sexta-feira, 4 de fevereiro de 2011

O time da PM na Fonte Nova

                           
Em 1983 vivi uma curiosa experiência, como musico e professor da Policia Militar da Bahia. Na ocasião fui convidado pelo meu amigo e major Espírito Santo que não sabia das minhas preferências ideológicas e queria criar uma banda sinfônica na corporação.

Confesso que na época “viajei na maionese” achando que poderia ajudar a conscientizar a classe armada para a revolução no Brasil. Ao contrário do que possa parecer o convite sequer passou pela organização política de que eu participava. Minha visão acabou colaborando pra encurtar o trabalho que exerci no Quartel dos Dendezeiros, no bairro do Bonfim em Salvador.

Tudo parecia bem no início quando, inclusive, quatro soldados se inscreveram para as minhas aulas de contrabaixo. Cedo, entretanto, pude perceber que a natureza da instituição levava a uma série de problemas burocráticos, que atrapalhavam o curso. A PM daquele tempo mantinha uma disciplina denominada “Guerra Revolucionária” que se constituía numa verdadeira doutrina anticomunista voltada para o combate a um inimigo interno. E os soldados eram submetidos a uma disciplina férrea onde trabalhavam desde as cinco da amanhã sem tempo para os estudos do instrumento.
Minhas reclamações melhoraram um pouco a situação dos alunos. Assim, mais tarde, quando fizeram um movimento para serem promovidos a terceiro sargento adivinhem quem chamaram pras reuniões? Na ocasião aceitei, dando uma demonstração de completo desatino. O resultado é que fui pra mesa de uma assembleia, fiz propostas, acompanhei uma comissão á Assembleia Legislativa, quando... fui demitido e os demais presos! E ainda “sobrou” para meu amigo, o major Espírito Santo, que teve que ouvir muita repreensão. Esta foi minha breve experiência na Polícia Militar. Mas já tinha tido contato na década anterior com a corporação, e foi na Fonte Nova. Vou contra pra vocês.

Apesar de Bahia e Piauí pertenceram ao Nordeste e fazerem fronteira sua relação esportiva na maior parte do tempo é rarefeita. Há apenas iniciativas aqui e ali de uma aproximação, que se deu particularmente em alguns torneios Norte e Nordeste e excursões, envolvendo, particularmente, os clubes locais Flamengo e River. O primeiro foi o “papa-títulos” nos anos quarenta e o segundo nos anos cinquenta.

