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terça-feira, 29 de novembro de 2011

O empréstimo


O empréstimo é um conto que faz parte de uma antologia do nosso grande escritor Machado de Assis. A história gira em torno de um honesto tabelião que recebe uma proposta inusitada emprestar cinco mil reis a um conhecido para montar um grande negócio. Mas como o mesmo se fez de rogado este começou a diminuir o pedido e quanto mais o fazia mais a situação constrangia seu interlocutor. No final da história o abusado saiu apenas com cinco mil reis...o suficiente para um lauto jantar!
Mas não é só na literatura que essas coisas acontecem, no futebol baiano também. Só que o jantar foi outro! No ano de 1970 o anel superior do Estádio da Fonte Nova estava sendo construído. Pra não deixar de realizar o campeonato baiano o jeito foi voltar a jogar no antigo Campo da Graça. Deve ter sido seguramente um dos piores certames já realizados. A disputa desde 1963 era um equilíbrio só. Em 63 ganhou o Fluminense de Feira de Santana, em 64 e 65 o Vitória, em 66 deu Leônico na cabeça, em 67 o Bahia, 68 o Galícia e em 69 de novo o Fluminense.

O campeonato havia sido interiorizado desde 67 e não era brincadeira para os clubes da capital jogarem nos verdadeiros alçapões do interior. De forma que mesmo naquele ano dois clubes diferentes ganharam os turnos, Bahia e Itabuna. Osório Vilas Boas conta em seu livro como foram as finais.
A final seria em dois jogos, um lá e outro cá e, em Itabuna, esperava-se as mesmas dificuldades dos outros jogos. Brigas, pancadarias, pressões de todos os tipos, juiz caseiro, etc. Enquanto Osório pensava em uma alternativa pra tudo isso eis que aparece em sua casa às sete e meia da matina o presidente da FBF, Carlos Alberto de Andrade, que trabalhava no gabinete do prefeito.   
 
        Foi no tempo em que se viajava pra Itabuna em diligência!

   
- Fiquei surpreso com a visita, desde que o Carlinhos só me procurava em casa as dez ou onze horas da noite. Eu disse “vá entrando” e ele não se perdeu em parolagens, em conversa cumprida. Falou:
- Osório, eu preciso de vinte mil cruzeiros para pagar uma letra da Federação, já vencida, e irá para o cartório de Protestos amanhã.
- Engraçado. Você está com este problema e eu com outro: isto de o Bahia jogar em Itabuna nas circunstancias atuais.   
- Eu resolvo.
                                                                  Ói quem era o prefeito!

Então Osório emprestou dinheiro do tricolor, tendo o presidente da FBF dado a garantia de uma nota promissória correspondente a quantia emprestada.
- Fiquei feliz quando ele saiu. Mas ao meio dia todas as resenhas esportivas das rádios anunciavam que uma caravana de esportistas e políticos de Itabuna tinham obtido uma audiência com o prefeito para que interviesse no sentido de se garantir um jogo na cidade.
                                                    O pessoal saía cheio de grana!

E aí, como Osório sabia da sua disponibilidade no gabinete decidiu procura-lo falando com toda a franqueza.
- Olhe aqui Carlinhos, se vire! De modo algum o Bahia jogará em Itabuna.
- Deixe comigo. AS partida será adiada sine die. Fique tranquilo.
                                                           Ainda nem tinha o BNDES!

Resultado, quando o pessoal de Itabuna estava reunido com o prefeito este convocou o presidente da Federação ao seu gabinete dizendo:
- Você vai marcar o jogo em Itabuna no domingo. Entendido?
Mas a resposta de Carlos Alberto Andrade surpreendeu a autoridade:
- Não vou marcar coisa nenhuma! Se a Prefeitura é aqui, a Federação é lá em São Pedro, e seu presidente sou eu. Aqui sou apenas funcionário. Os casos concernentes à Federação eu decido é lá...
                                                   Foi aí que Osório conheceu ACM!

- Eu estou dando uma ordem!
- Sabe de uma coisa senhor prefeito? O Bahia não vai jogar em Itabuna agora e não sei mesmo quando irá!
Aí o prefeito não aguentou mais e explodiu:>
- Suma da minha vista, agora!

                                           O futebol baiano "era" a casa da mãe Joana!

Desta vez Carlos Alberto atendeu a ordem saindo prontamente da sala. No dia seguinte perdia a disponibilidade no gabinete do prefeito retornando à repartição de origem.
Bendito empréstimo. Por vinte mil reis o Bahia jogou as finais em Salvador e jantou fácil o título. Na primeira deu de três a zero no Itabuna, e na segunda foi ainda pior: seis a zero.

