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quarta-feira, 18 de janeiro de 2012

Adeus não, me diga até breve


Zeca Araújo é desportista, poeta e musico.

O cancioneiro brasileiro registra diversas despedidas. Mas a maioria delas rejeita a palavra adeus, o que insinua a esperança de um reencontro. Muitos termos mais forram usados para substituição desta fatídica e definitiva palavra, como até logo, volto já e até breve. De todas ela a mais famosa foi a homenagem feita para Bob Marley pelo Bloco Carnavalesco Muzenza. O poeta Zeca Araújo mostra, no entanto, que este legado existe também na poesia, particularmente quando se fala em Fonte Nova.
ADEUS FONTE NOVA, VELHA FONTE.
ROUPA VELHA, ROUPA NOVA.
MORRE A VELHA COM ESPETÁCULO,
NASCE A NOVA, UM NOVO PALCO.
                                                 Dique do Tororó nos anos quarenta.

NÓS E O MUNDO VIMOS A POEIRA LEVANTAR,
OUVIMOS UM GRITO UNÍSSONO Ô Ô Ô Ô Ô Ô Ô...
E NÃO HAVIA FUTEBOL
NEM ERA UM GRITO DE GOL.
A VELHA ARENA VIROU PÓ.

FOI TÃO LINDA A IMPLOSÃO!
LÁGRIMAS INUNDARAM O DIQUE,
NO POVO, UM SÓ CORAÇÃO.
  Linha de bonde em 1945 ao lado de onde seria construída a Fonte Nova!

NAQUELA VELHA ARENA
VIMOS NOSSO TIME JOGAR.
VITÓRIA, BAHIA, YPIRANGA,
GALÍCIA, UM TÍTULO DOAR.

LEÔNICO, SÃO CRISTOVÃO,
BOTAFOGO DO VELHO SOTERO MONTEIRO,
IDEAL DE SANTO AMARO, SMTC,
ESTRELA DE MARÇO E O TIME DA  ABB.
                                 Caetano Veloso num BA-VI dos anos 60, com Zé Oto e Romenil.

MONTE LÍBANO E REDENÇÃO.
ATLÉTICO E CATUENSE,
DOCE CLÁSSICO DA LARANJA.

DO SERTÃO, O FLUMINENSE.
TINHA O BAHIA DE FEIRA,QUE VOLTOU COMO FEIRENSE.
O CRUZEIRO DE CRUZ DAS ALMAS, JUAZEIRO  E BARREIRENSE.
EM VITÓRIA DA CONQUISTA, O SERRANO E O CONQUISTA,
E, AO NORTE, O JUAZEIRENSE.
                Uma das decisões da Taça Brasil na fonte do futebol!

VITÓRIA DE ILHÉUS E COLO- COLO, A FORÇA AZUL  ITABUNENSE.
FLAMENGO DE ILHÉUS E POÇÕES,
PALESTRA, CAMAÇARIENSE E  SÃO FRANCISCO DO CONDE
BRILHARAM NESSA FONTE  BAVIENSE.

MUITOS TIMES, SELEÇÕES
BRILHARAM NO  PALCO QUE HOJE É PÓ,
DE GOL VIRADO PRA FONTE
E PRO DIQUE DO TORORÓ.
                            A Fonte Nova depois de interditada.
CHOREI NO EXATO MOMENTO QUE VOCÊ IMPLODIU,
A NATUREZA DEU O SOL, E TUDO VOLTOU A SER PÓ!
E ESSA POESIA NASCEU DO SOFRIMENTO,
PELO GIGANTE QUE DORMIU
NA GARGANTA, UM SÓ LAMENTO,
PELO FILHO QUE PARTIU.

SEI QUE NOVA FONTE VIRÁ,
MAS FICARÁ   A  SAUDADE
DAS BELAS  TARDES  DE  DOMINGO,
ALEGRIA DA CIDADE.
                        


fussballtempel.net
                             Virou só um pedaço da fotografia! 
ATÉ BREVE FONTE QUERIDA,
SEMENTE NO DIQUE PLANTADA.
SEJA BEM VINDA, NOVA ARENA,
PRA NOSSA CIDADE ENCANTADA.

DOMINGOS, VERÕES, CARNAVAIS,
SAUDADES DE TUDO QUE VÍ.
PERDÃO SE ESQUECÍ ALGUM TIME,
MAS ESSE POEMA REDIME
ESSE POETA  BAVI.