O Tiradentes é um clube mais novo. Foi fundado em 1959 pra ser um clube dos subtenentes e sargentos da Polícia Militar do Piauí. Sua denominação se deve á homenagem ao patrono da instituição. No entanto levaria sete anos para se filiar á federação e mais seis para aderir ao futebol profissional, sendo campeão estadual no primeiro ano que disputou. Sua mascote é o tigre e seu estádio é o Lindolfo Monteiro que tem capacidade para oito mil torcedores.
                                         O Estádio Lindolfo Monteiro
Os episódios que estou contando não seriam possíveis se não fosse à politicagem e os desmandos da antiga CBD. É que, durante os anos 70, pra resolver os problemas de legitimidade da ditadura militar, o órgão encheu de clubes o recém-criado Campeonato Brasileiro que, de grão em grão, chegou aos 94 participantes no fim da década. Na época ficou famoso o ditado “aonde a ARENA vai mal um time no Nacional”.
Os confrontos entre baianos e piauienses neste certame resumem-se a cinco meses, entre fins de 1973 e inícios de 1974, quando o Brasil vivia os momentos finais do “milagre econômico” do triste governo Médici. Quando no Brasil a pornochanchada fazia com que a sacanagem não ficasse restrita aos altos escalões militares e Raul Seixas declarava ser uma “metamorfose ambulante”.
No final de 1973 o mundo vivia a crise do petróleo, mas era uma época rica para a cultura onde assistimos filmes como Amacord de Felinni, Gritos e sussurros de Bergman e O ultimo tango em Paris de Bertolucci, cuja atriz Maria Schneider (Lembram-se? A que contracenou com Marlon Brando!) morreu ontem. No mês de setembro seríamos abalados com o golpe militar do Chile que derrubou o governo socialista de Salvador Allende e massacrou cerca de trinta mil pessoas. O grupo político Ação Popular Marxista Leninista que buscava se reorganizar, seria profundamente afetado ocorrendo “quedas” em setembro/outubro que levariam dezenas de militantes a serem torturados no DOPS da Rua da Tutóia em São Paulo.
                                                        De arma não!
Foi neste clima que o regimento (oh, digo o time!) do Tiradentes chegou em Salvador em 24 de outubro para cumprir compromisso pelo Campeonato Brasileiro contra o tricolor. Na oportunidade os torcedores que pensavam que o Bahia tinha “pegado o seu”. Afinal o clube nesse ano só perdeu pontos pros grandes clubes nacionais derrotando sucessivamente Figueirense, Paissandu, América (RJ) e Curitiba. Conta à lenda que disseram no vestiário aos jogadores tricolores que o time era da PM. Teve gente até que não queria jogar só entrando no gramado á muito custo.
Houve gente em meio aos 13.932 torcedores que suspeitou do magro escore de um a zero para os baianos. É que vivíamos uma ditadura militar e havia muito medo. Ainda mais ganhar da polícia... Na oportunidade os comandados de Aureliano Beltrão formariam com Tonho, Marinho, Ivan Limeira, Murilo e Neto; Gerson Andreotti e Carlos Alberto(Russo); Derivaldo, Joel, Paraná e Vicentinho. Do outro lado, os tricolores de Evaristo de Macedo atuariam com Zé Luiz, Altivo, Sapatão, Roberto Rebouças e Luís Alberto; Baiaco e Fito; Tirson, Douglas (Picolé), Everaldo e Marquinhos.
Passariam só 45 dias e os piauienses estariam de volta ao estádio, desta vez para enfrentar o EC Vitória. O rubro negro, que havia ganhado alguns dias antes do Nacional (AM), contava como certos os dois pontos pra garantir a sua recuperação no certame, fazendo festa de véspera. Mas como o jogo era com a turma da PM “cautela e caldo de galinha” não era demais. A batalha que se viu no estádio lembrou os corre-corre que sofríamos do regime, quando, após tomar conta das ruas (ou do jogo) os militares iam pra cima e desarticulavam as nossas iniciativas (ou jogadas). Não teve jeito, depois dos noventa minutos o placar não saiu do zero.
                                    Ai também já é apelação do Vitória!
Na oportunidade o Vitória seria dirigido pelo grande goleiro Carlos Castilho e formaria com Agnaldo, Roberto, Dutra, Valter e França; Deco, Davi, Mário Sérgio e Fernando Rabelo (Gibira); Luís Carlos e Osny. Já os piauienses de Ênio Lima estariam com Toínho, Murilo, Serjão, Tinteiro e Neto; Gerson Andreotti e Derivaldo (Joel); Mimi (Ventilador), Neviton, Sima e Vicentinho. Do time do Tiradentes Ventilador já havia jogado no rubro negro e Sima mais tarde seria adquirido pelo tricolor.
Em dez de março de 1974 o Tiradentes estaria de volta á Fonte Nova mais uma vez pra enfrentar o rubro negro baiano. Desta vez estávamos em situação diferente onde, após ganhar seguidamente em casa de Fortaleza e Santa Cruz, o Vitória tinha sofrido cinco derrotas seguidas, contra Cruzeiro, Santos, Goiás, São Paulo (0 X 2 na Fonte Nova) e Grêmio (0 X 1). Assim, o jogo contra os piauienses seria de vida ou morte voltando a colocar o time em paz com as vitórias.
O rubro negro foi logo pra cima tentando dispersar a formação da tropa piauiense. Mas o corneteiro logo tocou reestabelecendo à ordem. Mais tarde entrou o pelotão de choque que “limpou a área” do Vitória para os gols de Maranhão e Xavier. Osny marcaria nosso gol solitário numa estocada pela direita.  A valorosa inchada rubro negra não perdoaria seu time conferindo-lhe uma grande vaia ao final.
                                                 Ah, essa não jogou!
O Vitória ainda seria dirigido por Castilho, mas tinha algumas mudanças para a nova temporada. Formou com Joel Mendes, Roberto, Paulo Valença, Vavá e Jorge Valença; Derí, Roberto Menezes e Davi (Zé Luís); Medrado, Osny, Didi e Medrado. Enquanto o Tiradentes de Ivâ Navarro atuaria com Toínho, Célio Rodrigues, Cândido, Gilson e Neto; Ronaldo (Santos) e Botelho (Anselmo); Derivaldo, Joel, Maranhão e Xavier. Somente quatro soldados, digo jogadores do clube do Piauí, participariam das partidas, o goleiro Toínho, o lateral-esquerdo Neto, e os dublê de meia/atacantes Perivaldo e Joel.
Por coincidência, seria na despedida que o Tiradentes atrairia o maior público pagante, 22.210 torcedores.  O clube piauiense nunca mais voltaria à fonte do futebol. A situação chegou até ao nível das nossas sérias autoridades públicas. Alguém especulou que o clube ficou ressentido com as vaias. Naquele tempo era comum vaiar os militares, mas o Tiradentes era mais do que isto, tendo mostrado na Bahia que se tratava de um clube glorioso.
Depois dos acontecimento da Bahia venceu novamente os campeonatos estaduais de 1974, 1975(dividido com o River) e 1982. Foi no ano em que eu trabalhei na PM que o clube foi massacrado pelo Corinthians no Campeonato Brasileiro de 1983 por dez a um, naquela que é até hoje a maior goleada do certame.
                                         Olhem aí o time do Tiradentes!
Depois disto eu saberia pouco de sua atuação, mas teria outros encontros com os policiais militares nem todos agradáveis. Em 1990 o clube conseguiria seu último título de campeão estadual. Quatro anos depois eu e vários músicos seríamos espancados na Prefeitura Municipal quando fizemos uma ocupação nas vésperas do carnaval. Em 2001 eu apoiaria a greve da PM da Bahia sendo novamente aceito em suas reuniões. Quanto ao Tiradentes seria rebaixado para a Segunda Divisão do Piauí e, há algum tempo, nem esta disputa. 
                                             Um jogador simpático!

·         Agradeço as informações dos sites Futipédia, do Wikipédia, da Federação Piauiense de Futebol e do Campeões do futebol. Sou grato também as imagens dos blogs brici.com.br,dinizk9.blogspot.com,wagnermoura.blogspot.com.br,atarde.com.br,ultimosegundo.ig.com.br,  arieeduardo.worpress.com,colonlima.bloigspot.com,fotojornalismo.com.br e palavrasatravessadas.blogspot.com.

