domingo, 31 de outubro de 2010

O dia em que o EC Bahia escalou o céu




Galdino Antônio Ferreira da Silva
Financista, desportista e colaborador dos blogs História do Futebol, Futebol 80 e Memórias da Fonte Nova.                                                                                        
                   
O futebol talvez seja o único esporte em que o favorito não vença sempre. Acontece muitas vezes um resultado inesperado, e até sobrenatural. E olhe que não estou falando somente de “zebras” históricas, mas de resultados quase impossíveis se realizarem debaixo de nossos olhos.
O fato que vou contar hoje aconteceu há 27 anos, no dia cinco de abril na Fonte Nova. Naquela tarde jogavam Bahia X Santa Cruz (PE) pela última rodada do Campeonato Brasileiro, os tricolores mais tradicionais do Nordeste portando a rivalidade histórica entre os estados da Bahia e Pernambuco.
Cada jogo tem sua história e aquele não foi diferente. O EC Bahia começou o ano de 1981 disputando a “Taça de Prata” do Campeonato Brasileiro. O certame era equivalente à segunda divisão da época, só que seu regulamento previa que as equipes poderiam ascender á “Taça de Ouro” (segunda fase), desde que vencessem seus grupos. Desta forma, ao vencer o grupo que tinha também Remo (PA) e Botafogo (PB), o tricolor baiano conquistou esse direito. O Palmeiras também “subiu” neste ano e da mesma forma.
A nova chave era difícil. Além de seu rival pernambucano havia as equipes paulistas da Ponte Preta e Corinthians, embora este último não viesse bem das pernas, tanto que acabou ficando na lanterna do grupo com apenas um ponto. Assim caiu em sua estreia para o EC Bahia por 3 a 0 que, ainda em Salvador, empatou com o outro representante de São Paulo por 1 a 1.

                           
No entanto, as coisas complicaram fora de casa, quando em Recife, o tricolor (outrora de aço) foi goleado impiedosamente pelo Santa Cruz por 4 a 0 caindo pelas tabelas e passando a ter saldo negativo de gols no torneio. Abalado mas ainda confiante o clube seguiu para São Paulo onde venceu o Corinthians no estádio do Pacaembu por uma a zero e viu o Santa Cruz perder para a Ponte Preta por 3 a 1 na rodada. As esperanças haviam voltado ao “Fazendão”, onde se localiza a concentração tricolor.
No entanto, na nova rodada as coisas complicariam novamente. A Ponte Preta ocupava isoladamente a liderança, e, no jogo seguinte em Campinas, em meio a uma guerra de nervos, bateu o Bahia por um à zero, complicando-se a situação do tricolor baiano pela vitória do Santa Cruz sobre o Corinthians por 2 a 0. A Ponte tinha obtido uma das duas vagas com oito pontos ganhos. A outra vaga também parecia decidida, pois, embora os tricolores nordestinos estivessem empatados com sete pontos havia um saldo de cinco gols a favor dos pernambucanos.
Mas o último jogo era na Fonte Nova onde, pra ser sincero, a tarefa era árdua, mas não impossível! Durante os quatro dias que antecederam a partida as expectativas eram grandes nos dois estados. Os “inimigos” do Vitória não perderam a chance para “secar” o tricolor baiano. O rubro negro já participava do Campeonato Brasileiro há vários anos, e enfrentariam a Portuguesa um dia antes do jogo do Bahia podendo vencer por qualquer placar pra se classificar em sua chave. Assim, prometeram comparecer ao estádio para ver o time da Santa Cruz eliminar o Bahia.
Em Recife também a confiança era geral. O folclórico atacante Dario (o “Dadá maravilha”) curtiu com a cara dos baianos na ocasião. Seria mais fácil o torcedor do Bahia ganhar na quina da loto do que o Santa Cruz perder por cinco gols de diferença na Fonte Nova.
                                       
No dia do jogo fez um lindo domingo de sol. O estado estava em festa, pois na véspera o Vitória havia se classificado para a terceira fase ao vencer a Portuguesa por um a zero. Só faltava o EC Bahia para a festa ser completa. Mas nesse dia houve uma dificuldade extra. É que meu saudoso pai, tricolor roxo e funcionário do Bahia, relutou em dar o dinheiro dos ingressos, pois não tinha fé no resultado. Foi só quase na hora do jogo que “sentiu uma vibração” e liberou a grana.
Assim, fomos correndo para o estádio e nos abancamos no mesmo local de sempre perto da torcida BAMOR. Às 17 horas a bola rolou. O Bahia começou o jogo “em cima” do Santa, e, para a nossa alegria, Gilson “gênio” fez um a zero logo aos quatro minutos. Nove minutos depois o mesmo Gilson voltava a marcar. Parecia possível tirar a diferença. No entanto, os pernambucanos tinham um time bom e experiente, onde, além de Dario, jogavam Carlos Roberto, Hilton Brunis, Baiano e Joãozinho, este último era um ponta esquerda arisco e veloz, e levou perigo á meta do Bahia nos contra ataques.
Já perto do final do primeiro tempo, faltando dois minutos para o intervalo, Dirceu “catimba” livre na área, marcou de cabeça o terceiro gol para deliro da massa na Fonte Nova. A confiança havia subido 100%, com a torcida sentindo que dava. Foi a primeira vez que vi torcedores comprando entradas para assistirem somente o segundo tempo.
Este começou com um Santa Cruz retrancado e acuado e um Bahia empurrado pela turba. Mas um novo balanço das redes demorava com as pressões não dando muito resultado. Até que aos 22 minutos Gilson saiu da esquerda para direita e lançou Toninho Taino para marcar o quarto gol e fazer o estádio delirar. Só se ouvia gritos de “Baêa, Baêa, Baêa”. Só faltava agora um gol. O Santa tremia! Os jogadores faziam “cera” e caiam simulando contusões por qualquer motivo.
O tempo passava e nada do quinto gol. O experiente técnico Aimoré Moreira, entretanto, mantinha a calma e a serenidade animando seus jogadores. Finalmente, faltando cinco minutos para o fim do jogo, quando os pernambucanos fizeram à famosa “linha burra” dos zagueiros, Toninho Taino entrou para fazer história na Fonte Nova. Esta quase veio abaixo. Foi uma loucura! O juiz Carlos Sergio Rosa Martins deu ainda dois longos minutos de desconto, mas o Santa estava abalado e sem força não oferecendo mais perigo. Após o apito do juiz a festa rolou pelo gramado e por toda a Bahia. Parecia que o tricolor havia ganhado um título naquele domingo de abril.