E SE ALGUÉM SE ACHAR LESADO,
QUISER SER INDENIZADO
  AO  SÃO JOSÉ  DE  CIMA,
DEIXE A TRISTEZA AÍ
CORRA E PEGUE   O  GUARANI.

SEI QUE VIRÁ NOVA FONTE
MAS, FICARÁ A SAUDADE
DAS BELAS TARDES DE DOMINGO
QUE ERAM A ALEGRIA DA CIDADE.




quarta-feira, 13 de abril de 2011

A vida começa aos quarenta


                                                                       Quando a prata tingir meus cabelos
                                                                       meu coração vai ser ouro                   
                                                                       num amarelo tão cintilante
                                                                      que será impossível não atingir alguém.
                                                                      Mais forte que a magia de Midas
                                                                      e, quem tocar, vai virar ouro também.
                                                                                                 (Autor desconhecido)

Tem gente que diz que a vida começa aos quarenta. Nunca fui nesta conversa, pois quando cheguei a esta idade passei a desejar ardentemente voltar à juventude, mesmo com toda a falta de experiência. No entanto, tive que “dar a mão á palmatória” para as vantagens da gente ser quarentão. Aliás, comprovei isto no próprio futebol.  
Cheguei aos trinta e sete anos no final da ditadura militar quando o Vitória voltou a ganhar o título baiano em 1985. E, há quarenta anos, vendo o EC Bahia ser campeão Brasileiro. Aos 41 e 42 presenciei o rubro negro voltar a ser “bi”, o que não ocorria há um quarto de século.
Com a Fonte Nova aconteceu coisa parecida. Inaugurada em 1951, três anos após eu nascer, ela quase acompanhou minha vida.  Já estava próxima aos quarenta quando o Bahia ganhou, de novo, um título nacional. E, aos 41 e 42 anos de nascida. Viu novamente um clube baiano participar de decisões nacionais. A primeira foi a final da Segunda Divisão em 1992, entre Vitória e Paraná, quando o rubro negro, perdeu por um a zero ficando com o vice-campeonato.
                                              Na época a Fonte Nova entrou numa academia!

A segunda foi logo no outro ano, mais uma vez com o rubro negro, que chegou novamente as finais, desta vez da Primeira Divisão, e fez jogos sensacionais com o Palmeiras. O público foi de 77. 772 torcedores na Fonte Nova, e o Vitória do técnico Fito Neves formou com Dida, Rodrigo, João Marcelo (Evandro), China e Renato Martins; Gil Sergipano, Roberto Cavalo, Paulo Isidoro (Gerônimo) e Alex Alves; Claudinho e Pichetti. O Palmeiras de Vanderlei Luxemburgo atuou com Sérgio, Cláudio (Amaral), Antônio Carlos, Cléber e Roberto Carlos; Cesar Sampaio, Mazinho e Zinho; Edmundo, Edilson (Jean Carlo) e Evair.
O jogo foi decidido faltando uma dezena de minutos para o final, quando o juiz não marcou um pênalti em Pichetti e Edilson, pouco depois, entrou pela direita e calou a massa rubro negra assinalando o gol do triunfo. Poucos dias depois perdíamos de dois a zero no Morumbi quando nem deu tempo pra sonhar, pois os gols surgiram logo no início da partida.
Foi nos quarenta e três anos da Fonte Nova que ela viu um concorrente, quando nasceu o filho de sua irmã, o “Barradão”. O Vitória passava a mandar seus jogos no estádio e o nosso histórico estádio ficava desfalcado da outra perna de sustentação do futebol baiano.  Só quando havia BA-VI, e o tricolor tinha o mando de campo, é que ela “matava as saudades” do “mundaréu” de gente que batia seguidos recordes de público nos anos setenta e oitenta.
                                       Gilberto Freire se foi, pra acompanhar a Fonte Nova!

