu pra Segunda divisão. Mesmo com toda a festa que a Island Records fez pra promover as suas musicas ela não se animou muito. Afinal, como ela iria saber das coisas que os baianos aprontavam com seus times na Segundona. E a coisa agravou logo no outro ano quando o Vitória também caiu.
                                 Ivete bem que tentou cantar com Amy mas ficou com Byoncê!

Era um desastre para a Bahia. E foi isso que fez Amy aderir ás drogas e á bebida. Passou três anos sem gravar outro álbum, só o fazendo em 2006, Back to Black, quando pelo menos o leão subiu. Foi quando o rubro negro já estava na Primeira Divisão que Amy teve o seu melhor ano, em 2007, obtendo o melhor desempenho de uma artista no planeta quando vendeu cinco milhões de discos e ganhando o prêmio de melhor artista feminina britânica.
Mas esses anos de sofrimento para os baianos abalaram muito Amy pois, quando os clubes baianos estavam nas divisões inferiores, deixaram de dar manutenção á Fonte Nova. A infraestrutura do estádio deteriorou e ficou de dar pena. Contavam tudo á Amy que chorava muito. Mas o inferno seria em 25 de novembro quando uma parte do estádio cederia matando sete torcedores num jogo em que o esquadrão empatou a zero com oi Vila nova de Goiás.
                                   Se a mídia "enchia o saco" de Einstein imagine o de Amy!

O governador mandou fechar o estádio e a família de Amy sentiu o golpe. Não poderia assistir às partidas no estádio quando viesse ao Brasil. O desespero fez com que seu marido fosse preso nesse ano e, no ano seguinte, a própria Amy seria presa duas vezes. Desde essa época ela não quis mais saber de lançar discos.
Amy pegou arritmia cardíaca em junho de 2008. O Bahia tinha até começado bem esse mês vencendo o Criciúma em Santa Catarina, mas logo depois empatou sem gols com o Avaí em Feira de Santana, onde mandava seus jogos. Depois saiu pra Fortaleza onde empatou com o Ceará por dois gols. Mas, foi em pleno dia de São João que foi esmagado pelo Juventude em Caxias por quatro a um, colaborando para os problemas de saúde da nossa querida e original cantora pois pra ela ficou claro que o tricolor não iria subir.
                        Mário Kértesz nem conseguiu levar Amy pro programa da Rádio Metrópole!

Pra Amy é época de combinar internações em clínicas com o aparecimento em shows. Podia pelo menos se consolar com o Vitória na Primeira Divisão. No ano passado estava tão animada com a campanha do tricolor que terminou o tratamento. Para sua alegria o Bahia subiu mas haveria duas desgraças na vida de Amy, implodiram a Fonte Nova e o rubro negro desceu pra Segundona.
Foram novos dias tristes para Amy. Sua saúde frágil ficou ainda mais abalada. Ela chegou a ficar com menos de cinquenta quilos. No início de maio o Vitória deu-lhe um novo golpe perdendo o “penta” pro Bahia de Feira. Era demais! Na ocasião, ela chegou a passar um telegrama raivoso que Alex Portela esconde a sete chaves.
                                        Tchau Amy, o mundo vai ficar mais chato sem você!

O golpe final na atribulada vida de Amy Winehouse seria dado pelo rubro negro ao perder pra Portuguesa em Pituaçu quando todo mundo achava que estava no caminho certo pra subir com as novas contratações. Até Amy se animou quando veio Lúcio Flávio, Geraldo e Chiquinho. Só de bolas na trave foram duas mas a defesa “entregou o ouro” deixando o leão a quatro pontos do Z-4. Amy havia comprado a Sky e assistiu tudo do seu quarto via satélite. Estava bebendo desde que começou o jogo. Quando Mauricio entregou a bola ao centro avante da Portuguesa ela emborcou.

Era demais pra aguentar. Foi mais uma pra conta do leão que engoliu uma grande artista. É por isso que ela trazia uma tatuagem no braço direito feita no Pelô que dizia "Nunca amarres as minhas asas".