quinta-feira, 3 de fevereiro de 2011

O furacão da Fonte Nova

                                  
A relação esportiva dos baianos com os paranaenses é bem antiga. Data desde o antigo campeonato brasileiro de seleções quando os baianos foram incluídos no grupo sul(sic!) do certame. Um dos primeiros amistosos entre clubes dos dois estados se deu quando se finalizava a construção da Fonte Nova em cinco de abril de 1950.
Naquele dia, quem estava no velho campinho da Graça jura que viu o céu escurecer quando o “furacão”  entrou em campo. Foi um duelo de rubro-negros. De um lado o EC Vitória, formando com Ferrari, Cláudio e Valder; Joel, Diogo e Alírio; Edson, Moacir(Juvenal)(, Nouca, José(Bahiano) e Simbaúma. Do outro o Atlético Paranaense, atuando com Laio, Nilo e Delson; Valder, Wilson e Sanguinetti; Viana, Villanuieva, Nino(Jackson), Rui e Cireno. A Bahia viu pela primeira vez um furacão naquela época e só mesmo o rugir de um leão furioso com os ventos poderia contê-lo. O resultado seria um empate sem gols.
Os especialistas em metereologia dizem que os furacões se formam porque o mar concentra e conserva calor e, no verão, recebe uma maior quantidade e se aquece. Que quando chega sua superfície a certa temperatura a evaporação da agua passa a ser mais rápida e o ar começa a subir em forma de coluna, em volta da qual começam a soprar ventos. As gotas de agua formariam nuvens e, em alguns dias, chuvas e trovões.
                                                              Oi ele aí chegando!
Aqui na Bahia agente sempre ficou neste estágio. Mas em outros lugares o negócio “pega” pois, quando os ventos chegam a 120 quilômetros por hora é o diabo. Aparace o “olho do furacão” e os ventos são acompanhados de fortes chuvas e grandes ondas, maiores ou menores que podem arrasar tudo a depender do nível de classificação do fenômeno da natureza.
Mas não concordo com os metereologistas. Pelo menos no esporte os furacões não surgem assim. O do Atlético Paranaense teve até data e local, apareceu no campeonato paranaense de 1949 quando o clube literalmente causou a maior ventania já vista no Sul encaixando onze goleadas seguidas! Mas numa coisa os metereologistas tem razão, os furacões são viajantes e duram poucos dias.
Durante muitos anos o “furacão” não voltaria ao Paraná nem a Bahia. Os estados seguiriam caminhos diferentes. O Vitória iria aderir definitivamente ao profissionalismo voltando a ganhar títulos estaduais e a Fonte Nova seria vitoriosa em dois certames nacionais. Já o Atlético Paranaense entraria numa era de vacas magras que duraria mais de duas décadas (só quebrada com os títulos de 1958 e 1970) incluindo até uma passagem pela Segunda Divisão do estado.


Uma efêmera recuperação, entretanto, o levaria á condição de primeiro clube paranaense a participar de um Campeonato Brasileiro. E foi o intercâmbio dos certames nacionais que reaproximaria os dois estados fazendo com que o Atlético voltasse a jogar na Bahia em 16 de março de 1973.
Nos dias que antecederam a partida o céu ficou carregado. Ondas perigosas corriam pela Baía de Todos os Santos num furacão grau três. A partida redundou em novo empate, desta feita por dois gols. Na ocasião histórica, o “furacão” paranaense seria comandado por Vail Mota, numa época em que vestiam sua camisa jogadores como o goleiro Gainete, o lateral Vanderlei, o meia Didi Duarte e o atacante Buião. Já no rubro negro baiano, treinados por Castilho, se destacavam o lateral-esquerdo Jorge Valença, o meia Davi e o atacante Osny. Três meses depois mais um empate ocorreria entre as duas equipes, desta vez em Curitiba.
Na sua última década de ostracismo o Atlético Paranaense jogaria apenas mais uma vez na Fonte Nova, em outubro de 1976. Na ocasião sequer seria acompanhado de furacões. Talvez tenha sido por isto que sofreu sua primeira derrota para os baianos (um a zero com gol do ponta esquerda Jésum). Também seria muita sacanagem com as crianças pois o jogo foi na véspera do dia dedicado a elas. Como acabou fazendo sol a partida foi assistida por mais de doze mil torcedores numa época em que não pode trazer o craque Sicupira que não jogava mais.

                                                                Arena da Baixada
O Atlético dirigido por Geraldo Damasceno jogaria com Altevir, Ladinho, Alfredo, Gilberto e Marinho; Gerson Andreotti, Rota, Bira Lopes(Cláudio Radar); Nilton Batata, Tadeu(Nenê) e Tião Marçal. Já o Bahia do técnico Orlando Fantoni atuaria com Joel Mendes, Perivaldo, Sapatão, Zé Augusto e Romero; Alberto, Baiaco, Edu (Gibira); Jorge Campos, Douglas e Jésum.
Logo depois o clube se afastaria mais uma vez da boa terra, em função, particularmente, dos percalços das estranhas tabelas do certame nacional. Os baianos tiveram que se conformar com esses temporaiszinhos daqui. Só voltaria depois que a CBF substituiu a antiga CBD e se extinguiu a ditadura militar.
O clube já havia feito as pazes com o título estadual por três vezes, e, no ano seguinte á última conquista, em 12 de outubro de 1986, voltou á velha Fonte Nova. Na ocasião os baianos lhe dariam o maior público da história dos confrontos entre os dois estados, com mais de 41 mil pagantes, que acorreram ali, certamente, com saudades do “furacão”. Mas na ocasião não passou do grau um, chovendo um pouco, se ouviu umas trovoadas, mas isso o baiano “tira de letra”. O jogo contra o tricolor não tiraria o zero do placar.
                                                             O olho do furacão
Os paranaenses eram treinados por Levir Culpi e formaram com Marola, Cambé, Marcão, Orlando Fumaça e Haroldo; Barbosa, Deu, Roberto Cavalo(que mais tarde seria vice campeão brasileiro pelo Vitória) e Mauro Madureira; Agnaldo, Joãozinho e Renato Sá. Já o esquadrão de aço de Orlando Fantoni, atuou com Rogério, Edinho, Estevão, Claudir e Joel Zanata; Leandro, Paulo Martins, Bobô e Zé Carlos(Humberto); Marinho e Sandro.
No ano seguinte o grau do furacão aumentaria. Estávamos no módulo amarelo(uma invenção da CBF)e eu e mais apenas 7.700 torcedores pagaria pra sentir frio e saír molhados da Fonte Nova onde o Atlético Paranaense obteria sua primeira vitória em terras baianas ao derrotar o meu Vitória, dirigido pelo técnico Abel, por dois a um. O jogo foi poucos dias depois da data consagrada ao que dizem que foi a independência do país, e, naquele dia, só mesmo um Lula “mamão” conseguiria fazer um gol pra gente com aquele vento.
Em 1988 o “furacão” voltaria a ganhar o título paranaense no entanto o furacão não apareceu por aqui. Sem mudanças na atmosfera o tricolor baiano nem quis saber derrotando-o na Fonte Nova em 15 de outubro por dois a zero, gols de Renato e Zé Carlos, para pouco mais de oito mil pagantes. Não veio mais gente por medo do vento que poderia “rolar”.