·         Agradeço as informações do livro Futebol, paixão & catimba e do site Releituras.com.

domingo, 10 de abril de 2011

A maldição das almas

                                                         Sái pra lá alma penada!

Tem gente que não acredita em praga. Mas, se livrem delas, pois uma, bem feita, pode pegar. Vou contar uma que até hoje prospera na Bahia. 
Em 2001 a nossa FBF (sempre ela!) inventou mais uma fórmula esdrúxula de campeonato, naturalmente, prejudicando os clubes com menos condições. A ideia “inteligente” consistiu em liberar praticamente a dupla BA-VI do certame guardando-os apenas para a fase final. Assim, os clubes do interior da Bahia foram obrigados a passar pelo maior vexame, disputando um “campeonato”, de janeiro a março, porá classificar seis clubes pra jogar contra tricolores e rubro negros. A única “vantagem” era que o campeão estaria na decisão contra o campeão da “segunda fase”.
O pessoal dos municípios “ralou” até não mais poder, e o Cruzeiro de Cruz das Almas acabou ficando em último lugar. Os cruz-almenses, porém, jogaram uma praga pra ninguém botar defeito, quem fosse campeão naquele ano levaria muitos anos sem voltar a ganhar títulos. Pois bem, a “segunda fase” foi de dar risos. Foi o menor certame da história do campeonato baiano em cem anos, durou apenas um mês, classificando-se o Bahia pra decidir contra o Juazeiro.
                                                                   Poxa essa é fogo!