Na terceira fase não o clube não foi muito adiante. O Bahia seria eliminado pelo Flamengo no “mata a mata”: zero a zero em Salvador, e dois a zero para o rubro negro carioca no Maracanã. Mas a torcida pouco ligou. O feito havia sido conseguido. Quanto a mim, jamais esquecerei daquele dia e daquela vitória, que reputo como a maior do Bahia que meus olhos viram:
BAHIA 5 X 0 SANTA CRUZ.
Relembro os times que tomaram parte naquele espetáculo. Renato; Edinho, Zé Augusto, Edson Soares e Ricardo Longhi; Washington Luiz, Emo e Léo Oliveira; Toninho Taino, Dirceu Catimba e Gilson Gênio. O técnico era o famoso Aimoré Moreira campeão pela seleção brasileira. O Santa Cruz veio com Wendell; Celso Augusto, Silva (Pedrinho), Alfredo e Hilton Brunis; Deínho (Wilson), Carlos Roberto e Baiano; Agnaldo, Dario e Joãozinho. O técnico era Hilton Chaves

*   Agradecemos as imagens aos blogs esporteclubebahia.com.br, coraisdaserie.esporteblog.com.br e cranik.com.

sábado, 30 de outubro de 2010

Dia de cão na Fonte Nova


     

Galdino Antônio Ferreira da Silva
Financista, desportista e colaborador dos blogs História do Futebol, Futebol 80 e Memórias da Fonte Nova.                                                                                       
                              
Sabe aqueles dias que nada dá certo? Que tudo que nós fazemos não fica do jeito que desejamos e tudo vai por água abaixo? Vou contar aqui o que aconteceu com um jogador chamado “Guerreiro”. Atuava em 1978 como zagueiro e capitão de um clube pouco conhecido, a Associação Desportiva Guarani, mas que em 1946 conseguiu seu único título de campeão baiano.
Era um domingo e dia dois de julho, data da verdadeira independência do Brasil conseguida na Bahia 155 anos antes ás custas de muitas vidas. Nesse dia, iria acontecer o grande jogo Bahia e Corinthians pelo campeonato brasileiro, e que foi ganho pelo tricolor baiano por um a zero. Estávamos no tempo em que o público aguardava o jogo assistindo uma “preliminar”, e nela peleavam Guarani e Fluminense de Feira. Disputava-se na ocasião um torneio criado pela Federação Baiana de Futebol-FBF, pra manter em atividade os clubes que não disputavam o brasileiro. Este reunia equipes como Galícia, Ypiranga, Leônico, Redenção, Jequié e outras.
O jogo valia a classificação para as semifinais do torneio. Em Feira de Santana o Fluminense havia derrotado o Guarani por 3×2 e uma simples vitória por um gol de diferença dava a classificação ao time do bairro do Barbalho, apelidado assim por ser onde ficava a sede do clube.·.
Antônio Guerreiro é da família do musico Cid Guerreiro que fez como cantor e compositor. Além de ser jogador de futebol era também funcionário do Hospital Juliano Moreira, onde foi colega de meu pai. Assim, ele me convidou pra assistir o jogo. Disse que em Feira que ele não tinha podido ir, mas que neste domingo ele jogaria muito na Fonte Nova e levaria o Guarani para as semifinais.
No dia do jogo eu e meu primo Salvador chegamos mais cedo no estádio. O sol estava “a píno” por volta das 14 horas. Estavam presentes ainda outros amigos e parentes de Guerreiro que ele tinha convidado pra vê-lo jogar pela primeira vez na Fonte Nova. Apenas uma hora depois os times entram em campo. Vi em campo alguns jogadores que conhecia. No Fluminense jogava o lateral Edinho “Jacaré” e o ponta esquerda “Touro”. O primeiro veio a ser campeão brasileiro pelo Bahia dez anos depois, e o segundo ex-jogador do Vitória. No Guarani além do colega de meu pai Guerreiro, eu reconheci seu colega de zaga Berto (que hoje é revelador de jogadores, como Dante Bomfim, com passagem pelo Lille da França e Bélgica) e o atacante “Quizomba”.·.
O jogo começou “quente”. O Guarani partiu logo “pra cima” do Fluminense. Era muita pressão, mas nada de gols. À medida que o tempo passava os nervos dos jogadores iam ficando a flor da pele. E foi ai que começou o dia de cão do nosso amigo Guerreiro. Em um contra ataque do tricolor feirense Touro passa por ele aplicando um “drible da vaca” e abre o placar. Meu amigo tinha uma cabeleira parecida com a de Valderrama, o futuro craque da Colômbia, e estava muito afoito e nervoso com a situação. Gesticulava e gritava muito. Mas, perto do fim do primeiro tempo o Guarani consegue empatar o jogo.
Após o intervalo, mais animado, o Guarani voltou a ir “pra cima” do Flu, no entanto deixava espaços na defesa para os ataques de Touro, que era muito rápido. Num desses ataques Guerreiro entra duro no ponta esquerda e leva cartão amarelo. A partir daí nada mais deu certo para o nosso amigo que, com medo de ser expulso, era driblado com facilidade, errava passes e lançamentos.
Mesmo assim, lá perto dos trinta minutos, o time consegue “virar” o jogo marcando o segundo gol. A torcida do Bahia, que já enchia a velha Fonte para o jogo principal, comemorou, pois estava torcendo pro Guarani. Nos minutos finais os “touros do sertão” foi quem vieram “pra cima” a todo vapor. Mas num contra ataque do Guarani sua defesa comete pênalti. É delírio na Fonte Nova, pois todo mundo havia chegado.
                                      