A vida começa e pode terminar também aos quarenta se não houver cuidado. A Fonte Nova quase entra em depressão. Pior ainda quando foi estava com quarenta e oito anos e teve o maior “fuzuê” num campeonato que não terminou! É que, nas finais, após o Bahia ganhar de dois a zero do Vitória na fonte do futebol, recusou-se a jogar no Barradão alegando que ali não havia condição de disputar uma final do certame.
A alegação era despropositada, particularmente pelo fato de já terem sido disputadas ali outras finais. Aliás, o tricolor nem disse isto de frente, usando um laranja no processo, o Clube de Regatas Itapagipe, que foi quem entrou com o processo. O Vitória nem conversou, deu a saída e comemorou o título por WO. Passamos anos onde cada um deles se declarava campeão. Os STJDs da vida enrolavam e não decidiam. Mas, como convém no Brasil, tudo acabou em pizza, sendo declarados pela “Justiça” os dois campeões sem sequer entrar no mérito.
Quanto á Fonte Nova, logo após sair da casa dos quarenta, em 2001, veria pela última vez o ECBahia ser campeão. A idade dos quarenta havia passado e agora foi só caminhar ladeira abaixo. Não se decidia mais título baiano na fonte do futebol, passando todos a aconteceram no estádio de seu sobrinho Barradão.  Mas a situação ainda iria piorar. É que, em 2003, o tricolor iria cair pra Segunda Divisão, acompanhado pelo rubro negro no ano seguinte. E, pouco tempo depois, ambos cairiam para a Terceira Divisão.
                                                    Até o leão já estava alquebrado!

O futebol baiano vivia a maior humilhação da sua longa história, e logo quando haviam passados a idade dos quarenta tão gloriosa da Fonte Nova. Pior que estava não poderia ficar. Mas é o que ela pensava, pois, em 25 de novembro de 2007, um desastre ocorreria no jogo Bahia e Vila Nova (GO) quando cede um trecho da arquibancada matando sete torcedores. A tragédia faz com que o governo do estado, pouco depois da confirmação da Copa do Mundo de 2014 no Brasil, proíba a realização de jogos no estádio.
Nosso histórico estádio então entra inexoravelmente em depressão. Quem passou neste tempo na Ladeira da Fonte ouvia ruídos estranhos. Era a Fonte Nova chorando se lembrando dos seus tempos áureos dos quarenta anos. Sonhava com o povo voltando ao estádio e com a era de seus grandes dias e noites.
Ela não merecia este destino. Afinal, em sua infância havia sediado a decisão da I Taça Brasil ganha pelo tricolor baiano. Tinha visto Pelé, Garrincha, Zico, Falcão, Sócrates, e muitos outros craques. Tinham sido decididos ali pelo menos quarenta campeonatos baianos. Consolou-se, porém, com algumas coisas. Os Sem tetos ocuparam suas instalações nesse tempo e trouxeram certo prazer á fonte do futebol. Afinal, mesmo sem pagar, eles faziam parte do povo que tanto gostava.
                                                     Ói os sem tetos na Fonte Nova!

De vez em quando ia nadar na piscina, correr na pista, e assistir futebol de salão e lutas márcias no Ginásio Antônio Balbino (o “Balbininho”). Foi ela mesmo que propôs a SUDESB realizar o “baba do licor” dos seus funcionários na tribuna de honra. O argumento que ela usou na oportunidade foi decisivo, afinal o que estava interditado era o gramado!
Ó Fonte Nova, ela não sabia muito sobre os homens. Não acompanhou os projetos que haviam da Copa de 2014. Se ela soubesse certamente apoiaria aquele que propunha aproveitar o seu anel inferior na construção do novo estádio, e não teria gostado nado do balão de ensaio pra mudar o seu nome pra “Lulão”.
Mas a cada dia se firmava um novo projeto, o da construção de um novo estádio mantendo o mesmo nome. A Fonte Nova até que viu aquele pessoal, engenheiros, peritos e técnicos, entrarem na calada do dia e da noite, furando suas colunas e colocando um bocado de coisa ali. Aquilo lhe doeu um bocado. Será que iriam aproveitar a sua parte de baixo? No entanto não lhe disseram nada! Também, já tinha passado há muito dos quarenta anos.
                                           Sacanagem, afinal não estava tão velha assim!

Um dia, em agosto de 2010, acordou mais tarde, e viu uma algazarra tremenda em seu entorno. Os técnicos continuavam ali, mas o povo estava muito longe. Viu até uns helicópteros passando e tirando fotos. Pensou então que voltava aos seus anos quarenta, de glorias inesquecíveis. Imaginou que sua irmão ficaria com inveja, pois destronaria o Barradão. Na oportunidade ficou chateada, pois não haviam colocado sequer uma televisão para que ela pudesse apreciar o movimento.
Mas, enquanto ouvia uma musiquinha aproveitaram pra colocar tudo a baixo. Uma implosão levava aquele monumento que, durante cinquenta e nove anos, com o qual se acostumaram algumas gerações. A cidade, o estado, o país, e talvez o mundo, ficavam mais pobres, sem a nossa querida Fonte Nova.

