sexta-feira, 12 de novembro de 2010

O Canto do Rio na Fonte Nova


Vocês já ouviram falar do Canto do Rio? Não? Acho que isso é coisa pros desportistas mais antigos. Pois é um brioso clube de Niterói que vai ser centenário daqui a três anos. Atualmente está no ostracismo, mas já deu o que falar!
Seu hino foi composto por nada menos que Lamartine Babo, havendo um trecho onde este afirma que
No estádio formoso
de Caio Martins
há dias de gozo

De noite e de dia
a turma sorri,
enche de alegria
Icarahy

O clube tem sua sede em Icaraí, hoje sem “h”. Pra você ir pra lá ficou fácil com a ponte Rio-Niterói. Fica só a 17 km do centro. Tem estádio e ginásio, o Caio Martins, onde dizem que cabem doze mil pessoas. Se dedica hoje mais a outros esporte e divisões de base mas tem uma rica história. Esta registra várias glórias, a exemplo de uma excursão á Europa onde jogaria até com o Barcelona no estádio Nou Camp, naturalmente, perdendo de quatro a zero. O Canto do Rio obteria inúmeras vitórias contra os grandes clubes cariocas, embora eu só tenha visto saldo nos confrontos contra o Bonsucesso. Há outros fatos não tão honrosos, como a goleada de 14 X 1 que sofreu do Vasco da Gama logo após a chamada redemocratização, em 1947.
É um dos poucos clubes que atuou por dois estados, onde tem alguns títulos. Seus principais resultados são os torneios inícios cariocas, onde foi campeão em 1953(ganhando do Vasco da Gama por três a zero na final) e vice em 1962. No certame o seu melhor resultado é um sexto lugar em 1944. O clube revelaria jogadores para a seleção brasileira. Passaram por suas categorias de base Gerson e Ipojucan. E, por seu time profissional, o zagueiro Canalli (Copa de 1934), o “príncipe” Danilo Alvim (Copa de 50) e o goleiro Veludo (reserva de Castilho na Copa de 1954).
Surgiu no antigo estado do Rio de Janeiro. No entanto, ao se profissionalizar sob o Estado Novo getulista, o governador Amaral Peixoto foi o “pistolão” que assegurou a sua licença pra disputar o Campeonato Carioca (Distrito Federal) ao tempo em que continuava a jogar no campeonato fluminense.  No primeiro ano que disputou, em 1941, deu um presente de grego ao Flamengo, após o Natal, enfiandolhe três a zero.

               
Foi nesta época que visitaria a Fonte Nova numa excursão relâmpago.  Quando o Canto do Rio veio á Bahia Juscelino era presidente, Antônio Balbino governador e Salvador estava em ebulição cultural atraindo muita gente nas comunicações, artes plásticas, musica, teatro e cinema. Foi no ano que surgiu a bossa nova e João Gilberto lançaria Chega de saudade e Desafinado. Que o Brasil ganharia sua primeira Copa do Mundo e a carioca Adalgisa Colombo conquistaria o Miss Brasil pela TV Tupi.  O estádio da Fonte Nova ainda nem tinha ginásio ou Vila Olímpica, que entraria em funcionamento exatamente neste ano. Era ano de eleição e já se começava a cantar os jingles dos candidatos. Lembro-me de um pedaço do de Juracy Magalhães que ganhou:

Cacau, petróleo, Paulo Afonso,
as riquezas da Bahia,
tem nas mãos de Juracy
toda a sua serventia (...)

Para a Bahia governar
em Juracy vamos votar.