Enquanto o time discute quem bate o pênalti Guerreiro não quer. Coloca a bola debaixo do braço e põe na marca de cal. É ele quem bate e pronto! O juiz apita e ele chuta a bola lá no Dique do Tororó, a léguas do gol de Mundinho. Deve ter sido o pior pênalti batido na Fonte Nova em 60 anos.
Mas o pior ainda estava por vir, acreditem! No lance seguinte ele segurou Touro na área e o juiz marcou outro pênalti, agora para o Fluminense. O tricolor feirense não tem pena convertendo a falta máxima. Agora a partida está 2 a 2. O resultado classificava os “touros do sertão”. Havia ainda alguns minutos desse jogo “emocionante”, mas nada dava mais certo para o Guarani.
Logo depois Guerreiro sai como louco para evitar um contra ataque do Flu e não vê o goleiro Doda fora do gol fazendo um gol contra. É o fim da picada e a “virada” do tricolor feirense! Pra completar o desastre, o Guarani dá a saída e o time perde a bola, quando Guerreiro entra duro no atacante Tatá do Fluminense sendo expulso de campo.
Era o dia de cão da vida de Antônio Guerreiro, o “xerife” da zaga e capitão do Guarani em sua estreia na Fonte Nova. Muitos anos depois ele ainda não conseguia esquecer-se desta partida.
Depois desse fiasco ele ainda conseguiu ser contratado pelo Redenção onde jogou até 1980, indo no ano posterior para o Botafogo local onde pendurou as chuteiras. Há, no entanto, amigos que quando o veem vem logo com aquele papo do jogo daquela tarde infeliz onde Guerreiro conseguiu:
tomar um “baile” de Touro, perder um pênalti, cometer outro, marcar um gol contra, e ser expulso
Este Record de ruindade nunca foi quebrado na Fonte Nova. Realmente, um dia pra esquecer!

*  Agradeçemos pelas imagens aos blogs copadomundo.uol.com.br e copa2010.ig.com.br.

quinta-feira, 28 de outubro de 2010

Todos os campeões da Fonte Nova


Galdino Antônio Ferreira da Silva
Financista, desportista e colaborador dos blogs História do Futebol, Futebol 80 E Memórias da Fonte Nova.                                                                                       

Desde janeiro de 1951 até aquela fatídica tarde da tragédia de novembro de 2007 a Fonte Nova deu a Salvador dezenas de campeões. Nosso levantamento indica que no nosso histórico estádio  as torcidas deram o grito de “é campeão” 72 vezes.

É necessário, porém alguns esclarecimentos. Apesar do trabalho realizado, ainda reina dúvida sobre onde foram realizados vários torneios inícios que não constam do nosso levantamento. Não estão incluídos também os antigos campeonatos de “aspirantes” e os torneios das divisões de base.

Há ainda casos específicos onde o título não foi decidido na Fonte Nova. Como o do Ypiranga em 1951 e o do EC Bahia em 1970, ambos realizados no antigo campo da Graça, este último em função da reforma de ampliação da Fonte Nova. O título foi ainda decidido em Alagoinhas e em Feira de Santana. Na primeira, em 1983 e 1986, quando o tricolor venceu a Catuense. Já na segunda, ocorreu em 1969, quando os “touros do sertão” decidiram o campeonato por antecipação. Não pode também ser esquecido que, a partir de 1993 o EC Vitória passou a demandar os seus jogos pelo campeonato baiano no Estádio Manoel Barradas, o “Barradão”.·.
O primeiro e o último campeão no estádio é o EC Bahia. A primeira década teve 18 campeões, registrando-se a vantagem do tricolor com onze títulos vindos em segundo lugar o EC Vitória com cinco títulos. São os seguintes: 

1951 – ESPORTE CLUBE BAHIA – Torneio Otávio Mangabeira
1951 -  PORTUGUESA DE DESPORTOS/SP – Torneio Interestadual de Salvador
1952 – ESPORTE CLUBE BAHIA – Torneio Quadrangular da Bahia
1952 – ESPORTE CLUBE BAHIA – Campeão Baiano
1953 -  ESPORTE CLUBE BAHIA – Torneio Roberto Moraes Martins Catharino
1953 -  SPORT CLUB INTERNACIONAL/RS – Torneio Regis Pacheco
1953 – ESPORTE CLUBE VITÓRIA – Campeão Baiano
1954 – ESPORTE CLUBE BAHIA – Torneio Quadrangular da Bahia
1954 – ESPORTE CLUBE VITÓRIA – Torneio Orlando Gomes
1954 – ESPORTE CLUBE BAHIA – Campeão Baiano
1955 – ESPORTE CLUBE VITÓRIA – Torneio Regis Pacheco
1955 – ESPORTE CLUBE BAHIA – Torneio Vivaldo Tavares
1955 – ESPORTE CLUBE VITÓRIA – Campeão Baiano
1956 – ESPORTE CLUBE BAHIA – Campeão Baiano
1957 – ESPORTE CLUBE VITÓRIA – Campeão Baiano
1958 – ESPORTE CLUBE BAHIA – Campeão Baiano
1959 – ESPORTE CLUBE BAHIA – Campeão Baiano
1960 – ESPORTE CLUBE BAHIA – Torneio Interestadual de Salvador

                    
A famosa década de 60 apresentaria maior diversificação entre os clubes campeões, sendo 19 ao todo. O Bahia ganharia cinco títulos, o Leônico ficaria com quatro e o Vitória com três, seguindo-se outros menos votados.

1961 – ESPORTE CLUBE BAHIA – Campeão Baiano
1961 – ASSOCIAÇÃO DESPORTIVA LEÔNICO – Torneio Nilo Passos e Waldemar Tourinho
1961 – ESPORTE CLUBE BAHIA – 1º Torneio Quadrangular de Salvador
1961 – ESPORTE CLUBE BAHIA – 2º Torneio Quadrangular de Salvador
1962 – ESPORTE CLUBE BAHIA – Campeão Baiano
1963 – SANTOS FUTEBOL CLUBE /SP– Campeão da Taça Brasil
1963 – ASSOCIAÇÃO DESPORTIVA LEÔNICO – Torneio Governador Lomanto Junior
1963 – FLUMINENSE DE FEIRA FUTEBOL CLUBE – Campeão Baiano
1964 – ASSOCIAÇÃO DESPORTIVA LEÔNICO – Torneio Renato Reis
1964 – ESPORTE CLUBE VITÓRIA – Campeão Baiano
1965 – ASSOCIAÇÃO DESPORTIVA LEÔNICO – Torneio Inicio
1965 – ESPORTE CLUBE VITÓRIA – Campeão Baiano
1966 – ASSOCIAÇÃO DESPORTIVA LEÔNICO – Campeão Baiano
1967 – CLUBE DO REMO (Pará) – 1º Torneio Quadrangular de Salvador
1967 – ESPORTE CLUBE VITÓRIA – 2º Torneio Quadrangular de Salvador
1967 – ESPORTE CLUBE BAHIA – Campeão Baiano
1967 – CLUBE NAUTICO CAPIBARIBE (PE) – Torneio Governador Luiz Viana Filho
1968 -  AMÉRICA FUTEBOL CLUBE (RJ) – Torneio Governador Luiz Viana Filho
1968 – GALICIA ESPORTE CLUBE – Campeão Baiano

