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segunda-feira, 27 de junho de 2011

O Rio de Janeiro


O Rio de Janeiro continua lindo. E agora com o sucesso do filme Rio está com a “corda toda”. Olha que já haviam feito muitos filmes onde aparecia a cidade, de 007 a Walt Disney´, e tudo quanto é série norte-americana. A diferença é que agora Carlos Saldanha, o mesmo que ganhou dinheiro com a Era do gelo (lembram-se?), transformou a cidade maravilhosa em protagonista.
Em apenas três semanas o filme bateu todos os concorrentes arrecadando 448 milhões. A receita é simples: pega-se uma cidade inserida no roteiro mundial, faz-se com que a ação se desenrole em torno de seus pontos turísticos, e usam-se todos os clichês possíveis. No caso do Brasil, geralmente confundido com a selva amazônica, não faltam as araras, tucanos e todo tipo de pássaros. Mas, pelo menos é melhor do que a baixaria de O turista e tem gente que acha que isso divulga a cidade.
Mas o que não se fala no filme é em Salvador. Mas como é que se pode falar do Brasil sem falar da Bahia? Quando é que vai ter fim essa disputa entre as duas cidades? Se isto é alguma honraria os portugueses invadiram o Brasil pela Bahia e não pelo Rio de Janeiro. Durante três séculos tivemos o maior porto e só quando a corte portuguesa se mudou pra lá é que os cariocas levaram vantagem. Mas Dom João veio primeiro pra Bahia e foi aqui que abriu os portos as nações amigas, leia-se a Inglaterra.
                              Gisele já veio também na Bahia!


Foi uma época boa pros baianos que, inclusive, tinham mais deputados que qualquer estado. Mas, como todo mundo sabe que esses parlamentares só defendem os próprios interesses, isso não adiantou nada, pois a Bahia e o Nordeste foram ficando pra traz e o Brasil mudou para o Sudeste. Quando a tal da república chegou já era coisa da paulistéia, de carioca e mineiro, só conseguindo neste clube do bolinha os gaúchos, mesmo assim através de revoluções.
Foi só assim que o Rio destronou a Bahia. Mas disputa com o estado até hoje os turistas. Todo hora saem matérias pagas nos grandes veículos de comunicação exculhambando as coisas da Bahia. Do nosso futebol eles só falam pra botar defeito. Quando o Vitória deu de cinco a zero no Flamengo por uma dessas copas brasís da vida, a manchete foi
-Flamengo goleado na Bahia

                 Petkovic e Dom João vieram, primeiro pra Bahia!

Quem lê a matéria não sabe nem pra quem o clube da Gávea perdeu. Põe-se a culpa no juiz, na má vontade dos jogadores, nos erros do técnico, o “escambau”, o que nunca se diz é que os times baianos mereceram ganham pois foram superiores aos times cariocas. Mas isso acontece porque foram mal acostumados.
Houve um tempo em que os clubes cariocas só vinham passear na Bahia. Logo na primeira partida em que enfrentaram os baianos, antes do carnaval de 1919, o primeiro depois da Primeira Grande Guerra, o Botafogo massacrou um escrete baiano por sete a um no campo do Rio Vermelho.
                                                           Aqui também já teve pirata!


Depois foi a vez de o América aportar por aqui em setembro de 1921. Ganhou de um combinado Baiano de Tênis-Botafogo (4 X 2), da Associação Atlética (4 X 3), do Ypiranga (3 X 0), e do Vitória (2 X 1). Só a seleção baiana conseguiu, á muito custo, empatar em um gol. Dois meses depois, chegou o Vila Isabel, que era o time da escola de samba carioca. Mas não é que venceu o Botafogo (3 X 1) e o Baiano (2 X 1)? Tiveram que organizar um combinado com o nome do herói Henrique Dias pra vencer os diabos rubros cariocas por quatro a um, embora o ameriquinha, cinco dias depois, derrotasse a seleção baiana pelo escore mínimo.
O Fluminense inauguraria o estádio da Graça num primeiro de abril de 1923, mas não foi dia da mentira. É tanto que venceu a poderosa Associação Athlética por três a um. Acho que os baianos ficaram mais orgulhosos por ter, enfim, um estádio apresentável, e, apesar de Baiano e Botafogo serem derrotados por dois a zero, o Vitória conseguiu um belo empate (1 X 1) e Botafogo (2 X 1 e Combinado Baiano (5 X 4) também venceram o pó de arroz). Foi assim que o zagueiro alvi rubro Mica foi convocado para a seleção brasileira.
                                           Na Bahia teve Canudos que o Rio não tem!