·          Agradeço as informações do site RSSSF Brasil e de Carlos Soares. Sou grato ainda as imagens dos sites da Americanas e Adorocinema, e do blog gvpoeta.blogspot.com. 

quinta-feira, 20 de janeiro de 2011

A primeira morte da Fonte Nova

                                             
 Morremos de morte igual, mesma morte Severina, que é a morte que se morre de velhice antes dos trinta, de emboscada antes dos vinte, de fome um pouco por dia, de fraqueza e de doença.                                                    
                                                                                                                         João Cabral de Melo Neto

Você já ouviu falar de alguém que morreu duas vezes? Pois foi o caso da Fonte Nova. Tem até as datas. Uma foi em 25 de novembro de 2007 e a outra em 29 de agosto de 2010. Na primeira morte lhe tiraram a alegria de viver suspendendo todos os jogos. Até os “babas” dos funcionários da SUDESB passaram a ser realizados no Ginásio Antônio Balbino. A Fonte Nova levou três anos chorando, até que veio a segunda morte, esta com requintes de crueldade. Como ela era grande e forte a assassinaram a base de dinamite. Morreu a primeira vez de morte morrida, mas a segunda foi de morte matada.
Corria o ano de 2007. A Bahia tinha um novo governador, Jacques Wagner, e o tricolor ansiava por se livrar da Terceira Divisão. O Vitória tinha subido pra Segunda no ano anterior e dava dó ver a cara dos tricolores. Pra contar com o apoio da mal tratada Fonte Nova foram buscar o antigo ídolo Bobô do esquadrão não tão de aço pra ser superintendente da SUDESB, o órgão responsável pelo estádio. Ela concordou, inclusive por ser uma forma de se livrar da maioria dos clubes monstruosos que infestavam seu gramado. Mas exigiu pintura, limpeza e manutenção. 
Mas este não foi o único objetivo. No último ano em que funcionou a Fonte Nova houve Campeonato Baiano, Copa Brasil, Campeonato Brasileiro, e otras cositas mas. No São João, por exemplo, foi realizado na Tribuna de honra o “baba do licor” dos funcionários, houve o jogo Bahia X Leônico (?) pela Taça Estado da Bahia, e a importante decisão da Copa Evangélica! Assim, aconteceu ali pelo menos 35 jogos.
                                Torcedores mortos na última tragédia da Fonte Nova em 2007
O Campeonato Baiano começou em 14 de janeiro com o jogo entre Bahia X Camaçari registrando a vitória do tricolor por dois a zero. Ao longo da fase de classificação o esquadrão de aço ainda voltaria a jogar no estádio por dez vezes, ganhando dos interioranos Fluminense (3 X 2), Itabuna (3 X 1), Catuense (5 X 1), Colo Colo (3 X 1), Atlético (1 X 0), Ipitanga (3 X 2), Poções (3 X 2) e Vitória da Conquista (2 X 1); empatando com o Juazeiro (2 X 2) e perdendo apenas do Vitória (2 X 4), no dia onze de março.
A fase final registraria o maior BA-VI de todos os tempos logo na primeira rodada. Foi à verdadeira despedida da Fonte Nova. Parece que pressentindo o que ia acontecer o estádio voltou aos velhos tempos e promoveu um jogo espetacular pra ficar na memória de todos aqueles que o assistiram, e onde o rubro negro ganharia pelo esdrúxulo escore de seis a cinco do seu arquirrival com direito a quatro gols de Índio. 
Depois disto o estádio abriria para ver o tricolor ganhar do Poções de 4 X 2 e empatar em dois gols com o Atlético perdendo o título por antecipação para o Vitória, que se deu ao luxo de empatar com o tricolor, também em dois gols, no último jogo no “Barradão”. Na fase final do certame o rubro negro alcançaria 16 pontos e o tricolor somente onze. Duas semanas depois Romário marcaria o seu milésimo gol.
                                                      Tá pensando que já morreu?