                                  
Na década de 70 o EC Bahia volta a ter ampla hegemonia sobre os demais clubes, são 17 títulos, dos quais o tricolor ganha dez, seguido de longe pelo Vitória com três títulos, e pelo Leônico com dois. A década começa com a construção do anel superior do estádio num trágico torneio vencido pelo EC Bahia, em função do Grêmio Porto-alegrense ter aberto mão da taça. Destaca-se o inédito heptacampeonato do tricolor baiano.

1971 – ESPORTE CLUBE BAHIA – Torneio Luiz Viana Filho (Reinauguração da Fonte Nova)
1971 – ESPORTE CLUBE BAHIA – Campeão Baiano
1971 – FLUMINENSE FUTEBOL CLUBE (RJ) – Torneio José Macedo Aguiar
1972 – ESPORTE CLUBE VITÓRIA – Campeão Baiano
1973 – ESPORTE CLUBE BAHIA – Campeão Baiano
1974 – ESPORTE CLUBE BAHIA – Campeão Baiano
1975 – ASSOCIAÇÃO DESPORTIVA LEÔNICO – Torneio Inicio
1975 – ESPORTE CLUBE BAHIA – Campeão Baiano
1975 – SANTOS FUTEBOL CLUBE (SP) – Taça Cidade de Salvador
1976 – ESPORTE CLUBE BAHIA – Campeão Baiano
1977 – ESPORTE CLUBE BAHIA – Campeão Baiano
1978 – ASSOCIAÇÃO DESPORTIVA LEÔNICO – Torneio Inicio
1978 – ESPORTE CLUBE BAHIA – Campeão Baiano
1979 – ESPORTE CLUBE BAHIA – Torneio Inicio
1979 – ESPORTE CLUBE BAHIA – Campeão Baiano
1980 – ESPORTE CLUBE VITÓRIA – Torneio Inicio
1980 – ESPORTE CLUBE VITÓRIA – Campeão Baiano

                                 
Na década de 80 houve acontecimentos políticos importantes para a sociedade brasileira, como o fim da ditadura militar. Mas a torcida do EC Bahia continuou gritando na Fonte Nova “é campeão” mais do que as outras. São seis títulos contra três do Vitória.

1981 – ESPORTE CLUBE BAHIA – Campeão Baiano
1982 – ESPORTE CLUBE BAHIA – Campeão Baiano
1983 – ESPORTE CLUBE BAHIA – Campeão Torneio Imprensa
1984 – ESPORTE CLUBE BAHIA – Campeão Baiano
1985 – ESPORTE CLUBE VITÓRIA – Campeão Baiano
1987 – ESPORTE CLUBE BAHIA – Campeão Baiano
1988 – ESPORTE CLUBE BAHIA – Campeão Baiano
1989 – ESPORTE CLUBE VITÓRIA – Campeão Baiano
1990 – ESPORTE CLUBE VITÓRIA – Campeão Baiano

Na década de 1990 o estádio se tornou “a casa do EC Bahia”, já que o EC Vitória construiu seu próprio estádio. Mas não seria somente por isto, é que o esquadrão de aço ganhou 37 dos 72 títulos que levantamos na Fonte Nova. Mesmo que agora os títulos do tricolor começassem a rarear a sua torcida nesta época ainda deu pra gritar “é campeão” por quatro vezes.
1991 – ESPORTE CLUBE YPIRANGA – Campeão Baiano 2ª Divisão
1991 – ESPORTE CLUBE BAHIA – Campeão Baiano
1992 – ESPORTE CLUBE VITÓRIA – Campeão Baiano
1993 – ESPORTE CLUBE BAHIA – Campeão Baiano
1994 – ESPORTE CLUBE BAHIA – Campeão Baiano
1996 – ESPORTE CLUBE VITÓRIA – Taça Maria Quitéria
1997 – SOCIEDADE ESPORTIVA PALMEIRAS (SP) – Taça Maria Quitéria
1998 – ESPORTE CLUBE BAHIA – Taça Maria Quitéria

Três anos depois da Taça Maria Quitéria os títulos dariam adeus á Fonte Nova, sendo o último mais uma vez celebrado pelo EC Bahia no Campeonato do Nordeste. As multidões baianas não mais gritaram ali “é campeão, é campeão”.

*  Agradecemos pelas imagens aos blogs santerini.com.br,musicdavida.wordpress, pessoas.hsw.uol.com.br, fashionbubbles.com e dilemasdeadolescente.blogspot.com.

quarta-feira, 27 de outubro de 2010

O adeus do Botafogo SC


                                                     
O Botafogo Sport Club foi uma das agremiações mais tradicionais da Bahia. Iniciou sua participação em campeonatos estaduais durante a Primeira Grande Guerra no amadorismo e atravessou décadas de profissionalismo atuando por 73 anos. Foi mais que um time de futebol tornando-se um clube social e recreativo que faz parte da memória de muitos baianos. Quem não se lembra da sua sede de praia que funcionava na praia de Armação? E dos uniformes de seus jogadores? Eram camisas vermelhas e calções brancos ou ao contrário. Às vezes vestiam calções brancos e camisas de listras brancas e vermelhas. Mas, se não me engano, uma vez vi o time todo de branco com meiões vermelhos.
O clube revelou muitos jogadores para o futebol baiano, nacional e internacional, como Mica, Zague e Cabinho. O primeiro seria, durante mais de 30 anos, o único jogador da Bahia a vestir a camisa da seleção brasileira durante o Campeonato Sul Americano que disputaria nos anos 30. Os dois últimos brilharam no futebol mexicano.
O Botafogo detém até hoje o quarto lugar entre os clubes que mais conquistaram títulos de campeão estadual, embora seja esquecido por várias publicações de futebol.  O site futebol2009, ao listar os campeões baianos de todos os tempos suprime os títulos do Botafogo. Já o blog Bola na área omite o seu vice-campeonato de 1965 creditando-o ao EC Bahia.  Por último, mas não por fim, o blog Campeões de futebol não registra qualquer de seus cinco vice-campeonatos obtidos nos anos de 1929, 1932, 1943, 1954 e 1965.
Seus tempos áureos foram nas décadas de 20/30 quando ganhou seis títulos de campeão baiano.  Na primeira, disputava a hegemonia do futebol com Ypiranga e Galícia. Já nos anos 30 a estes se acrescentou o Bahia. Ganhou por várias vezes o antigo campeonato de “aspirantes” e seis torneios inícios. Sua história acompanha todas as fases do futebol baiano atuando no Campo da Pólvora, no antigo campo do Rio Vermelho, no Estádio da Graça e na era da Fonte Nova, tendo nesta última metade das suas participações.