Quatro anos depois, oi os cariocas de novo! Desta vez foi o São Cristóvão que passou os baianos “a limpo”. Começou vencendo o Ypiranga (2 X 1), e depois traçou o Vitória (4 X 1), Botafogo (3 X 1) e um combinado de Salvador (3 X 0). Só quem lhe fez frente foi o Baiano de Tênis ao empatar em três gols.
Os anos trinta foram abertos na Bahia pelo Bangu que “passou o rolo” nos clubes baianos. Estreou contra a Associação Athlética ganhando por cinco a dois. Logo a seguir aplicou o esdrúxulo placar de dez a um no Fluminense FC. A coisa estava tão fácil que perdeu de convencido para o Botafogo (2 X 4) e o Ypiranga (1 X 3), embora vencesse a revanche contra esse último por seis a quatro
                                                     Quem é que quer Ronaldinho!


A primeira vez que o Vasco da Gama jogou na Bahia foi em junho de 1931, perdendo de seis a cinco da Seleção baiana. Com o Flamengo ocorreu em novembro do ano seguinte, ganhando sucessivamente do Vitória (7 X 2), Botafogo (4 X 1), Ypiranga (1 X 0), Bahia (3 X 2) e Seleção baiana (3 X 1), embora tropeçasse na revanche contra o mais querido por três a dois.
Ao longo da década voltaria o São Cristóvão (agosto de 1933 e maio de 1935) e viria o Andaraí (novembro de 1933). O Botafogo só reapareceria em outubro de 1935 e o Vasco em abril de 1936. Em meados de 1937 chegaria o Madureira que ficaria mais de um mês na Bahia.   O Flamengo voltaria em março de 1938 e o América depois do carnaval de 1939.
                                   Na Assembléia Legislativa daqui também tem fantasmas!


O Bonsucesso foi o primeiro a chegar nos anos quarenta antes do carnaval de 1941. Empatou na estreia contra o Galícia (2 X 2) e ganhou do Ypiranga (4 X 2), mas perdeu para o Bahia (2 X 1). O Vasco voltou no mês seguinte, e o Botafogo, em janeiro de 1942. Durante a guerra ainda voltou o São Cristóvão, após o carnaval de 1944, e o Fluminense, no mesmo período do ano seguinte. O pó de arroz voltaria em 1946, 1947 e 1949, sempre acompanhado do Flamengo. O Vasco da Gama viria em 1946, América, Vasco e Bangu em 1948, e o Olaria em 1949.
Em 1950 chegariam na Bahia o Madureira e o Flamengo e, o Fluminense seria o primeiro clube carioca a jogar no novo estádio da Fonte Nova atuando no dia consagrado á independência do Brasil na Bahia, o dois de julho, ganhando o tricolor baiano por dois a zero. Os cariocas só voltariam ao estádio dois anos depois, em março de 1953, quando o Flamengo venceu a dupla BA-VI, respectivamente, por dois a um e oito a dois.  Mas, a partir de então, os confrontos passariam a ser mais equilibrados. O Botafogo compareceria á terrinha em dezembro, mas pra ser goleado pela Seleção baiana por quatro a um.
                                   Os cariocas não sabem o que é sofrer com Kleber Pereira!


Em 1954 viriam Vasco, Botafogo, São Cristóvão e Olaria, e em 1955, Flamengo e Olaria. 1956 foi a vez de Fluminense, Bangu e Botafogo atuarem em Salvador, ficando para o ano posterior o Flamengo, Bangu e Vasco da Gama. E os dois últimos anos da década viram Fluminense (três vezes), Botafogo, Bangu e Flamengo (duas vezes).
A década de 60 inaugurou os grandes certames nacionais, começando pela Taça Brasil e pelo torneio “Robertão”, uma ampliação do antigo Rio-São Paulo. A Bahia viu o Flamengo e Vasco (seis vezes), Bangu (quatro vezes), Fluminense (duas vezes), Botafogo, Olaria, América, São Cristóvão, Bonsucesso, Portuguesa e Canto do Rio.
Qual é, o Rio não tem nem acarajé!