A “vantagem” do Juazeiro (campeão da “primeira fase”) ficou reduzida a nada. Tinha maior número de pontos que o Bahia, mais vitórias e mais gols de saldo, mas, mesmo assim, bastou uma simples vitória tricolor (3 X 1) na Fonte Nova pra “papar” o título. Foi mais uma vergonha dos dirigentes esportivos baianos.
Em 2002 o Bahia ainda conseguiria levar o Campeonato do Nordeste, o que foi a única coisa que conseguiria também na década.  Os demais campeonatos foi a maior “furada” deprimindo sua grande torcida. Em 2003 nem conseguiria se classificar pras quartas de final, num campeonato que seria ganho pelo rubro negro ao decidir com a Catuense. Mas pior mesmo foi a queda do tricolor para a Segunda Divisão do campeonato Brasileiro.
Em 2004 até que se classificaria, mas seria derrotado na final pelo seu arqui-inimigo rubro negro que levaria pra casa o “tri”. No ano seguinte o Cruzeiro das almas abandonaria o campeonato descrente de tudo e de todos. Deixava a dupla BA-VI na Terceira Divisão. É que a federação continuava inventando. Desta vez organizou três grupos pra disputar o certame baiano ocasionando prejuízos para vários clubes do interior. O tricolor baiano chegaria a final outra vez, até que empataria as duas partidas, mas perderia de novo o título em função da tal da vantagem (número de pontos, de vitórias ou saldo de gols) que infernizaria o clube na década.
                                             Olhem aí a alma de Cruz das Almas!
Em 2006 morreria nas quartas de final por ter dado azar de pegar o Vitória pela frente, quando perde as duas. Não deu pro tricolor, mas também não daria pro rubro negro, que perderia o penta pro Colo Colo, e está tentando compensar este ano de 2011. Em 2007, a praga dos cruz-almenses chegaria ao ápice. O Bahia tinha até montado um belo time, mas deu azar, pois o rubro negro tinha o atacante Índio que está hoje lá pela Coreia do Sul onde tem gente que visita meu blog.
Nas quartas de final os leões da Barra tiveram impossíveis, ganhando de sete do Atlético de Alagoinhas e, num jogo antológico, de seis a cinco do tricolor, quando Índio fez quatro gols, o último faltando três minutos pro fim do jogo. Na última rodada o Bahia cedeu o empate e o título no Barradão. Mas a desgraça estava reservada para poucos meses depois, quando, mesmo o tricolor subindo para a Segunda Divisão do Campeonato Brasileiro, a Fonte Nova seria interditada em 25 de novembro quando, no jogo Bahia 0 X 0 Vila Nova (GO), cedeu um trecho das arquibancadas ocasionando a morte de sete torcedores.
E o que dizer de 2008. Ali só o sobrenatural de Cruz das Almas. A dupla BA-VI havia se classificado para o quadrangular final, com a companhia de Vitória da Conquista e Itabuna. O Vitória, porém, tinha um saldo de dois pontos de vantagem na fase anterior. No entanto, a vantagem só servia caso tudo terminasse empatado no quadrangular final, inclusive as vitórias e o saldo de gols. Vocês sabem que na Bahia é tudo diferente, até a tal da “vantagem”!
                                               Tinha alma pra "dar de pau"!
O tricolor começou empatando com o Conquista sem gols, e o Vitória ganhando do Itabuna pelo escore mínimo. Mas na segunda rodada deu o contrário, com o rubro negro empatando com o clube da terra do frio (5 X 5 e o tricolor ganhando do Itabuna (2 X 1)). E, na terceira, o Bahia despachou o Vitória em pleno Barradão, humilhando-o em sua própria casa pela maior contagem dos BA-Vis ali, quatro a um, enquanto o Conquista ganhava de dois a zero do Itabuna. Parecia que o certame estava acabado e que o Bahia havia tornado nula a profecia do Cruzeiro.
Mas só pensava isto quem não conhece as pragas das almas. O que aconteceu depois foi incrível. Como a tabela era invertida na segunda fase (mais uma coisa da FBF) os clubes que estavam em baixo subiram. O Vitória aplicou incríveis três a zero no Bahia, e o Itabuna três a dois no Conquista. Na outra rodada piorou ainda mais, com o Itabuna ganhando o Bahia de três a zero e o Conquista do Vitória de três a um.
Há anos não havia na Bahia um certame tão sensacional onde todos podiam ganhar o título na última rodada. Como a Fonte Nova estava fechada todos os olhos se voltaram para o Barradão e Camaçari. No primeiro jogaram Vitória e Itabuna, e no segundo Bahia e Conquista. O que se viu neste dia foi de arrepiar. A dupla BA-VI foi enchendo o balaio dos itabunenses e conquistenses. O campeonato seria decidido pelo saldo de gols e rádios e televisões anunciavam a toda hora gol de um ou de outro.
                                                            Veio ela em pessoa em 2008!
O Bahia precisava vencer por uma diferença de dois gols a mais em relação ao Vitória. Faltando cinco minutos estava ganhando o Conquista de cinco a zero. O jogo do rubro negro acabara com sua vitória por cinco a um. Faltando um minuto um zagueiro do Bahia conseguiu perder um gol de cara. Erro ou maldição? O Vitória levou mais um bicampeonato.
Em 2009 o tricolor baiano chegou à nova final com o Vitória. Na ocasião, mesmo com o rubro em vantagem, chegou a abrir dois a zero no placar, com Reinaldo Alagoano e Ávine, cedendo à vantagem, no segundo tempo, graças a Neto Baiano e Ramon de pênalti faltando apenas um minuto pro jogo terminar. Aí todo mundo acreditou na maldição de Cruz das Almas.
Em 2010, apesar de o tricolor ter conseguido voltar á Primeira Divisão do Campeonato Brasileiro continuou sem títulos. O quadrangular final foi, mais uma vez, com a dupla BA-VI, desta vez com a companhia de Camaçari e Bahia de Feira de Santana. Mas a dupla se classificou aos “trancos e barrancos” com dois empates no “mata-mata”. Aí foram pra decisão. O primeiro jogo só deu Vitória em Pituaçu, ganhando por um à zero, gol de Junior.
                                  Nossa! Isto é uma verdadeira seleção de Cruz das Almas!
Parecia liquidado o certame, pois o tricolor teria que ganhar por dois gols de diferença em pleno Barradão. Mas o tricolor resolveu acreditar, pois não perdia há alguns anos naquele estádio.  O rubro negro poderia até perder por um gol de diferença. As coisas se complicaram pro Bahia quando o Vitória abriu o placar logo no começo da partida. Mas os leões da barra resolveram administrar a vantagem. O primeiro tempo terminou com o Bahia pressionando.
No segundo tempo, porém, foi um “Deus nos acuda”. Só o espírito das almas salvou o rubro negro, ainda mais quando o tricolor virou a partida para dois a um. A esta altura bastava um gol, e ainda faltavam dez minutos. O Vitória, mesmo em casa, estava todo atrás pra garantir o título, e o Bahia todo na frente. A bola passava de um lado pra outro na área do rubro negro e não aparecia mais ninguém pra colocar no fundo das redes. As almas não deixaram que o Vitória perdesse o tetracampeonato.
                                                           Que alma é essa gente?
Quanto ao Bahia, só Deus sabe quando vai acabar esta maldição.