A principal característica da sua história é a de crescer em épocas de crise. Seu primeiro campeonato ocorre em 1919, quando o mundo se recuperava de um conflito que tinha destruído mais da metade da Europa e deixado dezenas de milhões de mortos e o Brasil sofria com as serias restrições ao comércio internacional.  Estávamos nos tristes anos do presidente Epitácio Pessoa e na Bahia haveria uma verdadeira revolta dos coronéis do interior que se aliaram com J.J. Seabra pra derrotar o candidato do seu rival que estava no governo do estado. O EC Vitória continuava sem participar do campeonato, do qual havia se retirado desde 1913.
Mesmo neste ambiente de crise o Botafogo fez uma bela campanha onde somou 17 pontos, com apenas uma derrota e um empate e tomando cinco gols. Como o antigo Fluminense de Salvador imitou-lhe os resultados houve necessidade de um jogo extra ganho pelo alvi rubro por um a zero ficando com o título.
Alguns anos depois o Botafogo ganharia os dois primeiros campeonatos do Estádio da Graça, inaugurado em 1922. Estávamos em tempos da Revolta do Forte de Copacabana e da Semana de Arte Moderna e era tumultuada a sucessão presidencial. O clube, porém, continuaria sua trajetória vitoriosa sofrendo na campanha do “bi” apenas três derrotas, e tendo necessidade de jogo extra apenas no segundo título onde venceria a antiga Associação Athlética da Bahia por um a zero.
                                          
Em 1924 o Brasil entraria em guerra civil quando São Paulo chegou a ser bombardeada por vários dias levando a retirada da cidade de boa parte de sua população. O episódio teria sérias decorrências, com a insubordinação de militares no Sul do país e a formação da lendária Coluna Prestes. Esta percorreu o Brasil sem ser derrotada tendo lutado inclusive na Bahia. O estado formava ao lado do governo da chamada “República velha” contra os paulistas e revoltosos. Mas, por mais inusitado que possa parecer, nesta época o Botafogo se agiganta, sendo bicampeão do torneio início (1924-1925) e conquistando o campeonato baiano de 1926 após uma sensacional goleada no Ypiranga por 7 X 2 no jogo extra que foi necessário para decidir o título.
O Crack da Bolsa de Nova Iorque faz um grande estrago na economia mundial. O cenário dificultou a manutenção do mecanismo de socialização das perdas na agricultura brasileira, onde todo o país financiava os cafeicultores, cujos representantes políticos governavam o Brasil com aliança com os pecuaristas mineiros. Nesse cenário o Botafogo seria vice campeão baiano só perdendo o título para o maravilhoso time do Ypiranga que obteria o título de forma invicta.
O processo político brasileiro vai culminar na Revolução de 1930, quando, dissidentes do regime aliados a civis e oficiais modernistas derrotados nas eleições fraudadas, põem abaixo o governo de Washington Luís. As elites baianas, porém, ficariam do lado derrotado, o que levaria ao estado a sofrer intervenção por vários anos.  Os problemas agravariam as disputas do nosso futebol fazendo com que o Vitória e Galícia não participassem, sendo o campeonato disputado por apenas cinco clubes. É ocasião de o Botafogo dar um verdadeiro passeio ganhando o título enquanto ecoavam os primeiros tiros da revolta contra um regime que infelicitava o país há quatro décadas.

A Revolução de 30 parecia ter vindo pra mudar. No entanto, o bloco político que lhe deu origem logo começou a se desfazer quando o programa com o qual foi deflagrada deixou de ser aplicado. A corrupção continuava campeando, assim como o arrocho salarial dos trabalhadores, que tinham seus sindicatos controlados pelo Estado. Os paulistas novamente se revoltam, influenciando vários segmentos do país com a Revolta Constitucionalista de 1932. A crise, porém, continua sendo energia para o Botafogo, que, deparando-se novamente com o invicto Ypiranga, obtém novo vice campeonato em 1932, e conquistaria o torneio início do próximo ano.
Num cenário de agravamento das tensões mundiais o país se divide entre comunistas/nacionalistas e integralistas. A Aliança Nacional Libertadora cresce rapidamente em todo o país. O ato de sua criação em Salvador lota o antigo Cine Jandaia na Baixa dos Sapateiros. Sentindo-se forte para coibir os desmandos getulistas a ANL tenta tomar o poder em novembro de 1935. Nesse tempo, entre passeatas e balas o Botafogo volta a se agigantar e recupera o campeonato baiano neste mesmo ano fazendo uma média de três gols por partida e com apenas duas derrotas.   
A derrota da ANL inaugura um cenário de inaudita repressão e perseguição no Brasil que irá culminar no golpe do Estado Novo. Aqui na Bahia, frustrado com o cancelamento das eleições presidenciais o governador baiano Juracy Magalhães renuncia levando o estado a amargar vários anos de interventoria. As condições de obscurantismo levam o campeonato a um desenlace inusitado. O primeiro turno se desenrola em meio a um Botafogo absoluto que vai derrubando uma a uma as equipes que cruzam o seu caminho. Assim caem os Yankees (4 X 1), o Galícia (5 X 3), o Energia Circular (3 X 1), o Vitória (6 X 2) e o Bahia (3 X 1), com exceção do Ypiranga que obtém honroso empate em 2 X 2.
A liga, entretanto, alegando falta de público, resolve “suspender” aquele campeonato começando tudo de novo mudando as regras do jogo no meio do campeonato em flagrante prejuízo ao Botafogo. Quando o campeonato foi retomado dois meses depois o alvi rubro não foi mais o mesmo sendo o “novo título” conquistado pelo EC Bahia. Assim, seriam proclamados “dois campeões”, coisa que só voltaria a ocorrer na Bahia 60 anos depois. Seria o último título de campeão baiano do Botafogo que sequer pode comemorar condignamente.
O Botafogo, porém, continuaria a ter bom desempenho em torneios inícios durante a interventoria, “papando” o de 1940 e obtendo dois vices, em 1939 e 1941. Durante o “tri” do Galícia, chegaria a disputar um supercampeonato em 1943 com o azulino e o Vitória, sagrando-se vice campeão.
Durante as obras da construção da Fonte Nova, continuaria brilhante nos torneios inicios em 1948(campeão) e 1949(vice) jogados ainda no campo da Graça. O novo estádio, porém iria ser muito ingrato para os alvi rubros baianos. A partir da década de 50 rareia cada vez mais a presença do Botafogo na linha de frente do futebol baiano. No entanto, em dois momentos de crise aguda renasce o Botafogo.
                                     