                                 A cidade ficava assim quando o Atlético jogava na Fonte Nova
O ano de 1989 seria um dos mais ativos no calendário baiano. Baixou um furacão na política local que levou de roldão até o governador Waldir Pires que renunciou. No esporte a dupla BA-VI foi de mal a pior no certame nacional, tendo que disputar o apelidado “Torneio da Morte” que rebaixaria para a Segunda Divisão. Mas foi o ano em que o Atlético Paranaense mais visitaria a Bahia.
Na primeira partida deu até um ventinho e umas chuvas na Fonte Nova, quando do seu empate com o tricolor sem gols em outubro. Na ocasião jogavam no Bahia Naldinho e Charles e no Atlético Mazinho Oliveira. Como não teve nem ensaio de tempestade os baianos perderam o medo e quem pagaria seriam os paranaenses que perderiam (1 X 2) e empatariam(1 X 1) com o rubro negro baiano que acabaria sendo o vencedor do malfadado certame. O time de João Francisco que conseguiria este “título” de morte tinha valores como os meias Bigu e André Carpes e o atacante Hugo.
Nos anos 90 traria boas condições atmosféricas para o Paraná. Fruto disto o “furacão” só ganhou dois campeonatos estaduais, embora apresentasse vitórias administrativas e em seu patrimônio. Estava se formando nos mares do Sul uma tempestade de grandes proporções e que só seria percebida na década seguinte. Seu antigo estádio Joaquim Américo entraria em reforma e três anos depois viria abaixo para dar lugar a uma moderna arena de esportes. Na Bahia o EC também construiu uma nova praça de esportes, o “Barradão”, que lhe permitiu mandar os  jogos.
                                   Só de barco se chegava á Fonte Nova nos dias de furacão
A despedida dos jogos entre os dois rubro negros na Fonte Nova ocorreu em num confronto memorável pela Copa Brasil. Tudo estaria resolvido na última semana de fevereiro quando os baianos empatariam em um gol em Curitiba.  No dia 28 de fevereiro de 1991 e eu e mais 4.193 torcedores comprariam ingresso pra ver o Vitória de Pedro Toledo na Fonte Nova ir adiante na copa.
Nesse dia histórico não deu nem um ventinho sequer. Lembro-me ainda de alguns jogadores que atuaram nesta partida, como o goleiro Ronaldo, o lateral Paulo Robson e os meias André Carpes e Tobi. Já os paranaenses de Procópio estiveram com craques como os atacantes Eder Antunes e Serginho. O rubro negro baiano iria mais adiante na copa com a vitória por dois a um, com tentos assinalados por André Carpes e Junior ainda no primeiro tempo.
O tricolor é que faria as honras da casa na Fonte Nova a partir de agora, algumas vezes em datas estranhas, como, logo depois, em 31 de março de 1991, onde as vivandeiras lembravam os 27 anos do golpe militar, empatando em um gol. Nesse dia além do vento o céu escureceu totalmente e não houve refletor que iluminasse. Mas o que os paranaense nunca vão esquecer é o da volta do furacão em 1992.
                                           Vejam se alguém da Orla Marítima aguentava isto!
Foi um mês de calamidades em Salvador. Choveu logo no verão e continuou piorando o tempo no período habitualmente de chuvas de abril/maio, mas os trovões e o mau tempo se estenderam durante boa parte do ano. Todo mundo reparou que, na proximidade dos jogos contra o Atlético Paranaense, a coisa engrossou. Nesse ano até São Pedro mudou de lado. Foi sob o vento frio do Sul na Fonte Nova que o furacão venceria o tricolor por duas vezes seguidas, três a dois(23 de fevereiro) e dois a um(dois de outubro).
O elenco de jogadores capazes desta façanha foi treinado por Geraldo Damasceno e José Carlos de Oliveira, e era integrado pelo goleiro Gilmar (Sadi), pelos meias Leomar e Negrini(Pedralli), ou ainda Mineiro e Alex Lopes, e pelos atacantes Renaldo e Oséas(Valdir Benedito). O tricolor até que tinha um bom meio de campo, com Lima Sergipano, Osmar, Lenilton e Paulo Rodrigues e um ataque onde havia Naldinho, Marcelo Ramos e Vandick. Mas os ventos arrastaram tudo que se movia na Fonte Nova.
O ano azíago para a Bahia não voltaria a ser repetido. Se não houvesse outro motivo seria pelo fato do “furacão” passar a acumular forças para a “virada” do novo milênio. Assim, esteve irreconhecível no restante da década na Fonte Nova. Salvador vivia tempos de calmaria e o Atlético perderia por dois a zero a partida realizada em 21 de agosto de 1996. Na ocasião ainda jogavam juntos pelo tricolor Charles e Bobô e Fito Neves dirigia a equipe, e, por sua vez, Evaristo de Macedo tinha trocado de lado para treinar o Atlético onde atuavam o lateral campeão Branco e o atacante Paulo Rink.
                                                         E tome agua na Fonte Nova...
Quatro anos depois o tempo continuava bom e novamente o ex-furacão foi derrotado, agora por dois a um para um esquadrão de aço onde havia retornado Evaristo enquanto Artur Neto dirigia o Atlético. O Bahia tinha é época o goleiro Emerson, os defensores Felipe Alvim e Jefferson, os meias Bebeto Campos, Luiz Capixaba e Jorge Wagner(Bahia). E o rubro negro paranaense os meias Kléberson, Silas(que depois seria técnico)e Luiz Carlos Goiano e o centro avante Kléber Pereira(que recentemente passou pelo Vitória).
Três anos o clube voltaria a assustar os baianos. Havia sido campeão brasileiro em 2001 e iria continuar levando o nome do Paraná cada vez mais distante, obtendo vices campeonatos seguidos, no Brasil(2004) e na Libertadores da América(2005). Só muito fanatismo levaria 19. 535 torcedores á Fonte Nova naquele 23 de novembro de 2003. Foi uma semana de chuvas em Salvador e quase chegamos ao grau cinco.
O jogo foi um rosário de despedidas. O Atlético dava adeus ao nosso histórico estádio e o Bahia a Primeira Divisão da qual ficaria ausente por sete anos. Naquele ano o agora técnico Mário Sérgio, bem conhecido dos baianos, levaria o rubro negro paranaense ao 12º lugar no certame nacional. As equipes desse jogo histórico formaram com (Bahia do técnico Edinho)Emerson, Chiquinho, Marcelo Souza, Paulinho(Marcelo Nicácio) e Valdomiro; Danilo Gomes(Cláudio),Neto, Ramos e Preto Casagrande; Didi e Elias(William); (Atlético) Diego, Alessandro, Alessandro Lopes, Daniel e Rogério Correa; Michel Bastos(Izaías), Alan Bahia e Luciano Santos; Adriano Gabiru, Alex Mineiro e Jadilson(Ricardinho).  
                                                   O vento levou até a estátua de Pelé!
Não ficou nenhum jogador em pé pra contar a história desse jogo, dois a zero para os paranaenses. A Bahia continuou atingida por todo tipo de calamidade, deslizamentos, enchentes, mas nunca mais um furacão apareceria por aqui. Muita gente gostou pois melhorou muito o tempo mas tem gente que até hoje sente saudade daquele ventinho frio que percorria o corpo e a espinha quando o Atlético Paranaense jogava na Fonte Nova.