·          Agradeço as informações do site RSSSF Brasil. Sou grato ainda as imagens dos blogs filmestododia.com,interfilmes.com,baciadasalmas.com,cinedica.com.br,blig.ig.com.br e no.comunidades.net.

domingo, 20 de março de 2011

O recorde do urubu

                 
O CR Flamengo é honra e glória do futebol brasileiro. Possui quase todos os títulos, sendo campeão carioca, do Rio-São Paulo, brasileiro, americano e mundial. São tantos que nem os sites ligados ao clube sabem. Um deles eu vou informar agora. O Flamengo é o clube que mais jogou na Bahia. Custariam meses de pesquisa pra descobrir todas as partidas que o urubu jogou por aqui onde, além de Salvador, atuou em outras doze cidades do interior baiano, Ilhéus, Itabuna, Feira de Santana, Jequié, Vitória da Conquista, Juazeiro, Alagoinhas, Itapetinga, Jacobina, Ipiaú, Conceição de Almeida e Pedro Mangabeira.
Entre meus amigos da Academia há gente que acha que pesquisa sobre futebol não é assunto sério.  Pois tenho a dizer a eles que dá o mesmo trabalho de qualquer outra mais “nobre”. O site Flamengo estatísticas.com e o Almanaque do Futebol Brasileiro entram em várias contradições. Verifiquei apenas até 1960 observando que o primeiro ignora a excursão que o clube fez em março de 1946 na Bahia e o segundo omite algumas partidas da excursão de 1938.
Apresentam resultados diferentes na partida realizada contra o EC Bahia em Ilhéus. Afinal quem foi que ganhou por três a zero, o tricolor ou o rubro negro? E, por último, mas não por fim, o site rubro negro omite uma vitória do clube contra o tricolor baiano por quatro a zero (na excursão de abril de 1957) e uma derrota para o Bahia por três a um (na de maio de 1958), e o Almanaque esquece a temporada do urubu em dezembro de 1960 em Salvador e Itabuna. Chegam, assim, a números diferentes em relação às partidas do Flamengo. Podemos dizer, entretanto, sem sombra de dúvidas, que o clube é o de fora do estado que mais jogou nas praças esportivas da Fonte Nova, de Salvador e da Bahia.

No próximo ano faz oitenta anos que o urubu chegou aqui pela primeira vez, em novembro de 1932, no ano em que o país foi agitado pela chamada Revolução Constitucionalista. Na oportunidade deu em todo mundo, ganhando de Vitória (7 X 2), Botafogo (4 X1), Ypiranga (1 X 0), Bahia (3 X 2) e Seleção Baiana (3 X 1), só perdendo a última partida em função de dar revanche ao mais querido (2 X 3). Voltaria ao estado em pleno Estado Novo, quando a Bahia era governada por interventores, com resultados ainda mais arrasadores, pelejando contra Botafogo (7 X 1 e 2 X 1), Bahia (5 X 2 e 7 X 2), Galícia ((4 2), Vitória (4 X 1), porém perdendo mais uma vez para o Ypiranga (1 X 3).
Depois disto só quando terminou a ditadura Vargas e já se construía o Estádio Octávio Mangabeira (apelidado de Fonte Nova). Ganharia as três partidas que faria em junho de 1947, contra Vitória (5 X 2), Guarany (2 X 1) e Bahia (2 X 1); venceria o clássico contra o Fluminense carioca em janeiro de 1949 por cinco a zero; e excursionaria pela região do cacau e em Salvador em junho de 1950, onde se despediria do velho campo da Graça.
A Fonte Nova seria um grande mercado para os urubus. Suas primeiras partidas se dariam no Torneio Régis Pacheco, de triste memória para os baianos. Na oportunidade ganharia de oito a dois do Vitória, de dois a um do Bahia e ficaria em segundo lugar ao empatar com o Internacional (RS) em dois gols.
                                                  As vezes se confunde com a nação!

A partir de 1955, por sete anos seguidos, visitaria o estado, onde, entre outras partidas, jogaria a última vez com o Ypiranga em abril de 1955(2 X 1), ganharia da Seleção de Itabuna (7 X 1) e do Fluminense de Feira de Santana (5 X 0), e perderia para a Seleção baiana (0 X 2). Nos anos 60 jogaria por quinze vezes na Bahia, a maioria delas no interior do estado. Nesta época o intercâmbio esportivo faz com que haja um equilíbrio nas disputas mantidas, especialmente, com os clubes de Salvador, registrando cinco derrotas para o tricolor baiano, perdendo para o São Paulo pelo escore mínimo (agosto de 1965), mas vencendo o clássico carioca contra o Vasco da Gama em novembro de 1966 em Vitória da Conquista (2 X 1).  
Os certames nacionais se iniciam ao final dos anos cinquenta com a Taça Brasil, mas o Flamengo só vai enfrentar clubes baianos ao fim da próxima década no “Robertão”. A estadia do clube no estado só ganharia regularidade com a criação do Campeonato Brasileiro no início dos anos setenta. Em todos os anos da década viria à Bahia, onde bateria o recorde jogando 33 partidas. Nos primeiros jogos por torneios nacionais, perderia (0 X 1), ganharia (3 X 1) e empataria (1 X 1) com o Bahia; enfrentaria o Vitória por duas vezes em 1973, registrando-se empates sem gols; golearia Itabuna (5 X 0) e Fluminense de Feira de Santana (6 X 0), e, mesmo ocorrendo vários empates, o urubu perderia apenas quatro partidas, três para o tricolor e uma para o rubro negro baiano.
A Era dos certames nacionais teria apenas alguns anos de ausência do Flamengo na Bahia, ditada geralmente pela queda de algum (uns) de seus clubes da Primeira Divisão. O fato apenas ocorreu em 1982, 1983, 2005,2006, e 2007, registrando-se na época o recorde de vinte e um anos seguidos da presença do Flamengo na Bahia.  Os baianos se recordam em especial das vitórias da Catuense (2 X 1) e do Itabuna (1 X 0) sobre o urubu em 1988; das visitas deste a cidade do frio ganhando do Serrano por duas vezes (4 X 1 e 3 X 1) no mês de julho de 1989 e 1990; dos jogos sensacionais com o Vitória, cinco a zero para os visitantes na Fonte Nova e cinco a zero para os leões da Barra no Barradão (com diferença de apenas nove meses entre 1997/1998) e de nova goleada carioca (5 X 1) em maio de 2004.