As eleições presidenciais de 1950 mostrariam um Getúlio Vargas aparentemente renovado e vinculado a bandeiras dos trabalhadores. Seu novo governo abre um período difícil na vida nacional que, se por um lado abriu espaço para conquistas populares como a PETROBRAS, por outro, iniciava um ciclo de lideranças populistas cujos interesses políticos estavam em primeiro lugar. Nesta época volta a aparecer o clube, ao ganhar o torneio início de 1952 e a se sagrar vice campeão de 1954 sob a comoção do suicídio de Getúlio. Na ocasião a Fonte Nova veria um dos seus poucos supercampeonatos entre Vitória, Bahia e Botafogo, cada qual vencedor de um dos três turnos, onde o segundo só superaria o alvi rubro pelo saldo de gols.
Na primeira parte da década de 60 novo sopro anima o Botafogo. O país entra em tempos de crise que levariam a renúncia do presidente Jânio Quadros e a um quase golpe que suscitou uma campanha da legalidade para garantir a posse de João Goulart. O episódio, entretanto, se resolveria com um acordo de mudança de regime fazendo com que o Brasil passasse por uma inédita experiência parlamentarista. Nesses anos o clube se reorganiza, monta um bom time base e volta a ter bom desempenho, que o levam a conquistar os torneios inícios de 1962, e a sagrar-se vice no próximo ano.
                                  
O agravamento do cenário político leva a um golpe militar com o apoio dos EUA que então alterava a sua política para a América Latina.  O governador Lomanto Junior é preservado após jurar fidelidade aos golpistas e aceitar incorporar no seu secretariado a turma de aliados do regime. Em todos os setores da vida do estado ocorre limpeza, que afasta dirigentes futebolísticos.  É neste quadro, que uma agressão ao jornalista Cléo Meirelles (da qual é acusado o presidente do EC Vitória Ney Ferreira), vai servir de justificativa para a imprensa local boicotar o futebol. Com o país em “regime de exceção”, crise na FBF e pouco público nos estádios é que será realizado o campeonato de 1965 em que o Botafogo tem notável atuação.
O clube chegou a final contra o Vitória em igualdade de condições, após ganhar o primeiro turno (em superturno) e perder o segundo, e com um ataque que era disparadamente, o melhor do campeonato. Menos de dez mil pessoas presenciaram aquelas finais do mês de abril que só eram noticiadas pelo Esporte Jornal. A decisão era “melhor de quatro pontos”, e a estratégia do Vitória foi de jogar com paciência, fortalecendo ainda mais a sua boa defesa. Conseguiu assim neutralizar o ponto mais forte do alvi rubro que era seu forte ataque. O rubro negro empatou o primeiro jogo por zero a zero e, no segundo, conseguiu um pênalti que foi convertido por Tinho. Agora era só administrar o terceiro jogo onde jogava por novo empate.
Nesta partida, porém, o Botafogo “foi pra cima”, e maior volume de jogo. O Vitória passou o tempo cozinhando o adversário em fogo brando. Quando as coisas apertavam eis que aparecia o goleiro Ouri para resolver a questão. No fim da partida eis que o arqueiro salva a pátria numa grande intervenção em um chute de “Lapão” (o atual grande médico esportivo). Quase que a partida termina empatada. Eis o time do Botafogo que conseguiria a última façanha da sua longa vida, a de ser vice campeão baiano: Beto, Quidú, Da Silva, Lapão e Pão; Vadu e Alencar; Paraná (Nilo), Nilson, Cabinho e Machado.
Depois daí Cabinho iria pro México e o time do Botafogo quase seria desmontado. A década de 60 tinha acabado para o clube. Na próxima deixaria de participar do certame pela primeira vez em 1978, no entanto ainda voltaria a tempo de se sagrar vice campeão no ano posterior, quando foi realizado o penúltimo torneio início da história do campeonato baiano. No período os clubes de Salvador iniciam uma debacle que se aprofunda com a reestruturação econômica que começa a ocorrer ao final da ditadura. O clube deixa de participar do certame mais uma vez de 1984. Sobrevive agora a duras penas até que chega o fatídico ano de 1989.