·          Agradeço aos sites Bola na Área, RSSF Brasil, Letras.com e Wikipédia, e aos blogs revistagrita.com, gentesemfuturo.blogspot.com e revista.congres.com.br.

quinta-feira, 7 de julho de 2011

A propaganda é a alma do negócio?

                                               
         Foi a propaganda que fez Lady Gaga! 


O ano de 1972 foi para mim o da propaganda. O campeonato baiano começava e o tricolor buscava o “tri”. Mas o rubro negro tinha armado um bom time. Contratara Osny do Santos que ninguém queria por ser baixinho, fizera vir Mário Sérgio, tinha André em grande fase e ainda deu sorte com reforços como o meia David.

A dupla BA-VI estreou numa rodada dupla na Fonte Nova surpreendente. O Vitória penou pra ganhar do modesto Jequié na preliminar, mas na principal foi o Bahia que se deu mal, empatando em dois gols com o “caixa de pancadas” Palestra.

Pouco depois eu comecei a me sentir atraído para o mercado de gravações. É que este absorvia cada vez mais o pessoal da Escola de Música da UFBA, onde eu estudava e trabalhava desde o ano anterior. Mas como ninguém me convidava para tocar eu acabei por testar as minhas habilidades como compositor.

                            Ah como é bom se ouvir no rádio!


O mercado publicitário estava em ascensão, e a musica “bombava” na venda de produtos e serviços. Isso permitiu atrair uma série de colegas para a composição de jingles. Um deles era Gilberto Gil que, tinha há alguns anos escrito “clássicos” publicitários como o da Agua Sanitária Lisa (lembram-se?).

Naquele tempo a maioria dos jingles que tocavam na rádio saiam de uma empresa que conjugava as funções de agência e gravadora, a Studios JS (de Jorge Santos) e funcionou no Edifício Sulacap (na Ladeira de São Bento), transferindo-se depois para o Edifício Martins Catarino, que ficava na Rua Bonifácio Costa, uma transversal da Rua Chile, onde ocupava todo o terceiro andar.

Os proprietários da agência eram Jorge Santos, antigo locutor de rádio, e Jose Jorge Randam. Eu já havia encontrado este último alguns anos antes quando me apresentei no programa que apresentava na TV Itapoá intitulado Céu ou inferno.


É a danada de propaganda que faz Paulo Coelho mais conhecido do que eu!


Na oportunidade ele havia me colocado no inferno quando cantei a musica Sonhar contigo consagrada pelo cantor “Miltinho”, antigo integrante do conjunto Quatro ases e um coringa, então um astro, emplacando vários sucessos na musica e no cinema.

Lembro que nesse dia passei uma vergonha danada, pois tinha avisado a todo mundo que iria me apresentar e tive que voltar pra casa pelos fundos da rua, onde fui gozado por vários dias. O programa tinha um anão (o Irênio, que era gerente da alfaiataria Spinelli) que se vestia de vermelho e gongava os candidatos a qualquer hora, atendendo aos sinais de Randam e do pianista Carlos Lacerda. Até hoje reclamo a falta de oportunidade que me deram. Mas nunca toquei no assunto com nenhum dos dois.

O Vitória começava bem no campeonato e já ganhava do Itabuna (1 X 0), fora de casa, e do Fluminense (2 X 0). Mas logo empatou com o Galícia sem gols ficando igual ao tricolor. Mas nas próximas rodadas venceria o Ilhéus (5 X 0), o Conquista (2 X 0) e o Palestra (2 X 1). Chegava o clássico com o Bahia, e, para surpresa de todos, o rubro negro jogaria uma grande partida, embora só ganhasse pelo escore mínimo.  


E essa torrezinha? Nem de longe se compara ao Elevador Lacerda!


Não levei minhas mágoas para a Gravações JS onde conheci músicos que frequentavam o estádio. O ambiente me ajudou a fazer contato com vários colegas da profissão, tendo conhecido “Berimbau”, “Batatinha”, Tião motorista, Osvaldo Fahel, Tuzé de Abreu e Vevé Calazans, além de reencontrar Moacir Albuquerque (da TV Itapoá), Antônio Carlos e Jocafi (a quem conhecia desde o grupo Comunicação) e os grandes instrumentistas Perna e Alcyvandro Luz (este último meu colega na orquestra da UFBA).