·         Agradeço as informações dos sites do Atlético Paranaense, Vivo Fiocruz, do Wikipédia, do Futipédia, do Canal Vitória e de Juliana Rocha. Sou grato também as imagens dos blogs internet.net,bbc.co.uk,blog10.wordpress.c om e emtemporal.com.br.

quarta-feira, 2 de fevereiro de 2011

A Fonte Nova e as Diretas Já

              
Foi em 1984 que se acelerou o fim da ditadura militar. O principal motivo foi o movimento lançado nos últimos meses do ano anterior e que se desenvolveram nos primeiros quatro meses desse ano em torno da emenda do deputado Dante de Oliveira. Pra quem não se lembra ela estabelecia eleições diretas para presidente da república. A campanha levou o nome de Diretas Já e o seu comício em Salvador ocorreu em 20 de janeiro na Praça Municipal quando compareceram em torno de 20.000 pessoas.

Neste dia só tivemos pela primeira vez uma megaestrutura para as manifestações que incluía o uso do trio elétrico Trás-os-Montes. O ato coincidiu com o novo incêndio no Mercado Modelo e poucos dias depois se realizaria o primeiro ato das Diretas Já em São Paulo. Seria após o comício de Maceió que o EC Bahia ganharia do Atlético Mineiro pelo Campeonato Brasileiro por dois a zero e quebrando um “tabu” de décadas sem ganhar do galo. Como o Vitória não participava da Primeira Divisão desde 1982 a estreia do tricolor prometia. Mas sua atuação seria um desastre ficando em 27º lugar no certame.

Em fevereiro haveria uma série de comícios pelas diretas. Seria a vez de Belém (60.000 pessoas), Rio de Janeiro (50.000 pessoas) e outras cidades. Nesse mês haveria apenas três jogos na Fonte Nova pelo “Nacional”, com o Bahia ganhando do Bangu (2 X 0) e do Treze de Campinas (2 X 1) e empatando com o CRB sem gols. Mas, no dia quinze, nove dias antes do ato das diretas em Belo Horizonte (300.000), o tricolor seria massacrado pelo galo mineiro por seis a zero.


A campanha das Diretas Já não parou nem pro carnaval onde diversos grupos de foliões e blocos levantaram a questão. Até a votação da emenda Dante de Oliveira o movimento só faria crescer ocupando progressivamente o universo da população, e em especial o das classes médias.

Em março ganhava ainda mais corpo registrando-se em Salvador vários plebiscitos em categorias e áreas. Os comícios não paravam, ocorrendo um novo no Rio de Janeiro, agora para 200.000 pessoas. Na oportunidade começam a "pipocar" manifestações nos estádios de futebol, enquanto o tricolor parava de vez de ganhar na Fonte Nova, onde empataria com Fluminense (1 X 1) e São Paulo (0 X 0) e perderia para o Goiás (1 X 2).

Mas foi mesmo em abril, quando estava prevista a votação da emenda, que as coisas se intensificaram. Houve atos em Londrina (50.000), em Recife (80.000), mais um no Rio de Janeiro (com um milhão de pessoas), e ainda em Goiânia (250.000), Porto Alegre (200.000), Vitória (80.000) e outro em São Paulo (mais de um milhão de pessoas). Na ocasião a presença de governadores eleitos pela oposição e artistas como Chico Buarque, Cristiane Torloni, Irene Ravache e outros contribuíam como atrações-extras á presença de público. Mas a sensação mesmo era Fafá de Belém, com quem tive a honra de tocar no início da carreira. O período vê a renúncia do ministro da marinha Maximiniano da Fonseca e os comícios-monstro de professores paulistas.

Gilberto Gil, Alceu Valença e Regina Duarte  na campanha política

Antes da votação da emenda soubemos dos preparativos militares do governo para pressionar os parlamentares e intimidar a população de Brasília. Sob o comando do general Newton Cruz o governo estabelece medidas de emergências na cidade uma semana antes da votação, realizando em sua véspera um desfile envolvendo cerca de 5.000 soldados, cercando a Universidade de Brasília, proibindo manifestações e fazendo prisões a torto e a direito.

Na ocasião chega a ser discutida na coordenação da campanha das Diretas Já as propostas de Jair Meneghelli (paralização no dia da votação) e de Joaquinzão (paralização durante a tarde a partir do meio dia) para que o povo brasileiro pudesse acompanhar a mesma. Apesar da simpatia com a primeira esta não foi encaminhada. O que vingou mesmo na véspera da votação da emenda foi à organização de um mega-panelaço no país. 