Os anos setenta puseram fim, quase que definitivamente, os amistosos entre baianos e cariocas. Doravante se enfrentariam pelos novos certames criados, o Campeonato Brasileiro, a Copa do Brasil, por torneios locais ou de consolação para os eliminados do primeiro certame. Se retirarmos o ano da inauguração da Fonte Nova são poucas as exceções:

30.1.1972 – Vitória 1 X 0 Fluminense             3.9.1972 – Bahia 0 X 0 Olaria
21.2.1973 – Bahia 1 X 1 Flamengo                  6.6.1973 – Vitória 0 X 0 Flamengo
14.7.1973 – Vitória 0 X 3 Vasco da Gama      17.6.1974 –Bahia 2 X 0 Flamengo
19.2.1975 – Vitória 0 X 2 Fluminense            18.6.1975 – Bahia 2 X 1 Flamengo
29.6.1975 –Vitória 2 X 2 Fluminense             17.6.1976 – Bahia 1 X 1 Flamengo
28.11.1976 – Ypiranga 1 X 1 Volta Redonda 5.12.1976 – Vitória 3 X 1 Volta Redonda
29.1.1977 – Vitória 1 X 1 América                   27.2. 1977 – Bahia 1 X 3 Olaria
                               O Elevador Lacerda é muito mais antigo que o Cristo redentor!
   

4.5.1977 – Vitória 1 X 1 Flamengo                   5.7.1977 – Bahia 0 X 0 Flamengo
26.9.1978 – Bahia 2 X 1 Flamengo                   31.1.1979 –Bahia 1 X 1 Flamengo
9.5.1979 –Vitória 1 X 1 Flamengo                     16.12-1979 – Leônico 0 X 1 Fluminense
1.10.1981 – Bahia 3 X 2 Botafogo                     28.3.1982 – Fluminense de Feira 0 X 1 Botafogo
30.3.1982 – Vitória 1 X 1 Botafogo                30.1.1986 – Bahia 1 X 0 Fluminense
8.6.1986 – Bahia 1 X 0 Flamengo                       10.6.1986 – Bahia 2 X 1 Vasco
15.8.1987 – Vitória 2 X 1 Fluminense                28.6.1997 – Vitória 0 X 5 Flamengo (Barradão)
31.5 1998 – Bahia 0 X 2 Flamengo                      

·    Agradeço o Almanaque do Futebol Brasileiro, a Sandro Miranda, ao site gostodeler, e aos blogs poder-jovem.blogspot.com, rpsomlivr.com.br e viagemaquiabril.com.br.

sábado, 19 de março de 2011

Tempo de horror

               Isto aí é fichinha pra época!

Com a publicação de tantos livros sobre o golpe de 64 muita gente tomou conhecimento sobre os acontecimentos políticos de antes, durante e depois desse infausto acontecimento da nossa história. No entanto, pouca gente sabe dos fatos esportivos desses dias.
Jango assumiu no lugar de Jânio em setembro de 1961, após os dez dias que abalaram o Brasil, e com a “solução” parlamentarista. A sua política de sustentação e as contradições entre o presidente e o congresso abriram espaço para as forças populares que conquistaram várias posições, principalmente até o plebiscito que devolveu o presidencialismo.
Após ter, aparentemente, contornado a crise, o presidente enveredou por caminhos econômicos que o isolaram das forças populares abandonando o Plano Trienal. Começa a contagem regressiva de um golpe anunciado por Carlos Lacerda em setembro nos EUA.
                Quem é mais feio Lacerda ou Hulk?
Em janeiro de 1964 professores universitários, liderados por Sobral Pinto, lançam manifesto acusando o governo de complacência em relação à “comunização” do Brasil. Ademar de Barros pede aos cristãos e democratas união contra o perigo comunista num contexto onde o ministro da justiça Abelardo Jurema intensifica as articulações para a reforma constitucional onde prega a reeleição de Jango.
O governador Ildo Menegheti (RS) engrossa o coro da direita denunciando um movimento subversivo programado para ocorrer em janeiro, implicando Brizola, o prefeito de Porto Alegre e deputados da base de Jango. Enquanto isto o governo dá uma no cravo e outra na ferradura.
No dia 11 de janeiro o deputado João Calmon pondera se não é mais prudente que o presidente cumpra o seu mandato pra que não volte como mártir. Alguns dias depois anuncia que “os democratas devem combater os comunistas em qualquer terreno e com qualquer arma”. No outro dia Goulart assina a lei de remessa de lucros. Carlos Lacerda acusa o governo de apertar o cerco contra a Guanabara e o Cardeal Jayme Câmara acusa uma conspiração revolucionária do governo.