Eu precisava entrar nesse esquema. Ia lá, conversava com o pessoal, mas não tinha nada pra fazer. Foi quando decidi, por conta própria, fazer um jingle. Escolhi a Farmácia Santana, que crescia na época, e fui ao bairro da Saúde mostra-lo ao dono, um dos irmãos Santana.

Lembro-me bem que fui lá no dia em que o leão jogou com o Ypiranga e venceu por um a zero. Naquele tempo não havia muita separação entre os proprietários e os funcionários, de maneira que fui entrando cheguei na mesa do “cara” e disse-lhe que tinha um jingle para mostrar.

          E quem troca essa Acrópole pelo Farol da Barra?


Aí ele me pediu pra tocar e não me fiz de rogado botando minha voz de taquara rachada pra funcionar.

Em toda rua, por toda a cidade
ajuda a seus irmãos,
pois ela é a minha, é a sua farmácia,
ela é a nossa Santana.

Nos feriados, em fins de semana,
há sempre uma Santana de plantão.
Juro que um dia vou ver se na lua,
também há uma Santana.
Ah que farmácia bacana, Santana,
meu Deus não morro não.

O “cara” gostou na hora. Também não tinha como uma letra tão imbecil e romântica ao extremo não agradar o dono. E aí perguntou o preço. Eu vinha tão despreparado que nem tinha pensado no assunto. O primeiro valor que chutei ele aceitou. Passei semanas me arrependendo de não ter pedido mais. Combinamos que o dinheiro seria pago contra entrega da “bolacha”.

                 Que saudades do Vitória campeão de 1972!


O Vitória não terminaria bem o turno, quando empataria sucessivamente com Atlético (0 X 0), Botafogo (1 X 1) e Leônico (0 X 0). A dupla BA-VI terminava empatada com 20 pontos o primeiro turno, mas o Bahia tinha um saldo melhor. Isso fez com que o Vitória tivesse se ganhar afetando o espírito do time que não rendeu mas o mesmo e ainda levou um gol perdendo a partida e o turno.

Tínhamos, começado bem e acabado mal. Mas aí eu já estava excitado com a gravação do jingle. Aí fui pra JS. Rapaz, quando cheguei lá fui direto pro escritório de Jorge Santos. Ele já tinha me visto por ali e não atinava para o que eu estava fazendo. Certamente pensava que eu vinha acompanhar algum jingle. Mas nesse dia falei-lhe todo orgulhoso que tinha vendido um jingle á farmácia Santana e queria gravá-la.

Engraçado como esses tempos eram diferentes dos de hoje. Imaginem que nem ele me pediu dinheiro adiantado nem eu supus em nenhum momento que o cara da Farmácia Santana não iria me pagar. E foi isso o que aconteceu, gravei ali, saí com a fita e paguei depois.

                            É assim que o baiano anuncia!


Jorge marcou o dia da gravação do jingle e destinou os acompanhantes Jorge Luiz no baixo e José Grimaldi nos teclados, ambos instrumentistas do grupo Bossa Jovem. Na ocasião eu fui com a minha melhor roupa pois era a primeira vez que gravava. Confesso que fui com uma ponta de orgulho, até que enfim eu era igual aos outros colegas que encontrava no estúdio.

Cantei e me acompanhei ao violão naquele estúdio enorme. Minha voz era meio fanhosa mas até que não me saí mal. O jingle acabou sendo tocado em todas as rádios, naturalmente com a grana da farmácia.

Enquanto eu fruía embelezado a sensação de ligar o rádio e ouvir a minha voz, para a alegria lá de casa, eu acompanhava o Vitória num segundo turno no Grupo B(sic!). A campanha foi regular, ganhou três (Palestra, Fluminense e Conquista) e empatou três (Botafogo, Ypiranga e Ilhéus). Mas deu pra ficar em primeiro lugar, colocação que obteve também no computo geral. Desta vez era o rubro negro que jogava pelo empate e aí o tricolor teve que sair do prejuízo perdendo de dois a um.