A derrota fez imperar o “realismo político” imposto por liberais e reformistas (que já conciliavam desde antes com o regime) e apostaram no Colégio Eleitoral pra chegar ao poder. Fizeram alianças com gatos e cachorros com este objetivo, na tática que ficou conhecida como a “união contra Maluf”. Um pequeno setor do movimento social e o PT, no entanto continuaram pregando as eleições diretas e negando-se a ir ao Colégio Eleitoral. Nesse mês compareceríamos ao terceiro encontro nacional do PT, realizado no Pampas Palace Hotel em São Bernardo do Campo.

Comício em Brasília com o velho cacique liberal Ulysses Guimarães

O ato do Dia do Trabalho no Campo Grande foi um dos primeiros após a derrota. Na ocasião levamos grandes bonecos para queimar simbolizando aqueles que haviam votado contra a emenda. Ajudou na mobilização o fato de haver várias greves na época, entre outras as dos médicos e professores da rede privada. Participei da direção desta manifestação que durou três horas, pois todos queriam falar. Nesse dia a oportunidade a Câmara Municipal convocou sessão especial para homenagear os trabalhadores.

Nesse mês eu ainda acharia tempo pra voltar a São Paulo pra comparecer á plenária da CUT nacional que avaliaria o processo de construção da central. Esta decidiu pelo boicote ao Colégio Eleitoral, marcou um Dia Nacional de Luta, e propôs a Greve Geral como forma de reforçar a continuidade da luta pelas Diretas Já.

É nesta época que começa o Campeonato Baiano de 1984, quando já haviam desaparecido alguns clubes tradicionais, e restavam apenas Ypiranga, Redenção e a dupla BA-VI em Salvador, já que o Leônico mandava seus jogos em Santo Antônio de Jesus. A partida inaugural foi entre o tricampeão Bahia e a Catuense de Alagoinhas apresentando a vitória do primeiro pelo escore mínimo.  O Vitória teria uma horrível estreia ao perder do Ypiranga, no complemento da rodada, por dois a zero. Cheio de tarefas políticas e sindicais acompanhei como pude meu rubro negro, que foi de mal a pior no campeonato.



Participei do tradicional desfile do Dois de Julho animando-me apenas pela impressionante participação popular num mês de julho onde o Vitória só iria ganhar a primeira partida no dia 18, mesmo assim contra o Redenção por três a um. Quatro dias depois terminaria a fase de classificação do turno que teria meu clube em oitavo lugar! Mas uma boa surpresa estava reservada para a fase final que seria vencida pelo Serrano.

O segundo turno se iniciaria uma semana depois com a parada indigesta de pegar o clássico BA-VI logo de saída. Mas o resultado não foi dos piores, pois houve empate em um gol, marcando o nigeriano Ricky pro rubro negro e o baixinho Osny para o tricolor.

O Vitória ainda empataria fora de casa com o Atlético de Alagoinhas em três gols antes que eu embarcasse para o Congresso da CUT. E foi ás vésperas do evento que Aureliano Chaves, Jose Sarney, Marco Maciel e outras personagens egressas da ditadura militar romperiam com o governo e formariam a Frente Liberal quando se definem as candidaturas a presidente de Paulo Maluf e Tancredo Neves via Colégio Eleitoral.

                         Celebrando acordos de cúpula...

Passei o congresso tentando saber do resultado do jogo Vitória X Itabuna. Mas vocês sabem que lá no Sudeste não é fácil saber notícias da Bahia né! Só de noite que eu saberia que o Vitória continuou na sua via crucis, empatando em um gol. Agora, ao invés de perder, só empatava!

O clube entraria o mês de setembro empatando com a Catuense e o Leônico. Mas eu era feliz e não sabia, pois a situação voltaria a piorar com a nova derrota contra o Ypiranga por dois a um! Enquanto isto a cada dia aderiam novos partidos, grupos políticos, jornalistas e instituições a saída liberal da ditadura militar pela via do Colégio Eleitoral. Isto fazia com que a dupla PT/CUT e outros setores mergulhassem num grande isolamento na sociedade em função da opção do boicote.

O Vitória ainda empataria com Serrano e Fluminense, só ganhando no segundo turno quando jogou de novo com o “caixa de pancadas” Redenção, e por seis a zero. Nesse dia os gols de Lula e Ricky lavaram nossa alma. Ainda houve gente que achou que havíamos “melhorado”! Agora ficávamos em sexto na fase de classificação vendo outros clubes mais uma vez na decisão!

                  Manifestação de torcedores do EC Bahia

Foi nesta ocasião que começaram os atos em Salvador em apoio ao candidato da Aliança “Democrática”. Pra fugir deste clima nos empenhamos foi nos movimentos dos petroquímicos, bancários, rodoviários, COELBA e metalúrgicos, que reivindicando principalmente o reajuste de salário pelo INPC integral.

Voltaria à lógica no Campeonato Baiano dando Bahia na cabeça na fase final do segundo turno. Só tínhamos agora uma chance de “livrar a cara” desta péssima campanha: o terceiro turno. Iniciamos em 14 de outubro empatando em dois gols com o Ypiranga, que faria a última de suas boas campanhas no certame. Mas depois as coisas melhorariam com o rubro negro ganhando de Leônico e Itabuna por três a dois.

O BA-VI viria logo a seguir e seria um teste de fogo das possibilidades do meu Vitória. Não me esqueço desse jogo, pois foi quando Tancredo Neves veio à Bahia pra receber apoio do governador João Durval. Na ocasião foi recebido por quase todos os segmentos políticos do estado, tendo que haver palanques diferentes para compor aquele exército de adesões. Em meio a toda esta confusão minha atriz favorita Catherine Deneuve, dos filmes de Luís Bunuel, visita Salvador. Mas não deu pra vê-la nem de longe no Hotel da Bahia. 
                          Não é que é ela em pessoa!

Como não comparecia as manifestações pró-Tancredo pude ir mais assiduamente á Fonte Nova vendo Ricky fazer mais um gols no tricolor, que empataria, novamente com Osny. As últimas partidas só seriam suficientes para a nossa classificação entre os quatro, pois cairíamos de produção perdendo do Serrano (0 X 1), ganhando do Fluminense (3 X 1) e empatando com a Catuense (2 X 2).