A última partida do urubu na Fonte Nova foi em seis de abril de 2003, e, pra quem gosta de superstições, sete anos antes da sua implosão. Naquele dia compareceram, 50.426 torcedores para ver Bahia e Flamengo, que formaram assim. O time de Nelsinho Batista atuou com Júlio Cesar, Fabio Baiano, André Bahia, Fernando e Athirson; André Gomes, Fabinho e Felipe; Andrezinho, Jean (Felipe Melo) e Zé Carlos (Fernando Baiano).
O tricolor de Bobô formou com Márcio, Guto, Marcelo Souza, Valdomiro e Lino; Jair, Otacílio (Nilson Sergipano), Paulo Sérgio (Marcelo Nicácio) e Preto Casa Grande; Cláudio. Jogaram ainda Luiz Alberto e Adriano. Na ocasião todos os gols foram marcados por flamenguistas, Fernando Baiano e Felipe a favor e Fabinho contra, terminando em dois a um para os cariocas.  Não podia dar outro resultado, afinal tinham muitos baianos na equipe e, no mês anterior, o urubu completara cinquenta anos da sua primeira partida na Fonte Nova.
                                                              Ih, com esse aí sujou!

·   Agradeço as informações dos sites Flamengoestatísticas.com, do oficial do clube, do Futipédia e do Almanaque do Futebol Brasileiro. Sou grato as iomagens dos blogs eusouflamengo.com,magiarubronegra.worpress.com,taiapuramagia.blogspot.com,oglobo.globo.com,ligerinhonoesporte,blogspot.com,zoacaofc.com e alcilenecavalcanti.com.br.

quinta-feira, 17 de março de 2011

Coração de mãe não se engana

                                                              Cartão vermelho?

Só faltam dois meses pro Dia das Mães. E eu, mesmo sem ter mais a minha querida Helena estou anotando os filmes que tratam de mães. Mas me cansei de relacionar. Há Tudo sobre minha mãe do Almodovar,Uma mãe em apuros, A mãe, de Pudovkin(do célebre livro de Gorki), Minha mãe quer que eu me case, Minhas mães e meu pai, e muitos outros. Dizem que coração de mãe não se engana. Afinal, mãe é mãe. Essa conversa começou muito tempo antes de Cristo na Grécia e Roma antigas, onde eram celebradas Rhéa e Cybele (que não é a minha esposa) mãe dos deuses. A homenagem dos “pagãos” foi depois encampada pela Igreja Católica e se espalhou pela Europa á medida em que o mesmo acontecia com esta.
Nos Estados Unidos registram o ano de 1872 como a primeira vez que foi lembrado no país. Mas a data é debitada a Anna Jarvis que perdeu a mãe em 1904 e propôs á igreja da cidade um dia dedicado ás mães, que só começou a ser comemorado três anos depois. Na ocasião a cidade fez uma campanha no país que fez com que o presidente Woodrow Wilson (pensando em sua mãe, mas também nos comerciantes) oficializasse o segundo domingo de maio como o Dia das Mães.
No Brasil pouco se sabe quando surgiu esta data. Tal como muitas outras, deve ter sido instituída menos pelas mães e mais pelo comércio, embora os pesquisadores não costumem verificar o esporte. O futebol baiano descobriu muito antes dos outros a necessidade de comemorar o Dia das Mães. E esta necessidade de louvar as mães cobre desde o amadorismo até o profissionalismo. Na primeira fase se destaca a generosidade das mães, assim como os jogadores que sequer recebiam dinheiro dos clubes e jogavam até doentes e contundidos. Na segunda fase, porém, o comércio tomou conta do futebol e até afetou as mães. Vamos ver como foi isto!
                                          Ói a mãe assistindo um desses jopgos horríveis!