                            Político baiano em campanha!


O episódio da gravação, ao invés de fama me rendeu atritos com alguns colegas. Passaram a me perguntar como eu, que estava chegando ao mercado, havia feito para conseguir a encomenda e quanto eu estava cobrando. Alertando que existia uma espécie de tabela e que eu tivesse cuidado para não cobrar menos do que recebiam.

Enquanto isso já começava o terceiro turno. Para a nossa preocupação o leão começou empatando com Jequié e Leônico. Conseguiu ganhar do azulino (2 X 1) mas logo perdeu o clássico pro tricolor (0 X 1). Mas a vitória contra o Atlético lhe garantiria o primeiro lugar no grupo B, embora a quatro pontos do Bahia na colocação geral.

O Bahia jogaria de novo pelo empate com o Vitória e não deu outra coisa, zero a zero, levando o terceiro turno pra Boca do Rio. As coisas estavam feias. Agora o tricolor tinha dois turnos e o Vitória apenas um.

                  Olhem a verdadeira Monalisa sem propaganda!


Compareci com o coração na mão no domingo seguinte, onde o esquadrão jogava pelo empate pra ficar com o “tri” e vibramos muito quando o leão venceu por dois a um. Acho que foi ali que ganhamos o campeonato. Estava tudo igual, qualquer um que vencesse levava o caneco. Se empatasse iriamos para a prorrogação.

Mas, o rubro negro tomou a iniciativa do jogo logo de saída, e estava numa fase bem melhor. Jogou de forma eficiente e, ao obter a vantagem na partida, passou a jogar nos contra ataques, e foi num destes que, num lançamento da intermediária André foi entrando e fez o gol do título, três a um. Era a nossa vez de voltar a ser campeões, coisa que há sete anos não ocorria tendo que ficar na fila vendo todo mundo ganhar, Bahia, Leônico, Galícia e Fluminense.

Mas o sucesso do campeonato não se transferiu para o primeiro certame brasileiro que o Vitória participou. E nem pra minha vida de compositor de jingles. É que, apesar do sucesso da minha primeira investida no ramo não fui adiante.

         E onde é que se come melhor que a Bahia sem propaganda?


A tendência do mercado de ser, cada vez mais, a de intermediação da agência, e a falta de uma relação mais próxima aos donos da JS, liquidou com a minha “carreira”. Pude perceber que alguns, se caíssem no gosto de Jorge, recebiam encomendas de jingles. Quanto a mim não fui convidado. Tempos depois levei outra proposta para o “cara” da Farmácia Santana, que desta vez não gostou. Não se pode agradar sempre. Foi assim que acabou minha curta carreira na propaganda.


·        Agradeço ao site da RSSF Brasil e aos blogs bananaamassada.worpress.com e iamburrofotofalada.blogspot.com.   

terça-feira, 5 de julho de 2011

Quem inventou o trabalho?


Romário ficou assim ao saber do projeto de lei obrigando o deputado a trabalhar!


Dizem que quem inventou o trabalho foi Deus, ao expulsar Adão e Eva do Paraíso. Outros dizem que foi o diabo. Quanto a mim acho que foi mesmo a ditadura militar, pelo menos foi neste tempo que eu comecei a trabalhar.   

No início dos anos 70, em plenos anos sombrios de ainda maior endurecimento da ditadura militar, prosperava a pornochanchada. Era uma época onde ficávamos na sacanagem assistindo a ex-miss Vera Fischer, Jardel Filho, Nuno Leal Maia, Milton Morais e outros nas telas da cidade.

Foi quando começava a funcionar a TV em cores obrigando as famílias a substituir os aparelhos anteriores. Em pouco tempo ninguém mais queria mais saber de TV ou cinema que não fosse a cores. Foi uma década acompanhada pela televisão. Na ocasião a indústria cinematográfica apelava para a violência e o terror, encenando O poderoso chefão e Tubarão.