Mas, ah que desgraça! O Vitória consegui perder o terceiro turno pra Catuense no saldo de gols depois de ganhar da própria (2 X 0) e do Itabuna (1 X 0). A derrota foi na última rodada, quando perdemos para o tricolor (0 X 1) enquanto a “laranja mecânica” de Alagoinhas goleava o Itabuna por quatro a zero.

Estávamos fora das finais que iriam ser decididas pelos vencedores de turnos que, em uma invenção da FBF, se juntavam ao clube que havia somado mais pontos no certame (que, naturalmente, não era o meu rubro negro).
A primeira fase das finais foi equilibrada embora o Bahia tivesse dobrado em vantagem, com cinco pontos contra quatro da Catuense e Serrano e dois do Leônico. Mas foi na segunda fase que o Bahia acabou disparando e ganhando o tetracampeonato por antecipação. Deu goleadas no Serrano (5 X 2) e no Leônico (4 X 1) fazendo com que o jogo contra a Catuense (1 X 1) só servisse pra colocar as faixas.

                       Oi eu aí querendo o povo no poder! 

A esperança rubro negro ficava pro ano seguinte. A do Brasil também. Mas devo dizer que o Vitória teria mais sorte que nosso pobre país. Estávamos começando a construir o nosso estádio, o “Barradão” e neste ano voltaríamos a ganhar o título estadual. Enquanto isto o povo brasileiro veria Tancredo morrer e aturaria Sarney por quatro anos na presidência infelicitando o país. Até hoje somos obrigados a suportar esse nosso Hosni Mubarak que ondetm foi reeleito presidente do Senado! Quanto as eleições diretas serviria de mote até hoje pra renovar os clubes de futebol.

                E não é que ele está de novo no Senado?

* Agradeço as informações dos sites Wikipédia e Futipédia e as imagens dos blogs:miguelcordeiroarquivos.blogspot.com,palavrastodaspalavras.wordpress.com,www1.folha.uol.com.br,cecoc.com.br,24horasnews.com.br,educacaosuina.com.br,prr3.mpf.gov.br,alexandredoradio.blogspot.com,topicos.estadao.com.br e community.livejournal.com.   

terça-feira, 1 de fevereiro de 2011

O maquinista e a Fonte Nova

                                                   O trem da Desportiva Ferroviária

Muita gente sabe que a antiga Companhia Vale do Rio Doce - CVRD, é a maior empresa brasileira e a segunda maior empresa de mineração do mundo. Que, entre outros materiais, produz carvão, cobre alumínio, níquel, platina, cobalto e minério de ferro. No Brasil atua no setor de logística, ferrovia, minas, usinas e terminais marítimos. Sua história está ligada ao Espírito Santo, em função de ter sido durante a construção da estrada de ferro Vitória-Minas que se soube da grande reserva de minério de ferro na região.
Mas o que alguns não sabem é que a companhia teve um clube de futebol. A coisa foi mais ou menos assim. Nos anos 60 os ferroviários participavam de diversos clubes que costumavam solicitar apoio da empresa. Foi visando reduzir suas despesas que a companhia estimulou em 1963 a fusão de vários clubes que formaram a Associação Desportiva Ferroviária Vale do Rio Doce. O nome não deixava dúvida quem era a dona do empreendimento esportivo.
A Desportiva pode assim montar um sólido patrimônio, que incluiu um estádio (que hoje tem capacidade pra 20.000 torcedores) que chegou a receber a seleção brasileira, muitas conquistas e uma fiel torcida, engrandecendo o estado coirmão.
A tradição de intercâmbio entre baianos e capixabas veio de antes da Desportiva. Remonta ao velho campeonato brasileiro de seleções. Quando foi criada a Fonte Nova o processo se intensificou, com a realização de temporadas entre clubes dos dois estados. Aqui estiveram o Rio Branco e o homônimo Vitória. Mas, foi a partir da criação da Desportiva que o processo ganhou equilíbrio em termos de resultados, particularmente quando da criação dos certames nacionais.
A primeira apresentação da Desportiva na Fonte Nova se deu durante o terceiro Campeonato Brasileiro em 1973. A partida ocorreu dois dias após o dia consagrado as crianças. Na ocasião fui um dos 13.345 torcedores pagantes que viram os capixabas e a atração Fio Maravilha. Não fez muita coisa, mas deu pra assustar a defesa do Vitória, que mostrou que não queria brincadeira e ganhou de dois a um, gols de Valdir Espinosa e André Catimba, futuros técnicos de futebol do clube.
Nesse jogo histórico os capixabas de Sancinelli jogaram com Edalmo, Marquinhos, Elci, Juci e Nelson Souza (Adalberto Souza); Sérgio, Wilson Pereira, Déo (Evandro); Elísio, Fio Maravilha e Zezinho. Já meu rubro negro dirigido técnico Carlos Castilho atuou com: Agnaldo, Valdir Spinoza, Dutra, Valter e França; Deco (Didi), Davi, Fernando Rabelo e Mário Sérgio; Osny, Piolho e André Catimba.
                                     A luz do trem ajudava até os refletores da Fonte Nova!
No ano seguinte a CVRD assumiu a liderança mundial na exploração de minério de ferro e a Desportiva comemoraria o feito esportivo de participar pela primeira vez do Campeonato Brasileiro e enfrentar o EC Bahia pela única vez na Fonte Nova. Os 13.868 que ali compareceram viram o apito de um maquinista misterioso que comandou a equipe no empate em um gol.