No ano em que se iniciou o campeonato baiano, em 1905, souberam da proposta de Anna Jarvis, mas pularam a data.  No ano seguinte decidiram dar a contribuição baiana ao mundo antes que a própria igreja da cidade dela decidisse isto. Assim celebraram discretamente as mães no segundo domingo de maio com o jogo Internacional 4 Baiano de Tênis 0. Mas a homenagem saiu pela culatra, pois o Internacional (que não é o de Porto Alegre) se deu mal tendo que abandonar o campeonato perdendo esses únicos pontos que havia conquistado. Afinal, ainda não era lei.
Isto deixou os clubes desconfiados passando alguns anos antes de se arriscarem com outra homenagem as mães. Em 1911 quase fizeram, mas acabaram trocando o dia pelo sábado programando o jogo SC Bahia 3 X 1 Rio Vermelho. As mães de Salvador ficaram uma “arara” e jogaram uma praga nos clubes que participaram. Resultado, os clubes desapareceram do mapa e só voltaria a ter na terrinha um time chamado Bahia 20 anos depois. É que praga de mãe é fogo!
Como disse antes o presidente dos EUA oficializou o dia em 1914. Vocês sabem que no Brasil as elites tem o costume de seguir o que acontece naquela país. Aliás, não é á toa que o antigo governador baiano Juracy Magalhães disse que “O que é bom para os EUA é bom para o Brasil”. Assim os dirigentes esportivos baianos se sentiram seguros para a comemoração.
                                         Mamães protestando contra dirigentes esportivos!

Aí logo no outro ano, em 9 de maio de 1915, em plena Primeira Grande Guerra, escalaram um bom jogo para a comemoração, Fluminense 1 Sul América 0. As mães ficaram tão satisfeitas que desejaram que algum daqueles clubes conquistasse o título naquele ano, e não deu outra. O Fluminense conquistou seu único título na história do futebol baiano.
Desde então a homenagem ganhou certa regularidade. Nesta década ainda seriam feitas duas. A de 1917, porém suscitaria mágoa das mães. É que o Sul América não compareceu no dia da homenagem das mães tendo que as tristes mulheres que lá compareceram tendo que se contentar com a saída do Ypiranga para dar de WO.
A desconsideração abalou muitas mães, especialmente a do presidente da federação que foi muito lembrada pelos torcedores. O resultado é que pra comemorar o fim da guerra o próprio presidente da federação marcou uma homenagem especial pras mães abrindo o campeonato no seu dia em 1918. Só não escolheu bem o jogo, pois, apesar do Ypiranga ser bicampeão este ano o Internacional (ói ele de novo) acabou ficando na lanterna conseguindo perder todas as partidas! Mas as mães não disseram nada.

Aí o Dia das Mães já tinha se espalhado por muitos países da América e em 1921 os dirigentes resolveram homenageá-las outra vez. Na oportunidade, porém, tapearam as mães programando uma rodada dupla no novo Campo da Graça, que não ficou pronto a tempo na data. Assim esta teve que ser realizada no velhíssimo campo do Rio Vermelho que sequer tinha onde as mães sentarem. Dizem que muitas mães deixaram de comparecer, não vendo o futuro campeão aurinegro ganhar o clássico contra os diabos rubros por dois a um, depois de uma preliminar “enche linguiça” onde o Santa Cruz (quem é?) deu de três a zero no velho Fluminense FC.
No outro ano, porém, corrigiram o erro programando no novo estádio da Graça o grande clássico da elite da Barra e Vitória na época, Baiano de Tênis e Associação Atlética que foi vencido pelo primeiro por dois a zero, num ano em que o Botafogo sagrou-se campeão. O campo da Graça era uma novidade e as mães viram muitas homenagens ali.
Em 1923 houve um campeonato sensacional, onde empataram quatro clubes com 25 pontos, tendo que haver um supercampeonato entre Botafogo, Associação, Baiano de Tênis e Ypiranga. Mas só os dois últimos participariam da rodada dupla em homenagem as mães, que teve o Fluminense ganhando de quatro a um do Vitória na preliminar e o empate no clássico em um gol na partida de fundo.
                   