                   Eu na época, me protegendo do trabalho! 


O carnaval de Salvador era patrocinado pelas cervejarias CIBEB e Carlberg que se concentravam nos grandes trios elétricos. Já se podia brincar o carnaval na sede do Vitória que ficava então em Amaralina. Nas ruas se via o bloco carnavalesco Os internacionais e ainda dava pra levar a família pra Avenida Sete. Chegávamos pela manhã e levávamos nossas cadeiras amarrando-as ás que lá havia. Quando chegávamos á noitinha para o desfile ainda estavam lá (acreditem se quiserem!) pois ninguém roubava.

Foram anos de terror também para o EC Vitória. Imaginem que só conseguiu ganhar um título, o de 1972, deixando o resto para o tricolor. Eu ainda era solteiro mas já tinha dado uma aliança de noivado a Cybele e não poderia enrolar o casamento por muito tempo. Foi aí que me deparei com a terrível experiência do trabalho. Que coisa horrorosa. Gostaria de saber quem inventou tal coisa! Imaginem que como bom “filhinho do papai”, embora fosse um “Durango Kid”, até então aos 23 anos nunca havia trabalhado.

Mas pra isso tive que contar com painho. Meu pai tinha atuação constante no mercado da engenharia civil do estado e naqueles anos sua firma colocava a iluminação na Fonte Nova. Pra saber das obras e agilizar o pagamento dos seus serviços contava com conhecidos na máquina governamental. Durante vários anos trabalhou no antigo Departamento de Energia cujo “mangangão” era Tarcísio Vieira de Melo. Barbosa Romeu, chefe da Casa Civil de ACM, era quem agilizava o empenho de suas notas.

                           Pô, podia ser pelo menos aos 40!

Em 1970 tivemos de assistir os jogos do campeonato no estádio da Graça, pois a Fonte Nova estava intensificando as obras para a inauguração do ano seguinte. Eu ingressei na Escola de Música da universidade e ia muito bem, mas nada de ganhar dinheiro.

Aí, no ano seguinte, a família entrou em ação.

- Como é que você pensa em casar sem trabalhar?

Tive que dar a mão á palmatória, e passei a procurar emprego. Digo emprego pois não queria um “trabalho” e sim algum emprego que a última coisa que se fizesse fosse esse tal de trabalho. Um problema porém saltava aos olhos. Eu não sabia fazer nada. Quem iria empregar um sujeito destes?

Mas é porque vocês não conhecem a classe média da Bahia. Esta dá sempre um jeito de conhecer “as pessoas certas no lugar certo” e foi assim que eu “entrei pela janela” na COELBA e na UFBA. Devo meu primeiro emprego, ex-sócio de meu pai, que na ocasião era diretor da empresa.


                                       Adeus a gandaia! 


A “entrevista” ocorreu na semana da inauguração da Fonte Nova, logo depois do carnaval. Foi numa terça feira, 28 de fevereiro de 1971. Lembro-me bem da reunião. Fomos eu e painho visitar Deraldo. Depois das habituais trocas de gentilezas, este perguntou o que eu sabia fazer. Disse-lhe, na mais santa ingenuidade, que gostava de música, futebol e jogava botão, vendo o olhar reprovador de meu pai.

Deraldo deu tratos á bola. Ora, ali era uma companhia de eletricidade, e, na época, pública. Como me encaixar em alguma coisa? Mas foi aí que me lembrei de que, dois anos antes, tinha tirado o curso de contabilidade na “fábrica” que se chamava Instituto Valença onde quem pagava passava. Aí todo mundo sorriu, haviam encontrado a solução. Eu podia, enfim, começar a trabalhar.

Foi assim que eu cheguei no dia primeiro de março ao Departamento de Contabilidade da COELBA para exercer o cargo que tinha tão “duramente” conquistado, auxiliar de escriturário da empresa. Deve ter sido um dos grandes acontecimentos daquele ano. O outro foi três dias depois, o desastre do dia da inauguração, que conto em outro artigo deste blog, e até hoje não se sabe quantos morreram.

                             Meu "trabalho" era o futebol!


