sábado, 16 de outubro de 2010

O maior “frango” da Fonte Nova


Galdino Antônio Ferreira da Silva
Financista, desportista e colaborador dos blogs História do Futebol e Futebol 80.                                                                                       

Gelson foi um jovem goleiro revelado pelas categorias de base do Internacional/RS e que chegou ao EC Vitória em 1978 para reforçar a equipe. Neste mesmo ano ele assumiu a meta rubro-negra baiana devido a uma contusão de o goleiro titular Iberê. O ano não foi dos melhores para o clube, cuja torcida viu o Bahia ser hexacampeão baiano e sequer chegar a final sendo superado pelo Leônico. Mesmo assim o jovem arqueiro de 23 anos mostrou talento, o que deu a ele a condição de ser titular no ano seguinte mesmo com a recuperação de Iberê.
O novo ano prometia para a equipe do Vitória. O EC Bahia corria atrás de um título inédito, o heptacampeonato, e o time da Toca do Leão se credencia a impedir este feito de forma reforçada, com Gelson no gol, Otávio Souto e Xaxá na zaga, Edson Silva na frente de zaga, Sena na frente (o grande craque e mentor da equipe), Wilton (vindo do Fluminense/RJ), Geraldão e o ponta esquerda Sivaldo. E logo de saída estreou com uma goleada 5 a 1 diante do Redenção.
No entanto, mesmo depois deste bom inicio, continuaram chegando reforços, como o zagueiro Zé Preta, o meia Dendê (retornando após passagem pelo Flamengo/RJ), além dos “prata da casa” Zé Julio e Joel Zanata. No jogo seguinte nova goleada, agora diante da ABB por 5 a 0 com baile de Sena que marcou três gols. Em seguida o primeiro BA-VI dando Vitória por um a zero com gol de Wilton. Parecia que tudo ia bem, para o Vitória e para seu jovem goleiro. Gelson neste jogo fechou e começava a cair nas graças da torcida.·.
No primeiro dia de abril o arqueiro teria sua prova de fogo no empate em 0 x 0 contra o Itabuna. Era o primeiro jogo da equipe fora da Fonte Nova e o Itabuna vinha bem na competição com Beca e Wolney como atacantes, o meia Gerson Sodré (que depois brilhou na Portuguesa/SP), e o ponta direita Chiquinho, que seria vice-artilheiro do certame deste ano. Neste jogo Gelson “pegou até pensamento”, segundo o locutor Nilton Nogueira da Radio Clube da Bahia.
No pentagonal decisivo do primeiro turno Gelson se consagrou nos dois BA-Vis e no jogo contra o Leônico. Era o novo herói rubro-negro e fazer gol nele era difícil. Para comemorar a fase o Vitória convidou o Flamengo para um jogo amistoso onde, após um empate em 1 a 1, a direção do Flamengo ficou encantada com a atuação do jovem goleiro. Fez uma boa proposta por ele para o time baiano que só aceitou na condição que ele só deixasse a equipe após o termino da competição. Segundo jornais da época o negócio girou em torno de 12 milhões de cruzeiros.·.
Mesmo já vendido ao clube carioca, Gelson continou realizando boas partidas. No inicio de setembro eu vi Gelson levar praticamente ao desespero o time do Itabuna, em uma partida que ele teve atuação destacada e saiu de campo coberto de prêmios. Parou o time, pegando o pênalti de Chiquinho, tirando bola em cima da linha, e garantindo a vitória de 2 a 0 e a liderança do pentagonal do segundo turno, também vencido pelo rubro-negro baiano.
O regulamento do campeonato, porém permitia ao vice-campeão dos turnos o direito de obter um ponto extra para a fase final (!) e aí o Bahia, que foi vice nos dois turnos levou 2 pontos e o Vitória, campeão dos dois turnos, apenas 4 pontos para as finais. Estranho campeonato este. Porém, só bastavam dois empates e pronto, o Vitória voltaria a ganhar o título interrompendo a sequência vitoriosa do Bahia.