No fim de janeiro o presidente da UDN Bilac Pinto “denuncia” que estaria sendo distribuídas armas aos sindicatos de trabalhadores rurais no mês que é criado o Movimento do Rosário da Família pelo padre Peyton.
Fevereiro começa com o Corinthians ganhando do Botafogo num amistoso (vejam lá se havia clima pra amistosos!) por três a dois no dia sete. A quatorze Castelo Branco, na aula inaugural da Escola de Aperfeiçoamento de Oficiais, condena o comunismo e adverte os oficiais para seus deveres com o Exército e a pátria. No entanto, mais tarde o presidente é homenageado no 19º aniversário da tomada de Monte Castelo por tropas brasileiras na Itália.
Os gaúchos fazem uma série de promoções esportivas na ocasião. A Portuguesa de Desportos e o Corinthians visitam Porto Alegre. O Inter vence a equipe inspirada nos lusitanos pelo escore mínimo, enquanto o Grêmio empata sem gols.
            Esta tortura não dá nem pra melar!

Quatro dias depois, em 25 de fevereiro, Brizola é impedido de falar em Belo Horizonte no Congresso dos Trabalhadores da América Latina. Antes do mês se encerrar ainda dá tempo pro São Paulo ir á Campinas e derrotar a Ponte Preta, para o Atlético Paranaense visitar Porto Alegre (perdendo de três a zero), e ao Atlético Mineiro viajar pra Governador Valadares onde derrota o Democrata local por dois a um. Pra quem ainda não sabia do golpe este resultado mostrou que a democracia não estava com nada na ocasião!  
Março se inicia com a alta do dólar, quando o presidente autoriza O Banco do Brasil a intervir no Câmbio. O Cruzeiro empata sem gols um amistoso com o América (RJ). No dia sete Jango recebe presente de aniversário de oficiais em Brasília. Para, um dia depois, o Guarany de Campinas vencer os diabos rubros cariocas por dois a um.
Quatro dias depois ocorre o comício direitista no bairro de Bonsucesso, Guanabara, embora só reúna duas mil pessoas. Ao tempo em que em Belém, se trava o clássico local, onde o Paissandu ganha do Remo pela esquisita contagem de cinco a três.

No dia doze o Diário de Notícias-RJ publica uma declaração de diretor da Associação Comercial do estado quer afirma “armai-vos uns aos outros porque nós já estamos armados”. No outro dia o comício da Praça da República com duzentas mil pessoas é televisionado e o presidente se compromete com uma série de reformas populares que envia ao Congresso Nacional reagindo à direita com o pedido de seu impeachment.
Mas outras coisas importantes aconteceram neste dia. O Olaria, por exemplo, achou justamente esta ocasião pra começar uma temporada no Norte e Nordeste, estreando com um empate em dois gols com o Náutico. Dois dias depois jogaria em Campina Grande ganhando do Treze de campinas por dois a zero.
Dia 17 Costa e Silva adere ao golpe e passa a ser sua mais alta liderança militar, e é quando Carlos Lacerda envia carta circular aos governadores conclamando-os a formarem um bloco contra a “guerra revolucionária”. Dois dias depois a direita se assanha ainda mais promovendo uma marcha pela família, com Deus pela Liberdade em São Paulo, onde a farta utilização da máquina pública garante a presença estimada em quinhentas mil pessoas.
Ainda quer pegar o celular?