Eu estava lá, e me lembro de que na segunda feira não parava de falar contando aos colegas da empresa o que tinha ocorrido no estádio. Mas não estava acostumado com a maldade humana. A minha entrada “pela janela” chamou a atenção dos meus novos colegas. Ainda mais que eu nada sabia de crédito e débito, tropeçando nas operações contábeis que deveria saber pra merecer a minha formatura no ensino médio.

Nos três curtos meses que passei na COELBA não perdia os jogos do estádio que contava agora com um anel superior que ampliava em muito a sua capacidade. Só andava cheio, embora de torcedores tricolores. Logo depois da inauguração o rubro negro perdeu do Bahia pelo escore mínimo, mas a taça só foi para a sede da Boca do Rio porque o técnico do Grêmio Oto Glória resolveu fazer a gentileza de dar-lhe de presente.

No fim do mês tomamos uma gozação dos tricolores por ter perdido para o Atlético Paranaense (0 X 1), mas, logo a seguir, foi a vez do esquadrão perder do Botafogo (2 X 4). Foi nesse clima de gozação que eu acabei me “abrindo” para um colega confessando quem havia me colocado no emprego. A partir começaram a me olhar atravessado. Todos começaram a falar de peixe, “peixada” e outros bichos marinhos por lá. Como se vê um ambiente edificante de trabalho.

                       Ah como é bom ficar sem fazer nada!


Não gostei nada do novo torneio de abril na Fonte Nova pois desta vez preferiram chamar o Galícia ao invés do rubro negro. Era uma injustiça pois mantiveram o Bahia. Lembro que a torcida do leão boicotou o certame que tinha ainda o Cruzeiro e o Santos.

Lembro que lá na COELBA o pessoal passava por mim falando de peixe, mas eu pensava que era o Santos. O Bahia ganhou o time da Vila Belmiro (3 X 2) mas o Galícia caiu perante a raposa mineira (1 X 3). Depois foi só torcermos pra taça ir pra Belo Horizonte, o que sucedeu na rodada de sete de abril, onde o Santos ganhou do time do azulino (2 X 0) e tricolor perdeu do Cruzeiro (0 x 1).

Depois de longos três meses saí da COELBA, não só pelas fofocas mas pela absoluta falta de talento para as contas. Mas não antes de presenciar a derrota tricolor em um amistoso com o outro time de Minas, o galo, por um a zero.  

                     Adeus aos passeios no Dique do Tororó!


É que, enquanto isso, os professores da Escola de Música da UFBA repararam a minha ausência. Foi graças á maínha que me livrei deste maravilhoso emprego. Ela ligou para a saudosa professora Georgina Lemos e conseguiu que eu fosse contratado recebendo o mesmo que eu ganhava na COELBA, 300,00(sic!), aproveitando a falta de estudantes de contrabaixo na escola.

Foi assim que eu, após ter entrado na universidade no ano anterior “chutando” a mesma letra no vestibular, entrei “pela janela” na Universidade, virando funcionário federal num tempo em que o concurso público era coisa de conveniência. Lembro que tive muito gosto em me despedir dos funcionários do setor de contabilidade da empresa, e aliás, eles também!

Cheguei a primeiro de julho na UFBA e, logo no outro dia, fui assistir ao jogo comemorativo da independência, Bahia X Flamengo. Parecia que teria sorte no novo emprego, inclusive pelo tricolor apanhar de três a um. Mas, como o dinheiro da universidade não dava, acabei por entrar também na outra universidade da época, a Católica, como “professor” de contrabaixo, quando Dona Dulce Calmon contratou uma “leva” de professores e alunos da UFBA pra modernizar o Instituto de Música. De repente, quem nunca trabalhou na vida agora tinha dois empregos. Fiquei ali por oito anos mesmo sabendo tanto do instrumento como os alunos. Ainda bem que nunca desconfiaram.

                          Essa coisa de casamento é fogo!