A Copa Brasil foi disputada enquanto transcorria o Campeonato baiano. O Bahia até que foi longe nesse último ano de Fonte Nova.  Estrearia, entretanto, de forma desastrosa, pegando o Itabaiana de Sergipe, para o qual perdeu por um a zero em plena Fonte Nova, só se classificando por ter ganhado fora por dois a um. Em março conseguiria passar pelo Goiás aos trancos e barrancos empatando em um gol na Fonte Nova, após empatar em três gols em Goiânia. A inchada tricolor comemorou muito o empate em um gol no Maracanã contra o clube “pó de arroz”. Bastava o empate sem gols pra sacramentar uma nova classificação. O empate ocorreu, mas por dois gols que tiraram uma passagem pras quartas de final do certame.
Junho foi mês de esquentamento pro início da Terceira Divisão. Pra não ficar parado, o tricolor realizou dois amistosos na Fonte Nova e vários outros no interior do estado. Na ocasião, empatou no estádio com o Sergipe (1 X 1), mostrando dificuldade nos jogos contra os clubes daquele estado, e ganhou do Fluminense (BA) por três a um.
Aí começou o mais importante certame do ano pro tricolor ganhando do Asa de Arapiraca por dois a zero.  O importante não era o aniversário mas a data simbólica onde isto acontecia, consagrada mundialmente a queda da Bastilha. Mas, três dias depois ocorreria o maior desastre da aviação latino-americana, quando a queda do voo 3054 provoca quase duzentos mortos. Mesmo assim o tricolor consegue evoluir de grupo após passar pelo América e Confiança, conseguindo ganhar pela primeira vez no ano de sergipanos na Fonte Nova.
                                                              Sái pra lá agorento!
O estádio seria indispensável pra que o tricolor passasse das próximas fases. Na segunda, derrotaria ali o Linhares (ES), o Nacional de Patos e o Atlético Cajazeirense (ninguém merece!). Quatro dias depois o mundo sofria com a morte do tenor Luciano Pavarotti. Enquanto isto o terceira prosseguia no certame, caindo sobre seus pés o ABC (RN) e o Rio Branco (AC), faltando apenas à última partida contra o Fast Clube (AM).
No entanto, conseguiu chegar aí às duras penas. Para o tricolor se classificar necessitava ganhar e que o Rio Branco não vencesse acabando por “rolar” coisas muito estranhas no certame. Na ocasião foi denunciado encontro de dirigentes do Bahia e ABC que tiraria preciosos dois pontos dos acreanos.  Quanto ao jogo da Fonte Nova seria um horror. A Fonte Nova teria literalmente que sequestrar o relógio do árbitro pra ocorrer o gol de Charles horas depois que havia acabado o tempo regulamentar.
Mas seja como for o tricolor chegou à fase final, onde jogaria mais sete partidas na Fonte Nova. O estádio, porém não aguentava mais a falta da manutenção adequada e os “monstros” que trouxeram pra jogar. Aí o pessoal enrolou de tudo quanto foi jeito. Disseram que era só por dois meses e que depois iriam deixar a Fonte Nova “um brinco”. Mas o estádio não foi na conversa obrigando a que o tricolor tivesse de ganhar pontos fora de casa pra subir para a Segunda Divisão.
                                                          E aí, há vida após a morte?
Deu pra ver na estreia na fase final que a Fonte Nova estava falando sério. Ora, logo agora esta “operação tartaruga” no estádio? O Bahia passaria pelo conhecido CRAC de Goiás no maior sufoco, um a zero, em quatorze de outubro.  Não conseguiria ganhar dos próximos adversários, perdendo pontos preciosos nos empates em dois gols com o Barras-PI (o que é isto?) e o Bragantino-SP.
A coisa exigia enérgicas providencias, e foi dada uma pintura sem reboco no estádio pra contornar a situação. Logo a seguir o tricolor consegue ganhar do nacional de Patos por três a zero. Mas a tinta saiu na primeira chuva levando a novo empate do esquadrão de aço, agora contra o Atlético Goianiense em um gol.
Os últimos três jogos seriam decisivos para o Bahia. Uma romaria de dirigentes e atletas foi conversar com a Fonte Nova. Pediram, suplicaram e prometeram. O estádio lhes perguntou:
- A quem estás carregando, irmãos das almas, embrulhado nesta rede? Dizei para que eu saiba.
- A um defunto de nada, irmãos das almas, que há muitas horas viaja à sua morada
           Veja quanta gente em cima do caixão da Fonte Nova!