                                                                     Mães gaúchas 

Três anos depois nova homenagem onde o Baiano de Tênis ganharia do Fluminense FC por dois a um no ano em que seria vice-campeão. Como as mães reclamavam da descontinuidade da celebração de seu dia resolveram fazê-lo por quatro anos seguidos. Em 1927, aproveitando a primeira participação do Guarany no campeonato, embora tomasse de quatro a um da Associação; em 1928, com a derrota do baiano de Tênis para o Fluminense FC (4 X 5) que lhe custou à perda do título para o Ypiranga forçando um jogo final onde perdeu por sete a dois; e em 1929, com a vitória da Associação contra o Fluminense por três a dois.
No entanto a crise da Bolsa de Nova Iorque e a chamada Revolução de trinta no Brasil fez suspenderem as homenagens, que só voltariam em 1931. Na ocasião seria a primeira participação de um novo clube, criado através da fusão dos dois principais clubes da década anterior Baiano de Tênis e Associação Atlética, que haviam acabado com seu departamento de futebol, o EC Bahia. E foi ele o destacado para a homenagem ganhando o Ypiranga de seis a dois e também o título deste ano.
As homenagens foram de novo suspensas por ocasião da chamada Revolução Constitucionalista de 1932, mas no ano seguinte as mães estavam de novo ás postos. Para celebrar a sua data foi agendado um dos primeiros BA-VI que se tem notícia, ganho pelo tricolor por três a dois.

                                                        Mãe moderna no salão!
Passada a crise somente em 1937 a federação voltaria a insistir na homenagem. As mães estavam em alta e só colocavam clássicos em seu dia, desta vez cabendo a Bahia e Ypiranga as honrarem com a vitória tricolor por três a um. Mas a crise voltou quando menos se esperava. Crise política (com o estabelecimento do Estado Novo) e crise no esporte, com a ocorrência de dois campeonatos no mesmo ano.
Mas as mães só foram homenageadas no primeiro, e desconsideradas pelo segundo, que acabou antes do seu dia. No campeonato ganhou pelo Botafogo foi o próprio alvi rubro que fez as honras da casa, embora enfrentasse o desconhecido Yankees vencendo por quatro a um. O estado passou a ser governado por interventores embora tivessem mães. Assim não ficou ruim pra elas que tiveram homenagens em 1941, 1943 e 1944, mesmo estando o mundo em nova guerra. Na primeira tiveram a satisfação de ver o campeonato novamente se iniciar em seu dia, com o clássico Bahia 2 Ypiranga 1, fazendo com que o auri negro parecesse que não tinha mãe, pois perdia todos os jogos contra o tricolor neste dia.
Na segunda novo clássico, no segundo jogo do campeonato, onde o Vitória bateria o Galícia por quatro a três forçando a que este ano houvesse um supercampeonato entre os alvirrubros (campeões), os azulinos (vice) e o próprio rubro negro (terceiro lugar). Na última foi escalado o clássico do pote entre Bahia e Botafogo com o tricolor ganhando de três a um, embora os diabos rubros fossem vice lanternas.
                      