Sua campanha já tinha sido sofrível em 1988, mas neste ano o clube esteve irreconhecível. Os jogos que realizava com a dupla BA-VI muitas vezes eram duros, sendo que ganhavam com dificuldade. Era comum inclusive perder pontos para o clube durante os turnos do campeonato. Nesse ano, porém, acho que o Vitória ganhou os dois jogos. O regulamento ia ficando cada vez mais confuso. Eram nesse ano quatro turnos e os clubes ficavam mudando de chaves em cada turno. O Botafogo caiu na “B” no primeiro e terceiro turno, sendo vice lanterna em um e lanterna no outro. Não ajudou trocar para a chave “A” pois continuou do mesmo jeito. Só ganhou duas partidas em todo o campeonato que foi ganho pelo EC Vitória. Só conseguiu fazer doze gols tomando 36!
Uma trágica coincidência acompanhou o clube que nasceu das camadas populares da nossa sociedade. Havia surgido na vespera da grande revolução proletária soviética e acabou quando esta chegava ao fim.  O Botafogo cumpria sua sina no campeonato ao tempo em que o muro de Berlim caia. Pouco depois seria a vez do ditador romeno Nicolau Ceausesco e da "revolução de veludo" na Thecoslovaquia. Era o fim de uma era que, por coincidência havia começado com o surgimento do Botafogo. 
O clube assim resolveu “dar um tempo”. Em 1990 se reduziu a pagar a licença de funcionamento sem disputar competições profissionais. No novo milênio, porém inscreveu-se para disputar as categorias de base. Quem se der o trabalho de pesquisar no site da FBF verá que ainda consta seu nome entre os integrantes da segunda divisão. Erro? Benevolência? Ou intenção de um dia voltar? Com a palavra os velhos botafoguenses. Mas que dá saudade do velho e glorioso alvi rubro dá!
* Agradeço aos blogs Historia do futebol, campeões do futebol, pelas informações, e historiaupf.blogspot.com, colunaprestes.jpg, vargasjpg, rev30.jpg, golpe64.jpg, muro-de-berlim3.jpg e vovoblogbarata.blogspot.com.

terça-feira, 26 de outubro de 2010

O primeiro campeonato baiano após a ditadura militar



A derrota da Emenda que restabelecia as eleições diretas para presidente sepultou a possibilidade de que o fim da ditadura no Brasil não fosse furto de negociações de cúpula. A oposição, hegemonizada pelos liberais, foi ao Colégio Eleitoral e elegeu Tancredo Neves de “balaiada” contra Paulo Maluf. A Bahia parecia prestigiada, num ministério onde Roberto Santos, Waldir Pires e ACM teriam posição, embora coubesse a este último o principal espaço, o Ministério das Comunicações.

Na época eu era militante do PT e agimos no sentido de combater aquela enganação. Não respaldamos o Colégio Eleitoral. Denunciamos o perdão aos crimes da ditadura. Combatemos a “Nova República” sarneysista. Eu participei de várias greves no período. Nem bem Sarney tomava posse e eu já estava na greve dos Correios.

Na Bahia havia mudado a conjuntura política. A entrada do governador João Durval na “Aliança Democrática” diminuiu (embora não evitasse) a repressão do governo possibilitando novos espaços para o movimento social na Bahia. De imediato intensificou-se a articulação dos movimentos de funcionários públicos. A Fundação Cultural, onde eu trabalhava, fez uma greve de “despedida” da diretora Olivia Barradas. Na ocasião, os funcionários trancaram a Biblioteca Central, saíram às ruas, sentaram no chão da Avenida sete parando por alguns minutos o transito.

Nesse ano o campeonato baiano estava muito enrolado e só começaria em agosto. Quase a metade dos clubes de Salvador passou a mandar seus jogos no interior, a ABB, em Lauro de Freitas, o Botafogo, em Dias Dávila, e o Leônico, em Ilhéus. O regulamento do campeonato era uma confusão só. Difícil de ser entendido pelo torcedor. Haveria dois turnos, quatro fases, e de quebra mais um turno se o mesmo clube não ganhasse as duas taças em disputa, a Cidade do Salvador e a do Estado da Bahia.

O quadro político nos estados convergia para as eleições de prefeito e governador. Em Salvador o PMDB manteve a candidatura de Mário Kertész, antigo integrante do grupo carlista, e havia um espaço entre os setores democráticos a ocupar. O PFL lançava o radialista França Teixeira, e ACM, então no PDS, lançaria (numa coligação com o PTB) o nome do tributarista afrodescendente Edivaldo Brito. Luís Pugas, do Partido Humanista, completava o elenco de candidatos. O PT lançaria Jorge Almeida após disputa interna.  

                                                                   
O campeonato baiano começou quando ia avançada a campanha salarial dos petroquímicos. Fui aos dois primeiros jogos do Vitória, vendo a goleada contra o Botafogo por 4 X 0(dois gols do nigeriano Ricky) e a vitória contra o Ypiranga por 3 X 1. Quando o time deu pra empatar eu só pude acompanhar pelo rádio, pois estava muito assoberbado pelas tarefas do movimento onde a grande greve do Polo exigiu nossa atenção até meados de setembro. Sofri assim com os empates com o Serrano, Fluminense e Catuense, deixando, pela primeira vez em muitos anos de assistir ao BA-VI com novo empate. Nessa fase o Vitória só ficou em primeiro lugar graças ao Ypiranga, que derrotou a ABB por 2 X 1!

Aí viajei para São Paulo onde iria ser realizado um evento importante, a fusão de três importantes organizações políticas que daria lugar ao Movimento Comunista Revolucionário que fiz parte. Nesta viagem e no retorno da campanha eleitoral, perdi a melhor fase do meu clube onde Ricky desandou a fazer gols que lhe levaria á artilharia do campeonato. Tive dificuldade de saber o resultado dos primeiros jogos em São Paulo, quando ganhamos do Ypiranga (1 X 0) e do Serrano (5 X 1). O restante foi um passeio, novo 4 X 0 contra o Botafogo, 1 X 0 no Fluminense, 0 X 0 com a Catuense, e, pra coroar o primeiro turno, 2 X 0 no Bahia (gols de Ricky e Zé Augusto).

Tudo isto tive que acompanhar pelo rádio, pois estava na maior trabalheira como coordenador da campanha do PT a prefeito de Salvador. Lembro que praticamente me mudei para a sede do partido, que era também sede da campanha, na medida em que não havia dinheiro para alugar dois locais. Passava o tempo elaborando programas, discutindo a intervenção do candidato junto á imprensa, animando os apoiadores, defendendo-nos na disputa interna, organizando panfletagens, pichações e outras atividades de campanha, e, finalmente, dando plantões na sede. Com se vê, pouca coisa!

O Vitória decidiria o turno contra a Catuense jogando por dois empates. Não deu outra coisa! Eu ainda consegui “fugir” das minhas atividades (é bom que ninguém saiba disto!) pra ver o segundo jogo onde Fernando fez o nosso gol contra o de Bobô, que na época jogava pelo time de Alagoinhas. Foi um jogão!