Dois dias depois é o nosso EC Bahia começa uma excursão a Recife com um empate sem gols contra o Sport. Lacerda passa a fazer abertamente articulações com governadores onde afirma que uma Assembleia Constituinte seria o prenúncio de uma ditadura.
No dia 22 o ministro Silvio Mota manda prender diretores da Associação dos Marinheiros e Fuzileiros navais que haviam comparecido a uma reunião sindical. Enquanto isto o Bahia vence o Náutico (2 X 1), o Olaria chega a Belém (onde empata em um gol contra o “papão do Curuzú”) e o Grêmio vai a Curitiba golear a equipe do mesmo nome por quatro a um. Mais um dia, é realizada em Santos uma marcha semelhante à de São Paulo com a presença de oitenta mil pessoas.
Os marinheiros e fuzileiros se concentram no Sindicato dos Metalúrgicos (RJ) sendo vãs as tentativas de desentocá-los. A crise só acaba no dia 27 com um acordo que passa pela liberdade dos dirigentes, que só saiu após novo clássico paraense onde Remo e Paissandu não tiram o zero do placar.
                      Como agente apanhava!

No dia 29 o Olaria se despede das canchas paraenses empatando em um gol contra o Remo. Em sua saída, porém, é substituído pelo Palmeiras que resolve sair em excursão. Os pernambucanos tem muito a se queixar desta época. Pois além do golpe tiveram que suportar a presença do alvi verde paulista. Imagine que o porco, dois dias antes do golpe, ganhou do Sport por quatro a um e, não contente com isto, enquanto as tropas do general estavam, na estrada, fulminou no Náutico por quatro a zero.
O calendário político ainda verificaria a homenagem de Jango no Automóvel Clube pela Associação dos Sargentos da PMERJ, no dia 30 de março, enquanto oficiais se reúnem no Clube Militar onde fazem dura crítica á CGT.
Na madrugada do outro dia as tropas do general Olympio Mourão Filho marcham de Minas Gerais para o Rio de Janeiro. Durante seu trajeto (não interrompido pelo governo) vão estimulando apoios militares em vários estados.

A CGT e a UNE convocam greve geral no dia primeiro de abril. Mas a greve não chegou ao interior do Paraná, senão o Londrina não perderia pro Jacarezinho de Mogi Guaçu por dois a um. Bem feito pra ele por furar a greve!
A partir daí são feitas prisões de lideranças políticas e sindicais em todos os cantos do país, enquanto Jango tenta conseguir apoio “por cima” pra permanecer no cargo e perambula do Rio para Brasília e para Porto Alegre.
Enquanto viaja, na calada da noite se trama a sua destituição com a declaração do cargo de presidente vago e o empossamento do deputado Ranieri Mazzili numa sessão realizada na madrugada. Ao tempo em que uma nova marcha pela família ocorre na Guanabara com a participação de cerca de um milhão de pessoas.
Voçê quer que tenha imagens da tortura?

Com exceção do Mato grosso, não achei ninguém que tenha se arriscado a jogar nesses dias. No dia quatro de abril (uma sexta feira) encerram-se as greves de resistência, sendo uma das últimas a dos petroleiros da Refinaria de Mataripe na Bahia. Nesse dia uma assembleia do Clube Militar (RJ) exige a cassação de todos os parlamentares que consideram comunistas.
No fim de semana os paraenses fominhas do Remo e Paissandu fizeram outro jogo, agora com o papão perdendo por dois a um. E o EC Bahia iria a Candeias jogar com a seleção do município, vencendo por quatro a zero.
O fim de semana foi um verdadeiro sufoco dadas as medidas que fecharam os bancos. Mais mesmo assim se arranja uma farsa, uma manifestação na porta da casa do general Castelo Branco propondo que assuma a presidência.

                                    Vão levar pra onde?
Consumado o golpe, seus dias posteriores foram uma espécie de “salve-se quem puder” para os militantes que sonhavam por reformas no Brasil. Na segunda feira é editado o Ato Institucional No 2 legalizando prisões e impondo punições a milhares de civis e militares.
E, na terça, sai à lista de cassações que engloba 39 parlamentares e 58 personalidades, ao tempo em que o Bahia arranja um amistoso com o Galícia na Fonte Nova onde os atacantes fizeram greve de gols. Na quarta ocorrem as “eleições” para presidente no Congresso para onde são conduzidos Castelo Branco e José Maria Alkimim.
As universidades são vasculhadas pelo novo AI, regulamentado em 27 de abril. Só no IPM da UNE são indiciadas setecentas pessoas, num tempo em que a ditadura, por não caber mais presos nas instalações militares, apelou para o recurso de trancafiar opositores em navios fundeados perto da costa.