Quando acabou a Segunda Grande Guerra foram buscar as mães pra comemorar a sua data. Era o segundo domingo de 1947 e foi o clássico BA-VI o responsável pela honraria. Na oportunidade o tricolor ganhou pelo escore mínimo com gol de Viana, disputando e ganhando também nesse ano a sua primeira final de campeonato contra o arquirrival rubro negro.
No novo estádio da Fonte Nova a primeira homenagem às mães só saiu em 1954. As mães baianas ficaram muito aborrecidas por isto. Pra enrolá-las a antiga FBDT programou a celebração da data em pleno supercampeonato deste ano, onde disputavam Bahia (campeão), Botafogo (vice) e Vitória (terceiro). Vocês já repararam que o rubro negro não tem sorte nesses “super.”? Nem teria na partida onde perderia, na frente das mães, por dois a zero. A outra ocasião na década seria dois anos depois, onde a federação homenagearia as mães da capital e do interior, já que o Fluminense de Feira de Santana seria vice-campeão estadual em sua terceira participação, no jogo em que empatou com o time da colônia espanhola sem gols.
Dez longos se passaram desprezando as homenagens. Às vezes fico pensando que dirigente esportivo não tem mãe. A federação agora só pensava no interior, e este ano marcou jogos no Dia das Mães pra Ilhéus e pra feira de Santana, esquecendo-se da Fonte Nova, que sempre foi uma mãe do futebol de Salvador. O resultado é que as mães jogaram uma praga tão forte que todos os times que tomaram parte na rodada não arranjaram nada no campeonato, que acabou sendo ganho pelo Galícia.
                                                       Até os rinocerontes tem mãe!
 O rompimento das mães soteropolitanas com a nova FBF durou quase vinte anos que estava mais sintonizada com a ditadura militar. Só quando veio a chamada “abertura política” é que a federação veio se abrir para as mães. Aí programaram sucessivas homenagens em seu dia. A primeira foi em 1975 quando Vitória e Atlético (1 X 1) e Bahia e Botafogo (1 X 0) abriram a fase; a segunda em 1976, com Vitória e Leônico (1 X 0) e Bahia e Atlético de Alagoinhas (3 X 0) na segunda fase do primeiro turno; e a terceira em 1977, quando o Bahia se classificou em seu grupo para um dos quadrangular decisivos, ganhando do Galícia pelo escore mínimo.
Depois do general-ditador Geisel viria Figueiredo que diria “prendo, mato e arrebento” quem for contra a abertura. No futebol continuavam promovendo homenagens ás mães. A primeira foi no ano em que o general-presidente (que gostava mais de cavalo do que de gente) tomou posse, em 1979. Na ocasião se deu a primeira rodada do quadrangular decisivo do primeiro turno, quando o Bahia ganhou do Leônico por dois a zero. Mas a segunda só saiu depois que a oposição ganhou as eleições pra governador em vários estados.
No fim deste ano começaria a campanha das Diretas Já e os dirigentes esportivos ficaram preocupados pensando que uma nova situação poderia ameaça-los. Aí fizeram no Dia das Mães a rodada de abertura do campeonato, embora com jogos chinfrins, onde o redenção perdeu da Catuense (1 X 2) e o Botafogo ganhou do Itabuna (1 X 0).
                                                     Coração de mãe é grande mesmo!
Quando terminou o regime militar, logo após se enturmar de novo com os governantes, os dirigentes resolveram fazer novas homenagens às mães. Em 1986 jogaram pesado colocando a própria dupla, que decidia o campeonato, na programação, que apresentou a vitória tricolor por dois a zero. Mas, em 1987, de novo não se lembrariam das mães de Salvador, programando em seu dia somente jogos no interior na decisão da segunda fase do segundo turno. Isto voltou a chatear as mães que acabaram torcendo pra Catuense, que acabou ganhando a fase e criando muitas dificuldades pro tricolor vencer o campeonato.
Os dirigentes aprenderiam a lição marcando novas homenagens seguidas. No ano seguinte o Dia das Mães iniciaria a primeira fase do segundo turno, embora com o sem graça Botafogo e Serrano (2 X 1). E, em 1989, uma rodada dupla no segundo turno, entre Galícia e Itabuna (3 X 1) e Leônico e Serrano (0 X 1).
Com o resultado das eleições presidenciais de 1989 os dirigentes botaram as “mangas de fora”. O país passaria á hegemonia neoliberal que se prolongaria por toda a década, mesmo com uma breve interrupção em 1992 com o impeachment de Collor. A reestruturação produtiva fez a cabeça desses dirigentes, embora eles não quisessem mudar coisa nenhuma.
                                                           Essa também é mãe!
Desta forma só haveria homenagem em 1997, quando FHC já estava em seu segundo mandato, e no Barradão, que já merecia a atenção das mães. Na oportunidade o rubro negro ganhou do seu arquirrival tricolor pelo escore mínimo. As mães levariam nove anos pra voltar a ser homenageadas na Fonte Nova, e sua mágoa se expressaria no seu dia fazendo com que torcessem pro Camaçari, que ganharia do Bahia por três a um no estádio.
O novo milênio, com o crescimento do PT, mudou os dirigentes esportivos baianos da agua pro vinho.  Agora já não eram liberais, mas trabalhistas.  Mas se machucaram com as mães em 2000 ao começar o campeonato no segundo sábado de maio, quando o tricolor suou pra ganhar do Vitória da Conquista na Fonte Nova. Corrigiram o erro no ano seguinte convidando as mães pra assistir o grande clássico Bahia e Vitória, que seria vencido pelo rubro negro pelo escore mínimo.
Os anos de 2003/2006 seriam trágicos para o futebol baiano presenciando a queda sucessiva da dupla BA-VI para a Segunda, e daí para a Terceira Divisão.  E foi bem feito, pois não tiveram a menor consideração com as mães, terminando o campeonato antes de seu dia. Lembrariam-se delas apenas em 2006, programando o jogo entre Vitória e Fluminense no Barradão, nas quartas de final do certame baiano. Como as vacas estavam magras colocaram no seu dia, no ano seguinte na última rodada, o grande clássico BA-VI no Barradão, que terminou empatado em dois gols.
                                                          Vejam que angelical!
Foi por isto que as mães torceram para que os clubes baianos voltassem para o seu lugar de direito. O primeiro foi o Vitória que subiria pra Segunda em 2006, e logo no ano seguinte para a Primeira Divisão. O Bahia subiria em 2007 pra Segunda, mas cumpriria estágio de três anos pra voltar pra Primeira.

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