Aí o estádio chorou e se apiedou do destino do tricolor que voltou a ganhar, desta vez do ABC por três a zero! A subida pra Segunda Divisão já estava quase garantida bastando empatar o último compromisso em Salvador, contra o Vila Nova de Goiás. Nesta ocasião, porém, a Fonte Nova percebeu uns rostos atravessados. Os mesmos que tinham ido visitá-la desta feita desapareceram pois não precisavam mais dela. No próximo ano, onde seriam realizadas eleições municipais, viriam de novo á sua presença pra garantir a subida pra Primeira.  Nesse dia, por mais que o ataque tricolor tentasse não conseguiria abrir o escore na Fonte Nova.

No entanto, uma surpresa estava reservada para todos. Olhe que o estádio já viu dias tristes e de calamidades, mas este dia vinte e cinco de novembro de 2007 ultrapassou as raias do imaginável quando, no segundo tempo, um dos trechos da Fonte Nova sem manutenção cedeu matando sete pessoas que caíram de uma altura de mais de vinte metros.
Nosso estádio chorou muito neste dia, mais do que certos dirigentes e autoridades esportivas que haviam conseguido seus objetivos. Mas a coisa deu mais repercussão que imaginavam. O mundo todo saberia da tragédia. Vinte e cinco dias antes a FIFA havia anunciado a realização da XX Copa do Mundo em 2014 no Brasil, e o governador aproveitaria a ocasião para fechar o estádio acabando de vez com as reclamações da Fonte Nova. Esta choraria ainda muito mais. Não veria mais o povo de Salvador que adorava. Nunca mais apreciaria um BA-VI nem os grandes jogos nacionais e internacionais. Despedia-se dos grandes jogadores e da emoção dos gols. Mas não foi só ela que chorou.

O próprio João Cabral de Melo perguntava as autoridades que haviam feito isto com o estádio:
- Mas então porque o mataram irmãos das almas,
- (...) Queria voar mais livre essa ave-bala. 
Não contente com isto estas se dirigiam a Fonte Nova com mau agouro:
Esta cova que estás com palmos medidos é a cota menor que tiraste em vida.
É de bom tamanho, nem largo nem fundo, é a parte que lhe cabe neste latifúndio.
(...) Aí ficarás para sempre, livre do sol e da chuva criando suas saúvas.
Um dia depois que saiu o decreto do governador fechando o estádio a própria morte apareceu. Chegou na portaria com sua gadanha e ordenou(porque a morte não pede) a abertura do portão para ela entrar. Os porteiros até tentaram enrolar mas, qual, bastou um olhar da morte pra sentirem frio até a sétima geração. O que ocorreu no dialogo entre ela e a Fonte Nova ninguém vai saber. Certamente nosso estádio disse que foi um engano que ela tinha morrido “por dentro” e que esta ainda não era a solução final da morte. Parece que convenceu a infeliz pois esta foi embora.
Nossa Fonte Nova ainda resistiu quase três anos internada em uma UTI, ameaçada de ser posta pra fora em função do Estado não pagar a conta. Foi assim eternizada pelos clássicos. Sua triste situação apareceu em Apocalipse(20.15)
e se alguém não for achado inscrito no livro da vida, esse será lançado para dentro do lago de fogo.  

Será que pensaram em enterrá-la no Dique do Tororó?


O grande escritor Lev Tolstoi deveria tê-la conhecido, pois descreveu admiravelmente o que sentia
A consciência de que sua morte está próxima e seus gritos de dor lançam-na na mais terrível solidão que entra em choque com a frivolidade das pessoas que a cercam, que a tratam como um doente inoportuno.
Machado de Assis disse que não tinha filhos e não teria transmitido seu legado pra ninguém. E, o próprio Emile Zola, observou que quando foi declarada morta foram tomadas todas as providencias para o sepultamento
Atestado, caixão, carro fúnebre, enterro, etç. O problema é que ela está física e mentalmente consciente. Aterrorizada, ela vê, ouve, fala, mas seu corpo permanece inerte. Tenta comunicar-se inutilmente com as pessoas ocupadas em enterrá-la.
Nessa época jogou uma praga contra aqueles que a enganaram: só quando morresse sairiam da Segunda Divisão. Aliás, foi por isto que o tricolor só veio a subir agora.

·        Agradeço aos textos e informações de João Cabral de Melo Neto, da SUDESB, de Machado de Assis, Tolstoi e Emíle Zolá, da Bíblia, e dos blogs Futebol 80, Wikipédia e futipédia. globo.com.Sou grato também as imagens dos blogs portallutalivre.blogspot.com,afixe.weblog.com.pt,imperfect.sr.blogspot.com e globoesporte.globo.com.