No dia 19 de setembro, porém, mesmo com o Vitória saísse na frente com Sena, o Bahia ganhou de “virada” com gols de Zé Augusto e Gilson. O Vitória ainda continuava com a vantagem dos empates ou de uma vitória simples, porém havia perdido sua invencibilidade. Quatro dias depois o que parecia o primeiro empate surgiu num jogo sem gols na Fonte Nova destacou, porém, desta vez o atabalhoado goleiro do Bahia, Luís Antônio que fechou o gol.
Bastaria um novo empate para levar o título de campeão baiano. Já o Bahia havia chegado á final aos trancos e barracos, com o campeonato brasileiro ás portas, e com um time envelhecido e cheio de desfalques vem a campo tentar cair de pé diante uma conquista premeditada deste o inicio. É um dia de sexta-feira vinte e oito de setembro. O Vitória segue pressionando e o Bahia sem forças. Na única jogada perigosa no primeiro tempo Perez arrisca e Gelson manda para escanteio. Talvez ai comece a se desenhar o trágico final.
O goleiro vinha sendo exigido durante boa parte do certame, no entanto nesta partida praticamente assiste a pressão do seu clube. Está frio, e volta para o segundo tempo da mesma forma. O Bahia somente se defende e tenta explorar os contra ataques. Num deles, numa bola dividida, Gilson leva a pior e quebra a perna em dois lugares após entrada de Xaxá, saindo e dando lugar ao contundido meia Fito Neves, que será quatorze anos mais tarde o técnico do Vitória vice-campeão brasileiro.
Após os 30 minutos do segundo tempo acontece o improvável. Perez “rouba” uma bola e passa a Fito que, mesmo sem condições físicas, arrisca um chute despretensioso. A bola saiu fraca e alta e foi caindo. Gelson se posiciona para a defesa. Ao ver a bola decaindo salta e tenta agarrar a bola, no entanto este escorrega entre suas mãos e cai dentro do gol. É gol do Bahia. Um dos maiores “frangos” já vistos na Fonte Nova. E a torcida comemora o título mantido com chutões do time nos minutos finais.
Depois do jogo muito se falou sobre este gol. Uns diziam que foi macumba de “Lourinho” antigo chefe da torcida do Bahia. Outros, mais maldosos, diziam que Gelson se vendeu ao Bahia, fato que terminou marcando a sua carreira. O final desta foi melancólico. Ele foi para o Flamengo, mas seria imediatamente repassado para outro clube. Voltaria ao Vitória em 1981, mas não se firmaria. Depois rodou por alguns clubes da Bahia, atuando pela Catuense em 1983. Na ocasião teve um momento de meia vingança sobre o Bahia, na mesma Fonte Nova lotada para ver o Bahia empatar com o clube de Alagoinhas e ser tricampeão baiano.
Gelson fechou a meta da “laranja mecânica” e adiou o sonho da torcida do tricolor dar o grito de campeão, ao lado do atacante Boca que fez os dois gols do time Bem-te-vi. Após pendurar as chuteiras ele continua aqui na boa terra, virando técnico de futebol e dirigindo equipes da primeira divisão do “baianão”.
Apesar do episódio de setembro de 1979 que marcaria a sua vida Gelson foi um grande goleiro. Um dos maiores que vi atuar aqui na Bahia. Seu estilo gaúcho fez muito sucesso por aqui. Tanto assim que o próprio Vitória trouxe do Caxias o arqueiro Bagatini em 1980 que fez furor entre a torcida. Foi o nosso Barbosa, que ficou definitivamente marcado na Copa do Mundo de 1950 ao tomar aquele gol de Ghiggia no jogo contra o Uruguai. Afinal, uma falha pode acontece com qualquer goleiro, o que marcou foi o fato de ter ocorrido em uma decisão onde tanta coisa estava em jogo.

2 comentários:

  1. Esse safado fez de proposito,eu estava na fonte nova,ate hoje tenho ódio desse cara!

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  2. Eu tbm estava lá com meu pai,na povao...e o frango q Gelson tomou,muitos melhores q ele ,tomaram...e mais feios.

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