O próximo mês começa com o tricolor jogando com Leônico (1 X 1) e Galícia (2 X 0) na Fonte Nova. Três dias depois, em 13 de maio, o Brasil rompe com Cuba. No dia primeiro de junho baixa a lei anti greve. E, em 22 de julho, o mandato de castelo Branco é prorrogado até 1967, quando se entendeu que o regime tinha vindo pra ficar.
No fim de julho seria organizado o primeiro torneio destes tempos sombrios com a participação de Bahia, Vitória, Galícia e Leônico. Enquanto isto as oposições já encetavam a resistência que iria durar pelo menos duas décadas.

·        Agradeço as contribuições do Almanaque do Futebol Brasileiro, e dos blogs rodolfostenki.blogspot.com,hiperbazar.net,noticias.r7.com,bocadoinferno.com,quadrinhos.wordpress.com e baixakijogos.com.br.  

sexta-feira, 4 de março de 2011

A sinfonia inacabada da Fonte Nova

                  Dizem que Adão e Eva não foram acabados!
 

Existem muitas coisas que ficaram inacabadas na história. Na política a independência de vários países não passou da libertação política do colonizador. A república uma tapeação sem autonomia regional, independência dos poderes e mudanças sócio-econômicas reais. Não é á toa que os cientistas políticos falam de revolução inacabada.

Em relação a obras nem é bom falar. No Brasil contam-se aos milhares as obras inacabadas, cujo maior IBOPE é a Transamazônica. Na musica todo compositor que se preza deve ter uma obra inacabada. Isto ocorreu com Bach, Bethoven, Mozart, embora só com Schubert fosse dado o nome a uma de suas sinfonias de "Inacabada".

Isto ocorreu também com o esporte. Houve estádios que não terminaram. Jogadores que interromperam subitamente suas carreiras. Quase-campeões com campanhas abaladas.Mas torneio inacabado eu só conheço um e ocorreu na Fonte Nova em 1955.


 Todom mundo sabe a mania de Schubert de sua mania de deixar as coisas inacabadas!


Neste ano o EC Bahia ganhou em maio o certame do ano anterior. Aí, enquanto esperavam o novo campeonato, os clubes entraram com sede nos amistosos. O Corinthians foi o primeiro, jogando três vezes em apenas cinco dias. Começou empatando com o Botafogo em dois gols e depois deu uma verdadeira "tamancada" no Bahia por seis a zero. O tricolor só descansou depois que conseguiu uma revanche e ganhou por magros dois a um. O próximo seria o Madureira, numa promoção do Vitória, que colheria um empate em um gol.

Ora neste ano já tinha havido um torneio antes das finais do campeonato entre Vitória, Bahia e Botafogo. E ele foi ganho pelo rubro negro. Desta vez não convidariam o Vitória. Assim o Bahia e Ypiranga planejaram homenagear a data magna da independência na Bahia e convidaram o Olaria e o Atlético Mineiro para um novo torneio.

O certame teve inicio no dia de São Pedro quando as bombas ainda pipocavam nas imediações da Fonte Nova. Na preliminar o Olaria derrotava logo o mais querido por um a zero deixando-o numa situação delicada pra aspirar a alguma coisa. Pra piorar, no jogo de fundo, foi a vez do galo mineiro vencer o tricolor pelo mesmo placar.

                                Será que há aí algo inacabado?

A próxima rodada coincidiria com o Dois de julho.Mas, na véspera, o Ypiranga e o Bahia abandonariam o torneio, sendo substituídos ás pressas pelo Guarany e o Vitória. E não é que os "índios" começaram bem, ganhando do time bariri por dois a zero? No entanto o rubro negro não conseguiria barrar o forte time mineiro sendo derrotado por dois a um.enquanto estavam nesta conversa de repente foi o Olaria que decidiu ir embora e aí meu amigo como continuar o torneio?