Na ocasião o tricolor de Paulo Frossard jogou com Zé Luiz, Ubaldo, Sapatão, Altivo e Romero; Fernando, Baiaco e Douglas; Thirson, Piolho, Picolé e Peri (que marcou o gol tricolor). A Desportiva de Silvio Pirilo (lembram-se?) atuou com George, Léo, Elci, Juci e Élson; Evandro (Alves), Russo e Sérgio; Jaldemir (Marques), Paulinho e Zezinho (que marcaria o gol dos encarnados).
Os capixabas continuaram no certame nacional que, em seus casuísmos, não permitia que cruzassem com os baianos. Mesmo assim retornaria três anos depois á Fonte Nova, logo no dia posterior da data celebrativa da alegada república. Creio que o clima contagiou a Desportiva que venceu pela primeira vez os times baianos no nosso histórico estádio, ganhando do Vitória pelo escore mínimo, gol de Corinto.
Na oportunidade menos de 3.000 torcedores pagariam pra ver o maquinista com seus apitos que ecoavam no estádio. A equipe dirigida por Nelsinho Rosa formaria com Samuel, Suemar, Edmar, Paulo Cesar Colorado e Vicente Paixão; Célio (Evandro), Marcos e Sérgio; Corinto (que faria o gol do triunfo), Orlando e Toninho II. Na época o rubro negro de Alfredo Gonzalez tinha jogadores como o goleiro Iberê, o lateral Claudio Deodato, o zagueiro Amadeu e o meia Sena.
                                          A Fonte Nova esperando o maquinista misterioso
O resultado ficaria encravado na garganta do clube que, porém, teria que esperar mais três anos para a desforra. E ocorreu no ano em que os capixabas tiveram seu melhor desempenho no Campeonato Brasileiro, terminando em 15º lugar. Era o dia 16 de março de 1980 e 10.210 torcedores pagaram pra ver um grande jogou que terminaria favorável ao Vitória por quatro a dois.
Os baianos eram treinados pelo grande capitão Orlando Peçanha e tinham jogadores como o goleiro Gélson, a dupla de zagueiros Otávio Souto e Xáxa; a “meiúca” com Dendê, Edson Silva e Sena; e um ataque com Pita, Tatá e Sivaldo.  Já os encarnados de Beto Pretti estiveram com Samuel, Toninho, Edmar, Edson e Vicente Paixão; Adalto, Evandro (Luiz Cláudio) e Botelho; Dario, Vicente Cruz e Zuza (Kléber).
Mas a história entre os clubes dos estados vizinhos ainda não havia terminado e teria seu desfecho nas vésperas do carnaval de 1982. O jogo era pela primeira fase do Campeonato Brasileiro onde a Desportiva se recuperava da desastrosa campanha do ano anterior que havia lhe levado á lanterna do certame.
                                                                   Olhe ele aí!
Naquele dia dez de fevereiro os torcedores que chegaram a Fonte Nova tremeram na base ao ouvir o apito do maquinista misterioso. Será que ia aprontar alguma coisa contra nosso querido rubro negro? Foi uma partida tão franca quanto a anterior, só que com uma diferença. Quando o ataque da Desportiva pegava na bola vinha qual um trem atropelando a defesa rubra negra que fazia o que podia pra aliviar a situação. Foram então se sucedendo os gols de Naldo, Raul Zanata, Naldo de novo e até Batalha, mostrando que os capixabas se empenharam em sua última batalha da Fonte Nova. O rubro negro ainda marcou com Joel e Zé Augusto, mas foi insuficiente pra fazer frente à “máquina” espírito-santense que devolveria os quatro a dois.
Os protagonistas do feito capixaba seriam o técnico Delci Rodrigues, e os jogadores Rogério, Edmar, Gabriel e Raul; Marcos Nunes, Batalha (Raul Zanata), Jorge Luiz e Dario; Marcos Lima (Flecha), Naldo e Zuza. Já o rubro negro de Daltro Menezes caiu com Geninho (lembram-se dele no gol?), Valder, Alexandre, Nad e Marquinhos; Assis, Joel, Jorge Luiz e João Marques (Zé Júlio); Laerte e Zé Augusto.
A derrota calou fundo nos baianos, mas não abalou as relações entre os dois estados, afinal de contas, como o próprio hino dos capixabas afirma, “é o clube que sabe fazer amigos”. O EC Bahia enfrentaria outros clubes do estado nos anos seguintes pra buscar a desforra. Assim, o Rio Branco cairia aqui por quatro a zero, e, o homônimo Vitória, seria esmagado com uma espetacular goleada de sete a zero. Cobraram isto do maquinista que não estava nem aí, afinal pra Desportiva tudo estava quite entre baianos e capixabas.

Os 6672 torcedores que pagaram ingresso não suspeitariam que os encarnados nunca mais jogariam na Fonte Nova. Colaborou pra isto a sua rarefeita participação nos certames nacionais onde só voltaria a estar por duas vezes. Três anos depois sofreria duro golpe em sua subsistência material com a privatização da companhia que lhe levaria á decadência.
A própria empresa não seria mais a mesma que foi criada nos anos quarenta. O regime de economia mista mudaria para capital aberto. A venda do seu controle acionário nos anos FHC foi um crime contra o patrimônio nacional, U$ 3,3 bilhões, o que equivale hoje a 1,6% da avaliação da companhia e a uma pequena parte de seus lucros anuais. Uma década depois incorporaria a INCO canadense. Trocou até de nome sendo agora a Vale S/A.
Tudo isto afetaria a Desportiva. O clube desceria pelas tabelas, caindo para a Segunda, Terceira e Quarta Divisão. Seria rebaixado até no Campeonato Estadual. O clube até trocou de nome pra Desportiva Capixaba. Dizem que nesta época o maquinista deixou de apitar. A Fonte Nova ficaria com saudades daquele apito que lhe fazia correr um frio na espinha. Aliás, o seu destino acompanharia o do maquinista. Deixariam de fazer manutenção no estádio.

Esta situação acabaria com o trágico desastre de 25 de novembro de 2007 que levaria a sua primeira morte e quando a Copa do Mundo 2014 era confirmada para o Brasil. Três anos viria à morte matada da implosão. Pra não ficar na tristeza é bom dizer que a Desportiva há algum tempo começou uma reação e existe muita gente que sonha em ver o trem passar de novo nos estádios do Brasil com o clube no primeiro vagão.


·         Agradeço as informações dos sites Wikipédia e Fitipédia, e do blog folhagrena. blogspot.com. Agradeço também as imagens dos blogs:jessicasalles1.blogspot.com,sofaloaverdade.blogspot.com,loversindie.blogspot.com,corbalan.wordpress.com e blogdofabre.ig.com.br.