O segundo semestre começava sob a raiva rubro negra. É que só o Bahia havia sido escolhido pra disputar o campeonato brasileiro, que teve a sua primeira edição naquele ano. Nos limitamos a torcer contra o tricolor a tempo em que comparecemos a alguns amistosos do Vitória na Fonte Nova. Lembro-me da solidão que foi o empate com o Ypiranga (1 x 1) na comemoração do sete de setembro. Da vitória contra o Fortaleza pelo escore mínimo.  

Da vergonha que passamos contra o Bangu neste mês. É que havíamos empatado sem gols com os “mulatinhos rosados” e alguém teve a triste ideia de pedir uma revanche onde apanhamos por três a um. E o pior é que coube ao tricolor fazer as “honras da Bahia” derrotando os cariocas facilmente por três a zero.

O Vitória se sairia bem nos próximos amistosos. Em novembro ganharia do Atlético Mineiro (1 X 0) e empataria sem gols com o América (RJ). No início de dezembro novos empates, contra a dupla FLA-FLU, e o CRB por um gol. Quanto ao Bahia, além de ter feito um péssimo certame brasileiro, vinha perdendo os amistosos deste mês, onde apanhou do Fluminense (0 X 1) e do Cruzeiro (1 X 2).

                                     Adeus á Itaipava!


Aí, alguém teve a péssima ideia de fazer uns BA-Vis “caça níqueis” pra encerrar o primeiro ano do novo estádio. Veja que Natal miserável passamos. No dia 21 o rubro negro perdeu de dois a um. Acho que no dia 24 o próprio J. Cristo teve que descer pra dar uma mãozinha pra que não perdêssemos outra vez, conseguindo ao menos o empate em um gol. Mas ainda arranjaram outra partida no dia 28, onde o leão perdeu de novo, desta feita por um a zero.

O ano que eu me empreguei terminava desastroso, mas pelo menos eu já era funcionário federal. Foi assim que pude casar e consertar de vez. Logo eu, que nunca havia trabalhado nem estudado, tive que pagar por todos os meus pecados na minha formatura.

É que naquele tempo a ditadura havia criado o jubilamento e só se podia passar poucos anos na universidade. Na ocasião tive que estudar “como um cão”. O programa da formatura exigia pelo menos cinco horas de estudo diárias que passavam para oito nos fins de semana.

                          E o bom de ficar na varandinha?


Para dar conta disto e do trabalho tive que comprar outro contrabaixo e trazê-lo pra casa todos os dias da escola. Primeiro tentei ir a pé mas não há quem tenha uma carga de trabalho e estudo destas que ainda carregue nas costas um contrabaixo por dois quilômetros. Depois reservei uma verba pro taxi.

Mas isso me colocava problemas pois os taxistas não queriam saber do contrabaixo sob a desculpa de que não cabia no carro. Com o tempo aprendi uma forma de colocá-lo rapidinho no carro. O “macete” era o seguinte. Ficava numa esquina e escondia o contrabaixo, só então chamava o taxi. Quando este parava eu abria a porta e o enfiava rapidamente para dentro. Aí só tinha que aguentar a cara feia do motorista.

Mas o pior mesmo era estudar em casa as noites. Imaginem que chegava ao apartamento entre 20 e 22 horas e, logo após um jantar frugal, começava a estudar. Logo começavam a chover garrafas e outros materiais sobre o pátio do Edifício Venezia na Rua Direita da Piedade. Não me sobrou outro recurso senão instalar cortinas, cobrir as frestas da porta e da janela (só havia uma!) com toalhas e colchas, e passar a executar as peças e repertórios da orquestra bem pianinho.

                              Parece até conto de terror!


Foi duro passar esses anos, tanto no futebol como me firmar no trabalho. Comi “o pão que o diabo amassou”. Ele deve ter ficado sorrindo lá em baixo. Me formei no final de 1978, num ano triste para o Vitória, que ainda se limitava a ver seu arquirrival levantar títulos. Mas, assim como eu tinha conseguido vencer o trabalho e o estudo o rubro negro também recuperaria o caneco em 1980.


·        Agradeço ao site RSSSF Brasil, e aos blogs finalsports.com.br, portalrcrr.com.br e tempogeral.com.