Bem, o que houve? Falta de interesse em continuar? Desentendimento de qual deveria ser a rodada? Prejuizo financeiro dos torcedores que não estavam mais entendendo nada?O certo é que não marcaram mais rodada nenhuma e "esqueçeram" de dar a taça pro Atlético. Isto é coisa que se faça com os nossos heróis da independência?


* Agradeço as informações do Almanaque do Futebol Brasileiro e do Setor de Publicações Raras da BCE.
    Sou grato aos blogs:minmessias21.blogspot.com,pretinsongs.com,hortadozarate.blogspot.com  e arte-das-massas.blogspot.com.

segunda-feira, 3 de janeiro de 2011

Juscelino Kubitschek e a visita do Olaria


Gente, hoje, no último dia que estamos passando em Buenos Aires, "lavei a alma". Vinhamos passeando na famosa Avenida Corrientes quando Cybele entrou no Paseo la Plaza pra comprar um anel. Ai eu vi uma placa com o nome do Cavern Club que, pra quem nao sabe, é o local onde os Beatles comecaram a se destacar.

Quando subimos ao primeiro andar foi a glória. Lá tudo cheirava ao famoso quarteto de Liverpool que povoou a minha juventude. Tinha o Café Beatles, uma réplica do Big Ben e bonecos do tamanho natural da capa do disco Sargent Paper Lonely Heart Club Band.  No café encontramos bebidas com os nomes dos integrantes dos beatles. Cybele escolheu o café Paul mas eu fiquei com o café do meu ídolo John. Só nao entendi porque colocaram mais conhaque no dela e mais whisky no meu (?).

Depois pegamos uma fila danada pra entrar no Museu chamado John Lennon Cavern Pub. Alí tem de tudo referente aos Beatles. Desde fotos de todas as suas fases a autografos,  discos, brindes, programas, matérias de jornais, bonecos, o que voce puder pensar. Depois de velho eu consegui sair de lá com um poster de Jonh e uma carteirinha de sócio do Cavern Club! De quebra ainda conheci o cara que há 43 anos vem juntando este rico acervo, Rodolfo Vasquez. Entre os fâs que lá estavam ainda conheci o José Guilherme, que estuda história na USP e é como eu fâ(agora de carteirinha) dos beatles. 

Bem, mas vamos ao assunto de hoje, quando o Olaria visitou a Bahia numa época delicada da vida do Brasil, pouco depois do suicídio de Getúlio quando circulavam rumores de golpe e comecava mais uma campanha presidencial. A história foi assim. 

Em 1954, entre o segundo e o terceiro turno, o Botafogo EC tinha umas datas no fim do ano para realizar amistosos. Anunciou pelo jornal a realização de uma “grande temporada”. Prometeu o Cruzeiro(MG), clubes do Sul, o diabo! Arranjou até um nome pro torneio, o do desportista e jurista Orlando Gomes. A decisão do turno porém acabou sendo hostil com os diabos rubros que perderam pro Bahia por três a um perante grande assistência, que trouxe aos cofres do estádio 272 mil cruzeiros e fração.

Não sei se foi por isto que deixaram de investir no empreendimento. O certo é que o Diário de Notícias, um dia depois do jogo decisivo anunciou o Olaria como “a grande atração do quadrangular”, que ainda teria a dupla BA-VI e o próprio Botafogo. A imprensa passou o resto da semana divulgando os bons valores trazidos pela equipe bariri do Rio de Janeiro. Tratar-se-ia de um autêntico presente de fim de ano pros baianos.

Naquele tempo as eleicoes do presidente e vice eram separadas. Juscelino comecava a sua campanha que o levaria a ser eleito presidente do Brasil e Jango comecaria a campanha a vice. Isto coincidiu com a abertura do torneio no feriado de dia 8 de dezembro. O desinteresse do alvi rubro já comecou com o time misto que pôs em campo pra jogar na preliminar contra o EC Vitória, e levar de seis a um(sic!). O jornal Diário de Notícias porém, preocupado com a promocao da iniciativa, colocou a culpa no goleiro Guilherme, que teria tido um dia infeliz.