Enquanto isto a eleição solteira dificultava a mobilização para a campanha eleitoral. Mário Kertész (que liderava folgadamente as pesquisas de opinião) se negou a fazer debates, o que retirou das TVs esse importante instrumento de campanha, sendo que não foram feitas sequer entrevistas nas emissoras de rádio e televisão. Nossa campanha era de uma pobreza franciscana. Não tivemos jingle, adesivo ou bandeiras de candidato. Só no final, quando foram chegando os apoios, é que pudemos confeccionar a marca do programa de TV e adquirir camisetas para a boca de urna.

Nas proximidades do horário politico a Radio Educadora dispôs uma cabine no seu prédio para prepararmos os programas eleitorais. Nossa falta de estrutura era tão grande que sequer tivemos condições de preparar os primeiros programas, que só foram ao ar porque “picotamos” um programa anterior do PT, e onde o candidato a prefeito aparecia somente como presidente do partido. Mesmo assim, o candidato foi o único a colocar os movimentos sociais no ar e teve boa audiência a sua denúncia da sonegação de impostos por Mário Kertész.
                          
Mas continuava acompanhando o futebol. Para o Vitória bastava ganhar o segundo turno pra voltar a ser campeão do estado. Mas qual, o time desceu pela ladeira, após ganhar as quatro primeiras partidas, acabou sendo derrotado dentro da Fonte Nova pelo Itabuna e Leônico, deixando o título da primeira fase deste turno com o primeiro, e acabando em terceiro lugar.

Na segunda fase melhorou, ganhando todas as partidas de seu grupo somente com um empate com o Itabuna. Mas havia deixado que o seu arquirrival se soerguesse e este acabou ganhando o segundo turno em duas partidas contra o Vitória (1 X 3 e 1 X 1). Eu, pelo menos, continuava invicto, não tendo visto nenhuma derrota até agora, pois a ainda estava na apuração dos votos.

Na véspera da eleição a greve dos gráficos provocaria um susto enorme em todos os candidatos, pois causou problemas para a saída dos materiais eleitorais. Como apoiávamos o movimento não pudemos “furá-lo” tendo que aceitar as dificuldades para a impressão de materiais, que só seria resolvida (para nosso alívio) poucos dias antes da eleição. Teríamos pelo menos farto material de boca de urna!

Intensificamos nos últimos quinze dias a campanha, a encerrando com uma carreata no último dia permitido. O governo estadual de última hora deu reajuste aos funcionários, mas não “colou”, pois apenas 10% teve INPC integral. Mário Kertész e Edivaldo Brito, encerraram as suas campanhas com comícios e nós só conseguimos fazer uma carreata. Mesmo assim, realizamos uma combativa boca de urna, que passou a ser uma marca do PT nas eleições assim como o era da esquerda desde a segunda parte dos anos 70.

Chegamos a 5,14% dos votos, o que eu e a organização consideramos uma vitória. Mário Kertész teria uma vitória esmagadora alcançando 56,41% dos votos validos. Logo abaixo ficaria Edivaldo Brito com 16,52%, França Teixeira com 11,62% e, abaixo de nós Luís Pugas com 1,88%. Nosso candidato Jorge Almeida declararia á imprensa que o partido iria “assumir a oposição ao novo prefeito” ao qual pretenderia cobrar as promessas de campanha. Disse ainda não acreditar em mudanças expressivas em virtude dos “compromissos assumidos por este com grandes grupos e setores reacionários e retrógados da política estadual”.

Agora era recuperar o leite derramado no campeonato. O Vitória havia deixado que o seu arquirrival se soerguesse e este acabou ganhando o segundo turno em duas partidas contra nós (1 X 3 e 1 X 1). Eu, pelo menos, continuava invicto, não tendo visto nenhuma derrota até agora, pois ainda estava na apuração dos votos.

Quase que pedia uma “licença política” pra ver as finais. Pro Vitória ganhar o título tinha que começar tudo de novo. Haveria um quadrangular decisivo com os dois campeões de turno contra dois clubes interioranos, o Serrano(de Vitória da Conquista)e a Catuense(de Alagoinhas). Tanto o Vitória como o Bahia já levariam dois pontos de bonificação neste turno extra.

A tabela agora ajudaria a que eu assistisse aos jogos. É que Vitória e Bahia jogaram no interior as primeiras rodadas, com o meu clube ganhando as duas (3 X 1 do Serrano e 3 X 2 da Catuense) e o Bahia empatando uma (1 X 1 com a catuense) e perdendo a outra (2 X 1 para o Serrano). Foi em meados de dezembro que ocorreu o BA-VI onde o título estaria quase ganho, se meu clube vencesse os dois clubes do interior empatassem.

Ah que decepção! Foi minha primeira derrota no campeonato, por um a zero. Nesse dia o Serrano ganhou a Catuense fazendo com que um suor frio escorresse por minhas costas. Dobrava o terceiro turno com Vitória e Serrano com quatro pontos, o Bahia tinha três e a Catuense um. Será que iríamos conseguir perder este título?

Vem à segunda fase do terceiro turno (faça força pra entender!) e, logo na primeira rodada o Vitória repõe a vantagem ganhando de quatro do Serrano enquanto o Bahia perde para a Catuense (2 X 1). A segunda rodada seria decisiva para meu clube, quando enfrentaríamos a Catuense. Se o Serrano empatasse a vitória nos daria o título. E eis que tudo nos sorri. No dia vinte de dezembro ganhamos de 2 X 1 da “laranja mecânica” (gols de Bigu e Ivan) enquanto o nosso rival nos faz o favor de derrotar o Serrano. Era o sonhado título. O Vitória com dez pontos já não podia ser alcançado pelo Bahia que só tinha sete pontos.

O jogo final foi pra receber o caneco e colocar as faixas de campeão baiano de 1985. Mas não é que o Bahia colocou agua no nosso Chopp? Teve gente na torcida que acusou os jogadores de fazerem “corpo mole”, pois o título já estava ganho, só se salvando Ricky pelo gol que fez, fazendo com que perdêssemos mais uma vez para nosso adversário, agora por 2 X 1. Mas aí faltavam três dias para o Natal e foi só comemorar!

O ano de 1985 se encerrou com outro pacote de Sarney. São reduzidos os gastos, privatizadas empresas estatais, unificados os índices de correção monetária e salarial. Quanto a nós continuaríamos lutando contra seu governo.


*  Agradeço ao blogs História do Futebol, pelas informações, e aos novahistorianet.blogspot.com,mariokertesz.jpg e rickycampeao.opg,pelas imagens.