O clube de Niterói chegou aqui no início de janeiro de 1958. Acho que nem comemorou direito o ano novo pois teve que viajar logo no outro dia para Salvador. Estávamos em plena corrida espacial e, neste mês, os EUA lançariam atrasados em relação a URSS, seu primeiro satélite, o Explorer I. Tinha uma linha de halfs como Vitor, Dodoca e Floriano, e um ataque formado por Caboclo, Osmar, Mituca, Darci e Pinheiro. A primeira vez que pisou no campo da Fonte Nova foi em 2 de janeiro, onde arrasaria o Galícia por quatro a zero, com gols de Mituca (2), Vitor e Caboclo.
Agora acertaria as contas com a dupla BA-VI que prometiam vingar o nosso futebol. O EC Vitória seria campeão baiano do ano anterior dois meses depois, e tinha um timaço onde pontificavam Albertino, Nelinho, Pinguela, Boquinha, Matos e o artilheiro Teotônio. Era dia do aniversário do cientista Isac Newton, mas o rubro negro só descobriria a força gravitacional da bola caindo em suas redes. Diante do bom público, que proporcionou a renda de 103.200 cruzeiros naquele 4 de janeiro, O EC Vitória conseguiria até vencer o primeiro tempo, graças ao gol do ponta Enaldo. Porém, sofreria uma “virada” inapelável no segundo tempo, com gols de Osmar e Elmo.
A honra da Bahia estava então nas mãos do EC Bahia que enfrentaria o clube dois dias depois. A renda seria a maior da curta excursão, 182.000 cruzeiros. A expectativa era grande com o desempenho do tricolor que com Marito, Carlito, Vicente e Henrique no ano seguinte, dirigidos pelo técnico Geninho, seria campeão da I Taça Brasil. Era o dia da visita dos Reis Magos, consagrado pela tradição, mas não houve nenhum milagre para salvar o Bahia, pois o time de Niterói passaria literalmente, “por cima” de mais um clube baiano, repetindo o escore que aplicou em seu arquirrival.  Os gols do alvi celeste foram de Castelo, enquanto Nadinho, de pênalti, faria o gol de honra do esquadrão de aço.de pena.
No outro dia o choro da imprensa tricolor. O Diário de Notícias lamenta de outro pênalti, perdido pelo Bahia, e acusa o juiz José de Souza Gomes de ter deixado campear a violência em campo. No entanto, não deixa de reconhecer que o clube de Niterói teve um tento injustamente anulado. Quer dizer, era pra apanhar de mais!
                                                       Estádio e ginásio Caio Martins
Foi assim que o canto do Rio passou pela Bahia naquele janeiro de 1958. Parafraseando o romano Cesar, veio, viu e venceu, saindo daqui invicto!  Mas, antes ficasse por aqui disputando o campeonato baiano. É que, seis anos após a excursão a Bahia, veio o golpe de 64. E não é que a ditadura militar reprimiu até o Canto do Rio! A justificativa foi uma briga e invasão de campo no seu estádio em jogo contra o Fluminense. Foi assim, que o clube, que já era mal visto no estado do Rio de Janeiro, foi expulso do futebol carioca!
O Canto do Rio praticamente abandonaria o futebol por mais de uma década, até a fusão da Guanabara com o Rio de Janeiro em 1975 no governo do general-presidente Ernesto Geisel. Na próxima década alternaria licenças com a participação em divisões inferiores. Seu estádio iria entrar numa demanda com o Botafogo FR, que já detinha o estádio de Marechal Hermes, mas que o arrenda em 1981 e consegue uma lei estadual, a 4062/2003 para cessão gratuita por vinte anos!
Torcedores abnegados nunca deixaram de tentar recuperar o querido clube de Niterói que desde 2007 voltou ao futebol profissional, disputando a terceira divisão do campeonato carioca, na companhia de clubes com nomes muito estranhos como o Condor AC, o Futuro Bem Próximo AC (!) e o CE Yasmin!

·         Agradeço aos sites www.urvrau.com e o da Federação de Esportes do Rio de Janeiro, e aos blogs do Canto do Rio, História do Futebol,timesdobrasil.com.br e utipedia.globo.com. Sou grato também pelas informações do botafoguense Bernardo Santoro e da coleção do Diário de Notícias que se encontra no Setor de Periódicos raros da Biblioteca Central do Estado-BCE.

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