No entanto, todos esperavam mesmo era o jogo principal onde se enfrentariam Bahia e Olaria sob a arbitragem de Willer Costa. Havia muita expectativa com o desempenho da equipe carioca. E não deu outra, ocasionando uma renda calculada em duzentos mil cruzeiros. O jogo foi igual nos dois tempos. No primeiro Foca e Sandoval abriram vantagem poara o tricolor. No entanto, no segundo tempo foi a vez do Olaria marcar com Dercy e Gringo. O Olaria formaria com: Anibal, Renato e Jorge; Tião, Moacir e Haroldo; Dercy, Washington, Gringo, Toledo e Mário.

No domingo, dia 12, a segunda rodada manteve a expectativa, pois era a vez do rubro negro, campeão do ano anterior, enfrentar o time carioca. A renda foi superior a 180 mil cruzeiros. Na preliminar o Botafogo se recuperou enfiando quatro a dois no Bahia! Na partida principal o rubro negro abriu o placar com Alencar mas o Olaria empatou através de Mário.


Nesse dia no Cine Art passava o filme A beira da perdição com Vittório Gassmann e parece que o time bariri se deixou influenciar. De um momento pro outro se descontrolou e os leões da Barra passaram a desconhecer o prestígio do clube carioca. Seguiram-se tentos de Juvenal(dois), Dimas e Alencar, cobrando pênalti. Washington diminuiria o vexame, fazendo terminar o jogo em cinco a dois para o rubro negro. O rubro negro formaria assim neste dia histórico: Periperi, Valvir e Alirio; Bombeiro, Eloi e Joel; Alencar, Dimas, Juvenal, Hélio e Ciro.

No outro dia o Diário de Notícias estamparia:

Destruído pelo Vitória o cartaz do Olaria

Era um evidente exagero e uma maldade com o simpático time carioca. No entanto, os acontecimentos fizeram com que a sua delegação fizesse um papelao, voltando pro Rio de Janeiro antes do tempo "alegando compromissos" no Campeonato carioca, deixando assim de jogar a última rodada com o time promotor, o Botafogo.
                                  Olaria em 1951. Em pé: Osvaldo, Zezinho, Job, Jair
                                  Santana, Olavo e Ananias. Agachados: Cidinho, Washington, 
                                  Maxwell, Lima e Esquerdinha.

Antes desta rodada aconteceu de tudo. Falou-se em trazer o Náutico pra substituir o Olaria “completando o quadrangular”, mas acabaram convidando mesmo o Galícia que fez a preliminar do BA-VI contra o alvi rubro baiano. Pra piorar as coisas a FBDT divulgou uma estranha nota informando os critérios de decisão do torneio. Caso o tricolor e os “diabos rubros” ganhassem haveria uma partida extra “de trinta minutos” logo após terminado o clássico, entre Vitória e Botafogo. E se o resultado fosse empate haveria disputa de pênaltis entre os dois clubes.

A rodada mostrou que a atração mesmo era o Olaria pois a renda que não passou dos 108 mil cruzeiros. Apesar do Botafogo ganhar do azulino por dois a um na preliminar, não precisou do exdrúxulo critério para decidir o torneio pois ocorreu empate entre Bahia e Vitória. O Diário de Notícias na ocasião “caiu de pau” no árbitro da partida José Luís Zago considerando sua atuação “bastante confusa”.O gol tricolor de Foca teria sido em clamoroso impedimento, conseguindo Juvenal o empate para os leões da Barra.O juiz ainda teria marcado outro gol irregular do Bahia tendo que voltar atrás após a comemoração dos jogadores em função da anotação do bandeirinha.

Assim, os clubes ficavam empatados em quatro pontos recolocando a questao do critério para levar a taca. O DN chegou a anunciar que isto se resolveria “depois”(sic!). No entanto, não se preocupem, a federação não imaginou outro fantasioso critério, ficando o Vitória com a taça Orlando Gomes, possivelmente pelos gols de saldo. Mas que o Olaria deixaria saudades, deixaria!

- Agradeco as informacoes do Setor de Publicacoes Raras da Biblioteca Central do Estado(Colecao Diário de Notícias). Sou grato também as imagens e fotos do Museu do futebol, planetanews.com.br e blogs.abril.com.br.